Mês: fevereiro 2018

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Domingo,04/03/2018
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CADA HOMEM É O TEMPLO VIVO DE DEUS
III DOMINGO DA QUARESMA ANO “B”
Primeira Leitura: Ex 20,1-3.7-8.12-17 (Forma breve)
Naqueles dias, 1 Deus pronunciou todas estas palavras: 2 “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão. 3 Não terás outros deuses além de mim. 7 Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não deixará sem castigo quem pronunciar seu nome em vão. 8Lembra-te de santificar o dia de sábado. 12 Honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos na terra que o Senhor teu Deus te dará. 13 Não matarás. 14 Não cometerás adultério. 15Não furtarás. 16Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. 17Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença
Segunda Leitura: 1Cor 1,22-25
Irmãos: 22 Os judeus pedem sinais milagrosos, os gregos procuram sabedoria; 23 nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos. 24 Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, esse Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. 25 Pois o que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
Evangelho: Jo 2,13-25
13Estava próxima a Páscoados judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. 15Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” 17Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”. 18Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?”19Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei”. 20Os judeus disseram: “Quarenta e seus anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?”21Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo.  22Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.  23Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome. 24Mas Jesus não lhes dava crédito, pois ele conhecia a todos; 25e não precisava do testemunho de ninguém acerca do ser humano, porque ele conhecia o homem por dentro.
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Entramos na segunda fase da Quaresma. Os domingos III, IV e V são caracterizados pela presença de evangelhos próprios para cada ciclo que se centram em um aspecto determinado do caminho quaresmal. No Ano “A”: iluminação Batismal. No Ano “C”: a misericórdia de Deus e nossa conversão. E no Ano “B”: o mistério pascal de Jesus.
O relato da “substituição do Templo” ou da “purificação do Templo” se encontra também nos evangelhos sinóticos (cf. Mc 11,15-19; Mt 21,10-17; Lc 19,45-48). Mas o quarto evangelho tem suas próprias acentuações. Os sinóticos colocam este episódio na última semana da atividade de Jesus em Jerusalém. O quarto Evangelho (evangelho de João) o coloca logo no início da vida pública de Jesus. Isto quer nos dizer que para o quarto evangelho este episódio é um gesto programático que, como tal, deve figurar ao princípio da atividade de Jesus (compare Lc 4,16-30). O Evangelho de hoje fala já diretamente da morte e ressurreição de Jesus Cristo. O evangelista João, ao colocar esta cena ao princípio de seu evangelho quer deixar claro que a morte-ressurreição mostra o sentido pleno de tudo o que Jesus dizia e fazia desde o princípio, isto é, desde que “a Palavra se fez carne” (Jo 1,14).
O episódio é introduzido mediante a afirmação sobre a proximidade da festa judaica da páscoa: “Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém”.  Esta forma de mencionar a festa principal dos judeus indica distância e separação entre o objetivo da festa e a prática atual dos judeus da época. A páscoa era uma festa de libertação. Ela evocava o passo da escravidão à libertação (cf. Ex 12,17;13,10). Em tempos de opressão, o pensamento da libertação se acentuava mais. Ao desviar-se do próprio objetivo da festa (não é mais uma festa de libertação), surgia inevitavelmente a ideia de uma nova libertação. E este era o caso em tempos de Jesus. Além disto, o templo, que é o símbolo e a síntese do sistema religioso, a partir de agora será “substituído” ou suplantado pela presença de Jesus. Não é por acaso que este episódio se coloca logo depois do primeiro sinal (Jo 2,1-11) que simboliza as núpcias de Deus com sua comunidade no tempo final. E desde início de sua atividade Jesus é o “lugar santíssimo” de Deus.
1. O que o Templo de Jerusalém representa?
No Templo, Jesus encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas”.          
Ao presenciar o ato de Jesus expulsar os vendedores, os judeus, com muita raiva, lançam a seguinte pergunta: “Que sinal nos mostras para agir assim?”
Para entender a raiva das autoridades em Jerusalém sobre o ato de Jesus de expulsar os vendilhões do Templo, precisamos saber a função do Templo de Jerusalém.
Em primeiro lugar, o Templo de Jerusalém era considerado como lugar da presença de Deus. Era o único templo que os judeus tinham no mundo todo para prestar culto a Deus. A fé na presença de Deus em seu Templo é a razão do culto que aí é celebrado e das iniciativas dos fiéis. A certeza de que Deus habita no Templo se expressa, especialmente nos Salmos (cf. Sl 27,4;42,5;76,3;84 inteiro;122,1-4;132,13-14;134inteiro, etc.). Além disto, o Deuteronômio destaca a eleição do lugar que Deus escolheu entre todas as tribos para aí colocar seu nome (Dt 12,5). Como tal, o Templo era o centro do poder religioso onde os sumos sacerdotes controlavam a fé e a religiosidade de todos os judeus que iam ao Templo (para: rezar, levar as primícias dos animais e frutos da terra, oferecer sacrifícios diários para expiar os pecados, pagar os impostos, e participar das festas principais). O Templo de Jerusalém era, também, o centro de estudos religioso, teológico e jurídico do judaísmo.
Em segundo lugar, o Templo de Jerusalém era o centro do poder econômico, pois funcionava como o maior banco, empresa importadora e casa de câmbio. Lá aconteciam o comércio dos animais sacrificados, o pagamento de imposto e dos votos e promessas, o câmbio de moeda estrangeira (a moeda estrangeira era considerada impura. Mas os cambistas ficavam com a moeda impura!) etc.
Em terceiro lugar, o Templo era o centro político. O Templo era a sede do Sinédrio que tinha em suas mãos o governo político e religioso de Israel. O Sinédrio (composto de 70 membros pertencentes a três grupos: a aristocracia sacerdotal, a aristocracia leiga e os doutores da Lei) era presidido pelo sumo sacerdote desde o tempo de Anás (ano 4 a.C). Ao Sinédrio competia o poder ordinário, religioso e civil em tudo que se referia à Lei judaica (Mc 14,53), a responsabilidade, em parte, pela ordem pública (Jo 7,32; 18,3.12), a administração do Templo, a legislação para toda a Judéia, inclusive explicitação das leis religiosas obrigatoriamente para todos os judeus e julgar as causas extraordinárias(funciona como o tribunal supremo).
Estes três aspectos (religioso, econômico e político) estavam intimamente relacionados entre si e com toda a vida de Jerusalém e do país. Por isso, questionar um deles significava atacar os outros dois.
2. Jesus Questiona O Que O Templo Representa
Jesus foi educado a respeitar o Templo (Lc 2,22.41-42.46), subiu a Jerusalém para celebrar a Páscoa (Jo 2,13), pagou seu tributo ao Templo (Mt 17,23-26)etc..
O evangelho diz que Jesus vai ao Templo por ocasião da festa da Páscoa (Jo 2,13). A Páscoa judaica é uma festa que celebra a libertação do povo de Deus do Egito: o fim da escravidão e a origem de Israel como povo de Deus, povo da Aliança. Por isso, é uma festa principal para os judeus. A Páscoa também era uma festa familiar, celebrada na casa de família, na qual a parte principal cabe ao pai (Ex 12,1-11).
Ao ver os negociantes de bois, ovelhas e pombas e os cambistas no Templo Jesus faz um chicote para expulsá-los e diz: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v.16).
O que tem por trás do gesto de Jesus?
Em primeiro lugar, a Páscoa que era uma festa familiar e festa de libertação se transforma numa festa da maior exploração. Os peregrinos que vêm de longe não podem trazer consigo os animais para ser sacrificados. Eles compram os animais no próprio Templo. E dono dos animais são os latifundiários pertencentes à elite religiosa. A Páscoa para eles é o momento de lucro, pois eles aumentam o preço dos animais exageradamente. E os peregrinos não têm outra opção a não ser comprar esses animais apesar do preço alto. A Páscoa não é mais um momento de celebrar e de reviver a libertação, mas se torna uma festa de exploração. As elites religiosas exploram o povo por meio do culto. O “deus” do Templo, para estas elites religiosas, é o dinheiro. Mas a relação com Deus como Pai não se estabelece por meio de dinheiro. A religião se transforma num instrumento que acoberta a injustiça e exploração. Por isso já não é mais “a casa de meu Pai”, e sim um mercado. Como se vive a religião hoje em dia?
Em segundo lugar, quem pode comprar os animais maiores (boi, ovelhas) são os ricos. Surge aqui outra mentalidade. O sacrifício se torna como que uma moeda pela qual compra-se de Deus a salvação. A salvação não mais depende de dois lados simultaneamente (de Deus que oferece sua graça e do homem que corresponde à graça a ele oferecida), mas somente do homem que a compra. Isto quer dizer que quem não for capaz de comprar a salvação, ficará fora dela. E os pobres e miseráveis?
A salvação não se compra nem com dinheiro, nem com promessas, nem com devoções, pois Deus não é um comerciante, mas é um Pai e Mãe ao mesmo tempo. Pai ou mãe faz tudo pelos filhos não pelo merecimento, mas porque quer o bem deles (querer ou sem querer, em determinados lugares ou paróquias usa-se a expressão “pagar a missa”, por ocasião de aniversário, casamento, sétimo dia etc.. Basta colocar outra intenção, quem marcou primeiro a intenção ficará bravo: “Esta missa é minha. Por que colocou outra intenção?” Será que o valor da missa pode ser medido pelo valor pago em dinheiro? E o dito famoso dos vendedores da graça de Deus: “Quanto mais você der, mais você receberá de Deus”? E como está a vida de quem não tem nada para dar, nunca receberá nada de Deus a partir deste “critério”?). O que se pede de cada crente é a convivência fraterna e uma vivência da fraternidade universal, pois Deus é o Pai de todos. Duas coisas se exigem do crente, por isto: viver a filiação divina pela participação na filiação divina de Jesus (viver como filhos(as) diante de Deus) e viver a fraternidade (viver como irmãos e irmãs diante dos outros). E tudo isto se vive dentro do amor gratuito cuja origem está em Deus, pois Deus nos ama gratuitamente.     
No quarto Evangelho, o que nos chama atenção é o fato de Jesus se dirigir somente aos vendedores de pombas. Para eles é que Jesus diz: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v.16). Porque a pomba era o animal sacrificado nos holocaustos (Lv 1,14-17) e nos sacrifícios (Lv 12,8; 15,14.29)oferecidos especialmente pelos pobres, por meio dos sacerdotes, para reconciliar-se com Deus e para purificar-se (Lv 5,7;14,22.30-31; cf. Lc 2,44). Os vendedores de pombas são os que, por dinheiro, oferecem aos pobres a reconciliação com Deus, e representam os sacerdotes do Templo que fazem comércio com a graça de Deus. Em outras palavras, a hierarquia sacerdotal explora especificamente os pobres, oferecendo-lhes por dinheiro para ganhar favores ou benefícios de Deus. Eles apresentam Deus como um comerciante, pois convertem a casa de Deus num mercado.
Na verdade, os profetas já tinham denunciado um culto em união hipócrita com a injustiça e opressão do pobre por ação ou omissão (Is 1,11-17; Os 5,6-7;8,13; Am 5,21-24; Eclo 34,18-20;35,14-20) e propunham transformações.
O gesto de Jesus de expulsar os comerciantes do Templo suscita duas reações. Os discípulos reagem pensando que Jesus seja um grande reformador da instituição. Somente após a ressurreição eles entenderão que Jesus não é um reformador do Templo, mas aquele que o substitui (v.22).
E os que sentem o seu lucro ameaçado, os dirigente pedem de Jesus uma explicação da origem de sua autoridade: “Que sinal nos mostras para agires assim?” (v.18). O homem gosta de exibir poder. Deus não é assim. Se Jesus faz milagres, especialmente para os simples e pobres, é para mostrar que Deus está sempre ao lado deles, e não para exibir poder. O poder de Deus consiste em amar o ser humano sem medida (Jo 3,16).
Diante da estrutura civil e religiosa dos judeus centrada no Estado do Templo, Jesus anuncia o fim dos templos: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei” (v.19; cf. Jo 4,20-21) para começar o novo culto “ao Pai em espírito e verdade” (Jo 4,23-24). Jesus mostra que a verdadeira habitação de Deus entre os seres humanos é Ele mesmo. Ele deve ser adorado “em espírito e verdade” (Jo 4,23). A pessoa de Jesus substitui o Templo, pois nele o Pai está presente (Cl 1,19). E as pedras vivas deste edifício espiritual são os que pertencem ao novo povo de Deus. Deus habita no próprio ser humano, e não em edifícios (2Cor 6,16). Cada cristão é ele próprio templo de Deus enquanto membro do Corpo de Cristo (1Cor 3,16). Assim quem desrespeita o ser humano está desrespeitando o próprio Deus e toda a pessoa humana, chamada a ser templo de Deus (1Cor 3,17).
Jesus não é indiferente frente ao culto do templo. É necessário construir templos ou igrejas ou capelas para neles podemos celebrar o Senhor e a vida que vivemos. Mas a nossa oferenda cultual terá sua validade, se tudo isto for uma expressão do serviço fraterno, se não há separação entre o culto e a vida. O culto não vale pela observância de preceitos nem pela oferta de objetos. O culto verdadeiro consiste na mais profunda união do homem ao divino, na mais pura e incondicional entrega à vontade de Deus e no amor ao próximo. O culto do cristão é um culto de Espírito (Jo 4,23). O templo não santifica o nosso culto, e sim o nosso culto santifica o lugar e a comunidade.
Por isso, a limpeza do templo é um gesto de profundo simbolismo. O homem deve limpar sempre a morada de Deus que é ele mesmo de todo tipo de “sujeira” através de uma conversão contínua todos os dias de sua vida.
Infelizmente, o homem-templo, onde Deus habita, é uma grande ideia que o homem de hoje perdeu. Consequentemente, ele perdeu o respeito ao outro, ao corpo do homem, à liberdade do homem e aos direitos do homem. Onde Deus for excluído, entrará a ditadura, a opressão, o crime, as torturas e injustiça institucionalizada. Como é importante para os homens de hoje recordarem a sua dignidade nascida da realidade de Deus, de um Deus que habita em cada um, pois esta recordação fundamenta o respeito que devo a mim mesmo como templo de Deus e o respeito que eu devo aos outros que são também templo de Deus.
A lei dos cristãos é o amor. E o verdadeiro culto cristão, a verdadeira religião, segundo a Carta de São Tiago, não está na liturgia e sim na práxis do amor. Sem amor, o mesmo que sem fé e esperança, não há verdadeiro culto nem verdadeira religião. Fé, esperança e caridade são a síntese da vivencia religiosa, a única religião verdadeira.
O evangelho deste domingo, por isso, nos traz de volta a consciência de sermos templo de Deus e de respeitar novamente, como Deus sempre quer, aos outros como habitação de Deus com o amor fraterno. Além disto, este evangelho nos leva ao arrependimento de tudo que cometemos em relação à dignidade humana desrespeitada, que se expressou através de violência moral- verbal e física, difamação etc. E este arrependimento deve ser tornar em conversão sem fim, pois o homem velho dentro de nós sempre tenta nos levar ao passado pecador.
A entrada de Deus e de Sua Palavra na nossa vida quer colocar em questão as nossas atitudes religiosas. Esta entrada serve para desmascarar nosso egoísmo e nosso jogo de interesse em nome de uma vida sem sentido e sem rumo, e para tirar de nós um falso sentimento de segurança a fim de nos salvar. A entrada de Deus e de Sua Palavra na nossa vida exige que coloquemos em revisão a nossa religiosidade se é autentica ou falsa. Ninguém pode crer impunemente. A religião não pode nos assegurar a impunidade em nossas más ações, e a religião nunca pode ser considerada como o refúgio seguro para malfeitores. Uma religião sem o compromisso de uma conduta coerente em função da vivência dos valores humanos reconhecidos universalmente é um ópio que faz adormecer a própria consciência.
P. Vitus Gustama, SVD

