Mês: março 2015

A Semana Santa

O maior acontecimento da História da humanidade é a Encarnação, Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem. Nada neste mundo supera a grandiosidade deste acontecimento. Os grandes homens e as grandes mulheres, sobretudo os Santos e Santas se debruçaram sobre este acontecimento e dele tiraram a razão de […]

YouCat Online – Por que cremos na ressurreição dos mortos?

Creio … na Ressurreição dos mortos

Cremos na ressurreição dos mortos porque Cristo ressuscitou dos mortos, vive para sempre e faz-nos participantes desta vida eterna. [988-991]”

“Quando uma pessoa morre, o seu corpo é sepultado ou cremado. Contudo, cremos que existe, para essa pessoa, uma vida depois da morte. Jesus revelou-Se, na Sua ressurreição, como Senhor da morte; a Sua Palavra é fidelidade: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá.” (Jo 11,25) > 103-106″

“Porque dizem alguns no meio de vós que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é inútil e a vossa fé. … Se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos. Mas, não! Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. 1Cor 15,12-14. 19-20”

Celebrações da Semana Santa




Domingo de Ramos 
         O Domingo de Ramos dá início à Semana Santa e lembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, aclamado pelos judeus.
A Igreja recorda os louvores da multidão cobrindo os caminhos para a passagem de Jesus, com ramos e matos proclamando: “Hosana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor”. (Lc 19, 38 – MT 21, 9). Com esse gesto, portando ramos durante a procissão, os cristãos de hoje manifestam sua fé em Jesus como Rei e Senhor.
Quinta-feira Santa 
Hoje celebramos a Instituição do Sacramento da Eucaristia. Jesus, desejoso de deixar aos homens um sinal da sua presença antes de morrer, instituiu a eucaristia. Na Quinta-feira Santa, destacamos dois grandes acontecimentos:
Bênção dos Santos Óleos 
Não se sabe com precisão, como e quando teve início a bênção conjunta dos três óleos litúrgicos.
Fora de Roma, esta bênção acontecia em outros dias, como no Domingo de Ramos ou no Sábado de Aleluia.
O motivo de se fixar tal celebração na Quinta-feira Santa deve-se ao fato de ser este último dia em que se celebra a missa antes da Vigília Pascal. São abençoados os seguintes óleos:         
Óleo do Crisma – Uma mistura de óleo e bálsamo, significando plenitude do Espírito Santo, revelando que o cristão deve irradiar “o bom perfume de Cristo”. É usado no sacramento da Confirmação (Crisma) quando o cristão é confirmado na graça e no dom do Espírito Santo, para viver como adulto na fé. Este óleo é usado também no sacramento do sacerdócio, para ungir os “escolhidos” que irão trabalhar no anúncio da Palavra de Deus, conduzindo o povo e santificando-o no ministério dos sacramentos. A cor que representa esse óleo é o branco ouro.
Óleo dos Catecúmenos – Catecúmenos são os que se preparam para receber o Batismo, sejam adultos ou crianças, antes do rito da água. Este óleo significa a libertação do mal, a força de Deus que penetra no catecúmeno, o liberta e prepara para o nascimento pela água e pelo Espírito. Sua cor é vermelha.
Óleo dos Enfermos – É usado no sacramento dos enfermos, conhecido erroneamente como “extrema-unção”. Este óleo significa a força do Espírito de Deus para a provação da doença, para o fortalecimento da pessoa para enfrentar a dor e, inclusive a morte, se for vontade de Deus. Sua cor é roxa.
Instituição da Eucaristia e Cerimônia do Lava-pés        
Com a Missa da Ceia do Senhor, celebrada na tarde de quinta-feira, a Igreja dá início ao chamado Tríduo Pascal e comemora a Última Ceia, na qual Jesus Cristo, na noite em que vai ser entregue, ofereceu a Deus-Pai o seu Corpo e Sangue sob as espécies do Pão e do Vinho, e os entregou para os Apóstolos para que os tomassem, mandando-lhes também oferecer aos seus sucessores.
Nesta missa faz-se, portanto, a memória da instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. Durante a missa ocorre a cerimônia do Lava-Pés que lembra o gesto de Jesus na Última Ceia, quando lavou os pés dos seus apóstolos.
O sermão desta missa é conhecido como sermão do Mandato ou do Novo Mandamento e fala sobre a caridade ensinada e recomendada por Jesus Cristo. No final da Missa, faz-se a chamada Procissão do Translado do Santíssimo Sacramento ao altar-mor da igreja para uma capela, onde se tem o costume de fazer a adoração do Santíssimo durante toda à noite.
Sexta-feira Santa 
Celebra-se a paixão e morte de Jesus Cristo. O silêncio, o jejum e a oração devem marcar este dia que, ao contrário do que muitos pensam, não deve ser vivido em clima de luto, mas de profundo respeito diante da morte do Senhor que, morrendo, foi vitorioso e trouxe a salvação para todos, ressurgindo para a vida eterna. Às 15 horas, horário em que Jesus foi morto, é celebrada a principal cerimônia do dia: a Paixão do Senhor. Ela consta de três partes: liturgia da Palavra, adoração da cruz e comunhão eucarística. Depois deste momento não há mais comunhão eucarística até que seja realizada a celebração da Páscoa, no Sábado Santo.
Ofício das Trevas
Trata-se de um conjunto de leituras, lamentações, salmos e preces penitenciais. O nome surgiu por causa da forma que se utilizava antigamente para celebrar o ritual. A igreja fica às escuras tendo somente um candelabro triangular, com velas acesas que se apagam aos poucos durante a cerimônia.
Sermão das Sete Palavras 
Lembra as últimas palavras de Jesus, no Calvário, antes de sua morte. As sete palavras de Jesus são: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem…”, “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”, “Mulher, eis aí o teu filho… Eis aí a tua Mãe”, “Tenho Sede!”, “Eli, Eli, lema sabachtani? – Meus Deus, meus Deus, por que me abandonastes?”, “Tudo está consumado!”, “Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito!”. Neste dia, não se celebra a Santa Missa.
Por volta das 15 horas celebra-se nas igrejas católicas a Solene Ação Litúrgica comemorativa da Paixão e Morte de Jesus Cristo. À noite as paróquias fazem encenações da Paixão de Jesus Cristo com o Sermão do Descendimento da Cruz e em seguida a Procissão do Enterro, levando o esquife com a imagem do Senhor morto.         
Sábado Santo 
No Sábado Santo ou Sábado de Aleluia, a principal celebração é a “Vigília Pascal”.
Vigília Pascal 
Inicia-se na noite do Sábado Santo em memória da noite santa da ressurreição gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. É a chamada “A mãe de todas as santas vigílias”, porque a Igreja mantém-se de vigília à espera da vitória do Senhor sobre a morte. Cinco elementos compõem a liturgia da Vigília Pascal: a benção do fogo novo e do círio pascal; a proclamação da Páscoa, que é um canto de júbilo anunciando a Ressurreição do Senhor; a liturgia da Palavra, que é uma série de leituras sobre a história da Salvação; a renovação das promessas do Batismo e, por fim, a liturgia Eucarística.
Domingo de Páscoa 
A palavra páscoa vem do hebreu Peseach e significa “passagem”. Era vivamente comemorada pelos judeus do antigo testamento.
A Páscoa que eles comemoram é a passagem do mar Vermelho, que ocorreu muitos anos antes de Cristo, quando Moisés conduziu o povo hebreu para fora do Egito, onde era escravo. Chegando às margens do Mar Vermelho, os judeus, perseguidos pelos exércitos do faraó teriam de atravessá-lo às pressas. Guiado por Deus, Moisés levantou seu bastão e as ondas se abriram, formando duas paredes de água, que ladeavam um corredor enxuto, por onde o povo passou. Jesus também festejava a Páscoa. Foi o que Ele fez ao cear com seus discípulos.
Condenado à morte na cruz e sepultado, ressuscitou três dias após, num domingo, logo depois da Páscoa judaica. A ressurreição de Jesus Cristo é o ponto central e mais importante da fé cristã. Através da sua ressurreição, Jesus prova que a morte não é o fim e que Ele é, verdadeiramente, o Filho de Deus. O temor dos discípulos em razão da morte de Jesus na Sexta-Feira transforma-se em esperança e júbilo. É a partir deste momento que eles adquirem força para continuar anunciando a mensagem do Senhor. São celebradas missas festivas durante todo o domingo.
A data da Páscoa 
A fixação das festas móveis decorre do cálculo que estabelece o Domingo da Páscoa de cada ano, assim: A Páscoa deve ser celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que segue o Equinócio da Primavera, no Hemisfério Norte (21 de março). Se esse dia ocorrer depois do dia 21 de abril, a Páscoa será celebrada no domingo anterior. Se, porém, a lua cheia acontecer no dia 21 de março, sendo domingo, será celebrada de 25 de abril. A Páscoa não acontecerá nem antes de 22 de março, nem depois de 25 de abril. Conhecendo-se a data da Páscoa, conheceremos a das outras festas móveis.
Cordeiro 
         O cordeiro que os israelitas sacrificavam no templo no primeiro dia da páscoa como memorial da libertação do Egito, na qual o sangue do cordeiro foi o sinal que livrou os seus primogênitos. Este cordeiro era degolado no templo.
Os sacerdotes derramavam seu sangue junto ao altar e a carne era comida na ceia pascal. Aquele cordeiro prefigurava a Cristo, ao qual Paulo chama “nossa páscoa” (Cor 5, 7).
João Batista, quando está junto ao rio Jordão em companhia de alguns discípulos e vê Jesus passando, aponta-o em dois dias consecutivos dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jô 1, 29 e 36).Isaías o tinha visto também como cordeiro sacrificado por nossos pecados (Cf. Is 53, 7-12).
Também o Apocalipse apresenta Cristo como cordeiro sacrificado, agora vivo e glorioso no céu. (Cf. AP 5,6.12; 13, 8).
Ovo
         O costume e tradição dos ovos estão associados com a Páscoa há séculos. Símbolo da fertilidade e nova vida. A existência da vida está intimamente ligada ao ovo, que simboliza o nascimento. O sepulcro de Jesus ocultava uma vida nova que irrompeu na noite pascal. Ofertar ovos significa desejar que a vida se renove em nós.
Coelho        
Por serem animais capazes de gerar grandes ninhadas e reproduzirem-se várias vezes ao ano, sua imagem simboliza a capacidade da Igreja de produzir novos discípulos de Jesus, Filho de Deus.
Pão e vinho        
Na ceia do senhor, Jesus escolheu o pão e o vinho para dar vazão ao seu amor.
Representando o seu corpo e sangue, eles são dados aos seus discípulos para celebrar a vida eterna.
Cruz
         A cruz mistifica todo o significado da Páscoa na ressurreição e também no sofrimento de Cristo.
No Conselho de Nicea em 325 d.c., Constantim decretou a cruz como símbolo oficial do cristianismo.
Então não somente um símbolo da Páscoa, mas símbolo primordial da fé católica.
Círio Pascal        
É uma grande vela que é acesa no fogo novo, no Sábado Santo, logo no início da celebração da Vigília Pascal. Assim como o fogo destrói as trevas, a luz que é Jesus Cristo afugenta toda atreva do erro, da morte, do pecado. É o símbolo de Jesus ressuscitado, a luz dos Povos. Após a bênção do fogo acende-se, nele, o Círio. Faz-se a inscrição dos algarismos do ano em curso; depois crava-se neste, cinco grãos de incenso que lembram as cinco chagas de Jesus e as letras “alfa” e “Omega”, primeira e última letra do alfabeto grego, que significa o princípio e o fim de todas as coisas.


