Mês: fevereiro 2015

É PRECISO CAMINHAR 2015-02-28 21:32:00

02/03/2015
 
MISERICÓRDIANOS APROXIMA DE DEUS

 

Segunda-Feira da II Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Dn 9,4b-10

4b “Eu te suplico, Senhor, Deus grande e terrível, que preservas a aliança e a benevolência aos que te amam e cumprem teus mandamentos; 5 temos pecado, temos praticado a injustiça e a impiedade, temos sido rebeldes, afastando-nos de teus mandamentos e de tua lei; 6 não temos prestado ouvidos a teus servos, os profetas, que, em teu nome, falaram a nossos reis e príncipes, a nossos antepassados e a todo povo do país. 7 A ti, Senhor, convém a justiça; e a nós, hoje, resta-nos ter vergonha no rosto: seja ao homem de Judá, aos habitantes de Jerusalém e a todo Israel, seja aos que moram perto e aos que moram longe, de todos os países, para onde os escorraçaste por causa das infidelidades cometidas contra ti. 8 A nós, Senhor, resta-nos ter vergonha no rosto: a nossos reis e príncipes, e a nossos antepassados, pois que pecamos contra ti; 9 mas a ti, Senhor, nosso Deus, cabe misericórdia e perdão, pois nos temos rebelado contra ti, 10e não ouvimos a voz do Senhor, nosso Deus, indicando-nos o caminho de sua lei, que nos propôs mediante seus servos, os profetas”.

Evangelho: Lc 6,36-38

Naquele tempo, disse Jesus aos seusdiscípulos: 36 “Sede misericordiosos, comotambémvossoPai é misericordioso. 37 Nãojulgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e nãosereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; 38dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaçomedida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesmamedidacomque medirdes, sereis medidos vóstambém”.
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O textodo evangelho deste diafaz parte do Sermãode Jesus chamado Sermão da Planície no evangelho de Lucas (Lc 6,20-49). Chamado de Sermão da Planície é para distingui-lo do Sermão da Montanha de Mateus (Mt 5-7). Se em Mateus Jesus faz seu Sermão no topo da montanha, em Lucas Jesus faz o Sermao na planície depois que Jesus na companhia dos discípulos desceram da montanha onde os Doze Apóstolos foram escolhidos (Lc 6,12-16). O Sermão da Planície é muito mais breve do que o Sermão da Montanha.

“Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso”

 O textodo evangelho lido e proclamado neste diafala da moral cristã quese caracteriza pelofatode que é, habitualmente, uma imitação de Deus, e porisso, não é uma simplesmoralhumana. Na suaprimeiraCartasãoJoão diz: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), e são Lucas diz no evangelho deste dia: “Deus é misericórdia”.  EmMateus Jesus diz: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Em Lucas Jesus diz: “Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso”. Para o evangelista Lucas a perfeição cristã consiste na prática da misericórdia. Ser verdadeiro cristão, segundo Lucas, é imitar o Deus de amor e de misericórdia. Conseqüentemente, na vivência do amore da misericórdianãohaverá lugarparao julgar e o condenar do próximo.

O cristãodeve ser reconhecível e reconhecido pelo amor (e pela misericórdia; cf. Jo 13,35). Jesus concebe este amor não como um sentimento e sim como uma atuação. Não é um simples sentimento humanitário. Este amor do qual fala Jesus tem uma raiz existencial: a realidade do Pai:“Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”. É o Pai quem dá sentido ao amor vivido na fraternidade. Através do amor misericordioso vivido Deus reconhece o homem como filho Seu e o homem se reconhece como filho de Deus.

Segundo Jesus, sermisericordioso deve ser uma regra para todos os discípulos. Se no Antigo Testamento o ideal da perfeição era ser santo (cf. Lv 19,2; veja também 11,44), o Jesus de Lucas coloca a misericórdia como o ideal da perfeição para um cristão. O ideal da perfeição cristã consiste em estar em conformidade ou em sintonia com a misericórdia de Deus. A imitação e a vivência da misericórdia excluem o cristão de qualquer tipo de julgamento para assumir a atitude de perdão, pois o próprio Deus não usa de justiça contra nós pecadores e sim Ele usa de misericórdia. Sem a misericórdia de Deus ninguém sobreviveria sobre a face da terra.O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor” (Bento XVI: Carta Encíclica: Deus Caritas Est, 10).

