Tolkien e os católicos inteligentes

C s lewis

Quando C. S. Lewis conheceu J. R. R. Tolkien durante uma reunião na Universidade de Oxford, a 11 de maio de 1926, o autor de As Crônicas de Nárnia ainda era agnóstico e não considerava o cristianismo puro e simples. Ao contrário, Lewis desprezava a religião e, para ele, parecia absurdo que Tolkien fosse um homem tão inteligente e, ao mesmo tempo, um católico devoto.

O preconceito de Lewis contra o cristianismo — e particularmente contra a Igreja Católica — era algo bastante comum naquela época, sobretudo entre intelectuais ingleses. Famosos foram os debates entre H. G. Wells e G. K. Chesterton acerca da razoabilidade do credo cristão e de como a ortodoxia católica está na vanguarda das ciências e da filosofia. Embora o Iluminismo tenha espalhado uma visão obscurantista da cristandade, o fato é que a Igreja Católica fundou a civilização ocidental e lançou as bases do progresso científico atual.

C. S. Lewis, o autor de “As Crônicas de Nárnia”.

A versão iluminista da história prevaleceu, entretanto, fazendo com que o cristianismo fosse visto como uma tolice. Para Lewis, esse preconceito só desapareceu pela proximidade com Tolkien, que jamais se envergonhou da própria fé nem tentou se adequar a discursos laicistas para manter-se na universidade. Tolkien falava abertamente da Igreja em suas conferências, demonstrando, com argumentos e eloquência, por que a doutrina de Jesus Cristo é a verdadeira religião.

A vida intelectual de J. R. R. Tolkien é uma pedra de tropeço para quem não acredita em fé e razão. Desde muito cedo, o autor de O Senhor dos Anéis demonstrou habilidades para a carreira acadêmica, e sua mãe, Mabel, fez o possível para assegurar-lhe uma educação decente, que o capacitasse para a entrada na universidade. Quando, mais tarde, Tolkien teve de escolher entre a paixão e os estudos, aceitou o sacrifício de ficar três anos longe da namorada, Edith Bratt, para conseguir dedicar-se à faculdade.

Na academia, Tolkien logo se destacou pela qualidade de suas aulas e pela simplicidade com que tratava os demais professores e estudantes. “Havia um senso de civilização, uma lucidez cativante e uma sofisticação”, disse um de seus alunos, o escritor Desmond Albrow, sobre as lições do professor. Na verdade, Tolkien encarnava as suas leituras de maneira exuberante, como se estivesse em um teatro, levando a plateia a viver os dramas dos personagens. Era algo memorável.

É claro que toda essa vivacidade não passaria despercebida aos olhos de Lewis, que, diante daquele “estranho paradoxo” — um católico inteligente?! —, acabou obrigado a questionar-se sobre os fundamentos do cristianismo. Tolkien, aliás, sentiu-se particularmente responsável pela conversão do amigo, motivo pelo qual se reuniram várias vezes em pubs, para longas tertúlias sobre a autenticidade da vida de Cristo. Lewis, enfim, descobriu que Jesus não era apenas uma lenda do passado, mas uma Pessoa viva que transformou as verdades dos mitos em carne e História.

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O caso de J. R. R. Tolkien não é um ponto fora da curva na história da Igreja, mas apenas um entre tantos na longa tradição cristã, que vai de Agostinho e Tomás de Aquino a nomes mais recentes como G. K. Chesterton, Edith Stein, Léon Bloy e Dietrich von Hildebrand. No Brasil do século XX, por exemplo, merecem destaque padre Leonel Franca e Gustavo Corção, que produziram obras de grande proveito intelectual e religioso.

Todos levaram a sério o que São Josemaria Escrivá ensinava acerca do estudo: “Se tens de servir a Deus com a tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave” (Caminho, n. 336). Ademais, os católicos estão obrigados ao estudo porque por ele, diz Santo Tomás, “o homem aproxima-se o mais possível da semelhança de Deus, o qual fez todas as coisas sabiamente” (Suma Contra os Gentios, II, 1).