É PRECISO CAMINHAR 2018-02-28 19:05:00

03/03/2018
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A MISERICÓRDIA DIVINA NOS ACOLHE QUANDO NOS CONVERTEMOS
Sábado da II Semana da Quaresma
Primeira Leitura: Mq 7,14-15.18-20
 
14 Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados; que eles desfrutem a terra de Basã e de Galaad, como nos velhos tempos. 15 E, como nos dias em que nos fizeste sair do Egito, faze-nos ver novos prodígios. 18 Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. 19 Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados. 20 Tu manterás fidelidade a Jacó e terás compaixão de Abraão, como juraste a nossos pais, desde tempos remotos.
Evangelho: Lc 15,1-3.11-32
Naquele tempo, 1os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus parao escutar. 2Os fariseus, porém, e os mestresda Lei criticavam Jesus: “Estehomemacolhe os pecadores e faz refeiçãocomeles”. 3Então Jesus contou-lhes esta parábola: 11“Umhomemtinhadoisfilhos. 12O filhomaisnovodisse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herançaquemecabe’. E o pai dividiu os bensentreeles. 13Poucosdiasdepois, o filhomaisnovo juntou o queeraseue partiu paraumlugardistante. E ali esbanjou tudonuma vida desenfreada. 14Quandotinhagastotudo o que possuía, houve uma grandefome naquela região, e ele começou a passarnecessidade. 15Então foi pedirtrabalho a umhomem do lugar, que o mandou paraseucampocuidar dos porcos. 16O rapaz queira matar a fomecom a comidaque os porcoscomiam, masnemistolhedavam. 17Então caiu emsi e disse: ‘Quantosempregadosdo meupaitêm pãocomfartura, e euaqui, morrendo de fome’. 18Vou-me embora, vou voltarparameupai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contraDeuse contra ti; 19jánão mereço ser chamado teufilho. Trata-me comoa um dos teusempregados’. 20Entãoelepartiu e voltou paraseupai. Quandoainda estava longe, seupaio avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. 21O filho, então, lhedisse: ‘Pai, pequei contraDeus e contrati. Jánãomereço ser chamado teufilho’.  22Maso pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhortúnicaparavestirmeufilho. E colocai umanel no seudedo e sandáliasnospés. 23Trazei umnovilhogordo e matai-o. Vamos fazerumbanquete. 24Porqueestemeufilhoestava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa.25O filhomaisvelho estava no campo. Ao voltar, jáperto de casa, ouviu música e barulhode dança. 26Então chamou umdos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27O criado respondeu: ‘É teuirmãoquevoltou. Teupaimatou o novilhogordo, porque o recuperou comsaúde’. 28Masele ficou comraiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia comele. 29Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eutrabalhopara ti há tantosanos, jamaisdesobedeci a qualquerordem tua. E tununcamedeste umcabritoparaeufestejarcommeusamigos. 30Quando chegou esseteufilho, que esbanjou teusbenscomprostitutas, matasparaele o novilhocevado’.  31Entãoo pailhedisse: ‘Filho, tuestás semprecomigo, e tudo o queé meu é teu. 32Maseraprecisofestejare alegrar-nos, porqueesteteuirmão estava mortoe tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado”’.
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Deus é Misericordioso Para Quem Se Converte
Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”. São palavras do livro do profeta Miqueias que lemos na Primeira Leitura.
O profeta Miqueias vivia numa monarquia teocrática onde o poder do soberano devia estar ao serviço do povo, especialmente dos mais débeis e era responsável diante de Deus. Mas Miqueias contempla em sua sociedade que as autoridades frustram o desígnio de Deus que exige a justiça e a misericórdia para com os débeis. O abisma que separa entre os ricos e os pobres fica cada vez maior. O profeta Miqueias, conhecedor das cláusulas da aliança vê nisso tudo o perigo de castigo de Deus que se aproxima. Não somente o pecado de injustiça social mas o pecado de idolatria que consiste em ter compromisso com os cultos estrangeiros. O período de Miqueias (727-701 a.C) é marcado pela hegemonia da Assíria que conquistou a Samaria em 722 a.C.
Além disso, havia uma religião sem coração. Os contemporâneos do profeta Miqueias acreditavam que poderiam manter boas relações com Deus a base de manifestações externas de culto, com sacrifícios e oferendas. Como Amos, Oseias e Isaías, Miqueias exige, antes de tudo, uma religião do coração, uma entrega sincera a Deus, cumprindo seus preceitos, sobretudo, a justiça e misericórdia.
Mas depois de constatar o arrependimento do povo pecador, o profeta Miqueias anuncia o futuro glorioso que espera Israel. Por isso, numa bela oração o profeta suplica a Deus que não abandone seu povo e sim que realize nele as promessas de modo que Israel, agora triste e abatido, possa refazer sua vida: “Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados; que eles desfrutem a terra de Basã e de Galaad, como nos velhos tempos. E, como nos dias em que nos fizeste sair do Egito, faze-nos ver novos prodígios”.
A segunda parte da leitura (Mq 7,18-20) é como uma composição sálmica em que o profeta Miqueias exulta de gozo pensando no futuro perdão de Deus, como garantia das promessas: “Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados. Tu manterás fidelidade a Jacó e terás compaixão de Abraão, como juraste a nossos pais, desde tempos remotos”.
O fundamento da esperança está na fé na misericórdia de Deus que é o puro dom de Deus capaz de tirar a iniquidade e perdoa o pecado. Somos chamados a voltar para a misericórdia de Deus não importa a gravidade e a quantidade de nossos pecados. Deus nos vê como somos e não como éramos. O crente deve crer na coerência de Deus, pois Ele é fiel para Si próprio. A parábola do filho pródigo ou melhor dizer a parábola do Pai misericordioso que lemos no evangelho de hoje nos apresenta a riqueza do amor e da misericórdia de Deus: o Pai está sempre disposto a acolher sem reservas todos os homens e mulheres que querem voltar à sua misericórdia. Só existe uma barreira que impede este amor misericordioso de Deus: nossa autossuficiência incapaz de nos salvar. Amar a Deus significa deixar-se amar por Ele.
Estejamos conscientes de que o pecado sempre se apresenta primeiro como agradável, atraente e sedutor. O Maligno é suficientemente hábil para dissimular seu “jogo”. Basta estar nos seus braços ele não quer nos largar. Mas a misericórdia de Deus está a nossa disposição, pois Deus jamais parará de nos perdoar quando voltarmos para a Casa paterna onde o amor misericordioso circula livremente entre os seus membros.
A Bondade e a Misericórdia De Deus Apagam Nosso Passado Pecaminoso
O evangelho de hoje fala da misericórdia de Deus. Misericórdia é um dos temas preferidos do evangelista Lucas. No AT lemos: “Sejam santos porque Deus é santo” (cf. Lv 20,7). O evangelista Mateus diz: “Sejam perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). E o evangelista Lucas diz: “Sejam misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6,36). Conforme o evangelista Lucas para ser santo, para ser perfeito só há um caminho: ser misericordioso. “Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (João PauloII: Dives in misericordia, no.6). Sobre a importância da misericórdia, São Tiago nos alerta: “O julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, desdenha o julgamento” (Tg 2,13).
O Deus que Lucas nos apresenta através do evangelho de hoje é um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador. Ele não pactua com o pecado, mas está ao lado do pecador e manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador arrependido. O coração de Deus continua aberto para quem se arrepende de seus pecados. O amor de Deus pelo homem é um amor essencialmente misericordioso, pois é dado a alguém que se tornou indigno, pela soberba, pela desobediência, pela ingratidão, pelos pecados, pela maldade, pela rebelião. E Deus ama o homem a ponto de fazer-se homem em Jesus Cristo: ele veio para o nosso meio, viveu como nós e ofereceu sua vida por nós. Ele nasceu nosso nascimento, viveu nossa vida, experimentou nosso medo, morreu nossa morte e ressuscitou nossa ressurreição.
Lucas dedica todoo capítulo 15 de seuevangelho às parábolasda misericórdia. Neste capitulo Jesus nos revela que Deus é o Pai misericordioso.  O insondável amor de Deus se reflete na conduta do pai da parábola. Deus não deixa de buscar e de acolher o que é seu.
A parábola do Pai misericordioso nos revela duas coisas: a miséria e a misericórdia; revela-nos o que há no coração do homem e o que há no coração de Deus; revela-nos a imensa escuridão no homem e a infinita luminosidade em Deus.
O filhomaisnovo e maisvelho da parábola, ambosnãoreconhecem de verdade o próprioPaicheiode amor. Os doisnão têm consciênciade suasdistorções. Ambossãocomodoiscegosquevão tropeçando: umcai na desordem; o outro, no excesso de ordem.  Umestá seguro de saber o quequer: partirsemrumo. O outrotem certeza de estarno caminhocerto: o dever. O maisvelho fica emcasasemreconhecer o amordo Pai. Fisicamente ele está com o pai, mas seu coração está ausente na convivência. O maisnovoabandonaa casaembusca de uma felicidadedeixando a mesmaemcasa. Portrás desses dois filhos está Jesus Cristo, fiel à vontade de Deus em salvar a humanidade. Ele ama a humanidade até o fim (cf. Jo 13,1).
Deixar a casa é muitomais do queumacontecimentolimitado a tempo e lugar. Deixar a casasignifica negar a realidadeespiritual de queeu pertenço a Deuscomtodoo meuser, queDeusmeampara num eternoabraço, que sou realmentemoldado nas palmas das mãos de Deus e refugiado nas suassombras. Deixar a casasignifica ignorar a verdadede queDeusme moldou. Deixara casa é vivercomo se eunão tivesse umlar e precisasse procurarmuito à distânciaaté encontrá-lo. Euprecisoestarconsciente de quefaço parte da famíliade Deus e eudevo vivercomomembro da famíliade Deus.