A misericórdia não é simplesmente amor: é um amor que não conhece limites, barreiras, obstáculos, fronteiras: é um amor que sabe amar também quem se tornou  indigno do amor. Enquanto o amor diz somente doação, a misericórdia diz super doação. A misericórdia é um especial poder do amor, que prevalece sobre o ódio, a infidelidade, a deslealdade, a ingratidão. Como diz João Paulo II: “Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (Dives in misericordia, no.6).

O melhorcaminhoparahumanizarcadavezmaisumserhumanoé o do amor e da misericórdia. Umcristãocheio de amore de misericórdia é muitohumano e educado. Eleé tãohumanoque se transforma emuma manifestação daquilo que é divino. Naquele queama tem algodivino, pois“Deus é amor”. Jesus Cristo foi tãohumano e porisso, foi tãodivino. Para sermos divinos temos quesermuitohumanos. É o paradoxode sercristão.

Para Jesus todos os pecadosda humanidade têm a mesmaorigem: a cobiçaque é a manifestaçãoclara do próprioegoísmo. O objetivode todos os atosde um egoísta é apenasseuprópriointeresse. Enquantoque o verdadeiroamor é feitode doação, semcálculos e seminteresses. Quemama, amao próprioamor. “O amornãotem mais razoes queo próprioamor” (Santo Agostinho. In epist. Joan. 8,5).

Em muitosmomentosnãofomos capazes de sermisericordiosos paracomo próximo. Naquele momentoemquefomos tãoduros, impiedosos, inflexíveisatétãocruéis, apagamos a imagem do Deus misericordioso de nossavida. Comesta atitude esquecemos aquiloqueSãoPaulo nos diz: “Sois uma carta de Cristoescritanãocomtinta, mascomo Espírito de Deusvivo, nãoem tabuas de pedra, masemtabuas de carne, noscorações” (2Cor3,3). O Espírito de Deusvivo deve sermanifestado muitoclaroe muitoencarnadona nossavidaparaque os outros, até os “analfabetos” na féconsigam lê-lo.

Reconhecer nossadebilidade é o melhorpontode partidaparaa conversão, paraa nossavoltaaos caminhos de Deusde misericórdia. Quemse achasanto, não se converte. Quemse acharico, não pede. Quemse achasaber de tudo, nãopergunta. Será quereconhecemos pecadores? Será que somos capazesde pedir o perdoa do fundode nossoser?

Alem de reconhecernossa debilidade, temos queaceitaroutropassoque Jesus nospropõe hoje: sermisericordioso e perdoar os demaiscomo o próprioDeus é misericordioso e perdoa nossospecados. Perdoar significa crer na capacidadequenóssereshumanos temos paracomeçar de novo. O perdãonão é uma simplestréguaparafazer tolerável a vidasem uma novacriaçãoquenosaproxima do plano de Deus. Nossograndedesafio é chegarmos a entenderqueprecisamos vivertodaa existência cristã na dinâmica do perdãoque é a dinâmicado começo e do recomeçopermanente.

Pararefletir:

·        “O julgamento será semmisericórdiaparaaquelequenão pratica a misericórdia. A misericórdia, porém desdenha o julgamento” (Tg 2,13).

·        “A Igreja vive vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora. Neste contexto, assumem grande significado a meditação constante da Palavra de Deus e, sobretudo, a participação consciente e refletida na Eucaristia e no sacramento da Penitência ou Reconciliação” (João Paulo II: Carta Encíclica: Dives In Misericórdia, 13c).

P. Vitus Gustama,svd

Retiro quaresmal – Sábado da I semana

A Epístola aos Hebreus, logo no capítulo segundo, falando de Jesus, o santo Filho eterno do Pai, que Se fez homem para salvar a humanidade, nos surpreende afirmando que, fazendo-Se homem, Jesus “libertou os que, por medo da morte, passavam a vida toda sujeitos à escravidão” (Hb 2,15).

Que significam tais palavras?

Que medo da morte é este?
E, por que ele escraviza assim tão fortemente, a ponto de necessitar da encarnação do Filho eterno? E como o Filho nos liberta dessa escravidão?

Primeiro, o medo da morte… De que morte fala aqui o Escritor sagrado?