Fonte: http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2009/04/07/celebracoes-da-semana-santa/

Retiro quaresmal – Terça-feira santa

Primeiro, concluamos o III Cântico do Servo Sofredor:

“Quem dentre vós teme o Senhor e ouve a voz do Seu Servo?
Aquele que caminhou nas trevas, sem nenhuma luz,
ponha a sua confiança no nome do Senhor,
tome como arrimo o seu Deus.
Mas, todos vós que acendeis um fogo,
Que vos munis de setas incendiárias,
Atirai-vos às chamas do vosso fogo
E às setas que acendestes.
Por Minha mão isto vos há de sobrevir:
Deitar-vos-ei no meio dos tormentos” (Is 50,10-11).
O Cântico termina com uma exortação que é também um desafio:
Quem crê realmente no Deus de Israel?
Quem é discípulo desse Servo feito trapo humano, homem de dores?
Pois bem: que mesmo nas trevas da vida, coloque, como o Servo, a sua confiança no Senhor, Nele tome arrimo, Nele alicerce a sua vida!
Que consolo, que exortação impressionante: venha o que vier na vida, estejamos na treva mais densa, se fixarmos os olhos nesse Servo bendito, se unirmos nosso coração ao Dele, não perderemos o rumo, não seremos tragados pelas ondas da morte e chegaremos nos braços do Deus Santo, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!

Mas, quanto aos que, de modo autossuficiente, fazem pouco do Santo de Israel e do Seu Servo, serão consumidos como palha inútil no próprio fogo de sua descrença e rebeldia. Pense nisto, meu Irmão! Pense nisto! Tome arrimo no Senhor, siga o Servo, Jesus nosso Senhor, e nada o derrubará, nada irá tirar o sentido da sua existência e prumo da sua vida!

Nunca esqueça, Irmão: haverá um juízo de Deus! Não são a mesma coisa ser amigo de Cristo ou Dele apartar-se; não são a mesma coisa ser por Cristo e ser contra Cristo! um dia haverá o Juízo divino… Para Judas, a palavra do Senhor foi clara: “Melhor seria não ter nascido!”

Os que se unem ao Servo na Sua morte e ressurreição, terão vida; os que combatem o Servo, serão destruídos como palha seca…

Pense nisto… Pense na sua vida…
Reze o Salmo 140/141
Agora, iniciemos, ainda neste Retiro, o Quarto Cântico do Servo. É o mais impressionante de todos!
“Eis que Meu Servo prosperará,
Ele Se elevará, será exaltado, será posto nas alturas” (Is 52,13).
Já foi descrito como a Paixão de Cristo segundo Isaías. Novamente, como no primeiro Cântico, é o Senhor Deus, o Santo e Israel quem fala… Fala garantindo o triunfo e a grandeza do Servo: Ele prosperará, elevar-Se-á, será exaltado! Mas, é surpreendente o caminho a ser percorrido para chegar a esta glória. É o tema deste poema…
“Exatamente como multidões ficaram pasmadas à vista Dele
– pois Ele não tinha mais figura humana
e Sua aparência não era mais a de homem –
assim, agora nações numerosas ficarão estupefatas a Seu respeito,
reis permanecerão silenciosos,
ao verem coisas que não lhes havia sido contadas
e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido” (Is 52,14-15).
Ainda é o Senhor Deus Quem fala, e Se refere a uma mudança radical, inesperada, impressionante no destino do Servo: fora visto antes como um homem desfigurado; tão desfigurado de causar admiração e espanto
Agora, Sua glória será tanta, que reis e grandes do mundo haverão de calar-se, admirados e temerosos, diante Dele! Só o Senhor pode mudar assim, de modo tão radical e permanente, a existência de alguém…
“Quem creu naquilo que ouvimos,
e a quem se revelou o braço do Senhor?
Ele cresceu diante Dele como um renovo,
como raiz em terra árida;
não tinha beleza nem formosura capaz de nos deleitar.
Era desprezado e abandonado pelos homens,
homem sujeito a dor, familiarizado com o sofrimento,
como pessoa de quem todos escondem o rosto;
desprezado, não fazíamos caso Dele” (Is 53,1-3).
Quem fala agora? Já não é mais o Senhor Deus. Falam agora aqueles que contemplaram a miséria, a dor, a ignomínia do Servo: descrevem todo o Seu sofrimento e revelam-lhe o sentido de Sua paixão e morte! Aí, por obra do Espírito de Cristo, está explicado muito do sentido da paixão e morte do nosso Salvador. Eis os pontos mais salientes deste trecho acima:
(1) Diante de Deus Ele cresceu, mas como um pequeno rebento, raquítico, pobre.
(2) Humanamente, não era grande coisa, chegando mesmo a tornar-Se desprezível e repugnante…
Impressiona como o Senhor Deus Se revela em alguém nesta situação! Como os caminhos de Deus não são os nossos! Para compreendê-los é preciso converter-se: Quem acreditou no que ouvimos? A quem foi revelado o braço do Senhor, que age de modo tão surpreendente?
Se não nos convertermos à lógica de Deus, jamais poderemos crer Nele de verdade ou compreender algo dos Seus caminhos!
Reze o Salmo 21/22

Milagre de São Januário acontece nas mãos do Papa Francisco

Papa milagre

O sangue de São Januário se dissolveu em presença do Papa Francisco, no último dia 21 de março, durante visita de Sua Santidade à diocese de Nápoles, na Itália. Os restos sanguíneos do mártir padroeiro de Nápoles, geralmente sólidos, tornaram-se parcialmente líquidos depois que o Papa beijou o seu relicário.

O Cardeal e Arcebispo da cidade, Crescenzio Sepe, exibiu a ampola com o sangue do santo aos fiéis que lotaram a catedral napolitana, dizendo: “Sinal de que São Januário ama o Papa, que é napolitano como nós: o sangue já se dissolveu pela metade”.

O Papa, então, comentou, com humor: “O Arcebispo disse que metade do sangue se dissolveu: vê-se que o santo nos ama pela metade. Devemos converter-nos mais para que nos ame mais.”

São Januário, nascido em Nápoles, foi um bispo de Benevento, na Itália, martirizado durante a perseguição do imperador Diocleciano. Instado diante do tribunal romano a oferecer incenso aos deuses, Januário se negou, com as seguintes palavras: ”
Não posso imolar aos demônios, pois tenho a honra de sacrificar todos os dias ao verdadeiro Deus“. Mandado à fogueira, as chamas nada fizeram ao servo de Deus. Mandado à arena, para ser devorado pelos leões, estes, ao contrário, se prostraram diante do bispo e começaram a lamber-lhe os pés. Por fim, no dia 19 de setembro de 305, Januário foi decapitado.

De acordo com alguns relatos, durante um dos vários traslados de seu corpo entre Benevento e a sua cidade natal, o seu sangue foi recolhido por uma piedosa mulher e colocado em duas ampolas. Venerado desde o século V, o milagre da liquefação de seu sangue é documentado desde os anos 1400, acontecendo, desde então, periodicamente. Três datas são especiais para o fenômeno: 19 de setembro, festa de São Januário, 16 de dezembro, dia em que Nápoles foi preservada de um desastre por intermédio do santo, e o sábado anterior ao primeiro domingo de maio, que é o aniversário da primeira transladação de seu corpo.

Desta vez, porém, de modo extraordinário, o milagre ocorreu nas mãos do sucessor de São Pedro. A última vez a acontecer isto com um Sumo Pontífice foi em 1848, com o Beato Pio IX, o Papa da Imaculada Conceição e do Concílio Vaticano I.

Antes de abençoar o povo com o relicário de São Januário, o Papa Francisco
fez um discurso ressaltando a centralidade de Jesus na vida da Igreja e recomendando fortemente a devoção a Nossa Senhora: “Como posso estar certo de ir sempre com Jesus? É a sua Mãe que o acompanha. Um sacerdote, um religioso, uma religiosa que não ama Nossa Senhora, que não reza a Nossa Senhora, diria também que não recita o Terço…
se não quiser a Mãe, a Mãe não lhe concederá o Filho.

É certo que, como todas as graças chegam aos homens pelas mãos de Maria Santíssima, também este impressionante milagre foi obra de sua mediação maternal. Que ela, pois, conserve o Santo Padre, lhe dê vida longa, o faça santo na Terra e não o entregue à vontade de seus inimigos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Retiro quaresmal – Segunda-feira Santa

Continuemos nossa meditação do Terceiro Cântico do Servo Sofredor:

“O Senhor Deus abriu-Me os ouvidos
e Eu não fui rebelde,
não recuei.
Ofereci o dorso aos que Me feriam
e as faces aos que Me arrancavam os fios da barba;
não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros” (Is 50,6).
É caro, sempre foi, o preço da fidelidade, da obediência ao Senhor!
Porque o Servo foi fiel, porque não recuou diante da missão que o Santo Lhe dera, teve como recompensa a rejeição, os flagelos, a abjeção e a ignomínia! Como não pensar em Jesus, o Servo Sofredor, inocente, manso e fiel ao Pai?
Ainda hoje, todo aquele que Lhe quiser ser fiel, tem um preço a pagar, às vezes dentro da Sua própria Igreja!
“O Senhor Deus virá em Meu socorro,
eis por que não Me sinto humilhado,
eis por que fiz do Meu rosto uma pederneira
e tenho certeza de que não ficarei confundido.
Perto está Aquele que defende a Minha causa.
Quem ousará mover ação contra Mim? Compareçamos juntos!
Quem é Meu adversário? Ele que se apresente!
É o Senhor Deus que Me socorrerá,
quem será aquele que Me condenaria?
Certamente, todos eles se desgastarão como uma veste:
a traça os devorará!” (Is 50,7-9).
Impressionante, surpreendente!
O Servo, mesmo sofrido, homem de dores, maltratado, flagelado, tem uma atitude triunfal!
Loucura? Insanidade? Falta de realismo? Alienação maluca, provocada por alucinação e idiotice religiosa?
Não! Força, segurança, certeza fundada Naquele que é o Deus fiel, o Santo de Israel! “O Senhor virá em Meu socorro! O Senhor defenderá a Minha causa! Ainda que todos Me condenem, se o Senhor Me absolver, se Ele estiver ao Meu lado, por que temer? Por que vacilar? Por que duvidar do caminho que escolhi e para o qual fui escolhido?”
Observe no Servo a profunda convicção do triunfo e da permanência em Deus daquele que a Ele se confia e, por outro lado, a ilusão, a fugacidade, daqueles que se voltam contra o Senhor e Seu Servo.
Pense, meu Irmão, no contraste entre a Sexta-feira e o Sábado Santo, por um lado, e o Domingo da Ressurreição, por outro! – Senhor, os que Te esperam não perecem, não se apagam na sua existência, mas brilham como o sol ao amanhecer! “Eu tranquilo vou deitar-Me e na paz logo adormeço, pois só Vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” (Sl 4).
Reze os Salmos 69/70 e 70/71. Que o Senhor nos conceda a graça de um abandono confiante em Suas mãos como aquela do Filho Jesus!