A casa é o centrodo meuser, onde posso ouvir a voz de Deusqueme diz: “Você é meufilho (a) muitoamado (a), sobrevocê ponho todoo meucarinho” (cf. Mc 1,11). Eu tenho queouvir esta voz diariamente, pois é a voz do amorque é eterno, perdura parasempree se transforma emafetoquando é ouvida. Quandoeuouço essa vozamorosade Deus, sei queestou emcasacomDeuse porisso, nada tenho a temer, poisDeus é pormim (cf. Rm 8,31-39).
O filhomaisnovo voltou paracasaporquereconheceu o tamanho do amor do paidiante do tamanhoda própriamiséria. É elepróprioquem descobre o seucaos, a sua desordem. Através de umdolorosocaminho, ele sai da ilusãosobresimesmo e descobre suaverdade. No silêncio, eleescutaa voz do Paie descobre o tesouro: o amorsem limite do Paiporele, a fontede suaexistência. Pelaprimeiravez, eletomaconhecimentode umamorseguro, estávele sólido. Nesse momentoiluminado, ele reconhece que pecou. Elese arrependeu e porissodecidiu voltarpara a casa: “Quantosempregados do meupai têm pãocomfartura, e euaqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltarparameupai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contraDeuse contra ti; jánão mereço serchamado teufilho. Trata-me como a umdos teusempregados’”.
Na graça de Deus, cadaum é capaz de se colocar a caminho de volta. Na graça de Deus, cadaumé capaz de reencontraro movimento da vida. Na graça de Deusninguém fica trancado no passado. Emqualquerestadoemquese encontre, há sempre a possibilidade de darumpassoemdireção à vida. A graça de Deus nos devolve a alegria de viver dignamente. “Pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil”, escreveu São Paulo (1Cor 15,10).
Muitas vezes procuramos a felicidadefora de casa, nas nossas aventuras. Porisso, emvez de encontrarmos a felicidade, ganhamos a solidão, a desordemtotaloucaostotal. “Ninguém está tãosó do queaqueleque vive semDeus” (Santo Agostinho). No momentoemqueo filhomaisnovo recebeu o perdão, ele começou a conhecer, de modomuitoíntimo, o seupai. A experiênciade perdão de Deuscria, comefeito, umvínculotodoparticularentreDeus e aqueleque recebe o perdão. Tãograndeé a força do amorcurativo de Deus, que o malse transfigura embem.
Se Deus é misericordioso, cadaum deve sermisericordioso paracomos outros. O amorvivido é o únicomodo de convenceros outrosquesomos cristãos. Sempre quecelebramos a festa da eucaristia, celebramos tambémo encontro do amormisericordioso de Deuscomtodosnós, seusfilhos e filhas arrependidos de tudoque cometemos na vida. Façamos quecadaeucaristia seja uma festade nossa reconciliação comDeus.
O filhomaisvelhoestá cheio de simesmo e se engana. Porestarcheio de sinão tem lugarno seucoraçãonemparaseupainemparaseuirmão. Ele se crê justo, e consequentemente, possui umcoração de justiceiro, um coração duro e insensível. Ele simboliza nossacegueiradiantede nossamaisprofundadistorção, nossaresistênciaparaviver na luz, na graçade Deus. Aíquemorao perigo. Muitas vezesa tentação é denunciar o pecadoalheioparafazerbrilhara suaprópriavirtude. Muitas vezeshá tanto ressentimento entre os que se consideram justos e corretos; há tantojulgamento, condenação e preconceitoentre os quese consideram santos e praticantes de religião!
A parábola do filho pródigo ou do Pai misericordioso é o grande canto ao imenso amor divino que se mostra indulgente com o pecador, lição oportuníssima da quaresma. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Imite aquele filho mais novo, porque talvez você seja como ele, que depois de mal gastar e perder todos os seus bens vivendo prodigamente, sentiu necessidade, apascentou porcos e, esgotado pela fome, suspirou e se lembrou de seu pai. E o que diz dele o Evangelho? ‘Ele caiu em si’ (voltou a si mesmo). Quem se tinha perdido para si mesmo, voltou a si mesmo: ‘Vou-me embora, vou voltar para meu pai…’”.  “Para chegar à ressurreição da graça do Senhor temos de passar primeiro pela crucifixão de nossos pecados na penitência. O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja motivo de tua alegria”, acrescentou Santo Agostinho.
Na sua reflexão sobre a parábola do filho pródigo santa Madre Teresa de Calcutá nos disse que o filho pródigo nos ensina que não devemos: Pensar egoisticamente em nós mesmos; Alimentar a fome de prazeres desenfreados; Abusar do dom da liberdade; Tomar e consumir sem cautela bens efêmeros; Presumir da própria figura como se fosse imperecível; Confundir sonhos agradáveis com realidades.
O Deus que Jesus quer nos transmitir nessa parábola é um Deus misericordioso, generoso em perdoar, paciente em esperar a volta de qualquer filho, próximo com um amor infinito para quem volta e para quem está com Ele.
Não podemos professar seriamente a nossa fé no Deus do amor e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, sem praticarmos, ao mesmo tempo, a sua misericórdia. Amor é misericordioso. Esta é uma afirmação central e o cume da fé e de toda a doutrina cristã acerca de virtudes. É através da misericórdia ativa e efetiva que provamos que estamos no bom caminho e que adoramos e honramos verdadeiramente a Deus misericordioso. Toda a experiência profunda de Deus, toda a consolação espiritual autêntica nos leva à prática eficaz da misericórdia. As nossas pequenas mortificações e exercícios ascéticos só têm valor na medida em que servirem de treino para o exercício da misericórdia e para a conseqüente prática da auto-renúncia.
Para nós fica a pergunta: Será que tenho consciência deste Deus que é um Pai com um amor infinito? Será que eu percebo esse Deus como o filho mais velho O percebia: sem esperança nem alegria? Ou eu O percebo como o filho mais novo O percebia: quer uma liberdade sem ordem? Será que eu sou intransigente e intolerante como o filho mais velho? A rigidez e a arrogância não deixaram o filho mais velho alegrar-se pela volta de seu irmão perdido. Será que eu tenho a mesma rigidez e a mesma arrogância que me tiram a alegria de viver e de conviver na fraternidade com os demais irmãos? quem pensa no outro se engrandece. Na experiência do filho mais novo percebemos que o pecado sempre se apresenta, primeiro, como agradável, atraente e sedutor. O Maligno é suficientemente hábil para dissimular seu jogo. Estejamos atentos e vigilantes!
P. Vitus Gustama,svd

Santo Agostinho dizia:
  • O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixaque a santidade seja motivo de tua alegria”. (In ps. 42,3)
  • Para chegar à ressurreição da graça do Senhor temos de passarprimeiropelacrucifixão de nossospecados na penitência”. (De Trin. 4,3,6)

As duas “caras” de Cristo

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Os cristãos em todo o mundo deram início há poucos dias a uma das mais importantes temporadas do calendário litúrgico: a Quaresma. Enquanto nos preparamos para a Paixão e Ressurreição do nosso Salvador, temos uma boa oportunidade de meditar o mistério do Senhor em sua totalidade.

Ele é, de fato, o Príncipe da Paz, que nos conforta e nos acolhe. Mas Jesus também demonstrou um lado menos gentil, por assim dizer, um lado com o qual muitos de nós talvez não nos sintamos assim tão confortáveis. Na Quaresma deste ano, paremos um pouco para conhecer e apreciar este Jesus tão diferente da versão “mansa e humilde” a que estamos habituados.

Quando alguém fala de Jesus derrubando as bancas dos cambistas no Templo, você provavelmente já sabe o tópico que está em discussão. Trata-se da resposta padrão que se costuma dar à alegação de que Jesus foi sempre pacífico, amoroso e compreensivo. Sim, houve esse incidente de violência no templo (cf. Mt 21, 10-17; Mc 11, 15-19; Lc 19, 45-48; Jo 2, 13-17), e nós sabemos que Jesus era excessivamente severo com os líderes religiosos hipócritas de sua época. Mas a imagem dominante é a de que, em todos os outros casos, Ele era muito “tranqüilo”.

Estive pensando sobre isso assim que comecei minha preparação para a Quaresma, e me peguei perguntando se foi apenas com os cambistas e os fariseus que Jesus havia agido, por assim dizer, à maneira do “Antigo Testamento”. Li então os quatro Evangelhos em seguida, em duas sentadas, para ver que tipo de Cristo emergia do texto bíblico. Foi um exercício interessante.

Existem duas verdades a respeito de Jesus que parecem estar em desacordo com o entendimento cristão moderno a seu respeito. Em primeiro lugar, o Deus feito homem, não sendo limitado pelo tempo, mantinha uma visão de mundo que nós, definitivamente, veríamos como antiquada e “obscurantista”. Além disso, Ele recorrentemente “feria” os sentimentos das pessoas sem pedir desculpas por isso. O manso Cordeiro de Deus era também um leão feroz.

“O manso Cordeiro de Deus era também um leão feroz.”

Comecemos pelo primeiro ponto. Nesta era científica, achamos bobagem acreditar que exista um diabo de verdade, demônios e inferno. Mas Jesus agia “à moda antiga”. Ele falou de um Adão e Eva literais, da Arca de Noé, de Jonas no ventre de um grande peixe, e da destruição de Sodoma — a tudo isso se referindo como a fatos verdadeiros. Falou com bastante frequência nos Evangelhos sobre Satanás e sobre possessão demoníaca. Os exorcismos faziam parte de sua rotina de trabalho. Uma vez, provocou rebuliço em um grupo de pessoas próximas, declarando que elas eram filhas não de Abraão, mas do diabo, “pai da mentira” (cf. Jo 8, 44). Palavras duras, sem dúvida. Imagine só, chamar a alguém filho do demônio… Mas Ele falava dessa forma porque acreditava nisso.

