Mês: novembro 2017

Céus e terra passarão

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Cada criatura é expressão do amor e da sabedoria de Deus; céus e terra passarão, mas o testemunho do amor que Ele manifesta em suas obras permanecerá para sempre.

Ideologia de gênero “goela abaixo”: ou você aceita ou está reprovado

Judith butler lateral

O estudante que, neste último domingo (26), prestou o ENADE — exame nacional que avalia a qualidade do ensino das universidades brasileiras — deve ter ficado surpreso com a quantidade de questões envolvendo “relações de gênero” e outros temas, como feminismo e laicidade do Estado.

Além de escrever uma redação propondo políticas públicas para a inclusão de “pessoas trans”, os universitários ainda tiveram de responder a outras questões objetivas com claro viés ideológico. Quem quisesse atingir uma boa pontuação no exame deveria responder, é claro, exatamente o que os redatores da prova queriam ouvir.

A pergunta número 33, por exemplo, fazia uma apologia aberta à inclusão do “conceito de gênero nos diferentes componentes do currículo [escolar] de maneira transversal”, a despeito da opinião de maioria dos brasileiros que, em várias oportunidades, repudiou a abordagem do assunto dentro das escolas. Os grifos são nossos:

As escolas brasileiras não têm um único jeito de ensinar sobre gênero e sexualidade; pesquisas evidenciam currículos e práticas pedagógicas e de gestão marcadas pela discriminação. Distinções sexistas nas aulas, na chamada, nas filas de meninos e de meninas, nos uniformes, no tratamento e nas expectativas sobre alunos ou alunas, tolerância da violência verbal e até física entre meninos, representações de homens e mulheres nos materiais didáticos, abordagem quase exclusivamente biológica da sexualidade no livro didático, estigmatização referente à manifestação da sexualidade das adolescentes, perseguição sofrida por homossexuais, travestis e transexuais, evidenciam o quanto a escola (já) ensina, em diferentes momentos e espaços, sobre masculinidade, feminilidade, sexo, afeto, conjugalidade, família.

Nesse contexto, para construir uma prática pedagógica que promova transformações no sentido da igualdade de gênero a partir do respeito às diferenças, espera-se que a escola

a) incorpore o conceito de gênero nos diferentes componentes do currículo de maneira transversal;b) realize atividades em seu cotidiano que definam para as crianças o que é masculino e o que é feminino;
c) se valha das diferenças sexuais naturais entre meninos e meninas para conduzir a classe e manter a disciplina;
d) se refira à questão de gênero de forma tangencial, suficiente para promover vivência menos intransigente e mais equânime entre homens e mulheres;
e) reforce modelos de comportamentos socialmente atribuídos a homens e mulheres que formam um conjunto de representações sobre masculinidade e feminilidade.

Não é preciso muito esforço para saber qual opção o estudante devia assinalar como correta. Embora o gabarito oficial do ENADE ainda não tenha sido divulgado, tudo indica que acertou quem marcou a alternativa “a”, com o que as outras opções, evidentemente, tornam-se falsas.

Isso significa dizer que o Ministério da Educação não só espera das escolas o ensino de gênero, como quer inclusive uma abordagem profunda do assunto: não uma que seja “suficiente para promover vivência menos intransigente e mais equânime entre homens e mulheres”. Não, isso não basta! É preciso também pôr abaixo as “distinções sexistas nas aulas”; superar uma “abordagem quase exclusivamente biológica da sexualidade”; falar da “estigmatização referente à manifestação da sexualidade das adolescentes” (atenção ao artigo definido feminino: o alvo são as meninas!)…

De que modo, concretamente, os professores devem fazer tudo isso, cabe à mente de cada um imaginar. Talvez seja mais ou menos como a discussão que fizeram quando da elaboração do chamado “kit gay”: segundo palavras de um secretário do MEC, os organizadores do material didático ficaram “três meses” discutindo “até onde entrava a língua” de duas mulheres durante um beijo lésbico.

Apesar do escândalo, a prova do ENADE, assim como outros exames aplicados pelo Ministério da Educação, foi apenas mais uma amostra daquilo que se vem denunciando, aqui e em outras mídias, sobre a revolução em curso na educação. Longe de “possibilitar aos alunos uma formação intelectual e muito menos fazê-los adquirir conhecimentos elementares”, o que esses novos pedagogos querem é tornar a escola “nada mais do que o instrumento de uma revolução cultural e ética destinada a modificar os valores, as atitudes e os comportamentos das pessoas em escala mundial”, como denuncia Pascal Bernardin em seu livro Maquiavel Pedagogo [1].

Para atingir seus objetivos, os revolucionários da educação utilizam “métodos ativos destinados a inculcar nos estudantes os ‘valores, as atitudes e os comportamentos’ definidos de antemão” [2]. Um desses métodos, diz Bernardin, é justamente o das avaliações: “Por força do exercício do poder personificado pelo avaliador, o sujeito da avaliação é levado a interiorizar normas sociais” [2]. Desse modo, os alunos não vão à escola para aprender raciocínio lógico, gramática e outros conteúdos imprescindíveis ao bom desenvolvimento cognitivo, mas para receber uma “formação” anticristã a serviço dos interesses e propósitos políticos de organizações como a ONU.

Notem, por exemplo, a filósofa norte-americana Judith Butler. Em defesa de sua “teoria queer”, ela disse recentemente que a “questão de gênero” não deve ser entendida como uma “ideologia”. O porquê ela mesma é quem explica:

Em geral, uma ideologia é entendida como um ponto de vista que é tanto ilusório quanto dogmático, algo que “tomou conta” do pensamento das pessoas de uma maneira acrítica. Meu ponto de vista, entretanto, é crítico, pois questiona o tipo de premissa que as pessoas adotam como certas em seu cotidiano, e as premissas que os serviços médicos e sociais adotam em relação ao que deve ser visto como uma família ou considerado uma vida patológica ou anormal.