É PRECISO CAMINHAR 2015-03-28 23:08:00

DOMINGO DA PÁSCOA

 
CORRER AO ENCONTRO DO SENHOR RESSUSCITADO PARA SER SALVO

 

Evangelho: Jo 20,1-10

1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido tirada do túmulo. 2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. 3 Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. 6 Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7 e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. 8 Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9 De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

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O Capítulo 20 de João tem quatro episódios que algum teólogo intitula: “Em busca dos sinais do Ressuscitado”. O primeiro episódio (vv.1-10) tem como personagens Maria Madalena e depois Pedro e João. O segundo episódio (vv.11-18) faz-nos contemplar Maria Madalena que gradualmente reconhece Jesus. Neste episódio Maria Madalena é apresentada como o personagem mais interessado na busca dos sinais e, através dos sinais, da própria presença do Senhor. O terceiro episódio (vv.19-23) é o episódio da manifestação de Jesus aos apóstolos: Jesus entre os seus. E por fim, Jesus e Tomé (vv.24-29). Tomé nos apresenta a tendência do homem a fechar-se ao mistério. Em outras palavras, ele representa aqueles que têm dificuldade de ver os sinais da presença do Senhor no mundo (os céticos).

Para o Domingo da Páscoa o texto fala do primeiro episódio cujos personagens são Maria madalena, Pedro e João.

1. O primeiro dia é o “dia do Senhor”

O texto começa com estas palavras: “No primeiro dia da semana quando estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo…”(v.1). O primeiro dia é o dia da ressurreição do Senhor. Na tradição cristã este dia é chamado “Domingo” palavra que vem do latim “dies dominicus” ou “Dies Domini”, “dia do Senhor”. “Senhor” é um titulo pós-pascal.

No contexto pascal, a expressão “primeiro dia” sugere que começou um tempo novo nascido da morte e ressurreição de Jesus para o mundo (2Cor 5,17). O dia que para os judeus era o primeiro depois do Sábado tornou-se para os cristãos “o primeiro dia da semana”.  Ele passou a ser chamado “dia do Senhor” (dies dominicus), domingo, porque nesse dia o Senhor ressuscitou. Por essa razão os cristãos se reúnem nesse dia para “partir o pão” (Eucaristia), o memorial da morte e ressurreição do Senhor (cf. 1Cor 16,2;At 20,7;Ap 1,10).  Jesus é a luz do novo dia que não termina jamais. Jesus é o Senhor que ilumina o mistério da vida. Cristo detém a chave do segredo da vida e deixa sua luz brilhar nas trevas. Nele o mistério da vida é tornado luminoso. O que é a vida, seu significado, sua finalidade, como apreciá-la e torná-la autêntica, dar-lhe um sentido, é tudo isto que Jesus pode nos ensinar, pois ele veio para nos fazer viver plenamente (Jo 10,10). Por isso, com muita certeza, São Paulo diz: “Se confessas, com tua boca que Jesus é o Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, tu serás salvo” (Rm 10,9).

Portanto, não podemos considerar o Dia do Senhor (Domingo) como um peso. Ao contrário, ele é como uma explosão de vida que merece ser celebrada, pois, de fato, o nosso futuro está garantido pela ressurreição do Senhor. É claro que temos problemas! Mas ao mesmo tempo temos a certeza de nossa vida que terminará com a vitória. Quem nos garante isto é Jesus ressuscitado: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33), e “…aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10,22). E o próprio Jesus foi perseverante até o fim. E o prêmio desta perseverança é a ressurreição, a vida que não acabará jamais.

2. Com Jesus ressuscitado somos chamados a sair das trevas

  

Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro (em grego skotia: a treva). A escuridão, aqui, é um símbolo do estado interior de Maria, das trevas que a habitam e a envolvem. Com a morte de Jesus, que era a luz de sua vida, ela perdeu o sentido e a alegria de viver. Tudo se torna escuro para ela. Apesar da escuridão do seu interior, em Maria Madalena ainda sobrevive o amor que ela tem por Jesus. Ninguém jamais pode tirar esse amor do seu coração, pois ele é mais forte que a morte. Esse amor a leva ao encontro do Senhor. E quem fez nascer esse amor no coração de Maria Madalena, o amor absolutamente novo, puro e belo, depois que ela foi pisada e desprezada por tantos homens, certamente foi Jesus. Foi Jesus quem devolveu a dignidade a Maria Madalena depois que a libertou “de sete demônios” (Mc 16,9; Lc 8,2). O encontro com Jesus tinha sido para ela o novo começo de sua vida, a nova luz que ilumina tudo na sua vida, a nova fonte de sua verdadeira felicidade.

     

Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro. No Evangelho de João, onde claro e escuro têm seus papéis, a escuridão dura até que alguém acredite em Jesus ressuscitado, Luz do mundo (Jo 8,12). Este termo, “escuridão/treva”, aparece em Jo oito vezes. “As trevas” em Jo não significam mera ausência de luz. Este termo apresenta dois aspectos: Primeiro, as trevas são consideradas como entidade ativa e perversa que pretende extinguir a luz da vida (Jo 1,5) e assim impedir a visão do projeto de Deus sobre o homem. Portanto, define-se como ideologia contrária ao desígnio criador. As trevas produzem no homem a cegueira (ocultamento do desígnio de Deus), impedindo-lhe de se realizar. Segundo, as trevas são consideradas como âmbito de obscuridade ou cegueira criada por sua ação, onde o homem se encontra privado da experiência da vida e não conhece o desígnio de Deus sobre ele. As trevas sugerem que os personagens ainda não têm a luz plena. Maria vai ao túmulo, possuída pela falsa concepção da morte, e não se dá conta de que o dia começou. Maria crê que a morte triunfou. Não é por acaso que o termo “túmulo” é mencionado nove vezes nesta perícope, mostrando que a idéia de Jesus morto domina na comunidade.

  

O único meio que se encontrou para não sermos atingidos por esta escuridão total de nosso coração ou de nosso ser é aceitar Jesus, Luz do mundo (Jo 8,12), para que, por nossa vez, nos tornemos uma verdadeira luz para o mundo (Mt 5,14-16). Quem acredita em Jesus, Luz do mundo, não teme a escuridão, pois ele será sempre iluminado: “Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso (escuro), nenhum mal temerei, pois estais junto comigo” (Sl 23(22),4).

3. Quem ama corre mais e chega primeiro

   

Quando chegou ao túmulo, a reação de Maria é de alarme quando viu que a pedra tinha sido “retirada”. E ela ficou mais espantada ainda ao encontrar o túmulo vazio. A tristeza de Maria ficou maior porque além da morte do seu Mestre, o corpo do mesmo desapareceu. O sepulcro vazio, por isso, não foi para Maria Madalena motivo de fé e de esperança, mas de um sofrimento maior. Maria Madalena ficou totalmente desolada e perdida. Mas se ela soubesse ver com os olhos da fé os sinais que viu com seus olhos carnais no túmulo, saberia ou pelo menos deduziria que Jesus não tinha sido feito prisioneiro da morte como todos os que morreram antes dele. A pedra retirada é um sinal de que não existe mais um abismo intransponível entre Jesus e o mundo dos vivos, entre Jesus e seus seguidores. Existe ainda alguma pedra na sua vida que o faz continuar vendo tudo escuro? O poder da ressurreição retira “qualquer pedra” na nossa vida. Mas será que você acredita no poder da ressurreição?

     

A reação imediata de Maria Madalena, sem mesmo entrar no túmulo, é correr para comunicar aos discípulos sobre o fato: Pedro e o discípulo amado. A comunidade sente-se perdida sem Jesus. Há atitude de busca mas buscam um Senhor morto. Jesus representava a força da comunidade; crendo que passou a ser debilidade e impotência, a comunidade se vê por sua vez sem forças e sem amparo.

      

Os dois discípulos têm a mesma reação diante da notícia que lhes dá Maria: dirigem-se ao túmulo. Os dois correm juntos, mostrando sua adesão a Jesus e o seu interesse pelo ocorrido. Durante a corrida, porém, o discípulo amado correu mais rápido e chegou primeiro do que Pedro no túmulo.

Corre mais depressa o que tem a experiência do amor de Jesus e sempre chega primeiro. O amor é sem asas, mas pode voar, sem pernas, mas pode andar e correr, sem olhos, mas pode ver tudo. O amor é a força sem limite, por isso nunca cansa. Uma pessoa apaixonada está cheia de forças. Onde há amor, há força para tudo.

Amar é sair de si para encontrar o outro. É dialogar. É estender a mão. É abraçar para fazer as pazes. É doar a vida, o coração e a felicidade aos outros. Páscoa é alegria. Somente encontra a alegria aquele que sabe amar os outros. Nossos lares são como túmulos cerrados a cimento, quando não se amam; quando não há respeito, ajuda mútua e fé. Túmulos cerrados são as igrejas quando não se vive o que se reza e se canta.

Páscoa é a saída rápida. É êxodo, partida. Para onde? É sair para encontrar os outros. Se permanecermos fechados, trancados dentro de nós mesmos, vamos morrer. Páscoa é reencontro com a vida. Somente sabe viver, encontrando a vida, aquele que ama. Jesus morreu e ressuscitou porque nos ama verdadeiramente.