Não é surpresa alguma, portanto, que entre os intelectuais mais importantes da sociedade estejam católicos piedosos. C. S. Lewis teve a chance de descobrir isso de uma maneira excepcional. De fato, o catolicismo é o pai da alta cultura e não há religião no mundo que tenha entre os seus adeptos mentes tão brilhantes, que souberam converter estudo em oração, como a Igreja Católica.

Por meio de Maria, a bênção do Pai iluminou os homens

“Bendita sois vós entre as mulheres” “Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco” (Lc 1,28). Que pode haver de mais sublime que esta alegria, ó Virgem Mãe: Que pode haver de mais excelente que esta graça com a qual somente vós fostes por Deus cumulada? Que de mais jubiloso e esplêndido se pode imaginar?…

O horror do pecado

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Entre as doenças físicas e o pecado não há proporção imaginável: embora as primeiras nos debilitem o corpo, o segundo, muito mais grave, pode levar-nos à morte da alma.

A dimensão interior do Apostolado

Tem o desejo de levar as pessoas para Deus? Este é um caminho… O apostolado significa tudo que nós podemos fazer, em união com Cristo, para levar as pessoas a uma vida de intimidade com Deus; é uma colaboração com Jesus para fazer crescer a graça de Deus nas almas. A Igreja nos ensina que…

Milagre de Hiroshima: uma lição do Santo Rosário aos que temem uma guerra nuclear

Rezem o terco lateral

“A guerra vai acabar, mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior” [1], avisou a Virgem Maria aos três videntes de Fátima, no dia 13 de junho de 1917.

Em 1939, fatalmente, o mundo testemunhou a triste sina predita por Nossa Senhora, com um conflito bélico que levou milhões de pessoas à morte. A tentação do poder quase transformou o século XX no “século do nada”, e, mesmo depois de tantos anos, ainda hoje o medo de um conflito nuclear ameaça a tranquilidade dos povos e é tema de discussões acaloradas entre os chefes de Estado.

Para estabelecer a paz no mundo, Nossa Senhora recomendou o remédio da oração e da penitência. A essência da mensagem de Fátima, como de todas as outras mensagens marianas, é a expiação dos pecados cometidos contra o Sagrado Coração de Jesus.

“Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” [2], perguntou a Virgem Santíssima a Jacinta, Francisco e Lúcia, na tarde de 13 de maio de 1917. Ao chamado do Céu os pastorinhos responderam prontamente com um: “Sim, queremos”. Dali em diante, as três crianças dariam provas de uma santidade incontestável, seja pela fidelidade à récita do Rosário, seja pelas severas mortificações a que se submeteriam, causando vergonha a muitos adultos.

O mundo pagão, no entanto, preferiu a “segurança” dos acordos políticos às Ave-Marias do Terço. A Liga das Nações, criada em 1919 pelos países vencedores da guerra, surgiu com o objetivo de assegurar a paz mundial por meio de sanções e decretos diplomáticos.

Mas a agressividade da Segunda Guerra Mundial e as loucuras dos regimes totalitários provaram que o homem necessita de muito mais que memorandos para ordenar as suas paixões. A Liga das Nações mostrou-se um completo fracasso, cedendo lugar à Organização das Nações Unidas (ONU), que hoje corre o risco de cometer o mesmo erro de sua predecessora, pela insistência em uma política anticristã e avessa à soberania dos Estados.

Sua Santidade, o Papa Pio XI.

Na encíclica Ubi Arcano Dei Consilio, a primeira de seu pontificado, o Papa Pio XI alertou para uma “paz ilusória, escrita apenas no papel”, que é incapaz de reavivar sentimentos nobres na alma dos homens. Para estabelecer a paz, o Papa insistiu na mesma recomendação da Virgem Maria: o retorno à fé cristã e uma vida de piedade sincera, tendo por finalidade instaurar o reino de Cristo entre os homens. Durante a Segunda Guerra Mundial, a providência divina iria se encarregar de mostrar como a mensagem de Fátima e a encíclica de Pio XI estavam corretas e a Liga das Nações estava errada.