Em segundo lugar, Jesus acreditava na realidade do pecado, na necessidade do arrependimento e em um inferno de verdade, no qual pessoas choram e rangem os dentes. Ele falou dessas coisas regularmente, e não de uma maneira conceitual ou metafórica. Aos de sua volta, Ele apresentou essas más notícias de forma enérgica. Comparou alguns indivíduos a ervas daninhas e disse: “O Filho do Homem enviará seus anjos e eles retirarão do seu Reino toda causa de pecado e os que praticam o mal; depois, serão jogados na fornalha de fogo”, onde “haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13, 41-42).

Ele explicou como funcionará o julgamento final. Um grupo, daqueles que fazem a sua vontade, será acolhido em seu Reino. Aos outros, porém, Ele dirá: “Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 25, 41). Se fôssemos os “gerentes de turnê” de Jesus, nós nos sentiríamos inclinados a lembrá-lO de que o mel costuma atrair mais abelhas. Ele nos responderia: “É verdade”, mas diria só estar fazendo o que faz o seu Pai (cf. Jo 5, 19).

Jesus não teve receio de nos dizer que Ele poderia ser um juiz severo. Ele veio ao mundo para julgar (cf. Jo 9, 39) e disse certa feita estar ansioso para lançar fogo sobre a terra (cf. Lc 12, 49). Não foram apenas os líderes religiosos e hipócritas de seu tempo que receberam essa mensagem. Ele preveniu alguns mais próximos de que, se não se arrependessem, todos pereceriam de maneiras indescritíveis (cf. Lc 13, 1-3).

As Escrituras se encerram com o Apocalipse e um Jesus extremamente angustiante; assustador, a falar verdade. São João, que uma vez reclinou a cabeça no peito do Mestre; o discípulo amado, a quem foi confiada a Mãe do Senhor, encontra Jesus novamente alguns anos depois. Não é um encontro lá muito feliz. João cai como morto diante de um Jesus, cujos olhos “eram como chama de fogo” (cf. Ap 1, 14-17). Da boca do Príncipe da Paz “sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações” (Ap 19, 15). O Jesus do Apocalipse, o mesmo frágil bebê da manjedoura, é de uma ferocidade para além de qualquer descrição.

Mas Jesus nos diz numerosas vezes que seremos odiados por todas as nações (cf. Mt 24, 9), assim como Ele é odiado por causa do seu testemunho (cf. Jo 7, 7). Jesus tem “lados” diferentes, de fato, mas todos eles compõem uma divina harmonia. O Jesus que fala do fogo do inferno e o que fala da graça do Espírito Santo não estão jamais em conflito; antes, um ilumina o outro. Sua boa-nova é realmente boa, porque ela vem para superar as más, realmente más notícias.

Um “meio Jesus”, cortado pela metade, é o que H. Richard Niebuhr, um teólogo protestante do século XX, denunciou na teologia liberal de sua época: “Um Deus sem ira levou os homens sem pecado a um Reino sem julgamento por meio de pregações a respeito de um Cristo sem cruz”. Um Jesus pela metade traz algo a que Dietrich Bonhoeffer chamava graça barata, “o inimigo mortal da nossa Igreja” [1].

A graça de Cristo custa caro porque o nosso pecado coletivo foi tão grande a ponto de custar a Deus o que lhe era mais querido: seu Filho único. Ele oferece essa graça a todos os que procuram o perdão de suas faltas, dão as costas ao pecado e vivem para seguir e amá-lO de todo o coração. Essa é a mensagem quaresmal, esse é o inconfundível e glorioso Evangelho do único Jesus Cristo que existe. Um “meio Jesus” não é o que mundo está procurando. A Igreja deve pregar a totalidade dAquele que nos foi dado por meio dos santos Evangelhos. Fazer menos do que isso é pregar um Cristo de encomenda, feito à nossa medida.

Devemos ter medo das penas do Purgatório?

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Existem no Purgatório, assim como Inferno, dois tipos de pena: a de dano e a dos sentidos.

A pena de dano consiste em ser privado por um tempo da visão de Deus, que é o bem supremo, o fim beatífico para o qual nossas almas foram criadas, assim como nossos olhos o foram para a luz. Trata-se de uma sede lancinante que atormenta a alma.

A pena dos sentidos, que é um sofrimento sensível, é a mesma que experimentamos em nossa carne. A fé nada nos diz sobre a sua natureza; no entanto, é opinião comum dos doutores que ela consiste em fogo e noutras formas de sofrimento. O fogo do Purgatório, dizem os Santos Padres, é o mesmo do Inferno, do qual fala o rico epulão: Quia crucior in hac flamma, “Eu sofro horrores nestas chamas” (Lc 16, 26).

No que diz respeito à intensidade das dores, infligidas pela infinita justiça de Deus, ela é proporcional à natureza, à gravidade e ao número dos pecados cometidos. Cada um recebe conforme a suas obras, ou seja, cada um deve satisfazer as dívidas pelas quais se vê responsável diante de Deus.

Esses débitos, no entanto, diferem grandemente em qualidade. Alguns os acumularam durante toda uma vida, a ponto de atingirem os dez mil talentos do Evangelho, ou seja, milhões e dezenas de milhões; outros, porém, contraíram pouco a pagar, ou seja, devem aqueles poucos tostões que não foram expiados na terra.

“A Virgem do Carmo salvando almas do Purgatório”, de Diego Quispe Tito.

Disto se segue, em primeiro lugar, que as almas são submetidas a diversos tipos de sofrimento; além disso, existem inúmeros graus de expiação no Purgatório, dos quais alguns são incomparavelmente mais severos do que outros. Contudo, falando em termos gerais, os doutores concordam em dizer que as penas que ali se padecem são as mais excruciantes de todas.

O mesmo fogo, diz S. Gregório Magno, que atormenta os condenados, purifica os eleitos (cf. In Ps. 37). “Quase todos os teólogos”, escreve S. Roberto Belarmino, “ensinam que os réprobos e as almas no Purgatório sofrem a ação do mesmo fogo” (De Purgat., II, 6). Deve-se ter como certo, diz o mesmo Belarmino (cf. De Gemitu Columbæ, II, 9), que não há proporção entre os sofrimentos da vida presente e os do Purgatório.

S. Agostinho, por sua vez, afirma exatamente o mesmo em seu comentário ao Salmo 31: “Senhor”, escreve ele, “não me castigueis em vossa ira e não me rejeiteis entre aqueles a quem dissestes: ‘Ide para o fogo eterno’. Não me castigueis em vossa ira; purificai-me, antes, de tal modo nesta vida que eu não precise ser purificado pelo fogo na próxima. Sim, eu temo este fogo, que foi ateado para os que serão salvos, é verdade; mas, ainda assim, continua a ser fogo (cf. 1Cor 3, 15). Eles serão salvos, sem dúvida, depois da provação das chamas, mas essa provação será terrível, o tormento será mais intolerável do que os piores tormentos deste mundo”.

Notai o que diz S. Agostinho, e o que S. Gregório, o Venerável Beda, S. Anselmo e S. Bernardo disseram depois dele. Santo Tomás vai ainda mais longe, chegando a afirmar que a mais leve das penas do Purgatório supera todos os sofrimentos desta vida, sejam eles quais forem. A dor, diz o beato Peter Lefèvre, é mais profunda e mais aguda quando ataca diretamente a alma e a mente do que quando as atinge mediante o corpo. O corpo mortal, assim como os próprios sentidos, absorvem e atenuam uma parte da dor física, e até mesmo da dor moral (Sentim. du B. Lefèvre sur la Purg. Mess. du S. Coeur, nov. 1873).

O autor da Imitação de Cristo, por sua vez, explica essa doutrina com uma sentença prática e impressionante. Falando de maneira geral dos sofrimentos da outra vida, ele diz que “lá uma hora de tormentos será mais terrível do que uma centena de anos de rigorosa penitência passada aqui” (Imit., I, 24).

A fim de comprovar essa doutrina, pensemos que todas as almas no Purgatório sofrem a pena de dano e que essa pena supera o mais intenso sofrimento possível neste mundo. Voltando-nos agora para a pena dos sentidos, sabemos que coisa terrível é o fogo, ainda que seja uma frágil chama acendida em nossas casas, e que dor se sente na mais leve queimadura. O quão mais terrível não deve ser, pois, aquele fogo inextinguível, que não se alimenta nem de madeira nem de óleo! Acendido pelo sopro de Deus, como instrumento de sua justiça, ele se apodera das almas, atormentando-as com incomparável fúria.

Tudo o que dissemos — e que ainda havemos de dizer — já basta para inspirar-nos aquele temor sadio que Jesus Cristo nos recomenda. Mas antes que alguns leitores, esquecidos da confiança cristã que deve moderar nossos medos, se entreguem a um temor excessivo, permitam-nos aprofundar a doutrina que acabamos de expor ouvindo o que diz outro doutor da Igreja, S. Francisco de Sales, cuja pena retrata os sofrimentos do Purgatório aliviados pelas consolações que os acompanham.

São Francisco de Sales, bispo e doutor da Igreja.

“Nós devemos”, diz o santo e amável diretor de almas, “colher da meditação do Purgatório mais consolação do que apreensão. A maior parte daqueles que temem o Purgatório pensam mais em seus próprios interesses do que nos interesses da glória de Deus. Ora, isso se deve ao fato de que pensam apenas nos sofrimentos, sem levarem em conta a paz e a alegria de que gozam as santas almas que ali habitam. É verdade que os tormentos são tão grandes que os sofrimentos mais agudos desta vida não se lhes comparam; mas a satisfação interior que lá se experimenta é tal, que nenhuma prosperidade ou contentamento desta terra se lhe pode igualar.

As almas vivem ali numa contínua união com Deus, perfeitamente conformadas com a vontade divina. Só querem o que Deus quer e, se lhes fosse aberto o Paraíso, prefeririam precipitar-se no Inferno a apresentar-se manchadas diante de Deus. Purificam-se voluntária e amorosamente, porque assim Deus o quer. Desejam permanecer no estado que mais aprouver a Deus, e isto por todo o tempo que for da vontade dele.

São invencíveis na prova e não podem ter um movimento sequer de impaciência nem cometer qualquer imperfeição. Amam mais a Deus do que a si próprias, com um amor simples, puro e desinteressado. Os anjos as consolam e estão certas de sua salvação, com uma esperança inigualável. Suas amarguras são mitigadas por uma paz profunda. Se é infernal a dor que sofrem, a caridade derrama-lhes no coração uma inefável ternura. É uma caridade mais forte do que a morte e mais poderosa do que o Inferno. O Purgatório é um feliz estado, mais desejável que temível, porque as chamas que lá ardem são chamas de amor” (Esprit de St. François de Sales, IX, p. 16).

Tais são os ensinamentos dos doutores. Do quanto vimos se segue que, se as penas do Purgatório são rigorosas, não são, contudo, carentes de toda consolação. Quando nos impõe a cruz nesta vida, Deus derrama sobre ela a unção de sua graça. Assim também, ao purificar as almas no Purgatório como ouro na fornalha, Ele ameniza o ardor de suas chamas com consolações indescritíveis. Não devemos, pois, perder de vista esse elemento consolador, esse lado bom e positivo da imagem, pintada às vezes em cores tão sombrias, que iremos analisar nos próximos capítulos.

O Pentecostes de São Filipe Néri

Em 1544, com quase 30 anos, Filipe teve uma experiência extraordinária na vigília de Pentecostes. Um verdadeiro “batismo no Espírito Santo”! A Igreja atravessava as perturbações religiosas do século XVI, sobretudo as consequências do protestantismo e da má vida de muitos do clero. Preparavam-se em Trento as seções do grande Concílio e o mundo cristão…

Um amor que se prega à cruz

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É na cruz, donde Cristo se oferece ao Pai e rege o mundo inteiro, que se oculta o mistério do amor divino, que não receia entregar-se em holocausto em favor daqueles a quem ama.

