Mês: junho 2015

A purificação da imaginação

Como purificar a imaginacao frame

Em nossa busca pela santidade, temos de estar atentos à urgência de purificar não apenas o corpo, mas também a alma, porque, se não nos conformamos inteiramente a Cristo, somos quase um reino dividido contra si mesmo; por isso, se desejamos nos oferecer a Deus como sacrifício vivo (cf. Rm 12, 1), devemos combater com particular empenho a raiz dos males que nos prendem o passo na vida espiritual. Tendo em vista a importância da mortificação interior para a vida cristã, abordaremos na direção espiritual de hoje um problema não menos atual quanto delicado: a purificação da imaginação. Ora, como a prática de certas mortificações externas facilita em muito a educação de nossas potências interiores, daremos algumas sugestões que, de um modo geral, possam ajudá-lo a domar essa que é, como se costuma dizer, “a louca da casa”.

A imaginação, com efeito, impõe não poucas dificuldades ao nosso crescimento interior, sobretudo se levarmos em conta que ela é, para a grande maioria dos cristãos, fonte de inúmeras distrações durante a oração. Esse é talvez o mais corriqueiro problema que o fiel sinceramente dedicado a levar uma vida santa tenha de enfrentar. S. Teresa d’Ávila, com seu realista bom humor, chamava-lhe “taramela do moinho” [1], peça de madeira cuja função é fazer cair da tremonha o grão de trigo, enquanto, batendo na mó, emite constantemente um barulho incômodo. Essa comparação ilustra bem como, com seus ruídos, a imaginação parece escarnecer de nossa alma, ocupada a todo custo em moer o trigo da prece: é desta inquietação interior que “provêm as aflições de muitas pessoas voltadas para a oração” [2].

Purificar a imaginação, nesse sentido, é uma tarefa essencial a quem deseja crescer espiritualmente e se torna ainda mais necessária devido à facilidade com que, hoje em dia, temos acesso a toda sorte de imagens que se fixam à alma para nos recordar, de modo às vezes incansável, as imundícies que vimos, inadvertidos ou não, ao longo da vida. É muito difícil pensar, aliás, como se poderiam vencer as tentações que o mundo nos oferece aos olhos se não tivéssemos o cuidado de mortificar a vista, à qual se insinuam, por exemplo, a imodéstia e a imoralidade dos trajes atuais [3]. Mas afinal, que podemos fazer no dia-a-dia para que a imaginação não seja para nós nem causa de distração nem ocasião de pecado?

Antes de responder a essa pergunta, convém termos bem claro o que é e para que serve a imaginação, sem exaltá-la para além de sua função própria nem desprezá-la como adventícia ou nociva à vida de oração. Vejamos, pois, em linhas gerais qual o lugar por ela ocupado na constituição psicológica do homem.

A imaginação é uma faculdade sensitiva, comum tanto a nós quanto aos animais dotados de sensibilidade [4], pela qual representamos mentalmente a imagem de um objeto atingido pelos sentidos exteriores; de modo eminente, mas não exclusivo, pela visão [5]. Ora, diversamente dos demais sentidos, cuja atividade se produz pela presença real de seu objeto (por exemplo, o som que chega aos órgãos auditivos, a luz que excita o nervo óptico etc.), a imaginação funciona independentemente de a coisa por ela representada estar ou não presente ao sujeito [6]. Deste modo, à imaginação cabe o encargo de receber as percepções sensoriais, que, unificadas, podem ser retidas e posteriormente reproduzidas segundo uma representação mental [7]; podemos dizer, por isso, que não há nada em nossa imaginação que não tenha passado antes pelos sentidos externos. Ora, se esses mesmos sentidos, por um lado, referem-se a seus objetos próprios de modo meramente receptivo (ou seja, não conhecem senão que lhes está presente de forma imediata), a imaginação, por outro, é uma faculdade produtiva, já que as imagens por ela formadas são o material de que a inteligência precisa para trabalhar e elaborar as noções abstratas “às quais se aplica nossa reflexão.” [8]

Assim sendo, a imaginação é parte integrante do nosso processo cognitivo e não é possível, sem desvirtuar o modo humano de conhecer [9], prescindir dela. Trata-se na verdade de discipliná-la e subordinar seu uso ao fim que lhe compete. O pecado original, porém, levando muitas vezes ao excesso o apetite natural de nossa faculdade imaginativa por servir ao intelecto, fá-la perder-se em lembranças e divagações, dissipa-lhe as forças em pensamentos inúteis. A realidade destes extravios não necessita de demonstração: bastar recordar as tantas vezes em que, durante a oração, pegamo-nos a resolver os problemas do presente, a elaborar projetos para o futuro, a gabar da própria “piedade”. E deixamos Deus a falar sozinho! Por ser uma potência muito ligada às sensações físicas, não é de estranhar que a imaginação queira recorrentemente sobrepor-se aos ditames da razão e da vontade.

Ora, se a imaginação é, em si mesma, algo bom e útil à alma, ela pode converter-se em grande auxílio para o nosso crescimento espiritual, desde que retamente educada. O próprio Cristo, perfeito homem e, portanto, muito imaginativo, ensinou por meio de parábolas as turbas que O seguiam, a fim de elevá-las, mediante imagens tiradas da vida ordinária do povo hebreu, a realidades espirituais inexprimíveis em termos exclusivamente terrenos. Nosso Senhor, assim, ofereceu-nos o alimento de que a imaginação humana precisa: imagens que, ruminadas, saboreadas, conduzem nosso espírito a estados contemplativos cada vez mais elevados.

Mas antes de chegar a este nível, é preciso pôr rédeas à fantasia. Vejamos agora quais os meios gerais que a ascese cristã dispõe aos que desejam purificar a imaginação [10] e viver, deste modo, como Jesus viveu (cf. 1 Jo 2, 6).