No dia 6 de agosto de 1945, data em que a Igreja celebrava a festa da Transfiguração, os Estados Unidos da América, sob a liderança do presidente Harry Truman, lançaram sobre a cidade japonesa de Hiroshima a primeira bomba atômica da história, causando uma destruição sem precedentes e a morte instantânea de 80 mil pessoas número que chegaria mais tarde a 140 mil, dado o efeito da radiação.

Dias depois, foi a vez de Nagasaki sofrer as consequências da nova arma. Curiosamente, as duas cidades abrigavam a maior parte dos católicos japoneses, após décadas de perseguição e sobrevida na clandestinidade. “Nós certamente podemos supor que as bombas atômicas não foram lançadas por acaso. A questão é, portanto, inevitável: por que estas cidades do Japão foram escolhidas para o abate?”, questionou o Cardeal Giacomo Biffi em seu livro de memórias.

Na verdade, as atas da Comissão do Alvo mostram que as condições geográficas pesaram muito mais para a escolha que qualquer religiosidade das cidades — Hiroshima e Nagasaki seriam um local com maior chances de destruição. Nagasaki, aliás, nem era considerada uma opção nas primeiras reuniões. Em todo caso, a tragédia matou dois terços dos católicos no Japão.

No centro de Hiroshima, onde caiu a primeira bomba atômica, vivia um grupo de oito padres jesuítas, que há anos fazia pastoral no Japão. A explosão da Little Boy devia ter arrasado a comunidade desses sacerdotes, assim como arrasou mais de dois terços dos edifícios da cidade. Mas, milagrosamente, nem o edifício nem os padres sofreram qualquer efeito da bomba.

Quando os médicos os avaliaram e descobriram que não havia qualquer contaminação em seus organismos, os jesuítas encontraram uma única explicação para o fenômeno. “Nós sobrevivemos”, explicou o pe. Hubert Schiffer, “porque estávamos vivendo a mensagem de Fátima: rezávamos o Rosário diariamente, naquela casa”. Todos os oito membros da Companhia de Jesus viveram até meados da década de 1970, sem qualquer prejuízo pela radiação da arma.

Quando a bomba explodiu, os padres Hugo Lassalle, então superior dos jesuítas no Japão, Hubert Schiffer, Wilhelm Kleinsorge e Hubert Cieslik, estavam na casa paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, enquanto os demais estavam nos arredores da paróquia. Um deles celebrava a Missa e os outros tomavam café. O templo foi um dos únicos edifícios que ficaram de pé após a explosão. O padre Schiffer relatou toda a história no livro, em inglês, “O Rosário de Hiroshima”.

Em Nagasaki, algo semelhante ocorreu com os frades franciscanos de São Maximiliano Kolbe, conhecidos por sua intensa devoção mariana. Antes da guerra, São Maximiliano havia decidido fundar seu convento em uma região de Nagasaki diferente da que lhe tinham proposto inicialmente.

Quando a bomba caiu, a 9 de agosto de 1945, o convento foi protegido da explosão pela intervenção de uma montanha que existia naquelas proximidades, de modo que, tanto em Hiroshima quanto em Nagasaki, podemos ver a mão protetora de Maria, agindo em favor daqueles que se dispuseram a viver a sua promessa em Fátima.

Nagasaki após a bomba, 9 de agosto de 1945.