É PRECISO CAMINHAR 2018-02-27 18:46:00

02/03/2018
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É PRECISO VOLTAR PARA DEUS PORQUE ELE NOS AMA ATÉ O ÚLTIMO MINUTO DE NOSSA VIDA E NELE SE ENCONTRA NOSSA PAZ E SALVAÇÃO
Sexta-Feira da II Semanada Quaresma
Primeira Leitura: Gn 37,3-4.12-13a.17b-28
3 Israel amava mais a José do que a todos os outros filhos, porque lhe tinha nascido na velhice. E por isso mandou fazer para ele uma túnica de mangas longas. 4 Vendo os irmãos que o pai o amava mais do que a todos eles, odiavam-no e já não lhe podiam falar pacificamente. 12 Ora, como os irmãos de José tinham ido apascentar o rebanho do pai em Siquém, 13ª disse Israel a José: “Teus irmãos devem estar com os rebanhos em Siquém. Vem, vou enviar-te a eles”. 17b Partiu, pois, José atrás de seus irmãos e encontrou-os em Dotaim. 18 Eles, porém, tendo-o visto ao longe, antes que se aproximasse, tramaram a sua morte. 19 Disseram entre si: “Aí vem o sonhador! 20 Vamos matá-lo e lançá-lo numa cisterna, depois diremos que um animal feroz o devorou. Assim veremos de que lhe servem os sonhos”. 21 Rúben, porém, ouvindo isto, disse-lhes: 22 “Não lhe tiremos a vida”! E acrescentou: “Não derrameis sangue, mas lançai-o naquela cisterna do deserto, e não o toqueis com as vossas mãos”. Dizia isto, porque queria livrá-lo das mãos deles e devolvê-lo ao pai. 23 Assim que José chegou perto dos irmãos, estes despojaram-no da túnica de mangas longas, pegaram nele 24 e lançaram-no numa cisterna que não tinha água. 25 Depois, sentaram-se para comer. Levantando os olhos, avistaram uma caravana de ismaelitas, que se aproximava, proveniente de Galaad. Os camelos iam carregados de especiarias, bálsamo e resina, que transportavam para o Egito. 26 E Judá disse aos irmãos: “Que proveito teríamos em matar nosso irmão e ocultar o seu sangue? 27 É melhor vendê-lo a esses ismaelitas e não manchar nossas mãos, pois ele é nosso irmão e nossa carne”. Concordaram os irmãos com o que dizia. 28 Ao passarem os comerciantes madianitas, tiraram José da cisterna, e por vinte moedas de prata o venderam aos ismaelitas: e estes o levaram para o Egito.
Evangelho: Mt 21,33-46
 
Naquele tempo, dirigindo-se Jesus aos chefes dos sacerdotese aos anciãos do povo, disse-lhes: 33“Escutai esta outraparábola: Certoproprietário plantou uma vinha, pôs uma cercaemvolta, fez nela umlagarparaesmagar as uvas e construiu uma torrede guarda. Depoisarrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro. 34Quandochegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seusempregadosaos vinhateiros parareceberseusfrutos. 35Os vinhateiros, porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram. 36O proprietário mandou de novooutrosempregados, emmaiornúmero do queos primeiros. Maseles os trataram da mesmaforma. 37Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seufilho, pensando: ‘Ao meufilhoelesvãorespeitar’. 38Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entresi: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomarposseda suaherança!’ 39Então agarraram o filho, jogaram-no parafora da vinha e o mataram. 40Poisbem, quando o donoda vinhavoltar, que fará comesses vinhateiros?” 41Os sumossacerdotese os anciãos do povoresponderam: “Comcertezamandará matar de modoviolentoessesperversos e arrendará a vinha a outrosvinhateiros, quelheentregarão os frutos no tempocerto”.  42EntãoJesus lhes disse: “Vósnuncalestesnas Escrituras: ‘A pedraque os construtores rejeitaram tornou-se a pedraangular; isto foi feitopeloSenhor e é maravilhoso aos nossosolhos?” 43Porissoeuvos digo: o Reino de Deusvos será tirado e será entreguea umpovoque produzirá frutos.  45Os sumossacerdotes e fariseusouviram as parábolas de Jesus, e compreenderam que estava falando deles. 46Procuraram prendê-lo, mas ficaram commedo das multidões, poiselas consideravam Jesus umprofeta.
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A Inveja Intoxica As Relações e Mata a Convivência Fraterna
A história de José, filho do patriarca Jacó Israel), que narra o ódio mortal entre irmãos é conectada com os relatos de Caim e Abel e de Jacó e Esaú. Este ódio mortal é o fruto de uma raiz interior que é a vaidade e o sonho da grandeza. Trata-se de uma história novelada e edificante que expressa as infidelidades de Israel, mas sobretudo, do estilo que tem Deus de tirar o bem do mal. Com efeito, a história da Bíblia não é apenas a história da queda do homem, mas principalmente a história do amor de Deus pela humanidade (Cf. Jo 3,16; 13,1). Todos os porquês da Bíblia têm como resposta o amor de Deus.
Esta narrativa visa explicar simbolicamente a história da tribo de José e sua preeminência sobre as outras tribos, e como, nos planos de Deus, José estava destinado a ser a salvação do povo. E tudo tem que passar por provas e mortificação. A Igreja também terá acesso à glória através de provações, como Cristo, o novo José, verificou com sua própria vida.
Os seus irmãos têm a inveja mortal de José, porque “Israel (Jacó) amava mais a José do que a todos os outros filhos, porque lhe tinha nascido na velhice. E por isso mandou fazer para ele uma túnica de mangas longas. Vendo os irmãos que o pai o amava mais do que a todos eles, odiavam-no e já não lhe podiam falar pacificamente”.
Invejar é querer o que a outra pessoa tem, é sentir dor e raiva porque o outro conseguiu o que você ainda alcançou. A inveja é uma profunda raiva produzida pela conquista dos outros. A inveja é um desejo de destruição, de ódio. As mortes, as violações, os calotes, os enganos, os maus-tratos nascem da inveja por ambicionar o que o outro tem. A inveja nos tira do foco e conduz a nossa força ou energia para o lado errado.
O invejoso vive amargurado porque não tolera que o outro tenha sucesso. Qualquer invejoso tem uma grande dificuldade para celebrar o sucesso dos outros. As pessoas invejosas gostam de jogar uma palavra negativa atrás da outra. O invejoso vive fofocando e se metendo na vida de todo mundo. Sem perceber que quanto mais uma pessoa falar dos outros, mais quer falar de si mesma. Quanto menos uma pessoa quiser falar de si mesma, é porque tem mais para esconder. E quanto mais uma pessoa se intrometer na vida dos outros, menos coisa vai conseguir, pois ela não focaliza sua força para o ideal a ser alcançado.
A inveja é uma emoção que intoxica nossas relações interpessoais, nossa forma de nos conectar com quem nos rodeia. Em vez disso, é preciso buscar dentro de nós mesmos as melhores oportunidades para crescer na vida.
A história de José, apesar da inveja dos irmãos que o venderam como escravo, tem um fio teológico que lhe dá sentido e unidade: a providência divina. Por José o povo eleito será salvo, como ele próprio disse: “O mal que tínheis intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem, a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida a um povo numeroso” (Gn 50,20).
Existe a inveja dos irmãos de José, mas o caminho que traça o ódio é também caminho providente pelo qual Deus salva toda a família de José. Não é que Deus necessite e atue nisso. Mas apesar disso Deus atua para o bem do seu povo. Neste sentido Deus é também aqui o Supremo Condutor dos acontecimentos.
Aí vem o sonhador! Vamos matá-lo e lançá-lo numa cisterna, depois diremos que um animal feroz o devorou. Assim veremos de que lhe servem os sonhos”, disseram os irmãos de José ao vê-lo. Os onze irmãos de José acreditavam “ter tomado bem o seu assunto”, ao se livrar desse “importuno”, José. Mas, de fato, eles vão favorecer o “assunto de Deus”. Sem saber disso, eles contribuem para um episódio importante daquela História sagrada, na qual Deus desenvolve seu designío: o povo hebreu se instalará por alguns séculos no Egito para viver um certo número de experiências que serão decisivas para sua saída para a Terra prometida.
José, traído por seus irmãos, se tornará aquele que os salvará, em poucos anos, quando vieram fome e eles vão ao Egito, onde encontrarão seu irmão, a quem eles acabaram de “vender”. José vai salvá-los da fome mortal.
A tradição cristã sempre viu na história de José um símbolo da história de Jesus. O “predileto entre todos os irmãos” é tirado para fora, despojados de seus vestidos e vendido. A parábola do evangelho de hoje vai na mesma direção. Os lavradores homicidas se comportam como os irmãos de José. Por ter muitos pontos comuns nestas duas histórias, a liturgia as propõe juntas. Em ambos casos, se narra a sorte de um personagem (José num caso e o primogênito do dono da vinha em outro) que, por inveja é eliminado: mediante sua venda como escravo (José) ou diretamente por assassinato (Jesus). Para seus irmãos, José era um sonhador, um iludido. Para os lavradores, o filho do dono era um obstáculo. Jesus também salva aqueles que não o amam e pede a Deus o perdão pelos pecados cometidos por eles (Cf. Lc 23,34).
No caminho da Quaresma, os relatos bíblicos nos falam de Jesus. Também Jesus é um sonhador. Amado pelo Pai (Jo 3,16), Jesus sonha em criar para todos uma fraternidade na condição de filhos e filhas de Deus. Sonha com um mundo em que o Reinado de Deus acabe com a violência, a injustiça, a desigualdade, a exclusão, a desumanidade. Mas ele não se limita em sonhar. Ele aceita visitar a vinha de seu Pai. Ao chegar a ela ele se dá conta de que não é bem recebido pelos lavradores. Mas ele vem precisamente para salvar todos (Cf. Jo 10,10).
Deus Nos Ama Até o Fim Incondicionalmente
A parábola sobre os vinhateiros violentos (assassinos) fala da história da salvação (cf. Is 5, 2-5). Na história da salvação Deus se mostra paciente com o homem até o último minuto da vida do homem sobre a terra, pois Deus não exclui nenhum homem da salvação (cf. Lc 23,39-43). Ser excluído é a opção do próprio homem, pois Deus não se cansa de perdoar o homem toda vez que este se arrepender. Diante do Deus que não se cansa de perdoar, também o homem não pode se cansar de se converter.
Um Deus Que Confia Na Minha Capacidade
A parábolalida neste diatem muitacoisaparanosdizer. Ela quernosfalar, primeiramente, da confiançaqueDeus deposita emcadaumde nós. O Deusrevelado por Jesus, nesta parábola é Aqueleque confia totalmenteno homem, nosseustalentos, na sualiberdaderesponsável, na suacapacidade de sermelhorcadamomento e assimpordiante. Paraisso, Deus possibilita tudoou facilita tudo: “Certo proprietárioplantou uma vinha, pôs uma cercaemvolta, fez nela umlagarparaesmagar as uvas e construiu uma torre de guarda”. EsteDeusnãofica policiando se o homem faz ounão faz suamissão, porqueeleacredita na capacidadequecadahomem tem. Porisso, o textodiz: “O proprietário arrendou uma vinha a vinhateiros e viajou para o estrangeiro” (Mt 21,33). Deus acredita na capacidade que cada homem tem para produzir algo de bom durante a vida. Para isso é que Ele criou cada homem e o colocou aqui neste mundo. Cada tarefa ou missão que o homem recebe é a tarefa ou missão dada por Deus. Sou o “gerente” de uma porção do Reino de Deus.
É bomcadaumdescobrir a própriamissãodadaporDeus. Merece cadaumfazer esta pergunta: “Qualmissãoque recebi de Deusdurante a minhavida neste mundo?”. “Será que acredito no Deusqueacredita emmim?”. “Deusnãocondena quemnãopode fazer o quequer, masquemnãoquerfazer o que pode”, dizia SantoAgostinho (Serm.54,2).
O Deusrevelado nesta parábolanãosó acredita emcadaum de nósparacumprir a missão, mastambém dá-nos todosos meiosparafacilitar o cumprimentoda missãodada. Porissoo texto diz: “O proprietáriopôs uma cercaemvolta da vinha, fez nela umlagarparaesmagar as uvas e construiu uma torrede guarda. Depois, arrendou a vinha a vinhateiros” (Mt 21,33).
Um Deus Que Tem Paciência Até O Último Minuto Da Vida Do Homem Neste Mundo
A parábolafalatambémda paciência de Deus. Deusnão se cansa emenviarseusmensageirose suasmensagenstodos os diaspara os homens. Elenão vem logopara se vingarcontra o homemmauoucontraquemque errou, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Ele dá avisos umapósoutro e todosos dias. EsseDeus confia totalmenteno homem e porisso, eleacredita na recuperação do homem. Esta é uma das razõespelaqualDeus tem paciênciaparacom o homem.
Ser cristãoé, porisso, serrecomeçopermanente, poisDeussempre dá oportunidadeparacadaumrecomeçarsuacaminhada e suamissão. Deusdá tempoparacadaumcorrigir o corrigível, recuperaro recuperável paraquesuavidafaça umsaltode qualidadecomDeus.
Merece tambémcadaumresponder estas perguntas: Deusnãose cansa emenviarseusmensageirose suasmensagenstodos os diaspara o homem. Qual é a mensagemde Deusparamimhoje? qualrecadoqueDeusquerdarhojeparaminhafamília? Você encontrou algummensageiro de Deushoje seja durantea celebração, seja forada celebração? Se esseDeus tem muitapaciênciaparacomvocêacreditando na suarecuperação, no seunovocomeço, porqualrazãovocênão acredita emsimesmoparavocêcomeçartudode novo? Você tem paciênciasuficientecom os outros. O amornostorna pacientes!
Um Deus Que Nos Ama Incondicionalmente
Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho, pensando: ‘Ao meu filho eles vão respeitar’. Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!’ Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram”.
Por causa dos homens e por causa do Seu amor sem limites pelos homens Deus usa todos os recursos e todas as possibilidades para salvá-los. Os recursos se esgotaram (Mt 21,34-36). Agora resta apenas seu Filho. Deus é verdadeiramente “o pobre” por excelência, porque nos deu tudo. Até seu próprio Filho, o ultimo que restou. Em sua incurável paixão pelos homens Deus não ficou com nada, nem com o seu próprio Filho. Significa que Deus nos toma a sério e deixa o campo livre para que atuemos com plena responsabilidade. Mas Deus é impotente diante da liberdade do homem. O homem é responsável pela sua própria escolha. No momento em que o homem não respeitar as regras e as placas da vida que apontam para sua plena realização e para a eternidade, ele perderá sua liberdade e cairá em uma série de prisões e escravidões.
É um Deus que pretende atuar exclusivamente através do amor, pois este caminho é que leva o homem à sua plenitude, à eternidade. Cristo morreu perdoando o homem.
Cada um precisa entrar no silêncio sagrado para meditar sobre o amor de Deus por cada um e a resposta de cada um diante desse amor. Será que sou ingrato diante do amor de Deus? Será que sou irresponsável na minha atuação como pessoa amada de Deus? Será que eu vivo de acordo com o amor com que Deus me ama? Será que sou capaz de dar tudo por amor?  
Como Será Minha Vida No Encontro Derradeiro Com Deus?
A parábolatambémfalado juízofinalde Deus. A vida tem seufim. Se ela tem o fim, entãotodos os nossosatosdiáriospesam paraestefim. Duranteo curso desta vidaDeus se mostrapacienteparaqualquerumde nós e sempre dá oportunidade para cada um se converter. Eleacredita no homem e inspira o homemcomseusantoEspírito, mas, ao mesmo tempo, Ele respeitaa liberdade do homem.  A liberdade é comouma facaquepode ajudar na suastarefas, mastambém pode cortarseusdedos, se não usá-la corretamente. “Uma liberdadesemcontrole, maisqueliberais, faz libertinos”, dizia Santo Agostinho (Epist.157,16). Deusnosjulgará quandoeletirar de nósa tarefaoua missãoquenão quisemos cumprir. “O Reino de Deusvos será tirado e será entregue a umpovoqueproduzirá muitosfrutos”, assim Jesus concluiu a parábola.
O quetem portrásda parábola no evangelhode hoje é a chamadado Senhorpara a conversão. O esforçode conversão, queo Senhornospede, devemos exercitá-lo todos os dias de nossavida. Masem determinadas épocase situações, como a Quaresma, recebemos graças especiais que devemos aproveitar. Para compreender melhor a malícia do pecado devemos contemplar o que Jesus Cristo sofreu por nós na cruz, pois a cruz é o fruto do pecado do homem e ao mesmo tempo, é uma prova do amor incondicional do Senhor por nós todos. Para compreender o peso do pecado devemos olhar para os inocentes, que são vítimas de injustiça ao longo da história da humanidade. Por isso, devemos estar atentos, pois a maldade pode morar dentro de nós. No momento em que ficarmos sem vigilância ela aparece com uma força destruidora até fatal. Todos os dias o Senhor nos chama à santidade, a sermos misericordiosos, a amar com obras, a estarmos vigilantes.  A falta de conversão debilita a vida da graça em nós e se torna difícil o exercício das virtudes.
Quais sãoatosquepesam muitoparaa minhavidae para o fimda minhavidaneste mundo?
P. Vitus Gustama,SVD