  1. Guardar os sentidos exteriores. — A imaginação é alimentada pelos sentidos exteriores, especialmente pela vista; por isso, as impressões neles causadas repercutem também nela. Deve-se evitar, portanto, tudo o que, de alguma maneira, pode fazer com que a imaginação, reproduzindo e combinando de mil e um modos imagens vãs e torpes, nos incite a desejar algo mal e pecaminoso. Nós não precisamos ver e ouvir tudo; não somos lixeira. Se, por exemplo, nos percebemos a repousar a vista em algo que nos desvia do propósito de nossa existência, servir e amar a Deus, então é hora de fechar os olhos: “Tudo o que não leva a Deus é um estorvo. Arranca-o e joga-o para longe.” [11]
  2. Selecionar as leituras com cuidado. — É preciso ser criterioso na hora de escolher o que se ler. É prudente evitar, sempre que possível, aquelas leituras que, além de não nos servirem para nada (nem mesmo para o descanso), podem ser perigosas, seja pelos erros contrários à Fé por elas divulgados, seja pelo conteúdo obsceno e escandaloso com que prestam um grande desserviço à formação sobretudo dos jovens. São Josemaría Escrivá já advertira: “Livros. Não os compres sem te aconselhares com pessoas cristãs, doutas e prudentes. – Poderias comprar uma coisa inútil ou prejudicial. Quantas vezes julgam levar debaixo do braço um livro… e levam um montão de lixo.” [12]
  3. Combater a ociosidade. — Nossa alma, estando unida ao corpo, não pode pensar sem imagens. Por causa disso, a imaginação, sempre inquieta, tem de ocupar-se em atividade úteis e proveitosas, se não queremos que ela, inclinada como está para a satisfação de nossos apetites mais baixos, nos envolva em perigosas tentações. Como diz o provérbio latino, omnium vitiorum origo otium, a origem de todos os vícios é o ócio.
  4. Oferecer objetos bons à imaginação. — Além de evitar tudo o que seja prejudicial à imaginação, é também necessário proporcionar-lhe matérias belas e santas. A imaginação está sempre em busca de alimento, e nada melhor do que lhe oferecer um sustento que não venha, no futuro, tirar-nos o sossego do espírito com lembranças inoportunas. A leitura de livros piedosos, a frequência à arte sacra etc. são boas maneiras de formar a imaginação e colocá-la a serviço da razão e da vontade.
  5. Proceder sempre com atenção ao que se está fazendo. — O hábito salutar de dar atenção ao que estamos fazendo tem a grande vantagem de impedir que a imaginação vagueie livremente pela nossa mente, indo de um a outro objeto, impedindo-nos, ao fim, de cumprir nossos deveres com o capricho e amor devidos. Temos de aplicar-nos a cada trabalho como se fosse o único ou o mais importante de nossas vidas: “faz o que deves e está no que fazes.” [13]
  6. Não conceder demasiada importância a nossas distrações. — Pode suceder que, apesar de todos os esforços dispendidos, a imaginação continue a espezinhar-nos com sua petulância. Nestes momentos, é importante mantermos a serenidade e, reconhecendo perante Deus nossa pequenez e indigência, ignorarmos os assaltos da fantasia. Ainda que não possamos discernir com toda clareza se se trata de uma investida demoníaca ou de nossa própria natureza rebelde, ressentida muita vez das manchas de um passado pecaminoso, o importante é não fazer caso destas imagens e repudiar com toda energia qualquer forma de consentimento: “Não te preocupes, aconteça o que acontecer, desde que não consintas. – Porque só a vontade pode abrir a porta do coração e introduzir nele essas coisas execráveis.” [14]

Recomendação

CINTRA, Luiz Fernando. “Purificação ativa da imaginação”, in: Por que mortificar-se? São Paulo: Quadrante, 2009, pp. 69-73.

GARRIGOU-LAGRANGE, R. Las Tres Edades de la Vida Interior. Trad. esp. de Leandro de Sesma, O. F. M. Cap. Madrid: Palabra, 2007, vol. 1, pp. 398-400. Uma edição mais antiga, com a mesma paginação, encontra-se aqui.

Referências

  1. Cf. TERESA D’ÁVILA, Castelo Interior, Moradas IV, c. 1, n. 13, in: Obras Completas de Teresa d’Ávila. Trad. port. de Adail U. Sobral et al. 4.ª ed., São Paulo: Loyola, 2009, p. 476.
  2. Id., Moradas IV, c. 1, n. 9.
  3. Cf. TANQUEREY, A. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Trad. port. de João F. Fontes. 6.ª ed., Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1961, n. 770, 4, p. 371.
  4. Cf. TOMÁS DE AQUINO, Sentencia libri De anima, III, l. 6, n. 3.
  5. Cf. GREDT, J. Elementa Philosophiae Aristotelico-Thomisticae. 13.ª ed., Friburgi Brisgorviae: Herder, vol. 1, n. 497, pp. 418-9.
  6. Cf. TOMÁS DE AQUINO, Sentencia libri De anima, III, l. 6, n. 15; Sentencia libri De sensu et sensato, t. II, l. 3, n. 2.
  7. Cf. GREDT, J. De Cognitione Sensuum Externorum. Romae: Desclée et socii, 1913, n. 7, p. 5.
  8. JOLIVET, R. “Psicologia”, in: Tratado de Filosofia, vol. 2. Trad. port. de Gerardo D. Barreto. 2.ª ed., Rio de Janeiro: Agir, 1967, n. 170, 2, p. 195; cf. TANQUEREY, Adolph. Op. cit., n. 780, 1, p. 375.
  9. Cf. TOMÁS DE AQUINO, Sum. Th., I, q. 78, a. 4; q. 84, a. 7.
  10. Cf. MARIN, A. Royo. Teologia de la Perfeccion Cristiana. 4.ª ed., Madrid: BAC, 1962, vol. 1, pp. 365-6.
  11. JOSEMARÍA ESCRIVÁ, Caminho. Trad. port. de Alípio M. de Castro. 9.ª ed., São Paulo: Quadrante, n. 189, p. 75.
  12. Id., n. 339, p. 117.
  13. Id., n. 815, p. 249.
  14. Id., n. 140, p. 63.