O argumento de Butler é capcioso. Sim, o seu ponto de vista é crítico, mas nem por isso a “questão de gênero” deixa de ser uma causa ideológica — especialmente quando observamos os métodos que seus defensores têm escolhido para propagá-la. (Porque, afinal de contas, se o discurso de gênero ainda “não ‘tomou conta’ do pensamento das pessoas” — graças a Deus! —, alguém duvida que é isso o que querem Butler e companhia?)

Uma perspectiva isenta sobre o assunto, meramente “crítica”, proporia talvez um debate entre pedagogos, uma discussão legislativa, um debate aberto e imparcial nos meios de comunicação, como deve acontecer dentro de toda sociedade que se queira democrática. Mas é isso por acaso o que se vê? Absolutamente não. Os promotores da “teoria de gênero” não aceitam ser confrontados. A régua com que eles medem o resto do mundo não lhes serve para medir o umbigo. Eles são “críticos” — criticam a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, e o livro da natureza humana, de Adão até o homem “pós-contemporâneo” —, mas quanto às suas ideias… Não há o que discutir. A TV tem de falar delas, os professores têm de falar delas, as leis têm de aceitá-las, como se fossem uma verdade revelada ou um dado incontestável da mais elevada cientificidade. Custe o que custar e doa a quem doer. Daí a ideia de colocar o assunto em um exame obrigatório para todos os concluintes de cursos de graduação do Brasil — onde não há espaço, é claro, para objeção nem questionamento algum.

Uma vez dominadas pelas normas do Ministério da Educação, o que precisa ficar claro agora é que as universidades, assim como as demais redes de ensino, não têm o compromisso de ajudar os pais na missão de educar os filhos. Ao contrário, o que o MEC pretende é justamente substituir a família e tornar-se a “pátria educadora”, aquela que sabe o que é certo e errado e que vai dizer aos estudantes qual deve ser o seu padrão de comportamento. As universidades do MEC servirão apenas para formar novos militantes de uma causa política. Essa, infelizmente, é a realidade de nossas academias.

Mas, antes de demonizar as escolas e responsabilizá-las por toda essa crise social, é preciso também que os pais façam um exame de consciência sobre o quão negligentes têm sido com seus filhos, delegando o dever de educá-los para outras instituições. Em nome do bem-estar social e do acúmulo de riquezas, o máximo que muitas famílias conseguem desejar para suas crianças é um diploma universitário que lhes possibilite a conquista de um bom emprego e de uma posição social relevante. E, assim, essas famílias matriculam seus filhos em cursos e mais cursos, esquecendo-se de educá-los para aqueles valores mais sagrados, para as virtudes, para a busca da santidade.

O MEC só está ocupando o lugar deixado pelas famílias. E, enquanto elas estiverem preocupadas com o salário no fim do mês, a escola fará o trabalho de formar as crianças do Brasil para os novos valores humanos: viverem privadamente a sua religião, defenderem ideologias que contrariam a complementaridade natural entre os sexos e instaurarem, por fim, aquilo que Judith Butler chamou de o “mundo LGBTQI”. Assim, quando as famílias se derem conta, esse mundo já será “poderoso demais” para ser enfrentado.