É PRECISO CAMINHAR 2018-02-27 17:18:00

01/03/2018
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ENRAIZAR-SE NO SENHOR TORNA O HOMEM SÁBIO E IRMÃO DO PRÓXIMO
Quinta-Feira Da II Semana Da Quaresma
Primeira Leitura: Jr 17,5-10
5 Isto diz o Senhor: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor; 6 como os cardos no deserto, ele não vê chegar a floração, prefere vegetar-se na secura do ermo, em região salobra e desabitada. 7 Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor; 8 é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca da umidade, por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde, não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos. 9 Em tudo é enganador o coração, e isto é incurável; quem poderá conhecê-lo? 10 Eu sou o Senhor, que perscruto o coração e provo os sentimentos, que dou a cada qual conforme o seu proceder e conforme o fruto de suas obras”.
Evangelho: Lc 16,19-31
Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: 19“Havia umhomemrico, que se vestia comroupas finas e elegantese fazia festas esplêndidas todos os dias. 20Umpobre, chamado Lázaro, cheiode feridas, estava no chão, à portado rico. 21Elequeria matar a fomecom as sobrasque caíam da mesado rico. E, alémdisso, vinham os cachorroslambersuasferidas. 22Quandoo pobre morreu, os anjoslevaram-no parajuntode Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. 23Na regiãodos mortos, no meiodos tormentos, o ricolevantou os olhos e viu de longe a Abraão, comLázaro ao seulado. 24Entãogritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! MandaLázaromolhar a pontado dedoparamerefrescar a língua, porquesofro muito nestas chamas’. 25Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te de querecebeste teusbensdurante a vidae Lázaro, porsuavez, os males. Agora, porém, eleencontraaquiconsolo e tués atormentado. 26E, alémdisso, há grandeabismoentrenós: pormaisquealguémdesejasse, nãopoderiapassar daqui parajunto de vós, e nem os daí poderiam atravessaraténós’. 27O rico insistiu: ‘Pai, eutesuplico, mandaLázaroà casa de meupai, 28porqueeu tenho cincoirmãos. Mandapreveni-los, paraquenão venham tambémelesparaestelugar de tormento’. 29MasAbraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os profetas, queos escutem!’ 30O rico insistiu: ‘Não, PaiAbraão, mas se umdos mortos for atéeles, certamentevão se converter’. 31Mas Abraão lhe disse: ‘Se nãoescutam a Moisés, nem aos Profetas, elesnão acreditarão, mesmoquealguémressuscite dos mortos”’.
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É Preciso Enraizar-Se No Senhor Para Poder Produzir Bons Frutos Na Vida
Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor… Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor; é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca da umidade, por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde, não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos”. São frases sapienciais que lemos na Primeira Leitura tirada do livro do profeta Jeremias.
Em Jr 17,5-11 encontramos três oráculos sapienciais. O primeiro, Jr 17,5-8 nos alerta para não podermos basear nossa vida e salvação sobre o homem mortal. O segundo, Jr 17,9-10nos relembra que o homem é capaz de enganar-se e enganar os outros. Mas somente o Senhor pode entrar no coração de cada homem. Por isso, é preciso confiar totalmente no Senhor que conhece o coração de cada homem. E o terceiro, Jr 17,11: ninguém pode se apoiar nas riquezas, pois trata-se de uma base enganadora e passageira, pois diante da morte ou no leito da morte a riqueza encontra sua impotência. As coisas materiais, mesmo necessárias para a vida do homem, pertencem ao mundo e por isso, vão ser deixadas aqui neste mundo assim que terminar nossa jornada nesta terra.
De forma simples, como no Salmo 1, que é posterior, aqui se faz uma contraposição entre os “dois caminhos” seguidos pelos justos e pelos ímpios.
Os ímpios confiam somente nos homens e na debilidade da carne. Sobre eles recai a maldição de Deus, sua vida é como a de um cardo no deserto e na terra salobra. A vida dos ímpios é comparada à palha que é transportada pelo vento. Mas são abençoados aqueles que depositam sua confiança em Deus: são como uma árvore plantada junto ao córrego, que dá frutos mesmo nos anos de seca. Deus é como um rio para as raízes de uma árvore, ou como a rocha para os alicerces de uma casa. Por isso, vale a pena o homem aderir a Deus, acreditar nele e amá-Lo acima de todas as coisas. O homem feliz e frutífero é aquele cuja vida está enraizada em uma firme confiança em Deus. Eles se opõem à atitude orgulhosa de um homem que confia somente em si mesmo ou em homens fracos e propensos ao pecado (= carne). Mas quem confia no Senhor penetra nas profundezas do coração humano.
Na Primeira Leitura encontramos, então, os dois oráculos sapienciais. Estes dois oráculos convidam os homens a confiarem no Senhor ou a enraizar-se no Senhor. Estes dois oráculos contrapõe o justo ao ímpio numa série de comparações muito sugestivas como a da árvore.
A corrente sapiencial utiliza muitas vezes o tema da árvore da vida, visando sob essa imagem a vida moral do homem, produtora de frutos de longa vida e de fidelidade: “O fruto do justo é uma árvore de vida; o que conquista as almas é sábio” (Pr 11,30; cf. Pr 3,18; 13,12; 15,4).
A corrente profética aplica o tema da árvore e de seus frutos a todo o povo, na medida de sua fidelidade à Aliança, e Deus destrói a árvore que não dá bons frutos (cf. Is 5,1-7; Jr 2,21; Ez 15; 19,10-14; Sl 79/80,9-20; veja Mt 3,10).  
Na evolução dessas diversas correntes, o Justo é comparado, por sua vez, a uma árvore que dá frutos saborosos, como lemos no Sl 1: “Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores… Ele é como a árvore plantada na margem das águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. Tudo o que empreende, prospera” (Sl 1, 1.3; Cf. Sl 91/92, 13-14; Ct 2,1-3 etc.).
Ao personalizar este tema o evangelista João faz do próprio Cristo a árvore que dá fruto (Jo 15,1-6). Todo aquele que se enraizar em Cristo ou que permanecer no tronco (Cristo) vai poder produzir bons frutos. E os frutos que podemos produzir, ao nos ligar à árvore da vida que é o próprio Cristo, são os “frutos do Espirito Santo”: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (Gl 5,22-23).
Vale a pena cada um perguntar-se: Que tipo de árvore sou eu? Que frutos tenho produzido? Ou sou uma árvore estéril? Se for assim já chegou o momento oportuno para voltar a enraizar-se em Cristo através da conversão para voltar a produzir bons frutos.
A Riqueza Mal Usada Fecha a Porta Do Céu
Estamos acompanhando Jesus no seu Caminho (êxodo) para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e ressuscitado (dentro da seção Lc 9,51-19,28). Na passagem do evangelho deste dia Jesus fala sobre o perigo da riqueza/bens materiais ou de dinheiro. Este tema é repetido no evangelho de Lucas para enfatizar o peso do conteúdo que quer se passar para os ouvintes para que tenham consciência disso.
O dinheiro e todos os demaisbens deste mundosãobons, poissuamatériaprimafoi criadaporDeus. Masa grandequestãoé de quemaneiraconseguimos tê-los (dinheirojustoouinjusto), comousamos os bens (esbanjarno ritmo de consumismo sem freio?) e qualé o objetivo ao usá-los? (Para ajudarouparadominar os outros?). Os bensmateriais podem nosajudar a conseguirmos nossas metasfundamentais, mastambém podem nosdesviar do bemque devemos praticar.
Segundo o tom de todo o evangelho de Lucas, o bomusoquetemos quefazercom os nossosbens é compartilhá-los com os necessitados. Nãotemos queconvertero dinheiroemfim. Eleé ummeioe comotal, ele é relativoe nãoabsoluto, pois, de fato, elenãopode fazernadaassimqueterminarmos nossacaminhadanesta terra. Sãoos que ficam neste mundoque determinarão o usodo dinheiro, poisperderemos o podersobreele nesse dia. A ambiçãosemmedida, a cobiçae a avarezanãodevem terlugarna vida de qualquercristão. Se não, descuidaremos das coisas de Deusou dos valoressuperioresque dignificam o serhumano. Nãopodemos servir a doissenhores. Os queaceitam o Reino de Deussão os quenão estão cheiosde simesmosnem de ambiçõeshumanas.
Como foi dito anteriormente na passagemdo evangelho deste diaJesus nosfalasobre o perigoda riqueza. Trata-se de uma severaadvertência para todos. Para entender a severa advertência de Jesus sobre o perigo da riqueza precisamos partir de uma consciência plena de que Jesus ama a todos sem exceção (cf. Jo 3,16; 10,10). Quanto maior se tornar um perigo, maior será a advertência de Jesus por amor. Por isso, Deus não é uma ameaça para os homens, especialmente para os ricos ou um concorrente deles, mas Ele é uma potência de amor que constrói todos os homens. Acima de tudo, Deus é o Pai de todos. Todas as riquezas do universo são de Deus, pois Ele é o Criador de tudo isso. Por isso, ao chamar a atenção dos ricos apegados Jesus quer evitá-los do perigo mortal, se eles continuarem a se deixar aprisionar pelo dinheiro. Jesus quer lhes dizer assim: “Atenção com o dinheiro! Atenção com a riqueza! É uma arma perigosíssima!”.