Morte é tudo aquilo que nos nega, que nos contrista.
Morte é cada tristeza, cada renúncia, cada derrota, cada decepção, cada perda, cada separação, cada medo, cada solidão, cada lágrima derramada, cada fracasso.
Morte é, enfim, a morte do termo da nossa vida.
E temos medo da morte. Pelamo-nos de medo!
A ânsia que temos de viver é tamanha, que pensamos, iludidos, que a vida está em nossas mãos, que é nossa de modo absoluto e, assim, devemos fazer tudo do nosso modo para escapar das experiências negativas e dolorosas, custe o que custar… E, nesta ilusão, quebramos propósitos, rompemos compromissos, transgredimos preceitos do Senhor, esquecemos o próprio Deus, e pensamos, e dizemos, e gritamos: “Tenho que ser feliz, tenho o direito de ser feliz, o único que importa é ser feliz do meu jeito!”
O homem tem tanto medo das mortes, que rouba, corrompe, mente, mata, manipula, usa os demais, engana, engana-se… Tudo para levar a melhor, tudo pela ilusão de ser feliz do seu modo e na sua medida…
Assim, pelo medo da morte, ilude-se, escravo de si e do seu pecado, escravo da ilusão que aquele que é Sedutor deste o princípio lhe oferece, como no Jardim do Paraíso… Por medo de morrer as mortes da vida, terminamos por cair na morte da escravidão de nós mesmos, do nosso pecado. Bem que Jesus nos previne: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la” (Mt 16,25).
Pense, você, nos seus medos…
Experimentados, vivenciados, longe de Deus, fora de Sua santa presença, esses medos apavoram, condicionam, bloqueiam-nos…
Esses medos da morte, por vezes, ditam a regra das nossas ações e omissões: medo de ser incompreendido, medo de perder amizades ou privilégios, medos… tantos medos temos!
Quais os medos determinantes na sua vida?
Como eles condicionam você?


Uma segunda questão: Como Jesus nos salva de tamanha e tão total perdição, que invade toda a nossa existência consciente e inconsciente?
Ele Se fez um de nós, viveu em tudo a nossa condição; mas, não teve medo da morte!
Abandonou-Se totalmente nas mãos do Pai, fez do Pai Seu tesouro, Seu alicerce, Sua luz, o sentido último e absoluto da Sua vida, fazendo-Se a Ele obediente até a morte e morte de cruz!
Nos embates e lutas da vida, Ele aprendeu a obedecer no sofrimento (cf. Hb 5,8s) tornando-Se livre e libertador! Desta maneira, Jesus foi livre – totalmente livre, o homem mais livre que jamais existiu! Tão livre, a ponto de exclamar: “Ninguém tira a Minha vida. Eu a dou livremente. Tenho o poder de entregá-la e o poder de retomá-la. Este é o preceito que recebi do Meu Pai” (Jo 10,18).
Assim livre, assim senhor de Si, assim totalmente obediente, Ele foi até a cruz.
Ressuscitado, dá-nos Seu Espírito que, agindo em nós, configura o nosso coração ao coração do Salvador, colocando a nossa vida na Sua obediência e na Sua liberdade.
Pense bem, meu Irmão de caminho quaresmal!
Enquanto houver em seu coração apego à própria vida, com a ilusão de que você sozinho, você do seu jeito, você na sua própria medida e na sua própria verdade mentirosa, sem Deus e até contra Deus, pode ser feliz, pode construir sua própria felicidade, construindo seu próprio projetozinho pessoal… enquanto sua vida for assim, você nada mais será que um pobre escravo!
Com todo o prestígio, você não passa de um pobre escravo;
com todo o seu dinheiro e poder, você não passa de um escravo;
com todos os talentos, prazeres e potencialidades, escravo;
com todo o seu sucesso, você será só escravo, todo escravo, enganado escravo! 
Escravo da própria escravidão; tão escravo que pensa que a escravidão é liberdade! 
Por medo de não ser feliz, por medo de perder a vida, você se torna escravo e vive uma grande ilusão que, ao fim de tudo, será colocada por terra, desmascarada! Escravo!
Como sair disso?
Como quebrar tão terrível, profunda e generalizada maldição que nos ilude?
Vivendo a vida numa profunda união com Aquele Jesus que foi livre, totalmente abandonado nas mãos do Pai, totalmente obediente ao Deus Santo de Israel, totalmente centrado Nele.
Aí, quando “nem a morte nem a vida nem criatura alguma” (Rm 8,38s) nos poder separar do amor de Cristo, quando tivermos os sentimentos Dele, a liberdade Dele, então já não teremos medo das mortes da vida e, livres, saberemos viver a vida com serenidade, usando os bens e oportunidades deste mundo sem a eles nos escravizar, mas deles fazendo caminho para Deus e para os outros.
Olhe! Pense nestas coisas, porque elas dizem respeito a você, bem de pertinho; dizem respeito a mim, a cada um de nós! O próprio Jesus nos preveniu: “Se o Filho vos libertar, sereis realmente livres” (Jo 8,36).
É Ele – somente Ele – Quem, de fato, nos livra da morte, pois é o único que é capaz de nos fazer atravessar os vales das mortes e entrar na vida verdadeira.
Vá: seja livre; largue tantas escravidões, geradas da tola ilusão de salvar você mesmo a sua vida, às vezes passando por cima de Deus, dos outros e até da sua consciência. Seja livre, meu Leitor! Sejamos nós livres! Para isto fomos criados e salvos por Cristo: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!” (Gl 5,1).
Reze o Salmo 17/18