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-29 19:25:00

01/12/2017
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VIVER CONFORME A PALAVRA DE DEUS QUE NÃO CONHECE A CADUCIDADE
Sexta-Feira da XXXIV Semana Comum
Primeira Leitura: Dn 7,2-14
“Eu, Daniel, 2 tive uma visão durante a noite: eis que os quatro ventos do céu revolviam o vasto mar, 3 e quatro grandes animais, diferentes uns dos outros, emergiam do mar. 4 O primeiro era semelhante a um leão, e tinha asas de águia; ainda estava olhando, quando lhe foram arrancadas as asas; ele foi erguido da terra e posto de pé como um homem, e foi-lhe dado um coração de homem. 5 Eis que surgiu outro animal, o segundo, semelhante a um urso, que estava erguido pela metade e tinha três costelas nas fauces entre os dentes; ouvia-se dizer: ‘Vamos, come mais carne’. 6 Continuei a olhar, e eis que assomou outro animal, semelhante a um leopardo; tinha no dorso quatro asas de ave, e havia no animal quatro cabeças. E foi-lhe dado poder. 7 Depois, eu insistia em minha visão noturna, e eis que apareceu o quarto animal, terrível, estranho e extremamente forte; com suas dentuças de ferro, tudo devorava e triturava, calcando aos pés o que sobrava; era bem diferente dos outros animais que eu vi antes, e tinha dez chifres. 8 Eu observava estes chifres, e eis que apontou entre eles outro chifre pequeno, e, em compensação, foram arrancados três dos primeiros chifres; e eis que neste chifre pequeno havia uns olhos como olhos de homem e uma boca que fazia ouvir uma fala muito forte. 9 Eu continuava olhando até que foram postos uns tronos, e um Ancião de muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como neve e os cabelos da cabeça, como lã pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas do trono, como fogo em brasa. 10 Derramava-se aí um rio de fogo que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal, e os livros foram abertos. 11 Eu estava olhando para o lado das palavras fortes que o mencionado chifre fazia ouvir, quando percebi que o animal tinha sido morto, e vi que seu corpo fora feito em pedaços e tinha sido entregue ao fogo para queimar; 12 percebi também que aos restantes animais foi-lhes tirado o poder, sendo-lhes prolongada a vida por certo tempo. 13 Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14 Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”.
Evangelho: Lc 21,29-33
29 Jesus contou-lhes uma parábola: “Olhai a figueira e todas as árvores. 30 Quando vedes que elas estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto. 31 Vós também, quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Reino de Deus está perto. 32 Em verdade, eu vos digo: tudo isso vai acontecer antes que passe esta geração. 33 O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.
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Somente Deus Tem o Poder Eterno e Os Demais Poderes São Passageiros
Na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”.
O capítulo sétimo de Daniel, que meditamos hoje e no sábado (amanhã), é o mais importante de todo o apocalipse bíblico pela riqueza deslumbrante das imagens, pelo poderoso hábito profético, pela profundidade teológica dos temas … anuncia diretamente o Apocalipse de São João.
Lendo estas palavras ardentes, não nos esqueçamos que Jesus, perante o tribunal do Sumo Sacerdote, Caifás – que também conhecia essa profecia – aplicou este texto a Si mesmo, reivindicando “igualdade com Deus” ao assumir o título de “Filho do homem» e ao anunciar sua “vinda sobre as nuvens do céu”. E sua igualdade com Deus terá como preço a sua pena de morte por blasfêmia.
O importante, de antemão, não é a ferocidade dos impérios descritos no texto da Primeira Leitura de hoje através da imagem de quatro animais, e sim a visão que vem depois: o trono de Deus, os milhares e milhares de seres que o aclamam e, finalmente, a aparição de “uma espécie de homem que atravessa as nuvens do céu: ele recebeu poder, honra e reino, e seu reino não terminará”. Daqui vem o nomem de “Filho do Homem” referido ao futuo Messias que Jesus se aplica a Si próprio. “Um espécie de homem”, “um com a aparência de homem”, “um filho de homem” é um nome que os Evangelhos dão mais de oitenta vezes para Jesus.
O texto da Primeira Leitura nos apresenta uma visão apocalíptica de quatro imagens de animais ferozes: leão, urso, leopardo e outro monstro sem nome. Com estes quatro imagens apocalípticas a liturgia da Palavra nos oferece a descrição das forças do mal que operaram e continuam operando no mundo. Mas com o tempo desapareceram e desaparecerão, menos a Palavra de Deus (cf. Lc 21,33; Mt 24,35). Quem está com Deus experimenta a eternidade.
O texto descreve o caos primordial do qual surgem monstros que representam os quatro impérios (cf. Dn 2): o primeiro Babilônia (leão); o segundo, é o império Medo-persa (urso: animal feroz e voraz: Cf. Is 13,17-18; 21,2ss; Os 13,8); o terceiro é Persia (leopardo): seus quatro asas e quatro cabeças podem representar os quatro reis persas conhecidos pela Escritura: Ciro, Artaxerxes, Xerxes e Dario III (que foi derrotado por Alexandre Magno); para o quarto animal o autor se sente perplexo para descrevê-lo que representa Macedonia sob o império de Alexandre Magno.
Não podemos ignorar essas imagens, pois expressa nelas uma profunda filosofia da história: a sucessão dos reinos terrenos ateus, que não reconhecem o verdadeiro Deus, é uma sucessão de regimes desumanos, em que a crueldade e a dominação são exercidas em detrimento dos homens. Daniel sabia algo sobre isso porque vivia sob o terrível reinado de Antíoco Epífanes, que queria acabar com todas as pessoas e impor um modo de vida desrespeitando a liberdade e a dignidade profunda do homem.
A tentação de “dominar”, de “esmagar”, de “dobrar”, de “impor”, de “assustar/ameaçar”, e de “usar a força”, também tem, de alguma forma, em mim? Normalmente, este tipo de força aparece quando estivermos dominados totalmente pela emoção deixando de lado nossa razão e nosso respeito pela vida de nosso próximo.
Por isso, a mensagem dos quatro animais ferozes e vorazes é uma questão que permanece válida entre nós.
Leões insensíveis e vorazes somos nós quando colocamos um cérebro humano sobre o corpo de uma besta, que devora os outros sem piedade em nome de nosso prazer e não nos compadecemos dos pobres, dos doentes e dos marginalizados.
Ursos insaciáveis somos nós quando nunca nos saciamos com o que temos e somos capazes de deixar mais famintos ainda para os que têm fome. É uma crueldade de empobrecer quem já é pobre.