Para falar deste tema Jesus contauma parábola na qualo rico e o pobreLázarosãoseusprotagonistas.
Sabemos que, neste mundo, como dinheiro se possui tudo: poder, honra, influência, etc…. O dinheiroé a medida das coisasmateriais e nosafetapessoalmente. Quem põe a mãosobre o dinheiro, põe suamãosobre as pessoase consequentemente sobre sua própria salvação. O podere a riqueza têm capacidade de transtornara vista. Masa Palavra de Deusnos faz encontrarmos o irmão. É preciso amarmos as pessoas usando as coisas e não podemos amar as coisas utilizando as pessoas. Os bens materiais continuam sendo alheios a nós e por isso, eles jamais podem ser nossos amigos. O que nos dói muito é a solidão, isto é, a vida sem companhia humana mesmo tendo muita riqueza. Precisamos de alguém com quem conversamos e para quem contamos nossa história no seu sucesso e fracasso. Quem sempre se preocupa com as coisas e não com as pessoas prepara o terreno para sua solidão mortal. Quem abandona as pessoas para ficar com as coisas vai viver e morrer sem as pessoas.
O PapaFrancisco nos alerta: “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado” (Evangelii Gaudium no.2).
A parábolasobre Lázaro e o rico quer nosalertarque o mauuso do dinheiro, usando-o e abusando-o egoisticamente e individualisticamente aliena o homem, rompe toda possibilidade de comunicaçãocomDeus e de todacomunicaçãomaishumanacomos demais. O egoísmoobscurece o coração a pontode nãopoderler os sinaisqueDeusoferece ao homem, inclusiveos milagresdiários. O egoísmofechatodas as antecipações de Deussobre o homem.
Na parábola, os cachorros conseguem enxergaro pobreLázarodo que o rico. O animal consegue vero homem, maso homemnãoconsegue ver o própriohomem. O homemolhapara as coisas e nãopara os homens. O dinheiro é temível, nãopeloqueconseguimos comelee simporquechega a possuiro homem de talmaneiraqueé o únicoquemarca a pautade suavida. O apego aos bensmateriais faz esquecero sentido de Deus, o sentido do homeme o própriosentidoda liberdade: se cai na escravidão. “Quando muitos morrem por falta de pão, não é porque Deus deixa faltar trigo, mas porque nós homens deixamos que falte o amor” (René Juan Trossero).
O textodo evangelho de hojequernosrecordartambémquenãotemos a última palavra. É DeusQuem tem esta palavra. Deustem a última palavrasobre a históriaparticular de cadaserhumano e a história de todosos homens, emgeral.
Por tudoisso, é difícilnãosentircertoestremecimento ao considerar a última fraseda parábola à luzda celebração da Eucaristia: “Se não escutam a Moises, nem aos Profetas, elesnãoacreditarão, mesmoquealguém ressuscite dos mortos”. Nósque celebramos a Eucaristiaescutamos a Moisés, aos Profetas, isto é, todo o conjunto do AT, e temos entrenós a presençado Ressuscitado entre os mortos, Jesus Cristo. Mas será quenos deixamos convencer? Celebrar a Eucaristiaé algo extraordinariamente comprometido; é realmenteumjuízo de Deussobrenós. Se o coraçãonãotem nenhumlaçoespiritual, tudoserá inútil. Quemnão crê na Palavrade Deustampoucomudará de atitudeporummilagre.
Portanto, os cincoirmãos do rico, nesta parábola, representam todos os homens deste mundo, todosnós, que podemos correra mesmasortede nossoirmãodefuntoqueeraricoparasi, maspobreparaDeus e para os demais. Nós somos os irmãosdeste rico. Peçamos a Deusque a preocupaçãodemasiadapelosbensmateriaisnãonostornem cegosdiantedo necessitado que está junto a nós e quenãonos torne surdosao chamamento de Cristoparacompartilharnossosbenscomos necessitados. Os necessitados nosajudam a sermos maishumanos e consequentemente maisdivinos neste mundo. O necessitado desperta nossahumanidade que está muitas vezes adormecida. E não esqueçamos: é a Palavra de Deus que nos questiona continuamente e que nos permite a mudança de um coração egoísta para um coração capaz de amar e de partilhar. A Quaresma é o tempo oportuno para abrir o coração para a graça de Deus e estender nossa mão para ajudar os necessitados.
A advertência de Jesus no evangelho de hoje é umconvitepara a solidariedade. E o pecadoque podemos cometercontra a solidariedadeé a apatiasociale política. Isto acontece quando um se encerra na própria vida e fica cego e insensível diante da frustração, da humilhação, da fome e do desespero dos demais seres humanos que são filhos e filhas de Deus e, portanto, nossos irmãos. Quem não vê o pobre, não será visto por Deus. Quem não estende a mão para o pobre a fim de ajudá-lo, para ele não será estendida a mão de Deus para abençoá-lo. “O inferno é o sofrimento de não poder mais amar” (Dostoievski). “Os famintos, os maltrapilhos, os mendigos, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes… são teus ‘batedores’ no Reino do céu” (Santo Agostinho: Serm. 11,6; cf. Mt 25,40.45).
Em vez da ganância e do consumismo egoísta das coisas deste mundo somos chamados a nos vestir de despojamento e de solidariedade. Saber ajudar os outros com o que temos e somos é a expressão de nossa riqueza interior. “Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo” (Papa Francisco: Evangelii Gaudium no.7). Uma das piedades cristãs que devemos praticar principalmente durante a Quaresma é a caridade fraterna: solidarizar-se com os necessitados.
O rico da parábola que representa outros ricos do seu tipo quer nos dizer que o egoísmo de muitos ricos, sua falsa segurança, sua irreligiosidade, o fechamento de seu coração acabam por fazer todos eles incapazes de ler os sinais de Deus. A morte não lhes diz nada; nem a ressurreição de um morto chegaria a convencê-los. Perderam o hábito de ver os sinais que Deus lhes mostra em sua vida cotidiana. O fato de reclamar sinais é apenas um falso pretexto: “Se não escutam a Moises, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”.
Senhor, que nenhuma riqueza material, espiritual, intelectual feche meu coração para captar os sinais que me emite diariamente. Conserve-me aberto e disponível diante do seu apelo cotidiano. Que eu seja pobre no espirito. Que eu não feche meu coração diante da necessidade do meu próximo.  Dê-me, Senhor, um coração solidário! Assim seja!
P. Vitus Gustama,svd

O Credo da Virgem Maria

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Esta oração foi composta por São Gabriel de Nossa Senhora das Dores, também conhecido como São Gabriel da Virgem Dolorosa, ou simplesmente São Gabriel das Dores, um jovem que tinha um coração profundamente apaixonado por Nossa Senhora. Em seu “Credo di Maria”, São Gabriel recorda-nos a fé profundamente mariana e, ao mesmo tempo, cristocêntrica dos santos de todos os tempos da Igreja Católica.

Como todo bom membro da “Congregação da Paixão de Jesus Cristo” ou simplesmente “Congregação Passionista”, São Gabriel nutriu um profundo amor à Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo e às dores de sua Mãe, Maria Santíssima, tanto que assumiu o título de Nossa Senhora das Dores em seu nome religioso.

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Unido intimamente a Jesus Cristo crucificado e a Virgem das Dores, São Gabriel santificou-se rapidamente e alcançou os cumes da perfeição cristã. Nas palavras de seu “Credo di Maria”, São Gabriel nos revela traços marcantes de sua espiritualidade, o amor e a confiança que nutria para com a Santíssima Virgem.


Creio, ó Maria, que, como Vós mesma revelastes a Santa Brígida, sois Rainha do céu, Mãe de misericórdia, alegria dos justos e guia dos pecadores arrependidos; e que não há homem tão perverso que, enquanto viva, não tenhais misericórdia dele; e que ninguém abandonou tanto a Deus, que, se vos invoca, não possa voltar a Deus e encontrar perdão, enquanto que sempre será um desgraçado aquele que, podendo, não recorra a Vós.

Creio que sois a Mãe de todos os homens, aos que recebestes como filhos, na pessoa de João, conforme o desejo de Jesus.

Creio que sois, como declarastes a Santa Brígida, a Mãe dos pecadores que querem corrigir-se, e que intercedeis por toda alma pecadora ante o trono de Deus, dizendo: Tende compaixão de mim.

Creio que sois nossa vida, e unindo-me a Santo Agostinho, vos aclamarei como única esperança dos pecadores depois de Deus.

Creio que estais, como vos via Santa Gertrudes, com o manto aberto, e que sob ele se refugiam muitas feras: leões, ursos, tigres, etc., e que Vós, em lugar de espantá-las, as acolheis com piedade e ternura.

Creio que através de Vós nós recebemos o dom da perseverança: se vos sigo, não me desencaminharei; se acudo a Vós, não me desesperarei; se Vós me sustentais, não cairei; se Vós me protegeis, não temerei; se vos sigo a Vós, não me cansarei; se vos alcanço, me recebereis com amor.

Creio que Vós sois o sopro vivificante dos cristãos, seu auxílio e seu refúgio, especialmente na hora da morte, como dissestes a Santa Brígida, pois não é costume vosso abandonar a vossos devotos na hora da morte, como assegurastes a São João de Deus.