2º Domingo da Quaresma – Por que Deus prova a nossa fé?

Por que deus prova a nossa fe mini

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Marcos
(Mc
9, 2-10)

Escrevendo sobre o mistério da Transfiguração, o qual a Igreja celebra neste Domingo, o famoso autor francês Dom Prosper Guéranger considera que Jesus queria preparar os Seus discípulos para a difícil provação que eles enfrentariam na Páscoa. Incipientes na fé – basta lembrar que São Pedro tinha acabado de fazer sua primeira profissão em Cristo (cf. Mt 16, 16) –, eles precisavam ser fortalecidos para suportar a hora da prova. Cristo, então, misericordiosamente Se transfigura diante deles.

Mas, por que Deus procura provar a nossa fé? Porque Ele quer que cresçamos no amor. A Primeira Leitura deste Domingo mostra o exemplo luminoso de Abraão, que, para obedecer a Deus, está disposto a sacrificar o seu próprio filho. Diante da prova a que o Senhor o coloca, o patriarca não questiona em nenhum momento o decreto divino. Mesmo não entendendo nada, sabe que Deus é bom e que o ama, e esta fé no Seu amor é suficiente para que ele suba o Monte Moriá para entregar Isaac. Sua atitude fê-lo merecer o título de “pai da fé”.

O objeto principal da fé é, pois, o amor de Deus. Abraão não cria em uma teoria abstrata ou num conjunto de ideias, mas em uma Pessoa. Nós, cristãos, também, ainda que professemos os conteúdos do Credo todos os domingos, cremos nessas verdades de fé por causa d’Aquele que as revelou, Nosso Senhor Jesus Cristo, e por Seu amor. De fato, o que realmente distingue o bom cristão é a fé no amor divino. Na existência de Deus, simplesmente, até o demônio acredita. São Tiago escreve que “também os demônios crêem e tremem” (Tg 2, 19).

A Tradição nos recorda que os anjos, quando foram criados por Deus, também foram postos à prova. Ao contrário do que muitos podem pensar, eles não foram imediatamente agraciados com a visão beatífica. Fosse assim, seriam de tal modo atraídos, que perderiam a sua liberdade, e, como Deus quer de Suas criaturas um amor livre, Ele Se esconde e pede a sua fé. Certa vez, então, o Senhor colocou os seres angélicos à prova. Qual era o objeto dessa provação? Os Santos Padres cogitam que, talvez, Deus lhes tenha mostrado que eles deviam servir ao homem Jesus. Lúcifer, então, em sua soberba, deu o brado de non serviam: ele sabia que Deus existia, mas não creu no Seu amor. São Miguel, um simples arcanjo, com sua humildade, respondeu dizendo: “Quem como Deus?” – que é o significado de seu nome, em hebraico. Com isso, o anjo – invocado como “príncipe da milícia celeste” – dava uma lição aos seus congêneres rebeldes e a todos nós: quando não se entende a bondade de Deus, é preciso mergulhar na fé e crer no Seu amor.

Ao subir o Tabor e transfigurar-se à vista de Pedro, Tiago e João, Nosso Senhor dá uma prova de amor aos Seus discípulos, a fim de prepará-los para a provação que se aproximava, na Cruz. Do mesmo modo, quando Deus nos manda Suas graças, Seus presentes e Seus “carinhos” – a conversão de uma pessoa, um milagre, a transformação da própria família etc. –, tratam-se de “transfigurações”, “manifestações de Tabor”, feitas para que também nós nos preparemos para as provações na fé. E estas são inevitáveis. Todos seremos provados. Importa que, diante das provas, nos coloquemos na presença de Deus e, mesmo sem entender, reconheçamos o Seu amor; que, diante das tempestades, digamos com fé: “Senhor, eu não Vos compreendo, mas eu Vos amo”.