Somos nós os leopardos de várias cabeças e asas quando vivemos ansiosos para acumular poder, para nossa própria satisfação sem levar em conta os fracos, doentes, necessitados e assim por diante.
Somos nós todos monstros com rosto terrível quando exibimos nossa força para destruir o máximo os outros criando instrumentos de guerra, de vingança, de violência e programas de cruel exploração dos pobres, e governos sem consciência de ser servidor da comunidade que são pagãos pelo imposto para administrar o bem comum.
Quem Vive Com Deus Vive Para Sempre
Continuamos a acompanhar o discurso escatológico ou apocalíptico de Jesus na versão do evangelho de Lucas (Lc 21,5-36). É um discurso que Jesus faz antes de sua morte iminente em Jerusalém. Jesus acabou de anunciar, no texto do evangelho do dia anterior, sobre o fim de Jerusalém e simbolicamente sobre o fim do mundo, e a parusia (segunda vinda do Senhor). O que para muita gente aparece como uma destruição e um juízo terríveis, para os que vivem de acordo com a Palavra de Deus, pelo contrário, deve aparecer como o começo da verdadeira salvação: “Quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Reino de Deus está perto… O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”. Para o cristão, cada acontecimento da história é considerado como uma etapa que o aproxima da redenção ou do Reino de Deus.
Jesus toma uma comparação da vida do campo para que os ouvintes entendam a dinâmica dos tempos futuros ou dos novos tempos. “Olhai a figueira e todas as árvores. Quando vedes que elas estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto”. No lugar em que existem quatro estações, esta imagem é bastante formosa e convidativa para uma contemplação. A condição de uma árvore num verão é diferente de sua condição no outono, como também na estação do inverno. 
Quando vedes que as árvores estão dando brotos…”. É o momento do surgimento de uma vida nova. A natureza se renova permanentemente. As folhas velhas vão caindo para dar lugar aos novos brotos numa árvore. Uma árvore cresce dessa maneira! As folhas caídas para a terra se transformam em adubo para a própria árvore. A natureza sabe se virar quando não houver a intervenção forçada do homem a não ser numa situação em que a mão humana precisa interferir para melhorar a natureza. Como as folha velhas caídas que dão lugar para novas folhas, assim também cada dia que se despede é o momento da lua e demais estrelas brilharem na escuridão da noite. Cada noite que se despede é o aparecimento do novo dia, da luz que brilha com uma maior intensidade. A infância dá lugar para a adolescência e a adolescência dá lugar para a juventude e a juventude dá lugar para a idade adulta e assim por diante. Ninguém tem poder para segurar o tempo e os efeitos causados pela passagem do tempo na natureza, incluindo a natureza humana. 
O homem precisa aprender a lição da natureza que cresce renovando-se.  Em cada novo dia nascem novas oportunidades, novo ânimo, nova página da vida para escrever muitas lições. Sobre esta nova página posso construir minha vida e salvação. Sobre esta nova página da vida posso conhecer mais e viver melhor; escutar e estudar mais para compreender melhor; compreender mais para ponderar melhor; comprometer-me mais para omitir-me menos; refletir mais para reagir menos; para amar mais e buscar-me menos; para representar mais e menos apresentar: é uma passagem da apresentação para a representação, do fingimento para a transparência. Viver é aprender a virar página para poder ler coisa nova a fim de renovarmos nossa vida e a força de caminhar.
Perante o discurso de Jesus sobre o fim do mundo ou de uma história precisamos adotar duas atitudes. A primeira atitude é a esperança. Quem tem fé deve ter esperança e quem tem a esperança é porque tem muita fé. A esperança nos faz caminharmos, em cada momento, um passo adiante, pois a esperança está sempre na nossa frente chamando-nos a caminhar. A fé e a esperança em Deus que é fiel renovam nossas forças e nos animam para lutar sem cessar. “A fé é a certeza daquilo que não se vê e a antecipação daquilo que se espera”, assim afirma a Carta aos hebreus (Hb 11,1).
A segunda atitude é a confiança. Confiança é crença ou certeza de que suas expectativas serão concretizadas; é crença de que algo não falhará. É a certeza de que Deus jamais pode fracassar, que as palavras divinas são sólidas, não são frágeis nem caducas, pois são palavras da vida eterna (cf. Jo 6,69). “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”, disse-nos Senhor (Lc 21,33). Somos chamados por Jesus a confiar plenamente na Palavra de Deus, pois é a Palavra Eterna, Palavra Divina.
Além das duas atitudes mencionadas anteriormente, Jesus nos convida a termos o discernimento em qualquer momento ou em qualquer estação da vida: “Quando vedes que as árvores estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto” (Lc 21,30). Falar em discernimento significa reconhecer a necessidade de que todos nós temos que compreender bem o sentido da vida, os rumos a ser tomados e os desafios a ser enfrentados. É decifrar a mensagem ou o recado de Deus em cada acontecimento de nossa vida, pois com Deus e para Deus não há acaso. É descobrir o apelo de Deus todos os dias de nossa vida. “Qual é o apelo de Deus para mim hoje” é a pergunta que deve ser feita por cada um de nós diariamente. Cada dia Deus sempre tem algum apelo ou algum recado para cada um de nós. Por isso, deve haver, durante o dia, um momento para cada um de nós se retirar. A vida, que se apresenta com todos os seus enigmas cobra de cada um de nós uma postura interior de busca e de abertura espiritual, que se for conforme com a verdade, se torna motivo de alegria e de realização. O discernimento pede capacidade de silêncio. O silêncio possibilita a presença da Eternidade; possibilita a presença do Céu. Jesus quer nos dizer: “Olhai e sabereis; silencie e escute para perceber uma presença”.
Permaneçamos vigilantes! Em poucos dias começaremos o tempo do Advento na preparação da festa da primeira vinda do Senhor na história (cf. Jo 1,14). Mas estejamos atentos para a vinda do Senhor em cada momento de nossa vida ou de nossa história. Depois da primeira vinda do Senhor na carne, cada momento de nossa vida se transformou em “Kairós”, um tempo de graça e de encontro com o Deus que nos salva: “… ficai sabendo que o Reino de Deus está perto”. Não nos esqueçamos da Palavra do Senhor que nos diz hoje: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”. Esta frase é a razão de nossa fé esperança e de nossa luta de cada dia. A Palavra de Deus não conhece a caducidade.