4. Quem ama acredita que no impossível há o possível

    

Apesar de chegar primeiro, o discípulo amado não entrou no túmulo, mas esperou a chegada de Pedro. No texto de Jo, a precedência de Pedro é mantida (cf. Jo 21). Pedro é o primeiro a entrar no túmulo (v.6) e a observar os panos (vv.6-7). Ele viu os panos e ficou calado. Jo não diz nada da reação de Pedro. O discípulo amado também entrou. “Ele viu e acreditou” (v.8). Quem tem amor no coração sempre vê no impossível o possível, no incrível o crível. À luz de seu laço profundo com Jesus, o discípulo amado reconhece o mistério da presença por meio da ausência. Mesmo antes do contato com o Ressuscitado, ele foi capaz de superar o abismo: na ausência do corpo, o que ele viu dos panos funerários teve para ele valor de sinal. Além disso, o amor que penetrava o discípulo amado deixou entrar nele a luz com que ele pode ver tudo naturalmente e claramente. Para ele, o túmulo não está nem vazio, nem cheio. Ele se transformou em linguagem. Atento, ele capta no vazio do túmulo que Cristo vencera o que pertencia ao tempo; em outras palavras, Jesus venceu a morte, ele ressuscitou. Este discípulo também vai reconhecer a presença do Senhor Ressuscitado na sua aparição aos discípulos (cf. Jo 21,7)

5. A Ressurreição é Uma Novidade Para O mundo e Renova Tudo no Homem

Com o fato da ressurreição de Cristo entrou uma novidade total na história humana, pois nunca aconteceu isso antes nem depois dele, em nosso mundo fechado pelo círculo da morte. Jesus rompeu esse círculo e deu esperança a todos nós. Ao vencer a morte, Jesus revoluciona todos os anseios e sonhos do mundo. Por isso, a Páscoa é a festa de alegria porque a nossa vida está assegurada; esta vida que aqui vivemos não nos será tirada com a morte; a morte será apenas um fenômeno biológico, mas que não poderá destruir o nosso verdadeiro ser. A partir da ressurreição do Senhor, não vivemos mais para morrer, mas morremos para viver; a vida não pertence mais à morte mas sim a morte pertence à vida. A morte não é total: atinge apenas o corpo do homem. O mundo precisa saber que não somos condenados a um fim sem sentido. Não há Boa Notícia mais radicalmente importante do que a certeza da vitória da vida. Por isso, Jesus nos diz: “Tenha coragem! Eu venci o mundo” Temos a garantia de que Deus não vai deixar que se perca nada do que é bom: nossos esforços, nossos sacrifícios, nossas lutas, nossas boas ações, nossos afetos, as pessoas que amamos, tudo isso fica guardando e seguro nas mãos de Deus da ressurreição. Se a morte não tem a última palavra, toda a nossa vida pode estar, sem medo, a serviço daquilo que traz mais vida para todos. Seja qual for o resultado, nada estará perdido. Por isso, compreendemos por que São Paulo escarnece da morte e triunfante lhe pergunta: “ Ó morte, onde está a tua vitória ? Ó morte, onde está o espantalho com que amedrontavas os homens ?”(1Cor 15,55). O homem que crê em Jesus Cristo é destinado à ressurreição para participar, com a totalidade de sua realidade complexa, na vida eterna de Deus.

6. Jesus Está Conosco Permanentemente

 “Jesus ressuscitou” significa também que Cristo vive. Esta é a grande verdade da nossa fé. Cristo vive quer dizer que ele não é uma figura que passou, que existiu num tempo, deixando-nos uma lembrança. Cristo vive quer dizer: ele está conosco. Ele não nos abandona. Isto significa que o cristão, cada um de nós, nunca é um homem solitário mas solidário porque ele vive com Deus e Deus com ele. Por isso, o centro da fé cristã não consiste na celebração da memória de um herói morto, mas da presença de um Vivo e Vivente no qual se decifrou para todos nós o sentido último da vida.

Se Cristo está vivo, então todas as coisas da vida devem refletir isto; todas as coisas devem se voltar para Jesus Cristo. Quando Jesus Cristo é o centro, as pessoas tornam-se melhores; as pessoas tornam-se mais humanas, buscam o crescimento e têm vontade de conseguir todas as coisas no crescimento e na maturidade de Cristo.

O texto diz que Maria Madalena não consegue ver o significado daquilo que está acontecendo, por isso corre e vai avisar Pedro e o discípulo amado. Pedro e o discípulo amado também correm. Mas o discípulo amado corre mais rápido e chega primeiro.  Pedro entra no túmulo e Jo não relata a reação de Pedro. O discípulo amado entra e conclui imediatamente que não roubaram o Senhor: “E viu e acreditou”(Jo 20,8).

Na Igreja que vai em busca dos sinais da presença do Senhor há diversos temperamentos, diversas mentalidades: há o afeto de Maria, a intuição de João e a lentidão de Pedro. Portanto, existem na Igreja diversos dons espirituais dos quais se originam diversas disposições: alguns mais velozes, outros mais lentos; mas todos se ajudam mutuamente, respeitando-se reciprocamente, para juntos procurarem os sinais da presença de Deus e comunicá-los entre si, apesar da diversidade de reações diante do mistério. É uma colaboração na diversidade: cada qual comunica ao outro o pouco que viu e encontrou, e juntos reconstroem a orientação da existência cristã, ali onde os sinais da presença do Senhor, diante das dificuldades ou das situações perturbadoras, parecem ter desaparecido. Se na Igreja primitiva Madalena não tivesse agido dessa forma, comunicando o que sabia, e se as pessoas não se tivessem ajudado umas às outras, o túmulo teria ficado ali e ninguém teria ido até lá; teria sido inútil a ressurreição de Jesus. Somente a busca comum e a ajuda uns dos outros levam finalmente a encontrar-se juntos, reunidos no conhecimento dos sinais do Senhor.

   

Celebrar a Páscoa é afirmar: “Não sou mais aquele homem do túmulo, intransigente, morto, insuportável, nervoso. Agora uma nova luz entrou em mim e renasci, por isso. Quero remover aquela pedra que me está impedindo de ser comunicativo, caridoso; a pedra que me impede de pedir e de dar o perdão”.

 

P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2015-03-28 22:53:00

VIGÍLIA PASCAL “B”
 
PÁSCOA: ELE RESSUSCITOU

Texto: Mc 16,1-7

1 Quandopassou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumesparaungir o corpo de Jesus. 2 E bemcedo, no primeirodiada semana, ao nascerdo sol, elasforam ao túmulo. 3 E diziam entresi: “Quem rolará paranós a pedra da entrada do túmulo?” 4 Era uma pedramuitogrande. Mas, quandoolharam, viram que a pedrajátinha sido retirada. 5 Entraram, então, no túmuloe viram umjovem, sentado ao ladodireito, vestido de branco. 6 Mas o jovemlhes disse: “Nãovos assusteis! Vósprocurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. 7 Vede o lugarondeo puseram. Ide, dizei a seusdiscípulos e a Pedro queele irá à vossafrente, na Galileia. Lávós o vereis, comoelemesmotinhadito”.
——————–

Os exegetasdiscutem bastantesobreMc 16,1-8. Eles perguntam se o evangelho de Mc termina comMc 16,8 ou se há outrofinal perdido no qualMc falaria mais da ressurreiçãolongamente do queneste quenosé conhecido. A maiorparte dos exegetasjulga que o evangelistaterminou o seuEvangelhono v.8; ou seja, queMc deu uma brevíssima instruçãosobre a ressurreição.

    

Tudo istocabe aos especialistas. Paranós, o maisimportante é descobrir, dentro deste relato brevíssimo sobre a ressurreiçãode Jesus, mensagensparanóscristãoshoje. O queé queestetextofalaparamim. Será queDeustem uma palavraparamimatravésdeste relato? O que é que a fé na ressurreição implica paramimouparaminhavidadiária? O que significa celebrar a ressurreição do Senhorparamim? Mudou alguma coisaemmimduranteos quarenta dias de preparaçãopara a Páscoa? Estas perguntas e outras sãoimportantesparanós, especialmenteparanós, pregadores, pois temos sempretentação de tentardescobrirmensagenspara o povoourebanho e nãopara o própriopregador(nós) emprimeirolugar.

     

O relato sobre a ressurreição de Jesus neste texto, como foi dito, é bem breve, mas está cheio de riqueza de traços inesperados e densidade teológica. Tentemos descobrir o sentido do relato passo a passo.

 

1. Jesus é o princípio da nova e definitiva criação

   

As mulheresvão ao túmulo“no primeirodiada semana, ao nascerdo sol”(v.2). “O primeirodia da semana”, isto é, no terceirodiadepoisde suamorte, o tempoqueo próprio Jesus anunciou (cf. Mc 8,31;9,31;10,34) alude ao primeirodia da criação (cf. Gn 1,5). Mc sublinha assim o começo da novacriação. Paraenfatizarmaisestesentido, Mc falatambémsobre “ao nascerdo sol”. “Ao nascerdo sol” nãoindica apenas uma novasituaçãoemcontrastecomas trêshorasde totalescuridãoque precederam a mortede Jesus (cf. Mc 15,33), massimbolicamente indica quetambém Jesus ressuscitou (Mc 16,2). Istoquerdizerque a ressurreição de Jesus é o princípioda nova e definitivacriação. Eleé o princípio do qualfluem emnossavidatoda, a força de Deusque restaura emnós a semelhançadivina. A partirde Jesus ressuscitado tudoganhaseujustovalor. Nada fica semsentidovisto a partir da ressurreiçãode Jesus. Jesus como o princípio da novae definitivacriaçãoserve como o pontode partidaparatudo. Semesteponto de partidaqueé o princípio, o serhumano perderá seurumo. Tudotem quecomeçarnele paraterminar nele, pois Jesus é aqueleque se define “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começoe o Fim”(Ap 21,6). Comeletudo se renova: “Eis que faço novastodas as coisas”(Ap 21,5). Porisso, deixemos a luznovado Cristo ressuscitado iluminaro nossocoração, o nossoserinteiroparaque sejamos novascriaturas e estejamos cheios de todaa plenitude de Deus(cf. Ef 3,18-19).

 2. As surpresas das mulheres e seu emudecimento diante da ressurreição

   

As mulheresquevãoao túmulo de Jesus paraungir o corpode Jesus (v.1) sãorealmentemulheres repletas de amor e devoçãoa Jesus. Elasvãoao túmuloparareverenciar o corpode Jesus. Elas pensam apenas na morte de Jesus e não na suaressurreiçãoqueele anunciou antesde suamorte. As mulheres ficam aquémdo verdadeirosentidoda cruz de Jesus. Porisso, no caminhorumo ao túmuloelas dizem entresi: “Quem rolará a pedra da entrada do túmuloparanós?”(v.3). Foi fácilfecharo túmulo, porqueé fácilpensarque a mortevence a vida. Maspara as mulheresé impossível abri-lo e admitirque a vidavença a morte. Elasse fixam e param na hora da morte de Jesus.