O salmista canta, na liturgia desta Domingo: “Guardei a minha fé, mesmo dizendo:/ “É demais o sofrimento em minha vida! É sentida por demais pelo Senhor/ a morte de seus santos, seus amigos”. É preciso crer que Deus “sente” e chora conosco a nossa morte e o nosso sofrimento. À famosa pergunta: “Mas, se Ele é onipotente, por que permite o mal?”, não se responde senão apontando para o mistério: são verdadeiramente insondáveis os desígnios divinos.

O fato, porém, é que Deus não é indiferente à nossa dor. A Segunda Leitura diz que “Deus não poupou seu próprio Filho”. O Senhor, que poupou Isaac, não poupou Jesus. Isso quer dizer que o próprio Deus passou pelo sofrimento, experimentou, na Cruz, o abandono por parte dos homens, sofreu por causa de nossa ingratidão e falta de amor. O mesmo Deus que Se mostrou glorioso no Tabor se escondeu no mistério da Cruz.

Que sejamos capazes de imitar a Virgem Maria, nossa “mãe na fé”. Se Abraão foi grande nessa virtude, porque subiu o monte Moriá para sacrificar seu filho, mas este foi poupado, Maria foi maior que Abraão, porque subiu o Calvário, pronta para entregar o seu Filho e Deus, desta vez, não O poupou. Subamos com os discípulos, neste Domingo, a montanha sagrada do Tabor, para subirmos com Nossa Senhora, na Páscoa, o Calvário.

O clube do carimbo e o auge da degradação sexual

Clube do carimbo

Todas as épocas de acentuado declínio social estão marcadas por uma exploração desmedida da sensualidade. A corrupção moral foi a principal responsável pela queda do Império Romano, dizem os historiadores [1]. A banalização do homem tornou os romanos insensíveis a qualquer apelo da razão, abrindo caminho para o domínio bárbaro. Isso porque o ser humano, quando abandonado às suas paixões, fica incapaz de amar, isto é, enxergar o outro como pessoa. Uma sexualidade desregrada vê nos corpos instrumentos de prazer, objetos descartáveis sempre ao alcance dos desejos mais pervertidos da imaginação. Coube à Igreja a tarefa de restituir a dignidade humana frente a uma cultura de morte instalada na medula da sociedade.

Os Padres da Igreja sempre entenderam a união conjugal como uma relação em que se procura o bem do outro. O vínculo entre marido e mulher está radicado muito mais em um “empenho para com a outra pessoa”, que em um sentimento vago ou em uma atração psicofísica. É justamente o que recordava São João Paulo II ao Tribunal da Rota Romana, em um discurso de 1999:

“O simples sentimento está ligado à mutabilidade do espírito humano; só a atração recíproca, depois, muitas vezes derivante sobretudo de impulsos irracionais e às vezes aberrantes, não pode ter estabilidade e, portanto, está facilmente, se não de maneira fatal, exposta a extinguir-se.”

O matrimônio, embora também esteja ligado ao sentimento, fundamenta-se no compromisso do amor, de onde nasce a sua indissolubilidade. “A caridade jamais acabará”, lembra o apóstolo (1 Cor 13, 28). E esse amor conjugalis que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” é a razão pela qual marido e mulher são capazes do sacrifício mútuo pela salvação da família.

A cultura hodierna, por outro lado, tende não somente a negar esse amor, como a ridicularizá-lo de todas as maneiras. Em nome de uma pseudoliberdade, a sociedade é induzida a considerar o corpo algo desprezível, “colocando-o, por assim dizer, fora do ser autêntico e da dignidade da pessoa”. “O seu pressuposto — comenta o Papa Bento XVI — é que o homem pode fazer de si o que quer: o seu corpo torna-se assim uma coisa secundária, manipulável sob o ponto de vista humano, a ser utilizado como se deseja”. Praticamente, todos os relacionamentos modernos — uniões livres, “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo, namoros coloridos etc. — estão embasados nessa visão unilateral do “prazer sem freios”. Não se busca o bem do outro, mas a autossatisfação imediata. Trata-se de sexo, não de amor.