Outro fato curioso sobre o “milagre de Hiroshima” é que a visão que os moradores tiveram segundos após a explosão da bomba atômica foi semelhante ao “Milagre do Sol”, realizado pela Virgem Maria na última aparição de Fátima, a 13 de outubro de 1917. Depois de ter confidenciado várias profecias aos três pastorinhos, Nossa Senhora fez o Sol bailar no céu e se precipitar sobre a terra, na presença de 70 mil pessoas. Conforme relatos dos sobreviventes de Hiroshima, a explosão da Little Boy causou um brilho tão forte, que parecia que o Sol havia caído sobre a Terra. A própria data da explosão, 6 de agosto, coincide com a festa litúrgica da Transfiguração do Senhor, quando Jesus se transfigurou na frente dos discípulos, tornando seu rosto resplandecente como o Sol e suas vestes brancas como a luz (cf. Mt 17, 2).

O que os acordos políticos da Liga das Nações não conseguiram fazer, afinal, as Comunhões reparadoras e as piedosas Ave-Marias do Rosário de oito jesuítas fizeram. Foram as orações e a fidelidade à mensagem de Fátima que salvaram aqueles pobres sacerdotes, não a paz ilusória dos papéis. Esse testemunho eloquente do poder da oração só mostra que a resposta para a violência no mundo está mais na cruz de Cristo que nas recomendações da ONU, essa organização globalista que se revela cada vez mais autoritária e anticristã.

Por fim o meu Imaculado Coração triunfará” [3], profetizou a Virgem Maria cem anos atrás. Que, a exemplo dos oito padres jesuítas de Hiroshima, os cristãos de hoje vivam logo esse triunfo.

É PRECISO CAMINHAR 2018-01-11 00:04:00

16/01/2018
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A VIDA HUMANA É MAIS SAGRADA DO QUE QUALQUER LEI
Terça-FeiraDa II SemanaComum