     

Mas o túmulovazio e a presençado anjo e o anúnciodeste que Jesus, o Crucificado, ressuscitou,(v.6) as apanham de surpresa. “…elas viram umjovem sentado à direita, vestidocomuma túnicabranca…”(v.5). “As roupas brancas” sãoo sinal do mundodivino, sinaldo esplendor da glóriadivina(cf. Mc 9,3: a transfiguração). E “sentado à direita”(cf. Sl 110,1) é uma posição do poder e a autoridadedivinos (cf. Mc 12,36;14,62), posiçãode dignidade, e uma posiçãode uma pessoajusta(serjustobiblicamente significa aqueleque vive de acordocom a leidivina). No julgamentofinal, os justosserão chamados a se sentarem à direita do Filhodo Homem (cf. Mt 25,31-46). E o próprio Jesus na suaPaixão disse: “E vereis o Filho do Homemsentado à direita do Poderoso e vindo comas nuvens do céu”(Mc 14,62). Todosestessímbolos descrevem a condiçãodivinade Jesus e enfatizam que Jesus é o Vencedor da morte.

   

Tudo istoquernosdizer, emprimeirolugar, que a provada ressurreiçãonãoé túmulovazio; a ressurreiçãonãoé fruto de uma descobertaouelaboraçãohumana, masé revelaçãodivina. E Deussomentepode revelar a quemé disponível a suaação salvífica e escatológica manifestada em Jesus Cristo. Quem estiver abertopara a vontadede Deus, a eleserá revelado muitas coisas. A ressurreição é a açãopoderosa de Deus, que se revela vencedor da mortee salvador na pessoahistórica e concretade Jesus. Ao ressuscitar Jesus da morte, Deusquerdizer à humanidadeque Jesus tinharazão, queJesus fazia tudoqueDeus quis: fazero bemparatodos os homens(cf. At 10,38).

Em segundolugar, ao dizerque Jesus “ressuscitou. Não está aqui”, o textoquernosdizerque Jesus não é uma memória e simuma presença. Jesus nãoé umpersonagemparaser discutido e simparaserencontrado. A vida cristã não é uma vidaparasabersobreJesus e simparaconhecer Jesus. E paraconhecê-lo o cristão tem quefazer o encontrocomEle. Podemos atésabersobreJesus, masestesaber tem queterminar no encontrocomEleparaquenos tornemos pessoasrenovadas no Espírito de Deus. Jesus é o vivente, é uma presença. Porisso, é inútilbuscá-lo num túmulo. O encontrocom o ressuscitado não se realiza entre os túmulos, no passado, e simno presente. Comisso, a ressurreiçãoabre o novofuturoparaquemacredita no Jesus Ressuscitado.

Em terceirolugar, temos queestarconscientesde queparaonde formos, Jesus vai nospreceder: “Ide, dizei a seusdiscípulos e a Pedro queEleirá à vossafrente, na Galileia”. Galileia é o lugaronde Jesus começou suamissão. Os discípulostem quefazerencontrocomJesus no lugar da missão. Se fizermos tudoque Jesus ensinou, tenhamos certeza de queEle vai abrir o caminhoparanós. Não há dificuldadequenãoseja superada quando Jesus estiver na nossafrente. Onde for feita a evangelização, Jesus é encontrado lá. Jesus se encontra no lugar das pessoasque ajudamos na suanecessidade.

  

Os leitoresdeste relato esperam a reação de alegria dessas mulheresao receberem a notícia da ressurreição de Jesus Cristo. Masemvez disto, elasemudecem. Elas ficam comoqueparalisadas e emseguidafala do seutemor, do seuestupor, do seumedo e do seuemudecimento: “Nada contaram a ninguém” (Mc 16,8b). Comisso, o evangelistaquernosdizerque o Evangelhocontinua abertopara o futuro. Somos convidadosparaestenovofuturoonde encontraremos Jesus ressuscitado e encontraremos também o sentidode nossavida. Paraisso, temos quelevaradiante o projetode Jesus ressuscitado. Além disto, esteEvangelhoé umconvitea abrir os olhosparaver o Senhorna nossaexperiênciadiária.

3. A missão confiada às mulheres sobre o novo encontro com Jesus

   

Apesar do seu emudecimento, essas mulheres são testemunhas privilegiadas dessa revelação divina e são chamadas e enviadas para anunciar aos discípulos e a Pedro sobre a ressurreição de Jesus  e sobre o novo encontro com ele na Galiléia: “Não tenhais medo. Vós estais procurando Jesus de Nazaré, o crucificado: ressuscitou, não está aqui… Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galiléia: lá o vereis como vos disse”(v.7).

  

 “Ele não está aqui. Ele ressuscitou! E ele os precedeu na Galiléia”. O lugar do encontro não é num passado, mas num futuro novo. O lugar do encontro não é na contemplação de um morto, mas no seguimento de quem está vivo. Jesus ressuscitado deve ser seguido, vivendo o seu projeto. Jesus não é uma figura num livro, mas uma presença viva e vivificante. Não é suficiente estudar a história de Jesus como qualquer grande figura histórica. Nós podemos começar desta maneira, mas devemos terminá-la com o encontro com ele, pois Jesus não é uma memória, mas uma presença. Ele continua vivo entre nós. Se realmente acreditarmos nesta Presença, encontraremos sempre forças mais que suficientes para encarar qualquer tipo de dificuldade, pois o próprio Jesus venceu a morte.

 

“Ele não está aqui. Ele ressuscitou!”, é a mensagem para todos que queiram mudar de vida para a melhor. Jesus faz uma páscoa, uma passagem da morte para a vida, para Deus. Precisamos fazer essa passagem. “Se não passamos para Deus que permanece”, dizia Santo Agostinho, “passaremos com o mundo que passa. Páscoa é passar para aquilo que não passa. Quão melhor é passar do ‘mundo’, antes que passe ‘junto com o mundo’; passar para o Pai, antes que passe para o inimigo”. Cada vez que acolhemos a inspiração da Palavra de Deus, estamos fazendo uma passagem para Deus. Cada vez que dizemos “não” a uma vontade da carne, estamos fazendo uma passagem para Deus. Não há momento ou ação da vida de um cristão que não possa se transformar em uma passagem, em uma páscoa. A páscoa deve acontecer em todos os momentos da vida de um cristão. Além disto, todo cristão vivo deve ser uma manifestação extraordinária da ressurreição do Senhor.

     

O evangelista Mc certamente quer transmitir, através deste relato, uma mensagem para todos os leitores e cristãos em particular que a ressurreição de Jesus manifesta uma dupla fidelidade: a fidelidade do Pai que não abandona Jesus, mas o ressuscitou, sinal da aprovação; e a fidelidade do Filho que não abandona os discípulos, que fugiram na Paixão, mas os procura e quer reencontrá-los. A primeira preocupação de Jesus Ressuscitado é a de reencontrar os seus discípulos, para retomar, novamente juntos, o seu caminho. A esperança de cada cristão repousa inteiramente nesta dupla fidelidade.

4. Jesus nos precede para onde formos

  

“Ele vós precederá na Galiléia”. Este anúncio é cheio de significado. Os exegetas discutem sobre o significado da Galiléia. A Galiléia para o evangelho de Mc é importante onde se desenvolve a maior parte. Foi na Galiléia que Jesus começou a proclamar a Boa Nova, anunciando a chegada do Reino de Deus(Mc 1,14-15). Foi neste lugar  que Jesus chamou seus primeiros discípulos para ser “pescadores de homens”(Mc 1,16-20). Foi na Galiléia inteira que Jesus pregou o Evangelho, curando e expulsando os espíritos maus(Mc 3,13-19;6,7-13). Foi na Galiléia que Jesus começou a revelar aos discípulos “o mistério” do Reino de Deus(Mc 4,11). Foi da Galiléia que a Boa Nova se espalhou para todas as regiões ao redor(Mc 3,7-12). Na e da Galiléia os discípulos podem continuar sua missão de pregar o Evangelho e curar todos os povos no mundo inteiro(Mc 13,10;14,9). E foi na Galiléia que Jesus ressuscitado precedeu os discípulos(Mc 16,7). A Galiléia é, por isso, o lugar onde com os mesmos gestos, com a sua bondade e disponibilidade, os discípulos reconhecerão a presença viva daquele Senhor que conheceram. A Galiléia é o lugar em que o Senhor Ressuscitado se lhes manifestará visivelmente e onde Jesus começará a reconstrução da comunidade, aquela reconstrução que era anunciada na Paixão em que Jesus disse: “Todos vós vos escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão. Mas depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galiléia”(Mc 14,27-28). E Jesus é fiel às suas promessas. A Galiléia é o lugar onde a comunidade dos Doze será reconstruída. Todo o Evangelho de Mc deve ser meditado na aceitação de que Jesus vive e fala hoje aos seus e os chama, como ele os chamou junto ao lago(Mc 1,14-20), ou junto ao monte(Mc 3,13-19) e continua a estar na Igreja, em cada cristão.

 

“Ele vos precederá na Galiléia”. A palavra “preceder” é usada também em Mc 10,32 quando Jesus está a caminho rumo a Jerusalém. Jesus precedeu os discípulos na Morte e na Nova Vida que o Pai lhe deu. Ele precederá os discípulos na Galiléia. “Jesus vos precederá” é uma promessa para todos nós. Para onde formos, como verdadeiros cristãos, devemos estar conscientes de que Jesus sempre nos precede. Ele sempre chega primeiro que nós. E ele nos guia para onde ele se encontra. Que saibamos reconhecer essa precedência e esta presença. Quando temos esta consciência, nenhuma dificuldade vai nos bloquear, pois Jesus nos precede e com isto, abre o caminho para nós. Mas com uma condição: que sejamos fiéis à Sua Palavra, pois a Sua Palavra nos orienta sobre o que devemos fazer.