Creio que Vós sois a esperança de todos, sobretudo dos pecadores; Vós sois a cidade de refúgio, em particular dos que carecem de ajuda e socorro.

Creio que sois a protetora dos condenados, a esperança dos desesperados, e como ouviu Santa Brígida que Jesus vos dizia, até para o próprio demônio obterias misericórdia se humildemente vo-la pedisse. Vós não rejeitais a nenhum pecador, por carregado de desculpas que se encontre, se recorre à vossa misericórdia. Vós com vossa mão maternal o tiraríeis do abismo do desespero, como diz São Bernardo.

Creio que Vós ajudais a quantos vos invocam e que mais solícita sois para alcançar-nos graças, que nós para vos pedi-las.

Creio que, como dissestes a Santa Gertrudes, acolheis sob vosso manto a quantos acodem a Vós, e que os Anjos defendem vossos devotos contra os ataques do inferno. Vós saís ao encontro de quem vos busca e também, sem que se vos peça, dispensais muitas vezes vossa ajuda e creio que serão salvos os que Vós queirais que se salvem.

Creio que, como revelastes a Santa Brígida, os demônios fogem, ao ouvir vosso nome, deixando a alma em paz. Associo-me a São Jerônimo, Epifânio, Antonino e outros, para afirmar que vosso nome desceu do céu, e vos foi imposto por ordem de Deus.

“A Lamentação”, de Scipione Pulzone.

Declaro que sinto com Santo Antônio de Pádua as mesmas doçuras ao pronunciar vosso nome e as que São Bernardo sentia ao pronunciar o de vosso Filho. Vosso nome, ó Maria, é melodia para os ouvidos, mel para o paladar, júbilo para o coração.

Creio que não há outro nome, fora do de Jesus, tão transbordante de graça, esperança e suavidade para os que invocam. Estou convencido com São Boaventura de que vosso nome não se pode pronunciar sem algum fruto espiritual. Tenho por certo que, como revelastes a Santa Brígida, não há no mundo alma tão fria em seu amor, nem tão afastada de Deus, que não se veja livre do demônio se invoca vosso santo nome.

Creio que vossa intercessão é moralmente necessária para salvar-nos, e que todas as graças que Deus dispensa aos homens passam por vossas mãos, e que todas as misericórdias divinas se dão por mediação vossa, e que ninguém pode entrar no céu sem passar por Vós, que sois a porta.

Creio que vossa intercessão é, não somente útil, mas moralmente necessária.

Creio que Vós sois a cooperadora de nossa justificação; a reparadora dos homens, corredentora de todo o mundo.

Creio que quantos não recorram a Vós, como arca de salvação, perecerão no tempestuoso mar deste mundo. Ninguém se salvará sem vossa ajuda.

Creio que Deus estabeleceu não conceder graça alguma a não ser por vosso conduto; que nossa salvação está em vossas mãos e que quem pretende obter graça de Deus sem recorrer a Vós, pretende voar sem asas.

Creio que quem não é socorrido por Vós, recorre em vão aos demais santos: o que eles podem convosco, Vós podeis sem eles; se Vós calais, nenhum santo intercederá; se Vós intercedeis, todos os santos se unirão a Vós. Proclamo-vos com Santo Tomás como a única esperança de minha vida, e creio com Santo Agostinho que somente Vós sois solícita por nossa eterna salvação.

Creio que sois a tesoureira de Jesus e que ninguém recebe nada de Deus, senão por vossa mediação: encontrando a Vós encontra-se todo o bem.

Creio que um de vossos suspiros vale mais que todos os rogos dos santos, e que sois capaz de salvar a todos os homens.

Creio que sois advogada tão piedosa, que não rejeitais defender aos mais infelizes. Confesso com Santo André de Creta que sois a reconciliadora celestial dos homens.

Creio que sois a pacificadora entre Deus e os homens e que sois o chamariz divino para atrair os pecadores ao arrependimento, como Deus mesmo revelou a Santa Catarina de Sena. Como o ímã atrai o ferro, assim atraís Vós aos pecadores, como assegurastes a Santa Brígida. Vós sois toda olhos, e toda coração para ver nossas misérias, compadecer de nós e socorrer-nos.

Chamar-vos-ei, pois, com Santo Epifânio: “A cheia de olhos”. E isto confirma aquela visão de Santa Brígida, na qual Jesus lhe disse: “Pedi-me, Mãe, o que quiserdes”. E Vós lhe respondestes: “Peço misericórdia para os pecadores”.

Creio que a misericórdia divina que tivestes com os homens quando vivíeis sobre a terra, inata em Vós, agora no céu se vos aumentou na mesma proporção que o sol é maior que a lua, como opina São Boaventura. E que, assim como não há no firmamento e na terra corpo que não receba alguma luz do sol, tampouco há no céu nem na terra alma que não participe de vossa misericórdia.

Creio também com São Boaventura, que não só vos ofendem os que vos injuriam, mas também os que não vos pedem graças. Quem vos obsequia não se perderá, por pecador que seja; ao contrário, como assegura São Boaventura, quem não é devoto vosso, perecerá inevitavelmente. Vossa devoção é o ingresso do céu, direi com Efrém.

Creio que, como revelastes a Santa Brígida, sois a Mãe das almas do purgatório, e que suas penas são abrandadas por vossas orações. Portanto afirmo com Santo Afonso que são muito afortunados vossos devotos e com São Bernardino que Vós livrais a vossos devotos das chamas do purgatório.

“Um anjo liberta as almas do Purgatório”, de Ludovico Carracci.

Creio que Vós, quando subíeis ao céu, pedistes, e obtivestes sem nenhuma dúvida, levar convosco ao céu todas as almas que então se achavam no purgatório. Creio também que, como prometestes ao Papa João XXII, livrais do purgatório no sábado seguinte à sua morte aos que portarem vosso escapulário do Carmo. Mas vosso poder vai introduzindo no céu a quantos queirais. Por Vós se enche o céu e fica vazio o inferno.

Creio que os que se apoiam em Vós não cairão em pecado, que os que vos honram alcançarão a vida eterna. Vós sois o piloto celestial, que conduzis ao porto da glória a vossos devotos na nacela de vossa proteção, como dissestes a Santa Maria Madalena de Pazzi. Afirmo o que assegura São Bernardo: O professar-vos devoção é sinal certo de predestinação, e também a afirmação do abade Guerrico: Quem vos tem um amor sincero, pode estar tão certo de ir ao céu, como se já estivesse nele.

Creio com Santo Agostinho que não há santo tão compassivo como Vós: dais mais do que se vos pede; vais em busca do necessitado, buscais a quem salvar: Muitas vezes salvais aos mesmos que a justiça de vosso Filho está a ponto de condenar, como ensina o Abade de Celes. Portanto, estou convencido da verdade que se contém na visão que teve Santa Brígida: Jesus vos dizia: “Se não se interpusessem vossas orações, não haveria neste caso nem esperança nem misericórdia”. Opino também com São Fulgêncio, que se não fosse por Vós, a terra e o céu teriam sido destruídos por Deus.

Creio, como revelastes a Santa Matilde, que éreis tão humilde que, apesar de ver-vos enriquecida de dons e graças celestiais inumeráveis, não vos preferiríeis a ninguém. E que, como dissestes a Santa Isabel, Beneditina, vos julgáveis vilíssima serva de Deus e indigna de sua graça.

Creio que por vossa humildade, ocultastes de São José vossa maternidade, ainda que aparentemente parecesse necessário manifestá-la, e que servistes a Santa Isabel e que na terra buscastes sempre o último lugar.

Creio que, como revelastes a Santa Brígida, tivestes tão baixo conceito de Vós mesma porque sabíeis que tudo havíeis recebido de Deus, por isso em nada buscastes vossa glória, mas a de Deus unicamente.

Creio com São Bernardo que nenhuma criatura do mundo é comparável convosco em humildade.

Creio que o fogo do amor, que ardia em vosso coração para com Deus era de tanto calor, que num instante poderia acender em fogo e consumir o céu e a terra, e que em comparação com vosso amor, o dos santos era frio.

Creio que cumpristes com perfeição o preceito do Senhor “Amar a Deus”, e que desde o primeiro instante de vossa existência, vosso amor a Deus foi superior ao de todos os anjos e serafins.

Creio que devido a este intenso amor vosso a Deus, jamais fostes tentada, e que nunca tivestes um pensamento que não fosse para Deus, nem dissestes palavra que não fosse dirigida a Deus.

Creio com Suárez, Ruperto, São Bernardino e Santo Ambrósio, que vosso coração amava a Deus, ainda quando vosso corpo repousava, de maneira que se vos pode aplicar o que diz a Sagrada Escritura: “eu durmo, mas meu coração vela”, e que enquanto vivíeis na terra, vosso amor a Deus nunca foi interrompido.

Creio que amastes ao próximo com tal perfeição, que não haverá quem o tenha amado mais, excetuando vosso Filho. E que ainda que se reunisse o amor de todas as mães para com seus filhos, dos esposos e esposas entre si, de todos os santos e anjos do céu, seria este amor inferior ao que Vós professais a uma só alma.

Creio que tivestes, como diz Suárez, mais fé que todos os Anjos e Santos juntos: ainda quando duvidaram os Apóstolos, Vós não vacilastes. Chamar-vos-ei, pois, com São Cirilo, “Centro da fé ortodoxa”.

Creio que sois a Mãe da Santa Esperança e modelo perfeito de confiança em Deus. Que fostes mortificadíssima, tanto que, como dizem Santo Epifânio e São João Damasceno, tivestes sempre o olhar abaixado, sem fixá-los jamais em pessoa alguma.

Creio no que dissestes a Santa Isabel, Beneditina: que não tivestes nenhuma virtude sem haver trabalhado para possuí-la, e com Santa Brígida creio que compartistes todas as vossas coisas entre os pobres, sem reservar-vos para Vós mais que o estritamente necessário.

Creio que desprezáveis as riquezas mundanas.

A Anunciação de Guido Reni.

Creio que fizestes voto de pobreza.

Creio que vossa dignidade é superior a todos os anjos e santos e que é tanta vossa perfeição, que só Deus pode conhecê-la.

Creio que depois de Deus, é ser Mãe de Deus, e que, portanto, não pudestes estar mais unida a Deus sem ser o próprio Deus, como dizia Santo Alberto.

Creio que a dignidade de Mãe de Deus é infinita e única em seu gênero e que nenhuma criatura pode subir mais alto. Deus poderia haver criado um mundo maior, mas não pôde haver formado criatura mais perfeita que Vós.

Creio que Deus vos há enriquecido com todas as graças e dons gerais e particulares que conferiu a todas as demais criaturas juntas.

Creio que vossa beleza sobrepassa a de todos os homens e os Anjos, como revelou o Senhor a Santa Brígida.

Creio que vossa beleza afugentava todo movimento de impureza e inspirava pensamentos castos.

Creio que fostes menina, mas de menina só tivestes a inocência, não os defeitos da infantilidade.

Creio que fostes virgem antes de dar a luz, ao dar a luz e depois de dar a luz; fostes mãe sem a esterilidade da virgem, sem deixar por isso de ser virgem. Trabalháveis, mas sem que a ação distraísse; oráveis, mas sem descuidar de vossas ocupações. Morrestes, mas sem angústia, nem dor nem corrupção de vosso corpo.

Creio que, como ensina Santo Alberto, fostes a primeira a oferecer, sem conselho de ninguém, vossa virgindade, dando exemplo a todas as virgens, que vos hão imitado, e que Vós, diante de todas, portais o estandarte desta virtude. Por Vós se manteve virgem vosso castíssimo esposo, São José.

Creio também que estáveis resolvida a renunciar à dignidade de Mãe de Deus, antes que perder vossa virgindade. Direi com o Beato Alano, que praticar a devoção de saudar-te sempre com a Ave-Maria com o Rosário é um magnífico sinal de predestinação para a Glória.