Primeira Leitura: 1Sm 16,1-13

Naqueles dias, 1 o Senhor disse a Samuel: “Até quando ficarás chorando por causa de Saul, se eu mesmo o rejeitei para que não reine mais sobre Israel? Enche o chifre de óleo e vem, para que eu te envie à casa de Jessé de Belém, pois escolhi um rei para mim entre os seus filhos”. 2 Samuel ponderou: “Como posso ir? Se Saul o souber, vai me matar”. O Senhor respondeu: “Tomarás contigo uma novilha da manada, e dirás: ‘Vim para oferecer um sacrifício ao Senhor’. 3 Convidarás Jessé para o sacrifício. Eu te mostrarei o que deves fazer, e tu ungirás a quem eu te designar”. 4 Samuel fez o que o Senhor lhe disse, e foi a Belém. Os anciãos da cidade vieram-lhe ao encontro, e perguntaram: “É de paz a tua vinda?” 5 “Sim, é de paz”, respondeu Samuel. Vim para fazer um sacrifício ao Senhor. Purificai-vos e vinde comigo, para que eu ofereça a vítima”. Ele purificou então Jessé e seus filhos e convidou-os para o sacrifício. 6 Assim que chegaram, Samuel viu a Eliab, e disse consigo: “Certamente é este o ungido do Senhor!” 7 Mas o Senhor disse-lhe: “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”. 8 Então Jessé chamou Abinadab e apresentou-o a Samuel, que disse: “Também não é este que o Senhor escolheu”. 9 Jessé trouxe-lhe depois Sama, e Samuel disse: “A este tampouco o Senhor escolheu”. 10 Jessé fez vir seus sete filhos à presença de Samuel, mas Samuel disse: “O Senhor não escolheu a nenhum deles”. 11 E acrescentou: “Estão aqui todos os teus filhos?” Jessé respondeu: “Resta ainda o mais novo, que está apascentando as ovelhas”. E Samuel ordenou a Jessé: “Manda buscá-lo, pois não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar”. 12 Jessé mandou buscá-lo. Era ruivo, de belos olhos e de formosa aparência. E o Senhor disse: “Levanta-te, unge-o: é este!” 13 Samuel tomou o chifre com óleo e ungiu Davi na presença de seus irmãos. E a partir daquele dia, o espírito do Senhor se apoderou de Davi. A seguir, Samuel se pôs a caminho e voltou para Ramá.
Evangelho: Mc 2,23-28
23Jesus estava passando por uns camposde trigo, emdia de sábado. Seusdiscípuloscomeçaram a arrancarespigas, enquanto caminhavam. 24Entãoos fariseus disseram a Jesus: “Olha! Porqueeles fazem emdia de sábado o quenão é permitido?” 25Jesus lhes disse: “Poracaso, nuncalestes o queDavi e seuscompanheirosfizeram quando passaram necessidade e tiveram fome? 26Comoele entrou na casade Deus, no tempoemqueAbiatar erasumosacerdote, comeu os pãesoferecidos a Deus, e os deu também aos seuscompanheiros? No entanto, só aos sacerdotesé permitidocomeressespães”. 27E acrescentou: “O sábado foi feitopara o homem, e não o homempara o sábado. 28Portanto, o Filho do Homemé senhortambémdo sábado”.
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Deus Olha Para o Coração Humano e Não Sua Aparência Física
“Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”, disse Deus a Samuel.
Depois que Saul foi rejeitado por Deus por seus atos de desobediência (1Sm 15,26), hoje o texto da Primeira Leitura nos conta, em uma das várias versões que existem nos livros históricos da época, a eleição e a unção de Davi como rei. Samuel é encarregado para preparar o sucessor de Saul, que ainda estará no cargo por um tempo. A grande novidade é que, ao contrário de Saul, a eleição de David será irrevogável. Mas essa irreversibilidade também será um presente imerecido, que decorre da misericórdia gratuita do coração de Deus.
Começa, então, a história de Davi, “o rei ideal”, carismático por excelência. Davi era o mais novo dos oito filhos de Jessé. Jessé era descendente da tribo de Judá e bisneto de Boaz e Rute. Na juventude, Davi cuidava dos rebanhos da família. Como pastor dos rebanhos, Davi aprendeu a cuidar dos animais, inclusive contra os predadores (cf. 1Sm 17,37). Davi era o nome do maior rei de Israel e o ancestral humano do Senhor Jesus e era um dos personagens mais importantes de todo o AT, junto a Abrão e Moisés (cf. Mt 1,1-17: genealogia). Sua história, suas realizações e seus problemas receberam um tratamento extensivo de 1Sm 16 a 2Rs 1 e em 1Crônicos 2 a 9. Davi era notável, tanto por seu amor a Deus como por sua aparência física (1Sm 16,12).