5. Algumas das implicações da fé na ressurreição

a). A Páscoa cristã é a festa das festas, e o cristão é aquele que afirma: o Senhor ressuscitou verdadeiramente. O cristianismo nasce e progride desta proclamação fundamental: Jesus Cristo que foi crucificado, ressuscitou verdadeiramente. Da ressurreição de Cristo deriva todo o resto da mensagem cristã. Sem a vitória de Cristo sobre a morte, toda a pregação seria inútil e a nossa fé seria vazia de conteúdo(cf. 1Cor 15,14-17). A ressurreição do Senhor é uma realidade central da fé cristã. A importância deste milagre é tão grande que os Apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da ressurreição de Jesus(cf. At 1,22;2,32;3,15). O núcleo de toda a pregação é este: Cristo vive e vive no meio de nós(cf. Jo 1,14;Mt 28,20). A páscoa da ressurreição é a grande festa cristã. Este mistério é tão importante e central é que o celebramos ao longo de todos os domingos e festas do ano litúrgico e inclusivamente na Eucaristia diária. Certamente cada eucaristia que se celebra, celebra-se e proclama-se ao mesmo tempo a ressurreição do Senhor e a nossa também. A eucaristia dominical é a páscoa semanal. A eucaristia diária é a páscoa diária.

     

Sem dúvida nenhuma, a Páscoa é, por isso, o próprio conteúdo da fé cristã, é o coração da vida da Igreja porque ela nos revela quem é Deus, quem é Jesus Cristo e quem somos nós. A ressurreição nos mostra que o Deus revelado por Cristo é Aquele que ama e quer a vida. A Páscoa nos revela que Jesus, morto e ressuscitado, é Aquele que converge toda a história da humanidade. E ao mesmo tempo revela que a fidelidade é o caminho certo para chegar à Páscoa eterna com Deus. A Páscoa também nos revela que somos chamados a ressuscitar com Jesus, a superar com ele o drama da morte para podermos permanecer com ele na vida que não tem fim.   

      

b). Pela ressurreição do Senhor sabemos que Deus ama a vida. A Páscoa é a gloriosa manifestação de um Deus que ama a vida, que quer a vida e não a morte, de um Deus que, além disso, faz com que da morte surja a vida.

   

Crer na ressurreição implica, por isso, defender a vida, especialmente a dos mais indefesos; implica respeitar a vida alheia como a própria; implica lutar pelo que é certo e justo, pois estes predicados como outros semelhantes é que garantem a vida sem fim; implica estender a mão para levantar quem se encontra sob o peso dos problemas desta vida. Procurar o Senhor ressuscitado implica comprometer-se com aqueles que vêem o seu direito à vida permanentemente violentado e violado. Acreditar na ressurreição significa afirmar a vida contra a morte.

   

c). A ressurreiçãoé o gritofestivoda fé. Coma ressurreição, o gritode Jesus na Sexta-FeiraSanta “Deusmeu, Deusmeu, porquemeabandonaste?” (Mc 15,34), gritoquesintetiza todas as situações de aflição da humanidadese transforma, na noite de SábadoSanto, emgritofestivo de fé e de esperança: Cristoressuscitou. É umgritode féporqueanuncia algoqueaconteceu emCristoe permanece parasempre. É o grito de esperançaporque a partirde Jesus Cristo ressuscitado a vidahumana tem umfuturoe queninguémpode tirá-lo de nós, e que seremos ressuscitados também. A certeza deste gritode alegria e de esperançanosproclamaque a bondadesoterra a maldade, quea mortejátem o seucontrapesode vida, quetodacrisepode ser suplantada, quecomCristotodatristezaconhecerá a alegria.

     

Infelizmente temos que confessar que a nossa existência humana é muitas vezes dominada por uma tendência de diminuir as esperanças, reduzindo-as cada dia mais por causa das ilusões, e a nossa tristeza nos leva, com freqüência, a recusarmos palavras de conforto, porque nós não temos idéia exata da libertação que nos foi concedida por Jesus ressuscitado. Precisamos estar conscientes de que a Páscoa é uma recriação, é uma nova criação da humanidade, pois Jesus, pela sua ressurreição, inaugurou um mundo novo no meio de nós.

   

d). A ressurreição de Cristo é uma resposta às esperanças de um destino humano aberto para o futuro novo. Quando este futuro novo for negado, a pessoa se fecha a si mesma, fica insatisfeita e chega às margens do desespero. A ressurreição nos leva a certeza de que a vida jamais acabará e de que o triunfo da vida não é mais ameaçado pela morte. O Ressuscitado está conosco, e continua vivo dentro da história e junto com ele nós estamos em condições de vencer o mal com o bem, de tirar do mal o maior dos bens. Esta é força e a novidade da Páscoa. Quem crê na ressurreição não é permitido viver triste. Somos destinados e chamados a viver plenamente com Deus, alegres na esperança com os irmãos da mesma peregrinação.

    

e). Da ressurreição de Jesus nasce, antesde maisnada, uma esperança. Cristoé nossaesperança(1Tm 1,1). Nessa esperançanós, cristãos, aprendemos a acreditaremDeus e a desentranharo sentidoúltimodo homem. Masa esperança de quese tratanãoé virtude de uminstanteoureação de ummomento. É uma atitudepermanente, umestilo de vida. É a forma de enfrentara vidaprópriado cristão. Se perderessa esperança, perde tudo. Deixa de sercristão. Aqueleque vive animadopelaesperança cristã põe seuolhar no futuro. Elenão fica apenascom o presente, nem vive presoao passado, masolhasempreparafrente. A esperançasempregera uma perspectiva de futuro. E esta esperançadá origem a uma novamaneira de se posicionarna vidaapesardas dificuldades, comodiz São Paulo: Somos atribulados portodos os lados, masnãoesmagados; postosemextremadificuldade, masnãovencidos pelosimpasses; perseguidos, masnãoabandonados; prostrados porterra, masnão aniquilados (2Cor4,8-9). A esperança vive da confiançaemDeus, como o profeta Isaías diz: É ele (Deus) que dá forçasao cansado, queprodigaliza vigor ao enfraquecido. Mesmo os jovensse cansam e se fatigam; até os moços vivem a tropeçar, mas os que põem a suaesperançaem Yahweh(Deus) renovam as suasforças, abrem asascomoas águias, correm e nãose fatigam, caminhar e nãose cansam”(Is 40,29-31). Que cadaum de nósseja umpequenosinal, uma pequenaprova desse Deusda esperança! FELIZPÁSCOAPARAVOCÊ E SUAFAMÍLIA!

P. Vitus Gustama,svd

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Is 50,4-7

Sl 21
Fl 2,6-11
Mc 14,1 – 15,47
Caríssimo Irmão, baste-nos alguns pensamentos, para a Eucaristia solene deste Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, que abre a Grande Semana da nossa fé, a Semana santíssima, que culminará com a Solenidade da Páscoa, Domingo próximo.
Primeiro faz-se, hoje, com uma procissão dos ramos, memória da Entrada do Senhor Jesus em Jerusalém.
Ele é o Filho de Davi, o Messias esperado por Israel, que vem tomar posse de Sua Cidade Santa, Jerusalém, Cidade de Davi, cidade do Messias.
Mas, que surpresa! Trata-se de um Messias humilde, que entra não a cavalo, mas num humilde burrico, sinal de serviço e pequenez! Ei-Lo: Seu serviço será dar a vida pela multidão!
Ele é Rei, mas rei coroado de espinhos e não de humana vanglória.
Seguir o Senhor nessa solene procissão com ramos é reconhecê-Lo como nosso rei, rei pobre e humilde. Segui-Lo me procissão é nos dispor a segui-lo nas pobrezas e humildades da vida, dispondo-nos a participar de sua paixão e cruz para ter parte na glória de Sua ressurreição.
Após a Procissão de Ramos, que pensamentos poderíamos colher agora na Liturgia da Palavra da Missa da Paixão do Senhor? Eis alguns pensamentos:
Primeiro: O meio que Deus escolheu para nos salvar não foi o que é grande e vistoso, tão apreciado pelo mundo. Ao invés, o Pai nos salvou pela humilde obediência do Filho Jesus. Reconheçamos na voz do Servo sofredor da primeira leitura a voz do Filho de Deus:
“O Senhor Deus Me desperta cada manhã e Me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo. O Senhor abriu-Me os ouvidos; não Lhe resisti nem voltei atrás. Ofereci as costas para Me baterem e as faces para arrancarem a barba. O Senhor é o Meu Auxiliador, por isso não Me deixei abater o ânimo, porque sei que não serei humilhado”.
Palavras impressionantes, caríssimo!
O Filho buscou humildemente, na obediência de um discípulo, a vontade do Pai – e aí encontrou força e consolo, encontrou a certeza de Sua vida. São Paulo, na segunda leitura de hoje, confirma isso com palavras não menos impressionantes: “Jesus Cristo, existindo na condição divina, esvaziou-Se de si mesmo, humilhou-Se, fazendo-Se obediente até a morte, e morte de cruz”. Caríssimo em Cristo, num mundo que nos tenta a ser os donos da verdade, desprezando os preceitos do Senhor Deus e Seus planos para nós, aprendamos a humilde obediência de Cristo Jesus, entremos em comunhão com o Cristo obediente ao Pai até a morte. Só então seremos livres realmente, somente então viveremos de verdade!
Um segundo pensamento: O breve e concreto relato da Paixão segundo São Marcos, apresenta-nos ao menos três modos de nos colocar diante do Cristo nosso Senhor. Dois modos inadequados, que deveremos evitar, apesar de tantas vezes neles cairmos; e um modo correto, a que somos continuamente chamados. Ei-los:
Primeiramente, o modo dos discípulos, tão vergonhoso: “Então todos o abandonaram e fugiram”. Oh! meu caro, que desde o início temos sido covardes, desde os princípios somos um mísero bando de infiéis! Fomos nós, os discípulos, que fugimos, que deixamos sozinho o Salvador, o nosso Mestre!
Quantas vezes, nos apertos da vida, fugimos e O abandonamos: no vício, no comodismo, na busca de crendices e seitas, no fascínio por ideologias, ideias e filosofias opostas à nossa fé! Como é fácil fugir, como é fácil, ainda agora, abandoná-Lo!
– Perdoa-nos, Senhor Jesus, porque ainda hoje somos assim, ainda somos como os primeiros discípulos: frágeis, inconstantes, covardes mesmo!
Perdoa-nos pelo pouco amor, pela falta de compromisso!
Perdoa-nos as juras de amor para sempre, que se desfazem na primeira dificuldade!
Depois, o modo de Pedro, que “seguiu Jesus de longe”. Atenção, caríssimos Pedros que neste espaço virtual me acompanham! Não se pode seguir Jesus de longe!
Quem O segue assim?
Aquele que pensa poder ser discípulo pela metade; que se ilude, pensando seguir o Senhor sem combater seus vícios e pecados; que imagina poder servir a Deus e ao dinheiro, ao Senhor e aos costumes e modos e pensamentos do mundo!
Como terminarão esses? Como terminou Pedro: negando conhecer Jesus!
– Senhor, olha para nós, como olhaste para Pedro; dá-nos o arrependimento e o pranto pela covardia e frieza em Te seguir! Faze-nos verdadeiros discípulos Teus, que Te sigam de perto até a cruz, como o Discípulo Amado, ao lado de Tua Santíssima Mãe!
Finalmente, uma atitude bela e digna de um verdadeiro discípulo do Senhor: aquele gesto, da misteriosa mulher, que ungiu a cabeça do Senhor com nardo puro, caríssimo!
Notou, querido Irmão em Cristo, o detalhe de São Marcos? “Ela quebrou o vaso e derramou o perfume na cabeça de Jesus”. Quebrou o vaso… Isto é, derramou todo o perfume, sem reservas, sem pena, com amoroso estrago… Para o Senhor, tudo; para o Salvador o melhor! E São João diz que “a casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo” (Jo 12,3).
Ó mulher feliz, discípula generosa! Dando tudo ao Senhor, perfumou toda a casa com o bom odor de um amor ser reservas! Quanta generosidade dessa mulher politicamente incorreta! Quanta hipocrisia, quanta mesquinhez dos apóstolos politicamente corretos, que não compreenderam seu gesto de amor gratuito!
– Senhor Jesus, faz-nos generosos para Contigo! Que Te amemos como essa mulher: sem reservas, sem fazer contas!
Ó Senhor, que nos amaste até o extremo, ensina-nos a Te amar assim também, colocando nossos perfumes, isto é, aquilo que temos de precioso, a Teus pés! Então, o mundo será melhor, porque o bom odor do amor haverá de se espalhar como testemunho da Tua presença!
Eis, caríssimo Amigo! Fiquemos com estes santos pensamentos, preparando-nos durante toda esta Semana para o Tríduo Pascal, que terá seu cume na Santa Vigília da Ressurreição! 
Nós Vos adoramos, Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos,
porque pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