Documentário expõe farsa do gênero na Noruega

Programa de TV denuncia falsidade da teoria e obriga Conselho Nórdico de Ministros a cortar fundos para as pesquisas de gênero. Um golpe devastador para a “Ideologia de Gênero”: o Conselho Nórdico de Ministros – uma organização de cooperação interparlamentar entre Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Islândia – decidiu cortar fundos para o Instituto Nórdico […]

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Bispos dos EUA: Suprema Corte se equivoca ao aprovar o ‘matrimônio gay’ como se equivocou ao aprovar aborto

WASHINGTON DC, 26 Jun. 15 / 05:38 pm (ACI).- O Presidente da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), Dom Joseph E. Kurtz, lamentou a falha da Suprema Corte quando pronunciou: “O matrimônio gay é um ‘direito constitucional’. Assim como há 40 anos se equivocou ao abrir as portas ao aborto no país, hoje […]

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YouCat Online – Por que dizemos "Amém" ao terminar a confissão de nossa fé?



Dizemos “Amém”, isto é, “sim”, à confissão da nossa fé, porque Deus fez de nós testemunhas da fé. Quem diz “Amém” afirma alegre e livremente a ação de Deus na Criação e na Redenção. [1061-1065]
A palavra hebraica “Amém” provém de uma família de palavras cujo o sentido pode ser o de “fé” e o de “firmeza, segurança e fidelidade”. “Quem diz amém dá a sua assinatura.” (Santo Agostinho) Podemos dizer sim “ilimitado” porque Jesus, morrendo e ressuscitando, deu-nos provas de segurança e fidelidade. Ele próprio é o “sim” humano a todas as promessas de Deus, tal como é o “sim” definitivo de Deus a nós. (527)

A triste decisão da Suprema Corte dos EUA

A Suprema Corte dos EUA, em 26.06.2015, aprovou a união conjugal de pessoas do mesmo sexo. Infelizmente, esta decisão não foi surpresa. São Paulo dizia que: “o deus deste século cega as mentes daqueles que não acreditam” (2 Cor 4,4). A mesma Corte já tinha aprovado o aborto há mais de quarenta anos. Aos poucos […]

As pulsações do Sagrado Coração de Jesus

Sagrado cora  o blog

Anunciado por todos os profetas e ansiado por todas as nações, é no Sagrado Coração de Jesus que se resume a história dos homens e onde se encontra a “fonte de toda consolação”. Dele, coração humano e divino, brotam mananciais de água viva para a humanidade inteira, conforme prometeu Isaías: “Com alegria tirareis água nas fontes do Salvador” (Is 12, 3), e conforme Ele mesmo revelou à samaritana: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (Jo 4, 10).

O culto ao coração de Nosso Senhor, no entanto, nem sempre foi compreendido da forma correta dentro da Igreja. Há quem se incomode com a ideia de adorar um “órgão humano” – mesmo que seja o de Jesus –, como se tal ato fosse um exagero ou ferisse a honra devida somente a Deus. Outros chegam a vislumbrar a beleza dessa devoção, mas, por não saberem o que ela significa, acabam não lhe dando muita importância e, muitas vezes, chegam a agir com certo desprezo para com ele, considerando o culto ao Sagrado Coração quase como uma “superstição”.

Contra essa visão completamente distorcida das coisas, o Papa Pio XII escreveu, em 1956, a riquíssima encíclica Haurietis Aquas, exatamente “sobre o culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus”. Neste documento, Sua Santidade adverte que “este culto não deve a sua origem a revelações privadas, nem apareceu de improviso na Igreja”, mas simplesmente confirma as verdades sobre a vida de Cristo e o seu imenso amor para com os homens. “Evidente é, portanto, que as revelações com que foi favorecida Santa Margarida Maria não acrescentaram nada de novo à doutrina católica” [1].

Mas, qual é, afinal, a doutrina católica a respeito do culto ao Sagrado Coração de Jesus?

Em primeiro lugar, a Igreja ensina que esse culto consiste em uma verdadeira adoração. A razão disso está na doutrina da “união hipostática” de Cristo: “Uma vez que Deus Verbo se encarnou, a carne de Cristo é adorada não por si mesma, mas porque o Verbo de Deus está unido a ela segundo a hipóstase” [2]. Assim, pois, comenta Santo Tomás de Aquino, “adorar a carne de Cristo nada mais é do que adorar o Verbo de Deus encarnado, assim como adorar a roupa do rei nada mais é do que adorar o rei que a veste” [3]. É por isso que quem reza a Ladainha do Sagrado Coração recorda que esse órgão de Cristo está “unido substancialmente ao Verbo de Deus” e que nele “habita toda a plenitude da divindade”. Os católicos, portanto, não só podem, como devem, adorar o Sagrado Coração de Jesus, sem nenhum temor ou escrúpulo.

Agora, por que tanta ênfase no coração de Cristo? Por que não adorar outro órgão qualquer de Nosso Senhor, como o cérebro, ou os Seus outros membros feridos pelos agudos cravos da Cruz? A resposta está em que, “mais do que qualquer outro membro do seu corpo – diz o Papa Pio XII –, o seu coração é o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade para com o gênero humano” [4].

Os católicos adoram o Coração de Jesus porque a fé cristã é, acima de tudo, a “religião do amor”. Na verdade, não existe nenhuma virtude maior do que a caridade (cf. 1 Cor 13, 13); nenhum mandamento maior do que o amor (cf. Mt 22, 34-40); nada tão importante quando o fato de que “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Além disso, cremos que Deus, assumindo um coração verdadeiramente humano, sujeitou-se livremente a experimentar os sentimentos mais comuns da vida de qualquer pessoa, tais como o amor e a alegria, a tristeza e o temor etc [5]. O Papa Pio XII confirma que “o coração de Cristo (…) sem dúvida deve ter palpitado de amor e de outros afetos sensíveis” [6].

Por isso, convém “meditar as pulsações do seu coração” [7], a fim de que também os nossos corações possam, com suas batidas, tributar um hino de louvor a Deus.

O Coração de Jesus “pulsa de amor ao mesmo tempo humano e divino desde que a virgem Maria pronunciou aquela palavra magnânima ‘Fiat’” [8].

O Coração de Jesus pulsou de amor quando se perdeu de seus pais e, tomado por um zelo que O consumia, aninhou-se no templo e tratou de cuidar das coisas de Seu Pai (cf. Lc 2, 49).

O Coração de Jesus pulsou de amor quando trabalhou na carpintaria de Nazaré, rodeado por São José, Seu pai adotivo, e por Sua santíssima mãe, a qual O nutria e O via crescer “em estatura, graça e sabedoria, diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 52).