P. Vitus Gustama,svd

Fora da humildade não há salvação

Adao e eva lateral

Em um mundo dominado pela lógica do mérito e da competição, é inevitável que as pessoas acabem desprezando a virtude da humildade como coisa de fracos e ignorantes. O apego à honra, aos títulos e às glórias temporais impede a razão de compreender por que alguém deveria admitir sua própria miséria perante outro, servindo-o mesmo nos trabalhos, digamos, menos dignos, ou aceitar pacientemente os desaforos e injustiças que as pessoas lhe possam causar, como ensina a doutrina cristã. O mundo da competição atiça os ânimos e entrega a natureza humana aos apetites sensíveis, aos desejos mais pueris de domínio e prazer.

Desde o Renascimento, a humanidade passou a valorizar-se não mais segundo o “homem interior”, para usar a linguagem do Apóstolo, mas segundo o “homem exterior”, isto é, segundo a carne e as realizações do homem prático: a execução de tarefas difíceis, a conquista de troféus, o desenvolvimento das potencialidades do corpo e da ciência, os aplausos, a estima e a boa reputação etc. Tudo isso se tornou o objeto mais desejado pelo homem moderno, de modo que a busca pelo Céu e pela santidade se perdeu no nevoeiro das paixões.

O filósofo Jacques Maritain explica que, a partir da desintegração da cristandade, o homem teve de enfrentar o desespero da própria indigência [1]. Para aquele que era a imagem e semelhança do Criador restou apenas a certeza angustiante do nada. Essa condição gerou na sociedade uma sede de vida plena, não no sentido escatológico, mas no sentido carnal. O homem passou a reivindicar a própria reabilitação, diz Maritain, e o direito de ser amado, tornando-se assim o centro do universo [2].

Mas esse amor por si mesmo desviou-se da alma para a matéria, daquilo que o ser humano tem de mais importante para aquilo que é secundário. E essa foi a infelicidade do mundo pós-cristão, porque, como ensina toda a tradição cristã, o amor desordenado por si mesmo, ou seja, o amor pelas coisas inferiores à alma, é o que está na origem de todos os vícios e desordens.

Notem que foi nesse mesmo ambiente cultural que surgiram fenômenos como o capitalismo e o comunismo doutrinas viciadas pela avareza e pela inveja. O primeiro, na sua versão mais liberal possível, prega o culto à economia, ao laissez faire, ao acúmulo dos bens materiais que tornam a vida soberba. O segundo, por outro lado, inveja os bens alheios e não mede esforços para “coletivizá-los”, submetendo tudo e todos ao poder tirano do Estado. Ambos são resultados de uma civilização que rejeitou a humildade, que desprezou os conselhos evangélicos para desfrutar das glórias deste mundo, considerando o bem-estar social como a única coisa capaz de tornar o homem feliz e plenamente realizado. E, como frutos dessa escolha, essa mesma civilização colheu as guerras, os campos de extermínio e as ditaduras dos dois últimos séculos.

A exclusão de Deus do horizonte humano provocou uma desvalorização do próprio homem, porque, tomando como principal de si justamente a parte que é comum às demais criaturas, este se esqueceu daquilo que é mais digno em seu ser: a alma.

Adão e Eva, por Ticiano.

Na verdade, o mundo atual padece da mesma tentação que ocupou o coração de Adão e Eva no paraíso. A sedução do fruto proibido pela falsa glória que ele traria causou a primeira rebeldia contra Deus, a primeira acusação leviana contra o próximo, o primeiro passo da humanidade para as guerras fratricidas: os pais pecaram por soberba, o filho por inveja. Como não enxergar essa mesma história se repetindo dia após dia no mundo de hoje? A beleza do fruto proibido segue corrompendo a natureza humana.

Para recuperar a saúde espiritual de nossa civilização, o homem precisa voltar-se novamente para o seu interior, a fim de conhecer-se a si mesmo e admitir que as glórias pueris deste mundo não são o que o tornam digno de ser amado, mas sim o fato de ele ser a única criatura querida por Deus por si mesma. Como ensina o Catecismo, “o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém” (n. 357). Antes mesmo de ser concebido, antes mesmo que tivesse a individualidade da matéria, Deus o pensou, desejando-o pessoalmente, o que demonstra que o amor é uma iniciativa primeiramente divina, não uma consequência das conquistas mundanas.

Por sua parte sensível e corpórea, os homens não passam de trapos velhos. Daí a necessidade da virtude da humildade para que o homem reconheça a sua inépcia e dependência de Deus, conforme testemunha Santa Catarina de Sena em uma carta ao Papa Gregório XI:

A alma que se conhece a si mesma se humilha. Nada vê, com efeito, de que se possa orgulhar. Ela alimenta, dentro de si, o doce fruto de uma ardente caridade, conhecendo nela a bondade sem limites de Deus. Ó doce e verdadeiro conhecimento que traz consigo o gládio do ódio, e inspirado por esse ódio estende a mão do santo desejo para agarrar e arrancar o verme do amor-próprio.

A estátua do sonho do rei Nabucodonosor.

A humildade, ou seja, a atitude de recolher-se no interior e rebaixar-se diante da verdade é a única coisa que pode remediar a soberba deste século. A encarnação de Jesus deu-se justamente como remédio eficaz para a doença espiritual da vanglória, para reconduzir o indivíduo homem para a pessoa humana. Despojando-se de toda a sua glória, Cristo rebaixou-se à condição carnal para dar o exemplo aos demais homens da virtude que deve fundamentar a vida de cada um de nós: a humildade. Se não é ela a base sólida de nossos edifícios, é certo que eles desmoronarão — assim como desmoronou a estátua do sonho de Nabucodonosor, cujo busto era de ouro, prata e bronze, mas os pés eram de barro.