É PRECISO CAMINHAR 2015-03-28 17:14:00

SEXTA-FEIRA SANTA

 
JESUS CARREGOU NOSSOSPECADOS

 
Gostaríamos de falarde doistemasnesta Sexta-FeiraSanta. Primeiro, os sofrimentos de Jesus à luz dos evangelhos. A partir deste temacadaumpode verificar a própriaexperiênciaemrelação aos sofrimentos. Quem sabe no fimsairá da bocaestetipo de frase: “Eutambémpassei poressesofrimento, mas Jesus sofreu muitomais do queeu”. Segundo, se falará umpoucosobrea teologia da cruz. Neste tema queremos saberporqueJesus foi crucificado? Será que é necessáriofalarainda da cruzenquanto Jesus járessuscitou ? Qualliçãopodemos tirar deste tema?

1.  Os sofrimentos de Jesus à luz dos evangelhos

Como qualquer ser humano, conseqüência da encarnação, Jesus sente na própria carne todas as dimensões do sofrimento humano. Ele é participante de todos os sofrimentos humanos(cf. Salvifici Doloris de João Paulo II). Sua vida inteira está marcada pelo sofrimento, e todo sofrimento vai apontando para frente, para o seu triunfo final.

Mas para poder falar com profundidade de Jesus como figura de homem sofredor é preciso destacar a atitude da alegria de Jesus. Pois somente tem real capacidade de sofrer muito quem tem a capacidade de gozar profundamente. A presença de uma coisa ou de uma palavra supõe a existência da outra. Não pode se falar da liberdade quando não existe a prisão; não se pode discutir sobre a paz quando não aconteceu a guerra. A saúde existe porque existe a doença. O rico existe por causa da existência do pobre. A fome faz alguém valorizar o pão. A presença da briga faz alguém falar de reconciliação ou de perdão, assim por diante. Tudo isto chama-se o paradoxo da vida. E isso se cumpre em Jesus de maneira privilegiada. Nele se enquadra a imagem de Isaías do Servo sofredor precisamente porque também lhe cai a imagem de libertador, de irmão, de amigo, de semeador da esperança e de consolação e de alegria na existência humana. Jesus é o homem das dores e ao mesmo tempo o libertador de toda dor.

Nosso mundo não sabe combater a dor a não ser com anestesia. Retira da dor sua profundidade humana. Luta contra lucidez na dor. Talvez por causa disso hoje as pessoas sofram menos, mas são menos sensíveis, pois estão adormecidas, cheias de uma morfina ambiental que seca seus corações. Por isso, compreendemos menos a dor e ela nos parece tão absurda e intolerável.

Para Jesus não há necessidade de anestesiar diante da dor a profundidade da consciência humana, pois o nível mais alto de experiência dessa profundidade é a bondosa paternidade de Deus. No mais profundo do nosso ser podemos sentir Deus como Pai querido(Abba).

Jesus sofre a partir de sua experiência de Deus e a partir dessa mesma experiência encontra razões para um extremo otimismo. A alegria de Jesus parte de uma experiência prazerosa de Deus que lhe abre  a capacidade de um compromisso com os sofredores e pecadores. Dessa experiência nasce seu sorriso para o publicano, o pagão ou a prostituta. Ele sabe ver em cada pessoa, apesar das aparências contrárias, o que tem do Pai: suas semelhanças com Deus e o amor que Deus lhe tem. Por isso, Jesus tem sua alegria profunda e extrema.

Jesus participou do sofrimento humano desde o seu nascimento onde ele conheceu a fundo o que eram as provações dos pobres. Compartilhou o doloroso nascimento dos mais pobres do mundo. Ele sofreu a dor dos emigrantes por causa da perseguição de Herodes que viu em Jesus uma ameaça e perigo para seus privilégios. Compartilhou a vida simples e as privações do povo em Nazaré. Sofreu medos, dúvidas e tentações como qualquer ser humano. O libertador do medo soube também o que é o medo(Mt 26,37-39). No entanto, tendo sentido o mesmo medo que nós diante do compromisso, ele não se deixou abater e nem deu jamais um passo para trás. Sempre se manteve fiel à vontade do Pai(Jo 12,27). Ele sofreu a dor de desprezo: os escribas não acreditavam nele porque era um homem sem estudos(Jo 7,15), vindo de uma região má fama(Jo1,46;7,41.52),nem o povo em geral(Lc 4,22-29). Seus próprios parentes o tomaram como louco(Mc 3,21). O povo gritou para pedir a sua morte(Mt 27,16-21). Na cruz sentiu os insultos das pessoas que passavam(Lc 23,35), dos soldados(Lc 23,36-37) e ainda de um dos que foram crucificados junto dele(Lc 23,39). Com razão, no prólogo do seu evangelho, João comentou: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam”(Jo 1,11). Sentiu o peso do desânimo e o cansaço pastoral(Lc 9,41; Mc 4,40; Jo 14,9;Mt 23,37-38). Chegou a lamentar-se de que nenhum profeta é bem recebido em sua própria pátria(Mc 6,4). Sofreu calúnias e perseguições: foi acusado como mentiroso(Mt 27,63); como enganador do povo(Jo 7,47); como grande pecador(Jo 9,24), blasfemo(Jo 10,33), que fazia milagre em nome do diabo(Lc 11,15). Sentiu a tensão psicológica de ser vigiado e procurado para ser preso(Jo 7,30-32.44-46;10,39;11,57). Sentiu a solidão(Jo 6,67;Mt 26,40.56) e a traição(Jo 13,18.21; Mt 24,14-16; Jo16,31-32). E sofreu a mais cruel das mortes: ele morreu tragicamente sozinho, traído até pelos seus.

A dor de Jesus não se encerra jamais sobre si mesmo, ao contrário, está totalmente aberta ao próximo. Por isso, o profeta Isaías citado por Mateus, resumiu: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças”(Mt 8,17). Tão profundamente sentiu a dor humana, que dedicou sua vida para servir a todos, para aliviar suas penas e para ensinar-lhes o caminho da superação e da irmandade(Lc 4,18-19). Sua existência esteve totalmente orientada no sentido de aliviar a dor alheia. Serve a Deus servindo a seu próximo. Não fechava seu coração para ninguém. Ele fazia cada um ver o amor de Deus que Deus lhe tinha e seu próprio valor humano. Enquanto outros encontram razões para condenar, ele as encontra para salvar.

Depois de mergulharmos nos dados bíblicos acima mencionados chegamos à conclusão de que Deus não quer o sofrimento humano. Nem tem como tarefa distribuir prêmios e castigos. Ele é o Pai de todos e quer a felicidade e a realização plena de todo homem e mulher.

Mas por que sofremos, então ? Simplesmente porque essa é condição do ser humano. A vida humana terrena é por si mesma pequena, fraca e frágil. A morte e a dor são companheiras naturais de nossa própria estrutura. O sofrimento chega a todos nós. Não lhe podemos escapar. A lista é familiar: doença, angústia mental, velhice, solidão, dor, desilusões, crueldade, a perda de alguém que se ama, sem dúvida, problema de todos os dias, mas experiências penosas que podem consumir a nossa energia e roubar-nos a alegria de viver. É fácil tornar-nos amargos e infelizes. Não tentamos compreender e a dor é então pior.  As energias desta vida obedecem à lei biológica: elas vão se desgastando progressivamente, ate se consumirem totalmente. Tudo isso não tem nada a ver com nossos valores eternos de semelhança de Deus.

Mas embora a dor em si seja inevitável, durante esta vida muitas dores e muitas mortes podem ser evitadas. Deus não aceita a sociedade na qual uns homens desprezam e atropelam outros. As cruzes que os homens levantam para seus irmãos são abomináveis aos olhos de Deus. É preciso denunciá-las e lutar contra elas, pois Deus as detesta. Por isso, vamos falar um pouco da teologia da cruz.

2.A cruz de Jesus: uma rebeldia contra o sofrimento

A crucificação como pena era muito difundida na antigüidade. Aparece sob várias formas entre numerosos povos do mundo antigo. Para os gregos, ela era e permaneceu uma punição política e militar. Para os persas era imposto basicamente a altos oficiais e comandantes, bem como a rebeldes. Para os romanos, ela era aplicada sobretudo às classes inferiores: escravos, criminosos violentos e elementos refratários em províncias em rebelião. As três penas romanas supremas eram a cruz, o fogo e os animais.  Pela execução publicamente a crucificação representava a mais profunda humilhação.

Popularmente, a cruz, com freqüência, tem sido tomado apenas como símbolo da dor humana. Às vezes se tem usado para induzir os homens a não se rebelarem, mas sim a negociar com a dor; tem sido motivo para justificar o sofrimento e ainda como pretexto para certas formas de repressão. Com esta concepção, a cruz foi afastada grosseiramente de sua referência a Jesus. Quem procura Cristo sem a cruz acaba encontrando a cruz sem o Cristo. Mas quem procura o Cristo com a consciência de encontrar a cruz como conseqüência desta opção, encontrará Cristo ressuscitado e com Cristo ele encontrará a páscoa.