Ora, não é preciso muito esforço para perceber as consequências nefastas disso tudo. “A crônica quotidiana — falava João Paulo II no mesmo discurso à Rota Romana — traz, infelizmente, amplas confirmações acerca dos miseráveis frutos que essas aberrações da norma divino-natural acabam por produzir”.

Há alguns dias, um jornal de grande circulação no país comentava o caso de “homens que passam o HIV de propósito”. Segundo a reportagem, esses indivíduos se reúnem em blogs e outros sites da internet para darem dicas de como infectar o parceiro sexual propositalmente. “Não fez ainda? Faça, pois é bem provável que já tenham feito com você”, incentivava um desses sites, ensinando a furar a camisinha durante o ato sexual. A prática tem o nome de bareback, que no linguajar homossexual significa “sexo anal sem camisinha”. O termo originalmente vem do inglês e quer dizer “cavalgar em um cavalo sem cela”. Em São Paulo, diz o jornal, uma casa noturna dedicada ao sexo gay chega a reunir mais de cem homens por dia, muitos adeptos do “clube do carimbo”, como se chama o grupo dedicado a retransmitir o vírus da Aids. “Carimbar” faz referência direta à contaminação.

Um dos entrevistados da matéria justifica seu comportamento assim: “É um prazer incontrolável. Sem a camisinha o meu prazer triplica. Eu odeio a camisinha”. O rapaz é empresário, soropositivo, tem 36 anos e frequenta casas noturnas, embora nunca se relacione sem avisar o parceiro sobre sua doença, garante. De acordo com o jornal, o “clube do carimbo” deve virar uma tendência no meio LGBT em dois ou três anos. “Hoje, a gente vive o auge dessa prática da contaminação”, informa outro entrevistado. As orgias, comumente chamadas de “roleta-russa”, mexem com o fetiche e a adrenalina, explicam os participantes; por isso, têm se tornado tão comuns. Há também uma falta de perspectiva somada a um sentimento libertário. O resultado: entre 2003 e 2013, o índice de infecção por HIV no meio homossexual aumentou para 29,1%; para os héteros, a variação foi de 1,7%.

Repetir o ensinamento católico acerca disso tudo é chover no molhado. O fato, porém, expõe diante dos olhos do público qual movimento é verdadeiramente homofóbico. Enquanto o Catecismo da Igreja diz que os homossexuais “devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza”, a nova moda LGBT apregoa a disseminação de um vírus mortal, em nome de um “prazer incontrolável”. “Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas” (Rm 1, 26). Os efeitos insidiosos da cultura da camisinha, do sexo livre e da libertinagem podem ser reconhecidos por qualquer pessoa de bom senso. Essa cultura de morte não procura o bem do outro, mas se desfazer dele como um lixo, como se descarta a seringa de uma droga qualquer após o uso. A Igreja, sempre na contramão das falsas ideologias, crê na sublime vocação do homem, tenha ele ou não a tendência homossexual, chamando-o a amar verdadeiramente: “Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.” A castidade não mata ninguém. O “clube do carimbo”, sim.

Não se enganem: nenhum ser humano foi feito para viver como um brinquedinho de almas pervertidas. Nenhum ser humano foi feito para servir a “surras” e “pauladas”, como sugere a mídia nestes dias cinzentos, nem para bareback, “clubes do carimbo”, “roletas-russas” ou outras práticas suicidas.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Daniel-Rops. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. Quadrante: São Paulo, 1988

Lembre-se de quem você é

Filho prodigo

A
filiação divina é o fundamento da vida cristã. O ministério público de Jesus inicia-se com estas palavras: “Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (Mt 3, 17). Essa é a novidade trazida pela encarnação de Cristo. Ao entregar seu único filho, a fim de que por Ele se operasse a redenção do gênero humano, Deus manifestou sua profunda essência paterna. Diferentemente do que apregoava Ário, nunca houve um tempo em que Deus não foi pai. Com efeito, é seu querer fazer que o homem atinja a perfeição cristã, conduzindo-o pelo caminho do amor, da fé e da esperança, até o dia em que o reunirá “e o apertará sobre seu seio” (cf. Is 40, 10-17).