A humildade, embora não seja a maior de todas as virtudes, deve estar em primeiro lugar como fundamento da vida espiritual, diz Santo Afonso de Ligório, a fim de que a soberba não destrua aquilo que foi construído a duras penas [3]. A humildade é a guardiã de todas as virtudes. Por isso Jesus chamou os humildes de “bem-aventurados”. No “fracasso” da Cruz, Jesus mostrou que não são os músculos do homem que vencem a morte e atraem a graça de Deus, mas a reta e humilde intenção do coração, que é capaz de fazer alguém dizer aos seus algozes: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

Não há nada de bom no ser humano que não tenha sido herdado de Deus, motivo pelo qual os soberbos, além de atraírem a ira divina, fazem papel de ridículo quando desejam a atenção dos outros por conta de suas conquistas materiais. A razão de tantas rixas e inquietações na sociedade contemporânea está no orgulho que os homens nutrem por si mesmos, de modo que nunca conseguirão ser tratados segundo o conceito errôneo que fazem de sua própria pessoa. Os humildes, por outro lado, vivem em paz porque sabem que por eles mesmos não merecem senão o desprezo e, se recebem alguma honra, sempre a consideram maior do que mereceriam.

A humildade é necessária para manter a sanidade e a unidade de uma civilização. Mais ainda: a humildade é necessária para que o homem se ame segundo aquilo que possui de mais nobre, que é a sua alma, moldada à imagem e semelhança de Deus. Do contrário, os homens acabam vendendo a própria alma por algumas moedas de prata, como fizeram muitos na história. Fora da humildade não há salvação.

As bênçãos de uma família numerosa

Eu nasci numa família de nove irmãos. Perto da minha casa, morava um tio, que tinha quinze filhos. Um pouco mais longe, morava o senhor Guatura com seus 24 filhos e mais um adotivo. Era assim há uns cinquenta anos. E que festa era! Faltava bola para jogarmos futebol no quintal; então, fazíamos bolas de…

A fé não tão bíblica dos protestantes

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Quando católicos e protestantes discutem sobre aquilo que os divide, os segundos vira e mexe lançam aos primeiros a seguinte pergunta: “Onde a Bíblia diz isso?” No entanto, pouquíssimas vezes os protestantes aplicam esse mesmo critério, o da “sola Scriptura”, às suas próprias crenças. Se o fizessem, perceberiam que muitas delas vêm, não da Bíblia, mas de alguma tradição teológica recebida seja dos pais, seja de um pastor.

Vejamos apenas três exemplos de tradições protestantes que não se baseiam nas Escrituras.


1.º) Em que trecho a Bíblia afirma que nós não somos purificados de nossos pecados depois da morte?

A pergunta mais frequentes que nos costuma ser feita é esta: “Onde a Bíblia fala do Purgatório?” Os protestantes que partem do princípio de que a doutrina católica sobre a vida eterna deveria estar explicitamente fundamentada nas Escrituras raramente aplicam esse mesmo critério às suas próprias crenças sobre a vida após a morte. O autor protestante William Edward Fudge escreve a esse propósito:

Ao falarem dos Novíssimos, os reformadores nunca constroem sua escatologia sobre os fundamentos da Escritura […]. Lutero e Calvino rejeitaram a doutrina da Igreja Católica Romana referente ao Purgatório, por exemplo, não porque tenham estudado a Bíblia a fundo e descoberto que o Purgatório é estranho à escatologia bíblica, mas porque se tratava de uma doutrina claramente incompatível com a ideia de justificação que eles acharam na Bíblia [1].

Os protestantes costumam acreditar que todo cristão, imediatamente depois da morte, se une com Cristo, razão por que não seria necessário nenhum tipo de purificação. No entanto, os trechos que eles citam a favor desta doutrina, como por exemplo Fl 1, 23 (“Desejaria desprender-me para estar com Cristo, o que seria imensamente melhor”) e 2Cor 5, 8 (“Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto do Senhor”) não sobrevivem a um exame mais atento.

Dizer, por exemplo: “Quando estou trabalhando no meu escritório, estou longe de minha família” não significa que eu estarei em casa com minha família no exato momento em que for embora do escritório (eu poderia muito bem ter de passar horas no trânsito). Do mesmo modo, o desejo de estar com Cristo não é prova de que não haverá um processo de purificação antes de realizarmos este desejo. De fato, a passagem de 2Cor 5, 10 nos ensina que podemos, sim, estar separados de nossos corpos e, ao mesmo tempo, não estar em casa com o Senhor: “Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo”.


2.º) Onde a Bíblia diz que devemos aceitar Jesus como nosso Senhor e Salvador pessoal?

Os protestantes que se opõem à Missa e aos sacramentos, por não terem fundamento bíblico nem serem necessários, costumam afirmar que tudo o que precisamos fazer, no final das contas, é aceitar Jesus como nosso Senhor e Salvador e confessar nossos pecados diretamente a Deus, em de vez de confessá-los a um sacerdote.

Sem levar em consideração o fato de que a Missa e os sacramentos estão, sim, presentes na Bíblia, é importante notar que a ideia segundo a qual a fé deve estar baseada unicamente numa relação pessoal e de tipo afetivo com Jesus não tem, na verdade, nenhuma base bíblica [2].

Isso não significa que seja errado pedir a Jesus que tenha conosco uma relação pessoal; significa tão-somente que esta crença protestante, uma das mais importantes, não se encontra, ao fim e ao cabo, nas Escrituras. A Bíblia, além disso, nunca nos manda confessar os nossos pecados a Jesus Ressuscitado, ainda que quase todos os cristãos não vejam problema nenhum em fazê-lo. É por isso que os partidários da “sola Scriptura” deveriam, pelo menos, repensar a própria fé com respeito a esses pontos — ou talvez repensar a própria fé na “sola Scriptura.

A Confissão, por Egbert van Heemskerck.

Os protestantes costumam citar ainda 1Jo 1, 9 para defender a ideia de que só devemos confessar os nossos pecados a Deus (e não a um sacerdote), já que ali se diz: “Se reconhecemos [em grego, homologōmen, de homologeō] os nossos pecados, (Deus aí está) fiel e justo para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniqüidade”. Acontece, porém, que este trecho não diz que só devemos confessar os nossos pecados a Deus. O contexto desta passagem diz respeito mais ao que confessamos ou dizemos aos outros homens do que às coisas que confessamos a Deus.