A teologiaatual insiste emque o NT foi elaborado com a base na experiênciapascal: o Crucificado está vivo. A expressão“o Crucificado está vivo/ ressuscitou” é importante. Na palavra“crucificado” percebemos a crueldade dos homensmundanosque sacrificam os inocentes, que eliminam os justos, que matam os honestosemnomeda defesa dos própriosinteresses egoístas. Na palavra “está vivo” ou “ressuscitado” Deusquernosmostrarqueo que triunfará na nossavida é o bem. O maloua maldadenãotem a últimapalavra, porpoderosaque pareça ser. Quem tem a últimapalavra é o próprioDeus.

o Crucificado está vivoou ressuscitou! Tudose esclarece a partir da luzda ressurreição. Nuncapoderemos olharpara a cruzsemnos lembrarmos da ressurreição. Sexta-FeiraSantanão tem qualquersignificadosemo Domingo da Páscoa. A morte e a vidaestavam entrelaçadas emconflito no Calvário. A vida ganhou, porqueo amoreramaisforteque a morte. Somente a partir dessa perspectiva se pensa, se corrige e se assume o símbolo da cruz. A redençãoé antes de tudouma vitória. Cristoé o vencedor da morte. Elenãoveioparaglorificar a dor, massimparadarumfima seureinado. Deussempreprepara o melhorpara o fimàquelesqueestiverem perseverantes no bem.

A vida é uma mistura de alegria, felicidade e esperança, e também de tristeza, mágoa e dor. Cada um de nós carrega sempre esse pequeno fardo. Mas quando nos damos conta do amor que Nosso Senhor tem por nós, quando compreendemos que a sua vida nos revelou o amor que Deus tem por nós, então temos de ficar cheios de esperança, de alegria e de paz. Por isso, sei que a resposta se encontra olhando para Cristo crucificado. Madre Teresa de Calcutá disse: “Se olhamos para a Cruz de Jesus sabemos muito bem como ele nos amou. Quando olhamos para a Eucaristia, sabemos muito bem como ele nos ama”.

Em alguns ambientes tem-se insistido mais em falar exclusivamente da ressurreição. Eles pretendem tirar da cruz o seu aspecto escuro. Falam de ressurreição sem mencionar a crucificação. Assim, acabam se esquecendo do presente trágico da exploração, da injustiça e da dor reinantes em qualquer lugar. Não se pode esquecer de que Jesus morreu porque o ser humano não tolera a defesa do pobre, nem o desvelamento da hipocrisia, nem a denúncia da injustiça, nem a ruptura das convenções e privilégios sociais e religiosos. Jesus ao optar pelos desprezados e deserdados, está acusando quem fundamenta sua prosperidade ou sua superioridade no desprezo e na exploração dos demais. A desumanidade do homem para com o seu semelhante através da história produziu pobreza, fome, sofrimento e morte. Entendida desse modo, a imagem do Crucificado já não é a provação do sofrimento, mas sim a rebeldia contra ele. Tudo isso, se olhamos a partir da perspectiva humana.

Da perspectiva de Deus, a cruz é a revelação do Deus de amor. Ela revela o amor apaixonado de Deus pelos homens. Deus não era outra coisa senão amor. Por isso, o calvário é a revelação de seu amor num mundo de males e sofrimentos. O amor torna apto ao sofrimento e a capacidade de sofrimento se consuma na entrega e na imolação. Na cruz Deus passa diante da humanidade a prova do amor, para que depois possamos também acreditar em seu poder, o poder triunfante de sua ressurreição. Assim, a ressurreição de Jesus pode se transformar para os que sofrem em uma bandeira de esperança. Sem a ressurreição, o amor não seria verdadeiramente poderoso; mas sem a cruz, o poder não seria amor. Da união do amor e do poder divinos surge nossa redenção.

3. Nossas cruzes e a nossa cruz existencial sob a cruz de Cristo: um chamado à conversão contínua

   

Todos nóscarregamos alguma cruz na nossavida. Há cruzes de todosos tipos. Há cruzesemtodosos caminhos. Paraencará-la cadaumtem seuprópriomodo. Paraalguns, a cruzpode servividacomotribulação, para os outrosela pode servividacomolibertação. Há cruzescomCristo, mas há tambémcruzessemCristo. Cadacruz, então, tem uma história e cadahistória tem uma cruz. A cruzsemCristo é a cruz-condenação. É a cruz de quemdesejaserumdeus. É a cruzquenão tem finalidadeemsimesmo. É a cruzsemfé, semamor, semsentidoda vida, semrenúnciaporamor. É a cruzde quemdesejaviver numa liberdadesemresponsabilidade, de quem vive no prazerdesenfreado que resulta no sofrimento semfim. Jesus Cristo, que foi crucificado, transformou a cruz de castigoembênção.

A mãede Jesus acompanhava o filho Jesus que estava carregando a cruzsilenciosamente. A cruzdo filho é a cruzda mãe. Elatambém carrega esta cruzsilenciosamente. A ressurreiçãodo filho é a ressurreiçãoda mãe. Na Mãede Jesus podemos ver tantas mãesdo mundo. Semdúvida, muitas mãescarregam silenciosamente a cruz ao saberqueseufilho se drogaou se perde no mundoda criminalidadeousofre de alguma doençaincurável. Crucificadas, essas mães acompanham a cruz de seu(s) filho(s) com o amorincondicionalcomo a Mãe de Jesus que se encontrou ao pé da cruzcom o amorincondicional.

Todos nós somos convidados a refletir tais situações e outros tipos de cruz sob a cruz de Jesus ressuscitado que transformou a cruz em momento de transfiguração cujo ápice é a sua ressurreição. A partir de Cristo e somente com Cristo podemos sofrer, mas nunca sofreremos em vão. Sem Cristo é que sofreremos em vão. Este tipo de sofrimento tortura e angustia e não liberta.

Além das cruzes que encontramos na vida, ou por nossa própria culpa ou como conseqüência de uma opção pelos valores cristãos, carregamos também a cruz existencial. Gostaríamos de viver eternamente nesta terra, e livres de qualquer contratempo, por um lado, mas os nossos limites como criaturas não nos deixam sermos o que gostaríamos de ser, por outro lado. Temos desejo infinito por vida ou pela vida, mas somos obrigados a aceitar um fato brutal de que temos que morrer. A vida em si, em sua estrutura, hospeda a morte. Jesus, o homem verdadeiro e o Deus verdadeiro, participou da estrutura humana. Ele morreu não somente porque os homens O mataram, mas também porque ele é o homem que morreu como todos nós morremos. Mas para que esta estrutura de uma criatura limitada se torne em uma transfiguração, precisamos ser despojados como Cristo para que o Deus da vida, o Absoluto, o Eterno, o Infinito possa hospedar na nossa estrutura mortal para transformá-la em uma estrutura imortal. Somente com isto teremos outra concepção sobre a morte: morrer não é mais um fim de tudo(acabou tudo), e sim uma peregrinação para a fonte da vida, para o Deus vivo que nos espera. Esta consciência e a fé nesta certeza nos leva a dizermos que o homem nunca morre e sim uma criatura que nasce duas vezes: nasce quando deixa o seio materno para entrar num mundo maior onde ele se junta com outros companheiros de viagem rumo para o outro nascimento que é a entrada na vida eterna.

Cristo carregou uma cruzmasnunca foi cruzpara os outrosnem colocou cruzesnoscaminhosdos outros. Quandocontrariarmos a vontade de Deusporcausa do pecadoque faz ninhodentro de nós, nos tornaremos cruzespara os outrose colocaremos cruzesemseuscaminhos. Quandoos outros contrariarem a vontade de Deus, tornar-se-ão cruzesparanós e colocarão cruzesemnossoscaminhos. Assim, os outrossãocruzesparanós e nós somos cruzesparaos outros. Cristoquerquenão sejamos cruzesparaninguémmas imitadores de seuamor apaixonado.

Por isso, pregar a cruza partir de Cristosignifica terconsciênciado pecadoquefaz ninho no nossocoraçãoquecausa tantas cruzesna própriavidade quem o comete e na vida dos outroscomquemconvive. A presença do pecadocomo uma forçadestruidora cria muitas cruzes na convivênciahumana, poisnuncasomente vivemos, massempre convivemos. Cadaatonosso, seja positivoounegativo, sempre tem conseqüênciadiretoouindiretamenteparaa vida dos outros. Esta consciência de sernossocoraçãoa hospedagemtambémdo pecado, nosleva a umato de acabarcom as muitas cruzesque criamos atravésdo trabalhocontínuode arrancar o ninhodo pecadodentrode nósatravésda conversãocontínua. Não podemos esquecerque a cruzde Jesus é uma revoltacontra a dignidadehumana violada, contraaquiloquedeveria ter evitado paranãocriartantos sofrimentos na própriavida e na vidaalheia. Pregara cruz de Cristosignifica convocar as pessoasparaumamor e paraumperdãoincondicionais, para a capacidade de nãopermitirqueo ódio e suasmúltiplas manifestações reinem o coraçãohumanoondeDeus deposita seussegredos. Sem esta atitudenão haverá a paze a ressurreição; nãohaverá a passagem do homemvelhopara o homemnovocriadopara o céu. Que sejamos uma ressurreiçãoe não a cruzpara os outros. Que sejamos soluçãoe nãoproblemapara os outros.

A partirdo amor de Cristo, pornós, que foi levadoaté o fimpercebemos que estávamos lá no Calvário. Todosnósestávamos lá na mentee no coração de Cristo. Elenosconhecia todos, sofria portodos, nos amava e nosredimia a todos. Ele“tomou as nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossosmales” (Is 53,4; Mt 8,17). Estávamos lá cravados na cruzcomCristo, moremos comelee ressuscitamos comele.

Olhando paraa Cruz de Cristo, a partir de nós, percebemos que a cruzde Cristo é umprodutoterríveldo pecado. Foi meupecadoquecrucificou Jesus. Da cruz sabemos que o preço do pecado é a morte. Jesus morreu porque o serhumanonãotolera a defesa do pobree do inocente, nemo desvelamento da hipocrisia, nem a denúnciada injustiça, nema ruptura das convençõese privilégiossociaise religiosos. Jesus morreu porqueerabom e nãocompactou com a maldade, com a corrupção, com a desonestidade, com a exploração, com a deslealdade, com a injustiça, mas se colocou, do ladodos oprimidos, dos justos, dos leais, dos honestos, dos inocentessemretrocederdiantedas conseqüências. Cristoprefere ser crucificado a traira verdade, o amor, a justiça, a honestidade. Porissoé queElefoi ressuscitado porDeusPai.

P. Vitus Gustama,svd