O reconhecimento da paternidade divina, por sua vez, exige uma urgente mudança de vida. O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma
determinada determinação — como dizia Santa Teresa d’Ávila — de tornar-se santo como o Pai é santo [1]. Não pode servir a dois senhores. A santidade deve ser nossa única meta nesta vida. Todavia, para que possamos atingi-la, é necessário o auxílio da graça. Amamos com o amor de Deus. A lógica da santidade cristã, portanto, é esta: Deus me ama (pela fé, cremos no seu amor), eu amo Deus (pela caridade, devolvo seu amor a Ele e ao próximo). E isso se realiza mediante a esperança. Esperamos em Deus a purificação de nossas faltas para que possamos urgentemente amá-lO “em espírito e em verdade” (Jo 4, 24). Pois “quem pôs a sua esperança em Cristo vive dela, e traz já em si mesmo algo do gozo celestial que o espera” [2].

A consciência de que, pelo batismo, somos filhos de Deus — e, por isso, chamados a uma dignidade superior — revela-nos a nós mesmos. Assim, quem se esquece da paternidade divina, esquece sua própria identidade. No clássico-infantil
O rei leão, enxergamos essa realidade, de maneira alegórica, na cena em que o pai de Simba, Mufasa, aparece nas nuvens para recordar a condição real do filho. Após um olhar profundo para o lago onde vê o rosto do pai — que poderíamos encarar como o olhar profundo para nossa alma —, Simba escuta a vós de Mufasa, que lhe diz: “You have forgotten me, / you have forgotten who you are and so forgotten me. / Look inside yourself. / You are more than what you have become. / You are my son. / Remember who you are. — Você se esqueceu de mim, / você esqueceu quem você é e se esqueceu de mim / Olhe para dentro de você. / Você é muito mais do que pensa que é. / Você é meu filho. / Lembre-se de quem você é“. Guardadas as devidas proporções, as palavras do personagem infantil ajudam-nos a recordar a exortação de um grande santo da Igreja, a saber, São Leão Magno: “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e corpo és membro” [3].

De fato, Deus nos ama. É justamente essa a razão pela qual, na oração do Pai-Nosso, Jesus se dirige a Ele não só pelo pronome
“Pai”; Ele diz “Abba, Pai”, que em hebraico significa “papai”. Com esta expressão, Jesus demonstra seu livre abandono, sua confiança filial. Faz-se como uma criança. “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem” (Lc 11, 13). Mesmo no pecado, Deus não nos abandonou à própria sorte, não deixou a ovelha perdida. Ao contrário, enviou seu próprio Filho para nos revelar a sua face e tornar-nos participantes de sua glória.

“Na tarde desta vida, aparecerei diante de vós de mãos vazias” [4]. Nesta frase, com a qual Santa Teresinha do Menino Jesus fez sua livre
oferenda ao amor misericordioso, encerra-se toda a doutrina da filiação divina. Quem tem a Deus por Pai não pode ser outra coisa senão uma alma confiante. Ela, embora saiba o valor dos méritos, não procura ser amada por eles, mas unicamente pela graça do Pai. Não procura recompensas nem honrarias. Procura somente o amor. Sabe-se uma pequena ave, um fraco passarinho que, ficando em seu posto, não se aflige “se nuvens escuras vierem esconder o Astro de Amor”, pois “sabe que além das nuvens seu Sol brilha sempre, que seu brilho não poderia ser eclipsado um só instante” [5]. Assim, voa para seu querido Sol nas asas de suas irmãs águias.

Os grandes santos da Igreja, a exemplo de Santa Teresinha, foram forjados sobretudo pela paternidade divina. Eles receberam o amor do Pai e, acolhendo-o em seu coração, sentiram a força para levar a mensagem salvífica até os confins do mundo. Em especial, mais do que qualquer outro santo, a Virgem Maria soube acolher a paternidade de Deus-Pai para ser a Mãe de Deus-Filho e, desse modo, cooperar para a redenção do gênero humano. Benditos são, portanto, aqueles que acreditam no amor de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Mt 5, 1-12.
  2. FERNÁNDEZ-CARVAJAL, Francisco. Falar com Deus: meditações para cada dia do ano. Vol. 7º: Festas litúrgicas e Santos (2). Índices. Julho-dezembro — 3ª ed. — São Paulo: Quadrante, 2005, pág. 186
  3. Catecismo da Igreja Católica, 2784
  4. Teresa de Lisieux, Oferenda ao amor misericordioso
  5. Manuscrito B, 5r

O Combate Espiritual

“Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever” (Ef 6,13). O Papa Francisco falando sobre o primeiro domingo da Quaresma disse que: “O sentido deste tempo é o de combate espiritual contra o espírito do mal. E enquanto atravessamos o “deserto” quaresmal, […]