O Coração de Jesus pulsou de amor quando sentiu compaixão das multidões que O cercavam (cf. Mc 8, 2), quando deu vista aos cegos, quando curou os enfermos e quando ressuscitou os mortos.

O Coração de Jesus pulsou de amor e admiração, quando viu a grande fé daquele soldado romano, cujas palavras são repetidas todos os dias na Santa Missa: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e minha alma será salva (cf. Mt 8, 8).

O Coração de Jesus pulsou de amor e de santa ira, quando expulsou os cambistas e vendilhões do templo, ordenando que não fizessem da casa de Seu Pai uma casa de comércio (cf. Mt 21, 13).

O Coração de Jesus pulsou de amor e de alegria, quando instituiu o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, deixando a Si mesmo como alimento para todos os que O haviam de seguir, até o fim dos tempos.

O Coração de Jesus pulsou de amor, de tristeza e de temor, quando rezou no Horto das Oliveiras, implorando misericórdia e suando gotas de sangue pela humanidade pecadora (cf. Mt 26, 38; Mc 14, 33).

O Coração de Jesus pulsou disparadamente quando Se entregou na Cruz, palpitando “mais pela força do amor do que pela violência dos algozes” [9].

O Coração de Jesus pulsou de amor e misericórdia, quando acolheu no Céu o bom ladrão (cf. Lc 23, 43) e perdoou os Seus carrascos do crime que cometeram (cf. Lc 23, 34).

O Coração de Jesus pulsou de amor quando entregou Maria Santíssima aos cuidados de Seu discípulo amado, designando-a mãe de toda a Igreja (cf. Jo 19, 25-27).

Finalmente, no Céu, “o seu coração sacratíssimo nunca deixou nem deixará de palpitar com imperturbável e plácida pulsação” [10], já que a aliança que firmou com a Sua Igreja é irrevogável e o Seu amor para com ela é eterno, como Ele mesmo tinha prometido: “Esta é a aliança que farei com a casa de Israel a partir daquele dia – oráculo do Senhor, colocarei a minha lei no seu coração, vou gravá-la em seu coração; serei o Deus deles, e eles, o meu povo” (Jr 31, 33).

Por todas essas pulsações do Sagrado Coração de Jesus, que também nós vivamos a nossa vida como um completo e constante ato de amor a Ele. Peçamos-Lhe a graça de imitar o Seu manso e humilde coração (cf. Mt 11, 29) e que, assim como o Seu, também os nossos se convertam em uma “fornalha ardente de caridade”.

Sacratíssimo Coração de Jesus,
tende piedade de nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta Encíclica Haurietis Aquas (15 de maio de 1956), IV, n. 52.
  2. São João Damasceno, De Fide Orthodoxa, IV, 3 (PG 94, 1105).
  3. Suma Teológica, III, q. 25, a. 2.
  4. Carta Encíclica Haurietis Aquas (15 de maio de 1956), I, n. 12.
  5. Cf. Suma Teológica, III, q. 15.
  6. Carta Encíclica Haurietis Aquas (15 de maio de 1956), II, 22.
  7. Ibid., II, 28.
  8. Ibid., III, 30.
  9. Ibid., III, 38.
  10. Ibid., II, 28.

Apostólico ou mundano?

Apostolico ou mundano frame ii

Depositum custodi, Guarda o depósito que te foi confiado!” (1 Tm 6, 20). Com estas palavras o Bem-aventurado Apóstolo Paulo, cuja feliz memória a Igreja hoje celebra, exorta seu caro discípulo e colaborador Timóteo a conservar e administrar a herança que lhe fora entregue. Esse apelo premente a acolher a tradição apostólica é, em última análise, a linha diretiva fundamental que São Paulo recomenda aos pastores, especialmente aos epíscopos, e que irá, já no primeiro século, informar e disciplinar a vida das comunidades cristãs então nascentes [1]. A comunicação contínua e fiel deste sagrado depósito, com efeito, é o meio por que a Igreja, “em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê.” [2] “Nós não transgredimos os antigos marcos fixados por nossos Pais” (cf. Pr 22, 28), diz São João Damasceno, “mas, ao contrário, conservamos e guardamos as tradições tal qual as recebemos.” [3] A presença vivificante desta grande Tradição é a garantia de que a Igreja, fiel a tudo o que os Doze Apóstolos do Cordeiro (cf. Ap 2, 14) receberam do próprio Senhor Jesus e, inspirados pelo Espírito Santo, transmitiram às primeiras gerações, preserva ainda hoje a nota essencial de sua apostolicidade [4], porque, “mesmo se em pequeninas coisas começássemos a desmantelar o edifício da Igreja”, continua São João Damasceno, “todo ele em breve viria abaixo.” [5]

A necessidade de anunciar a todas as gentes o Evangelho de Jesus Cristo, Verbo feito carne, provém do infinito amor com que Deus, no mistério de Sua benevolência, deseja que todos sejamos salvos e cheguemos ao conhecimento da verdade (cf. 1 Tm 2, 4) que liberta (cf. Hb 2, 14-5), ou seja, do Seu próprio Filho Unigênito, que, detendo a chave do Hades (cf. Ap 1, 18), nos tira da “alienação do pecado e da morte” [6]. Por isso, aprouve a Deus preservar em sua pureza aquelas coisas que revelara para a nossa salvação [7], a fim de que fossem íntegra e fielmente transmitidas a todos os povos e a todos os homens. Tendo, assim, ordenado aos Apóstolos, chamados desde o princípio para estarem com Ele e pregarem a Palavra (cf. Mc 3, 13), que iniciassem e plantassem a Igreja [8], na qual, sob a condução do Espírito Santo, a fonte de toda verdade salvífica está depositada, Cristo quis que o Seu Evangelho fosse conservado inalterado “por uma sucessão contínua, até à consumação dos séculos.” [9] Trata-se, portanto, de transmitir e conservar, antes de mais, a fé apostólica: “Eu vos lembro, irmãos, o Evangelho que vos preguei, e que tendes acolhido, no qual estais firmemente. […] Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido” (1 Cor 15, 1-3).