O que mais se destaca é que, independentemente da intervenção que os homens e as circunstâncias tiveram, Davi foi uma escolha feita por Deus para ser guia de seu povo. Como o Salmo Responsosrial (Sl 88) de hoje diz: Encontrei e escolhi a Davi, meu servidor, e o ungi, para ser rei, com meu óleo consagrado. Estará sempre com ele a minha mão onipotente e meu braço poderoso há de ser a sua força”. O fracasso de Saul é interpretado como castigo de Deus pela sua desobediência. O sucesso de David, como um presente gratuito de Deus.
“Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”, disse Deus a Samuel.
A simpática cena de Samuel em casa de Jessé para saber de Deus qual seria o futuro rei entre os filhos de Jessé nos dá a entender que os caminhos de Deus não são como os nossos (Cf. Is 55,8).
Todos tinham apostado em irmãos mais velhos, mais fortes e experientes. Ninguém contava com Davi. Seu pai Jessé quase se esqueceu que Davi existisse. Eles começariam a comer sem ele. Mas Samuel espera que chegue o mais jovem entre os filhos de Jessé, o menino Davi, e o unge por ordem de Deus e “a partir daquele dia, o Espírito do Senhor se apoderou de Davi”.
Muitas vezes nós julgamos alguém por aparências, por valores externos. O mundo de hoje aplaude em seus concursos, em seus campeonatos e em seus meios de comunicação, os mais fortes, os sãos, os que têm êxito. Mas Deus aplaude outros valores. Nada se vê em Davi uma pessoa forte, mas Deus vê seu coração.
A sabedoria de Deus dita a Samuel continua valendo para todas as pessoas e todos os lugares e tempos: “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”.
O coração é o centro de nosso ser, a fonte de nossa personalidade, o motivo principal de nossas atitudes e escolhas, o lugar da misteriosa ação de Deus. O coração representa o ser humano em sua totalidade; é o centro original da pessoa humana, aquilo que lhe dá a unidade. Ter coração equivale para o homem antigo a ser uma personalidade íntegra.
Se vivermos a partir do coração puro, seguramente levaremos a vida de honestidade cheio de amor fraterno, e pararemos do pôr nossas ilusões e confiança em ídolos humanos e em instituições efêmeras que só sabem explorar a vida do mais humilde e inocente. Pela aparência, Davi é pequeno. Mas Deus usa outros critério: Ele escolhe os meios mais pobres e as pessoas mais débeis e humildes, segundo o critério do mundo, capazes de fazer grandes coisas. Como disse a Mãe do Senhor, Maria: “O Senhor olhou para a pequenez de sua serva e fez em mim maravilhas” (Lc 1,46-49).
A Vida e a Salvação Do Homem São Sagradas e Estão Acima De Qualquer Por Sagrada que apreça Ser
A controvérsiaentre Jesus e os fariseuscontinua. No diaanteriora controvérsiaerasobre o jejum. Hoje a discussãoou a controvérsiaestá emtornodo Sábado e suaobservação.
O sábadoeraumdos principaismandamentospara os judeus.  A finalidadede suaobservaçãoera, inicialmente, para o descansohumanoparacelebrar a libertaçãohumana (Dt 5,12-15). Na linha sacerdotal (cf. Ex 20,8-11) a finalidade do sábadoeraparaimitar o repousode Deus ao findar-se a obra da Criação. O sábado tornou-se comodiaparaser dedicado a Deus e ao culto. A partirdo exílio na Babilônia a valorização do sábado se tornou exagerada. Observaro sábadoentreos pagãos, duranteo exílio, eraumsinalda identidadeisraelita. Eratãoimportantecomotodos os mandamentosjuntos. Todotrabalhoeraproibido (234 atividadesproibidas).  Transgrediro sábado podia levaro acusado à condenação dependendo da gravidade do atoaté a penade morte (cf. Ex 31,12-17; 35,1-3). O sábado se tornou, então, algo pesado parao povo. A instituiçãodo sábadoquetinhacomofinalidadeasseguraro homem o tempode repousonecessáriopara a realizaçãoda vida foi esquecida.
Os discípulosde Jesus arrancavam espigasdurante o caminhocom Jesus. Tirarespigaserauma das trinta e noveformas de violar o sábado, segundoas interpretações exageradas que algumas escolasdos fariseus faziam da lei na época. Porisso, os fariseus se escandalizam quandopercebem que os discípulosde Jesus arrancam as espigasparamatar a fome no dia de sábado. “Quemnão sabe julgar o que merece créditoe o que merece seresquecido presta atenção ao quenão tem importância e se esquece do essencial” (Buda).