O versículo anterior: “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” e o versículo seguinte: “Se pensamos não ter pecado, nós o declaramos mentiroso e a sua palavra não está em nós” retratam os fiéis falando entre si. De fato, com exceção de Hb 13, 15, o termo homologeō nunca é empregado para descrever o ato de confessar algo a Deus; nos escritos de São João, é utilizado sempre com o sentido de “confessar uma crença a outro homem”. Ora, nunca é demais lembrar que, tanto no sacramento da Confissão quanto no da Unção dos Enfermos, o sacerdote não perdoa e cura diretamente; antes, ele é o meio através do qual Deus nos comunica o perdão e a cura.

Muitos protestantes estariam de acordo com isto no caso, por exemplo, do Batismo, uma vez que, tal como os católicos, eles negam de costume a validade do “auto-Batismo”. Ora, quem crê na regeneração batismal sabe muito bem que, embora Deus seja o único que pode apagar os pecados, Ele não age sozinho na hora de fazê-lo no Batismo. Com efeito, Deus atua por meio de outros fiéis, que batizam em nome dEle. Este mesmo princípio se aplica ao caso em que Deus se serve de um ministro para perdoar os pecados na Confissão.


3.º) Em que lugar a Bíblia diz que a revelação se encerrou com o fim da era apostólica?

Os protestantes afirmam também que a Palavra de Deus se reduz ao que está registrado nas Escrituras, de maneira que não houve nenhuma nova revelação depois de ter sido escrito o último livro da Bíblia. Os católicos aceitam que a revelação pública, ou seja, o depósito da fé, terminou com a morte do último Apóstolo (isto inclui os Apóstolos e seus companheiros, como São Marcos e São Lucas). Nós, porém, não concordamos com a ideia de que esta verdade só pode ser conhecida unicamente pelas Escrituras. Os protestantes que têm uma atitude cética com respeito à Sagrada Tradição deveriam perguntar-se a si mesmos por que motivos acreditam que a revelação pública acabou, já que as Escrituras por si sós não o garantem.

Há no entanto quem diga que essa verdade se baseia em Jd 3, onde se fala da “fé, confiada de uma vez para sempre aos santos” — o que por si mesmo não prova que a revelação pública tenha terminado de vez. O apologista protestante John MacArthur defende que a palavra grega traduzida aqui por “confiada” designa “uma ação completa no passado e sem continuidade”. Ele afirma ainda que a expressão “de uma vez para sempre” (em grego, hapax) equivale a “nada mais precisa ser acrescentado à fé que já foi transmitida ‘de uma vez para sempre’”. Ora, isso implicaria que a “fé” já fora definitivamente transmitida antes mesmo de Judas escrever sua carta, o que, noutras palavras, significa que o ensinamento de Judas a respeito da conclusão da revelação pública não faz parte, ele mesmo, da revelação pública contida nas Escrituras.

Aí também se confunde a expressão “confiar a fé” com o conceito de revelação pública. Jesus confiou “a fé” de uma vez para sempre aos Apóstolos, mas a revelação pública da fé continuou durante décadas, enquanto eram escritos os livros do Novo Testamento. Ora, não há nenhuma evidência bíblica explícita de que essa revelação tenha acabado depois da morte do último Apóstolo (e nem de que tenha continuado, não já por décadas, mas por séculos).

Católicos e protestantes estão de acordo quanto ao fato de a revelação pública ter-se concluído, sim, na era apostólica da Igreja. O Catecismo ensina que “já não se há de esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (n. 66). Os católicos, não obstante, crêem nesta verdade baseados na autoridade do Magistério, que preserva o conteúdo da Palavra de Deus em suas duas formas: escrita (Bíblia) e não escrita (Tradição) — e não, como fariam os protestantes, baseados apenas no ensinamento das Escrituras.

Por isso, quando um protestante perguntar: “Onde a Bíblia diz isso?”, você deve, com toda caridade, perguntar de volta: “Onde a Bíblia diz que tudo o que nós, cristãos, devemos crer precisa estar escrito na Bíblia?” Assim, você poderá mostrar como outras crenças protestantes estão enraizadas, não nas Escrituras, mas em tradições — humanas ou divinas.

As almas do Purgatório podem rezar por nós?

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É de fé católica que nós não só podemos, como devemos rezar pelas almas do Purgatório. Mas o contrário também seria possível? As almas penadas podem rezar por nós? Neste vídeo, confira a reflexão que fizeram a esse respeito Santo Tomás e Santo Afonso, doutores da Igreja.

A Igreja da Suécia e o Deus “de gênero neutro”

Jesus cristo homem blog

A Igreja da Suécia deixará de se referir a Deus com termos masculinos, como “Ele” ou “Senhor”, segundo vários sites de notícias. De acordo com a “arcebispa” Antje Jackelén, líder da denominação, “Deus não é humano” e “está além de nossas determinações de gênero”.

A novidade foi anunciada no último dia 23 de novembro, após oito dias de conferência, durante os quais foram discutidas mudanças nos serviços religiosos “em termos de linguagem, hinos e liturgia”. A medida será adotada a partir de Pentecostes do ano que vem, 20 de maio de 2018.

É importante esclarecer, antes de qualquer coisa, que a chamada “Igreja da Suécia” é uma comunidade protestante de confissão luterana. O ramo separou-se da Igreja Católica em 1527, permanecendo vinculado ao Estado até o ano de 1999. Trata-se de mais um ramo evangélico que se rendeu, há muito tempo, à ordenação de mulheres — e isso sem dúvida nenhuma influenciou a decisão em questão.