Trata-se, em segundo lugar, de guardar o patrimônio constituído pelo que os Apóstolos, conforme o que aprenderam da convivência com Cristo e das sugestões do Espírito Santo [10], nos legaram por escrito ou oralmente e que vem, de cristão em cristão, de geração em geração, enriquecendo e se transfundindo “na praxe e na vida da Igreja crente e orante” [11], a qual unicamente pode reclamar para si o direito de propriedade sobre essas riquezas que testemunham, de modo inequívoco, o canal apostólico por que chegaram até nós e as origens da mesma Igreja, construída sobre o fundamento dos Apóstolos (cf. Ef 2, 20). Diz, nesse sentido, São Basílio Magno:

Dentre as verdades e os ensinamentos conservados na Igreja, alguns chegaram até nós pela transmissão de uma doutrina escrita; alguns, porém, transmitidos em segredo [in mysterio tradita], nós os recebemos da tradição dos Apóstolos. Ora, uns e outros têm a mesma força quanto à piedade, e ninguém, por menos instruído que seja a respeito das instituições da Igreja, poderá negá-lo. De fato, se ousarmos desprezar como de pouca monta os costumes não transmitidos por escrito, feriremos inadvertidamente o Evangelho em seus mais importantes pontos e, além do mais, esvaziaremos a pregação de todo conteúdo [12].

A fidelidade a este depósito precioso, que remonta àquelas doze colunas santas que Deus pessoalmente escolhera como sustentáculos de Sua Igreja, coluna da verdade (cf. 1 Tm 3, 15), é o que torna apostólica a Santa Igreja Romana, que, em meio às dificuldades e exigências deste nosso tempo, peregrina em direção à sua consumação celeste. Deste modo, não cessando Deus de falar ao Seu Povo por meio desta Tradição, “a comunicação que o Pai fez de Si mesmo por Seu Verbo no Espírito Santo permanece presente e atuante na Igreja” [13], sempre atenta às “salutares palavras ouvidas da boca dos Apóstolos” [14]. É ainda a mesma autoridade apostólica que ensina, santifica e dirige a Igreja, graças aos que, “sem qualquer ruptura e interpolação” [15], sucedem aos mesmos Apóstolos no múnus de reger a Igreja até ao final dos tempos, a saber: o colégio episcopal, “assistido pelos presbíteros em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja.” [16] Tal continuidade, ao excluir qualquer interrupção, por menor que seja, conta com a assistência do próprio Cristo, que garantira: “Eis que estarei convosco todos os dias” (Mt 28, 20).

Assim, para que o Evangelho sempre se conserve “íntegro e vivo na Igreja” [17], os Apóstolos, ao transmitir aos seus sucessores não apenas o que aprenderam de Nosso Senhor, mas também a autoridade que por Ele lhes foi conferida, continuam a exortar-nos, por meio dos bispos, a conservar e manter as tradições que aprenderam e a combater pela fé uma vez <para sempre> a eles transmitidas (cf. Jd 3).” [18]. O dever, pois, que cada fiel tem de preservar e comunicar tudo quanto vem dos Apóstolos e sempre foi crido e ensinado em todas as épocas, em todos os lugares [19], deriva da missão que o Senhor confiou à Sua Igreja e que ela cumpre desde Pentecostes: guardar o depósito da fé [20]. Ora, essa herança que nos foi deixada e que temos o dever de transmitir às novas gerações de fiéis, lembra o Concílio Vaticano II, “abrange tudo o que contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé” [21].

Dentre os elementos que constituem e manifestam a vida e a santidade da Tradição Apostólica, os Sagrados Mistérios—e de modo especial a liturgia—ocupam um lugar de destaque. De fato, quando a Igreja celebra os sacramentos instituídos por Nosso Senhor, ela confessa e professa o que recebeu dos Apóstolos, exibindo pela oração o que crê pela fé e almeja pela esperança [22]. Devido a essa conexão entre fé orante e oração crente, “nenhum rito sacramental pode ser modificado ou manipulado ao arbítrio do ministro ou da comunidade.” [23] Por isso, as solenes e venerandas cerimônias que acompanham a administração dos diversos sacramentos, se bem não se refiram tanto à essência e à substância deles quanto à utilidade e à piedade dos fiéis, expressam ao seu modo os tesouros da fé cristã e prestam um auxílio à nossa natureza, “que não se consegue elevar facilmente à meditação das realidades divinas sem recursos exteriores.” [24] Servindo-se, assim, da disciplina e tradição apostólicas, respeitosamente conservadas ao longo da história, a Igreja, “mãe piedosa” [25], embeleza os seus mistérios com certos ritos e sinais sensíveis, a fim de que as coisas santas sejam santamente tratadas e veneradas e, significada por vários símbolos a admirável eficácia destes sacramentos, nosso espírito seja elevado à contemplação e participação das grandíssimas realidades neles contidas [26].

Recomendações

MARTÍN, Enrique Cases. Los Doce Apóstoles. Pamplona: EUNSA, 1997.

TRESE, Leo J. A Fé Explicada. 6.ª ed., São Paulo: Quadrante: 1995, pp. 152-3.

Referências

  1. Cf. MORESCHINI, C.; NORELLI, E. História da Literatura Cristã Antiga Grega e Latina. Trad. port. de Marcos Bagno. São Paulo: Loyola, 1996, vol. 1, p. 193.
  2. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática “Dei Verbum” (DV), de 18 nov. 1965, n. 8; cf. Catecismo da Igreja Católica (CIC), n. 78.
  3. São João Damasceno, De imaginibus oratio, II, 12 (PG 94, 1298 B).
  4. Cf. CIC, nn. 78 e 83.
  5. São João Damasceno, op. cit., loc. cit.
  6. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução “Donum Veritatis“, de 24 mai. 1990, n. 1.
  7. Cf. DV, n. 7.
  8. Cf. BILLOT, L. Tractatus De Ecclesia Christi. 3.ª ed., Prati, ex officina Libraria Giachetti, 1909, vol. 1, p. 234.
  9. DV, n. 8; cf. CIC, n. 77.
  10. Cf. CIC, n. 76.
  11. CIC, n. 78.
  12. São Basílio Magno, Liber De Spiritu Sancto, XXVII, 66 (PG 32, 187 A-B).
  13. CIC, n. 79.
  14. CIC, n. 857.
  15. BILLOT, L. Op. cit., p. 234.
  16. Concílio Vaticano II, Decreto “Ad Gentes“, de 7 dez. 1965, n. 5; cf. CIC, n. 857.
  17. DV, n. 8.
  18. Id., ibid.
  19. Cf. Vicente de Lérins, Commonitorium, c. 2.
  20. Cf. João Paulo II, Constituição Apostólica “Fidei Depositum“, de 11 out. 1992, intr.
  21. DV, n. 8.
  22. Cf. CIC, 1124,
  23. Id., n. 1125.
  24. Concílio de Trento, 22.ª sessão, c. 5 (DH 1746).
  25. Id., ibid.
  26. Cf. TANQUEREY, A. Synopsis Theologiae Dogmaticae. 25.ª ed., Typis Societatis Sancti Joannis Evangelistae. Paris: Descleé & Socii, 1945, vol. 3, n. 436, pp. 305-6.