Diante dessa crítica Jesus aplica umprincípiofundamentalpara todas as leis: “O Sábado foi feitopara o homeme não o homempara o Sábado”.
O homemestá sempre no centroda doutrina de Jesus. Jesus olhapara a necessidaderealdo homem e se oferece comosolução. Emnome do serhumano nas suasnecessidadesbásicas, principalmentequando se tratade salvarouproteger a vida, Jesus é capaz de “transgredir” a Leiporsagradaqueela pareça ser. Porcausa de mim, serhumano, Deusaceitou se encarnaremJesus paramedizerquenão estou sozinhona minhalutapelavidadigna. Deusquervidaemabundânciaparatodos(Jo 10,10). Para Jesus, o serhumano é maissagrado do quequalquerlei. Suapreocupaçãoé fazer o bempara o homem, mesmo no dia de Sábado. A leido Sábado foi dadaprecisamente a favorda liberdade, do beme da alegria do homem(Dt 5,12-15).
Por isso, o espírito da leideve estarsempreao serviço de Deuspara glorificá-Lo, e ao serviçodo serhumanopara dignificá-lo. A glóriade Deus é a vidae a felicidade de seusfilhos, os sereshumanos. ParaJesus, as leisaindaque sejam sagradas, nãopodem estarporcima da vida, das necessidadesvitais, da felicidade, da plenarealização dos sereshumanos. Porisso Jesus tem coragemde afirmar: “O Sábadofoi feitoparao homem e nãoo homemparao Sábado”.
Nós quecremos emCristodevemos saberdarculto a Deusmanifestando-Lhe, assim, nossoamor, masnão podemos deixar de amarnossopróximo ajudando-lhe a remediarsuasnecessidades. Se nãoo nossocultoe nossoamora Deus seriam inúteis e hipócritas.
A fidelidadeàs tradições religiosas deve favorecer ao direitoà vida. As tradiçõesreligiosas, quenãoapóiam o direito à vida, perdem suarazãode existir. Para Jesus a finalidade de qualquerleireligiosadeve ajudar o serhumano a ter uma verdadeira experiência de encontrocom a vontade de Deusresumida no mandamento do amorfraterno. Praticar as leisreligiosas semlevaremconta o respeitopelavida seria inútil. Jesus é o Senhor do Sábado. Se o Sábado devia significar“libertação”, Jesus é o Senhorda libertação. Se o Sábadodevia significar “santificação”, Jesus é o Senhor da santidadee da santificação. Uma libertaçãosemJesus será opressão reeditada de outromodo. Uma santificaçãosemJesus será egoísmo, orgulhoouvaidade, editados de outrosmodos.
Não podemos viversemleis, normasouregrasquenos ajudem a dirigirougovernarnossavida. A liberdadesempre supõe a existênciade regras. Da nossaprópriacasa(família) atéas ultimas instituições necessitam de leis, normasouregras. Masaquelesquesãoencarregados da aplicaçãodessas devem tersempreemconta o “espírito” queas inspirou e queemultima instância é o bemdos indivíduos e da comunidade.
A leié boa e necessária. A lei é, na verdade, o caminhoparalevarà prática do mandamentodo amor. Somentea lei do amorrompe fronteiras, divisões, prejuízos e escravidões. Porissomesmo, a leinão pode serabsolutizada. O Sábado, paranós o domingo, está pensado para o bemdo homem. É umdiaemquenosencontramos comDeus, com a comunidade, com a naturezae comnósmesmos. O descansoé umgestoproféticoquenos faz bem a todosparafugirouescapar da escravidãodo trabalhoouda carreiraconsumista. O dia do Senhoré tambémdiado homem, coma Eucaristiacomomomento privilegiado.
“O sagradodo sábado” comenta o rabinoNilton Bonder, “não é o descansoemsi, mas o ritmomágico do trabalho ao descansoe ao trabalhonovamente. É essa entrada e saídaque é sagrada. (…) Sem as pausashá apenasilusão; sem os silêncioshá apenasilusãoda música; sema luz-transparência há apenasilusão da cor” (cf. Código PenalCeleste).
A partir do ensinamento de Jesus no evangelhodeste dia precisamos nosperguntar: “Não somos, às vezes, demasiados legalistas? Não julgamos nossosirmãosquandocremos quenãocumprem as leisouas regras, sejam as leishumanas, as leis da Igrejaou as leisconsideradas como divinas? Se para Jesus o homemestá sempre no centrode seuensinamento, será que colocamos o serhumanocomocentro de nossas atividadesdiárias e pastorais?”. A denúncia da escravidãoao sábadonosconvida a nos libertarmos da religião da observânciaformal e segui-la peloscaminhos do amorlibertador. Quandoas coisasmateriaisourituaismandam, e não a leido amor, o homemse faz escravo. Somentea lei do amorrompe fronteiras, divisões, prejuízos e escravidões.
P. Vitus Gustama,svd