A grande pergunta que precisa ser respondida é com que edição das Sagradas Escrituras os protestantes suecos pretendem trabalhar a partir de agora. Sim, porque, se o melhor modo de invocar a Deus e se referir a Ele é com expressões “de gênero neutro”, a tradição judaico-cristã inteira precisa ser reformulada. O que será feito dos trechos bíblicos numerosíssimos que fazem questão de invocar a Deus com termos masculinos? Os luteranos da Suécia continuarão, por acaso, a rezar o Pai-Nosso? Ou terão de formular, pelo contrário, uma versão da oração mais adequada às teorias de gênero — talvez um “Mãe-Nossa”?

O Homem das Dores Abençoando, de Hans Memling.

E quanto a Jesus Cristo? A dirigente da Igreja Sueca, Antje Jackelén, acerta ao dizer que “Deus não é humano” e, portanto, não possui sexo. Com o mistério da Encarnação, no entanto, o Verbo divino se fez homem, do sexo masculino. Jesus de Nazaré não era um espírito sem corpo, tampouco um andrógino. Também se evitará chamar-lhe de “Senhor”, de “Mestre” e de “Redentor”?

Essas são interrogações pertinentíssimas, às quais os cristãos pretensamente “avançados” de nosso tempo precisam dar uma resposta adequada, sob o risco de fazer cair em descrédito toda a herança que receberam não só dos Apóstolos, mas também dos patriarcas e dos profetas do Antigo Testamento. Se há uma coisa que precisa ser (re)gravada em nossa memória — especialmente em tempos de relativismo —, é o fato de que a fé não é algo que se inventa, mas um dom que se recebe: “Eu vos transmito aquilo que eu mesmo recebi” (1Cor 11, 23; 15, 3).

A esse propósito, vale muito a pena revisitar uma resposta que o Papa Bento XVI concedeu a essa questão, em seu livro “Jesus de Nazaré”. Trata-se de uma solução bastante despretensiosa para o problema, mas que sem dúvida joga uma luz no modo como devemos nos dirigir a Deus. Os grifos no excerto são nossos:

Não é Deus também mãe? Há a comparação do amor de Deus com o amor de uma mãe: “Como uma mãe consola os seus filhos, assim Eu vos consolo” (Is 66, 13). “Acaso pode uma mulher esquecer-se do menino que amamenta, uma mãe esquecer-se do seu filho: E mesmo quando ela o esquecesse: Eu não te esqueço” (Is 49, 15). Particularmente impressionante se revela o mistério do amor materno de Deus na palavra hebraica rahamim, que significa propriamente o seio materno, mas que se torna então caracterização da compaixão divina para com o homem, da misericórdia de Deus.

Órgãos do corpo humano tornam-se caracterizações no Antigo Testamento, atitudes fundamentais do homem ou também dos sentimentos de Deus, de um modo semelhante ao que o coração e o cérebro desempenham hoje sendo afirmações sobre nossa própria existência. Assim, o Antigo Testamento representa as atitudes fundamentais da existência não de um modo conceitual abstrato, mas na linguagem imagética do corpo. O seio materno é a expressão mais concreta para o íntimo entrelaçar-se de duas existências e para a atenção à dependente e frágil criatura que no corpo e na alma está totalmente em segurança no seio da mãe. A linguagem imagética do corpo oferece-nos assim uma compreensão mais profunda dos sentimentos de Deus a respeito do homem, do que seria possível a qualquer linguagem conceitual.

Se na linguagem formada a partir da corporeidade do homem parece inscrito o amor da mãe na imagem de Deus, vale porém, ao mesmo tempo, que Deus nunca é designado como mãe nem que com esta invocação alguém a Ele se dirija, nem no Antigo nem no Novo Testamento. “Mãe” não é na Bíblia um título divino. Por quê? Só podemos tentar compreender isto às apalpadelas. Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher, mas precisamente Deus, o criador do homem e da mulher. As divindades maternas, que habitavam nos espaços ao redor tanto do povo de Israel como da Igreja do Novo Testamento, mostram uma imagem da relação entre Deus e o mundo que é inteiramente oposta à imagem bíblica de Deus. Elas incluem sempre, e mesmo inevitavelmente, concepções panteístas, nas quais desaparece a distinção entre o Criador e a criatura. O ser das coisas e dos homens aparece deste ponto de partida necessariamente como uma emanação do seio materno do ser, o qual se temporaliza na pluralidade dos entes.

Em contraste com esta concepção, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura transcendência de Deus. Mas mesmo se não podemos oferecer absolutas nem concludentes fundamentações, para nós permanece normativa a linguagem da oração de toda a Bíblia, na qual, como dissemos, apesar de todas as grandes imagens do amor materno, “mãe” não é nenhum título divino, não é nenhuma alocução para Deus. Nós rezamos como Jesus no horizonte da Sagrada Escritura nos ensinou a rezar, não como nos lembra ou nos apetece. Só assim é que rezamos corretamente. [1]

Evidentemente, muitos outros aspectos desse problema poderiam ainda ser abordados. Por ora, no entanto, é suficiente para a nossa reflexão o fato de que, as comunidades cristãs que nasceram depositando unicamente na Bíblia o fundamento de sua fé hoje, curiosamente, são as que mais se afastam, em sua estrutura hierárquica, em sua liturgia e em sua moral, daquilo que realmente dizem as Sagradas Escrituras.

“Para nós”, católicos, ao contrário, “permanece normativa a linguagem de oração de toda a Bíblia”, diz o Papa emérito Bento XVI. “Nós rezamos como Jesus no horizonte da Sagrada Escritura nos ensinou a rezar” — não como nos agrada!