Agenda de gênero, uma agenda bem programada!

Neste artigo, Pe. Rafael Solano, faz um alerta muito sério acerca de uma agenda de 8 itens que vem-se instaurando sorrateiramente nas mentalidades e culturas mundiais. Quando ouvimos falar em ideologia de gênero, pensamos que estamos diante de uma situação definitiva. Tenho ouvido muitos se manifestarem contra e tantos outros se manifestarem a favor. O […]

É PRECISO CAMINHAR 2015-06-27 22:26:00

04/07/2015
 
JEJUAR E VIVER NA NOVIDADE RADICAL DE JESUS

Sábado da XIII Semana Comum

 

Evangelho: Mt 9,14-17

Naquele tempo, 14 os discípulos de João aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Por que razão nós e os fariseus praticamos jejuns, mas os teus discípulos não?” 15 Disse-lhes Jesus: “Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão. 16 Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão fica maior ainda. 17 Também não se põe vinho novo em odres velhos, senão os odres se arrebentam, o vinho se derrama e os odres se perdem. Mas vinho novo se põe em odres novos, e assim os dois se conservam”.
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O texto do Evangelho de hoje fala sobre o jejum. Mas, no contexto do evangelho deste dia, não deveríamos entender a polêmica sobre o jejum dentro do contexto da prática ascética, isto é, privar-se da comida e da bebida com uma finalidade de penitência ou de solidariedade com os necessitados, repartindo o que temos com eles. Jejuar consiste essencialmente em nos privar de alimento, pelo sentido da palavra, mas em geral é referido a qualquer tipo de privação. O jejum começa a reentrar na nossa cultura atual por razões de dieta e de estética, ou aconselhado por certas formas de religiosidade, com origem no Oriente.

É evidente que o jejum continua tendo sentido para os cristãos. Jejum é um melhor meio para expressar nossa humildade e nossa conversão aos valores essenciais diante de uma sociedade dominada pelo consumismo desenfreado. Até os judeus piedosos jejuavam duas vezes na semana (segunda-feira e quinta-feira), como também os seguidores de João. O próprio Jesus jejuou no deserto (cf. Mt 4,2). A Igreja, como sempre, também recomenda o jejum, particularmente na Quaresma e pelo menos, uma hora antes da comunhão eucarística, como está escrito no Código de Direito Canônico (CIC): “Quem vai receber a santíssima Eucaristia abstenha-se de qualquer comida ou bebida, excetuando-se somente água e remédio no espaço de ao menos uma hora antes da sagrada comunhão” (Cân. 919). Fala-se de ao menos uma hora antes da sagrada comunhão e não uma hora antes da missa.

Nós, cristãos, jejuamos porque ainda não nos deixamos invadir completamente pelo amor de Cristo Jesus. Jejuamos para Lhe dar lugar em nós, para que o Senhor possa ocupar toda a nossa existência a fim de que sejamos reflexos d’Ele neste mundo. Jejuamos para nos unirmos à sua Paixão-Ressurreição.

Mas podemos entender mal as motivações do jejum ou até cair no egoísmo e no orgulho. Por isso, a mesma Igreja, nos alerta para duas dimensões essenciais do jejum: a sua referência a Cristo e a sua dimensão de solidariedade. Além disso,  nós jejuamos para nos tornarmos sensíveis à fome e à sede de tantos irmãos, e para assumirmos a nossa responsabilidade na resolução dos problemas dos pobres e carentes. O verdadeiro jejum é dividir o que temos para oferecer a quem nada tem para viver. É dar nossas roupas para cobrir quem está sem nada para se vestir, comida para quem não a tem, bebida para quem não tem nada para saciar sua sede e assim por diante (cf. Mt 25,31-46). Sabemos que jamais podemos arrancar totalmente o sofrimento alheio, mas uma parte dele pode ser aliviada com nossa solidariedade e compaixão. Ninguém pode entrar no céu feliz deixando o irmão passando fome e outras necessidades básicas para um ser humano viver dignamente.

O jejum cristão não consiste apenas em abster-se de alimentos. Consiste, sobretudo, em desejar o encontro com Jesus salvador e o encontro com irmão, especialmente com irmão carente do básico para viver e sobreviver como um ser humano. Não podemos restringir o jejum em não comer a carne. A maioria de nossa gente nem arroz tem e muito menos a carne. O verdadeiro jejum é dividir o que temos para oferecer a quem nada tem para viver. É dar nossas roupas para cobrir quem está sem nada para se vestir (cf. Mt 25,31-46). Para o Antigo Testamento, ajudar os pobres é um dever sagrado: “Nunca deixará de haver pobres na terra; é por isso que eu te ordeno: abre a mão em favor do teu irmão, do teu humilde e do teu pobre em tua terra” (Dt 15,11). Sabemos que jamais podemos arrancar totalmente o sofrimento alheio, mas uma parte dele pode ser aliviada com nossa solidariedade e compaixão. Ninguém pode entrar no céu feliz deixando o irmão passando fome e outras necessidades básicas para um ser humano viver dignamente.

O jejum verdadeiro consiste em quebrar todas as cadeias injustas, em repartir o pão com o faminto. Segundo o profeta Isaias (Is 58,6-9), o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. Caso contrário, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver.

Tendo presentes estas dimensões, entendemos melhor o sentido do jejum que nos é recomendado e pedido pela Igreja, e mais facilmente evitamos cair na busca de uma perfeição individualista e fechada, sem nos preocuparmos com Cristo presentes nos outros, principalmente nos necessitados (Mt 25,40.45). Por isso, o jejum cristão não consiste apenas em abster-se de alimentos. Consiste, sobretudo, em desejar o encontro com Jesus salvador e o encontro com irmão, especialmente com irmão carente do básico para viver e sobreviver como um ser humano.

Mas no contexto do evangelho de hoje o jejum deve ser entendido como sinal da espera messiânica. É uma controvérsia que os discípulos de João provocam, e que essa polêmica se refere à aceitação ou não de Jesus Cristo como o enviado de Deus. Essa polêmica tem como fundo a queixa de Jesus. Os discípulos de João e os fariseus não reconhecem Jesus como o enviado de Deus e, por isso, não mudam de vida. Por esta razão Jesus põe três comparações sobre si próprio: Primeiro, Jesus é o noivo ou esposo e, portanto, todos deveriam estar de festa e na festa, e não de luto. Segundo, Jesus é o traje novo que não admite qualquer remendo ou algo de coisa velha posto no novo. É preciso renovar-se. O código do mundo em desenvolvimento é a renovação e a transformação. Se não há nada que mude fora de nós é porque nada mudou dentro de nós. “Se procuras algo bom, procura-o em ti mesmo até que o encontres” (Epicteto). Para que possamos alcançar nossos objetivos em tempo recorde, precisamos ser pessoas que renovam sua mente. Renovar significa colocar algo novo na mente. Uma pessoa que alcança o sucesso dos seus sonhos renova continuamente os seus pensamentos e avalia permanentemente suas atividades.Terceiro, Jesus é o vinho novo que não pode ser colocado nos odres velhos. Os discípulos de João deveriam aprender a lição porque João chama a si mesmo de “o amigo do noivo” (Jo 3,29).

O que Jesus quer ensinar através do texto do Evangelho de hoje é a atitude que os seus seguidores devem ter: a festa e a novidade radical. Estando com Cristo e sabendo que Cristo está com eles, os cristãos não devem viver tristes. O cristianismo é, sobretudo, festa porque se baseia no amor de Deus, na salvação que nos oferece em Cristo Jesus, na vida que não termina com a morte, pois Cristo Jesus venceu a morte através de sua ressurreição. Esse mesmo Cristo Jesus nos comunica sua vida e sua graça na Eucaristia que nos faz vivermos a vida na alegria e na graça apesar de suas dificuldades, pois nosso Deus é o Deus-Conosco.

Por isso, viver em Cristo e viver com Cristo significa viver na novidade radical. Crer em Jesus Cristo e segui-Lo não significa mudar apenas alguns pequenos detalhes, ou por uns remendos novos para um traje velho ou guardar o vinho novo da fé nas estruturas caducas do pecado. Seguir Jesus significa mudar o vestido inteiro, é mudar de mentalidade para enxergar além das aparências, para ampliar o horizonte. É ter um coração novo que prefere a misericórdia ao sacrifício (Mt 9,13) . Seguir Cristo significa que os seus ensinamentos devem afetar toda a nossa vida e não somente umas orações ou práticas piedosas. As praticas religiosas isoladas do compromisso com a vida e com os necessitados não nos levam para Deus.

P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2015-06-27 14:36:00

 
SÃO TOMÉ, APÓSTOLO

A FÉ EM DEUS NOS TORNA VERDADEIRAMENTE FELIZES

3 de Julho

Evangelho: Jo 20,24-29

24 Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir as marcas dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26 Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27 Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. 28 Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29 Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”
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Hoje, 03 de Julho, celebramos a festa do apóstolo Tomé, o cético, o incrédulo, o modelo dos realistas, dos pessimistas, dos que desconfiam quando as coisas saem bem. O Apóstolo Tomé é, como muitos homens modernos, um existencialista que não crê naquilo que não toca, porque não quer viver das ilusões. É aquele que pensa que o pior é sempre o mais seguro.

O quarto Evangelho, isto é, o Evangelho de João nos fornece dados sobre algumas características do Apostolo Tomé. Seu nome “Tomé” significa “gêmeo” (de origem hebraica “ta’am”, “gêmeo”). No entanto, não se dá razão deste nome.

Segundo o quarto Evangelho Tomé exorta aos demais sobre o perigo da ida de Jesus para Betânia para ressuscitar Lázaro, no momento crítico da vida de Jesus (cf. mc 10,32), pois Jesus é ameaçado de morte. ”Vamos todos morrer com ele!”, alerta Tomé (Jo 11,16). Mesmo assim Tomé mostra sua fidelidade a Jesus ao acompanhá-Lo para Betânia. A fidelidade de Tomé mostra sua adesão à vida de Jesus e à causa pela qual Jesus vive e exerce sua missão. Ele segue a Jesus apesar das dificuldades neste seguimento. Seguir Jesus significa viver junto, estar no coração de Jesus como Jesus está no nosso coração e morrer junto com ele para com ele ressuscitar junto.

O Evangelho de João nos fornece outra intervenção do Apostolo Tomé, desta vez, na Ultima Ceia. Na despedida Jesus disse aos Apóstolos: “Para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (Jo 14,4), isto é, para a casa do Pai, onde Jesus e os seus vão se encontrar um dia. Jesus vai preparar esse “lugar” para eles. No entanto, Tomé mostra seu pouco conhecimento sobre esse assunto: “Senhor, não sabemos para onde tu vais!” (Jo 14,5). O pouco conhecimento de Tomé sobre esse assunto é a grande oportunidade para Jesus se revelar através da famosa frase: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Não tenha medo de nosso pouco conhecimento sobre o mistério de Deus. Basta mantermos as conversas com Deus nas nossas orações e meditações para que o mesmo Deus possa se revelar para nós algo pelo qual nós ansiamos tanto para compreender seu sentido.

O quarto Evangelho nos apresenta também uma cena bastante marcante a respeito do Apostolo Tomé: sua incredulidade. Ele não acreditava que Jesus tinha sido ressuscitado: “Se não vir em suas mãos o sinal dos pregos e não colocar meu dedo no lugar dos pregos e não colocar minha mão no seu lado, eu não acreditarei” (Jo 20, 25). Os sinais da crucificação no corpo de Jesus continuam marcando a memória de Tomé. Ele quer agora reconhecer Jesus através desses sinais. Isso significa que Tomé não se esquece da razão pela qual Jesus foi crucificado. Como se ele quisesse dizer: “Eu quero ver Jesus crucificado ressuscitado”.

A decepção de Tomé pela morte de Jesus mostra, no fundo, sua grande fé no mesmo Jesus e seu amor forte por Jesus. A nossa decepção será maior por quem amamos tanto e em quem depositamos nosso amor, quando ele sair de nossa vida sem nenhuma explicação.

Depositar nosso amor no Senhor nunca nos decepciona. O quarto Evangelho nos relatou que Jesus crucificado ressuscitado volta a aparecer no meio dos discípulos entre os quais está o Apostolo Tome. Desta vez o olhar de Jesus é dirigido, especialmente, para Tomé: “Aproxima aqui teu dedo, Tomé, e olha minhas mãos; traz tua mão e coloca-a em meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente” (Jo 20, 27). Tudo isto nos mostra que Jesus quer nos abandonar, nem quer abandonar até aqueles que desconfiam de tudo, que têm o ceticismo no coração, como Tomé. Ele também vai atrás deles e se aproxima deles. Ao ouvir o convite do Senhor, Tomé nunca se sentiu completamente comovido, porque nunca havia imaginado que Cristo atendesse um desejo tão difícil e absurdo. O pior castigo que se pode dar a quem não crê é conceder-lhe aquilo que se põe como condição indispensável para chegar à fé.

Diante dessa atenção tão grande do Senhor, que é sinal de Seu amor pelo apostolo, Tomé professa sua fé tão curta, mas tão profunda e esplêndida em todo Novo testamento: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28). A aproximação do Senhor transforma o Tomé incrédulo e pessimista no Tome crédulo. Nesta confissão Tomé não só manifesta sua fé na ressurreição de Jesus (Senhor: título pós-pascal), mas também na sua divindade (meu Deus). O credo de São Tomé “Meu Senhor e meu Deus” é a maior profissão de fé no Evangelho de São João. Trata-se, conseqüentemente, de uma oração tão viva que somente pode ser pronunciada de joelhos com muita emoção e adoração.

Com esta confissão Tomé nos ensina que a conseqüência última da ressurreição do Messias é o reconhecimento de sua condição divina. Os que crêem em Jesus Cristo de todos os séculos sempre agradecem a São Tomé por este feliz e deslumbrante ato de fé: “Meu Senhor e meu Deus”.

Diante da profissão da fé de Tomé, Jesus pronuncia uma frase que nos eleva para a categoria dos felizes porque acreditamos no Senhor: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que não viram e creram” (Jo 20, 29). Esta é a bem-aventurança do Ressuscitado. Crer, segundo o Evangelho deste dia, é renunciar a ver com os olhos da carne, a tocar com as mãos, a enfiar o dedo nas feridas do Ressuscitado para identificá-Lo. Há muitas situações humanas nas quais o físico é insuficiente, como por exemplo, o amor.

Crer é buscar e encontrar o Senhor, nosso Deus, na assembléia dos que crêem que Jesus é o Messias, na assembléia dos que encontram nos sacramentos a vida que brotou da Cruz. Crer não é saber menos ou com menos força. Crer é saber mais e mais profundamente para que nossa vida seja como a rocha: firme e inabalável diante de qualquer tempestade da vida. Não conhecemos Jesus segundo a carne, não buscamos visões ou fatos extraordinários onde apoiar nossa fé. A felicidade que nos salva agora é a presença vivificante do Senhor que nos reúne pelo Espírito do Ressuscitado na Igreja onde não cessa de nos pregar o Evangelho e de partir para nós o Pão da vida. Em cada domingo somos felizes por este encontro com o Senhor que faz a morte morrer e nos dá a vida eterna e que nos alimenta com o Pão da Vida. “Fé é crer no que não vemos. O premio da fé é ver o que cremos”, dizia Santo Agostinho (Serm. 43,1,1). E acrescentou: “A fé abre a porta ao conhecimento. A incredulidade a fecha” (Epist. 136,4).

Nosso futuro em Deus é questão de fé, não de evidência. Por isso, é necessário superar um conceito tátil e comprovador de ter que colocar as mãos para estarmos seguros do que cremos. “A vida da vida mortal é a esperança da vida imortal”, dizia Santo Agostinho (In os.103,4,17). E “não há motivo para tristeza duradoura onde há certeza de felicidade eterna”, acrescentou Santo Agostinho (Epist. 263,4). “A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se veem”, diz a Carta aos Hebreus (Hb 11,1).

A partir do evangelho de hoje em que se narra a reunião dos apóstolos como uma comunidade cujo Cristo ressuscitado está no meio dela aprendemos que a comunidade pascal é uma comunidade de crentes que se reúnem pela fé em Cristo (At 2,42-47). Nós somos irmãos de fé. A fé é que nos chama para formar uma comunidade onde somente há fraternidade e igualdade.

O Papa Bento XVI comentou: “O caso do apóstolo Tomé é importante para nós, ao menos por três motivos: primeiro, porque nos consola em nossas inseguranças; em segundo lugar, porque nos demonstra que toda dúvida pode ter um final luminoso, além de toda incerteza; e, por último, porque as palavras que Jesus lhe dirigiu nos recordam o autêntico sentido da fé madura e nos estimulam a continuar, apesar das dificuldades, pelo caminho de fidelidade a ele”.

Segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou em um primeiro momento a Síria e a Pérsia (assim afirma Orígenes, segundo refere Eusébio de Cesaréia, «Hist. Eccl.» 3, 1), e logo chegou até a Índia ocidental (cf. «Atos de Tomé» 1-2, 17 e seguintes), desde onde depois o cristianismo chegou também ao sul da Índia.

Inspirado na confissão do Apóstolo Tomé, são Nicolau de Flüe rezava, que serve também para nossa oração: “Meu Senhor e meu Deus, tira de mim tudo que me afasta de Ti; meu Senhor e meu Deus, dá-me tudo aquilo que me aproxima de Ti; meu Senhor e meu Deus, tira-me de mim mesmo para dar-me inteiramente a Ti”.

P. Vitus Gustama,svd