Cinco Santos que tinham Superpoderes

Deus age de maneiras misteriosas. Esta verdade se faz particularmente evidente nas coisas que ele faz com aqueles que estão especialmente próximos a ele. Aqui estão alguns santos que tiveram superpoderes: 1) São José Cupertino: Voando Chamado de “o santo voador”, não estamos falando sobre algumas historias em que São José Cupertino tenha voado de maneira […]

É PRECISO CAMINHAR 2015-02-26 18:39:00

Domingo,01/03/2015
TRANSFIGURAÇÃO:
VIVER UMA VIDA TRANSFIGURADA ESCUTANDO JESUS CRISTO, PALAVRADO PAI

II DOMINGO DA QUARESMA ANO “B”

Textos: Gn 22,1-2.9-15; Rm 8,31-34; Mc 9,2-8

Evangelho: Mc 9,2-10

Naquele tempo, 2Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a umlugar à parte, sobreuma altamontanha. E transfigurou-se diante deles. 3Suasroupasficaram brilhantes e tão brancas comonenhuma lavadeirasobrea terrapoderiaalvejar. 4Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus. 5Então Pedro tomou a palavrae disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazertrêstendas: uma parati, outraparaMoisés e outraparaElias”. 6Pedro não sabia o quedizer, poisestavam todoscommuitomedo. 7Então desceu uma nuvem e os encobriu comsuasombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meuFilhoamado. Escutai o queelediz!” 8E, de repente, olhando emvolta, não viram maisninguém, a nãosersomente Jesus comeles. 9Ao descerem da montanha, Jesus ordenou quenãocontassem a ninguém o que tinham visto, atéqueo Filho do Homemtivesse ressuscitado dos mortos. 10Eles observaram esta ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos”.

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O texto do Evangelho deste Domingo pertence à segunda parte do Evangelho de Marcos que fala do mistério do Filho do Homem: revelação do sofrimento de Jesus. Esta segunda parte é formada por três grandes seções:

1). O Caminho do Filho do Homem(8,31-10,52) na qual Mc enfatiza claramente sua Teologia da Cruz. Fala-se nesta parte três anúncios da paixão de Jesus que sempre termina com o anúncio da ressurreição. Para Marcos imitar Jesus significa seguir seu caminho. A expressão “no caminho” ocorre como refrão nesta seção. Jesus e seus discípulos estão “no caminho” (cf. Mc 8,27), e no fim, quando estão perto de Jerusalém, Bartimeu, depois que voltou a enxergar, segue a Jesus “no caminho” (10,52). “No caminho” os discípulos discutem sobre quem será maior (9,33-34). Jesus continua a “retomar seu caminho” (Mc 10,17) e conduz seus discípulos “no caminho” rumo a Jerusalém (Mc 10,52).

2). Na segunda seção Jesus se encontra em Jerusalém (Mc 11,1-13,37). Nesta seção falam-se das discussões mais ou menos polêmicas entre Jesus e os círculos dirigentes de Jerusalém: sumos sacerdotes, escribas, fariseus herodianos, saduceus. Nesta seção Mc quer antecipar as motivações da condenação de Jesus. Esta seção termina com o discurso escatológico (Mc 13,1-37).

3). A terceira seção fala da paixão e ressurreição de Jesus (Mc 14,1-16,8).                                         

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O texto do evangelho lido e proclamado neste dia fala da transfiguração de Jesus. Os sinóticos (Mt 17,1-13; Mc 9,2-10; Lc 9,28-36) e 2Pd 1,17-18 relatam a cena da transfiguração para enfatizar sua importância na vida de Jesus.  A transfiguração é uma antecipação da ressurreição do Senhor Jesus que intenta levantar o ânimo dos discípulos, ratificando que o destino final não é a morte e sim a ressurreição. Por isso, em cada anúncio de sua Paixão (três anúncios), Jesus acrescenta esta frase: “… depois de três dias (o Filho do Homem) deve ressuscitar” (Mc 8,31; 9,31; 10,34). Por isso, um dos temas fundamentais que toma novo rumo no relato da transfiguração é o tema da morte e ressurreição. A morte deixa de ser o fim irremediável para o homem e a sombra do horror para começar a ser entendida como o transladar-se para onde Deus está, isto é, na plenitude. Por isso, desde então, a morte está intimamente ligada ao triunfo, e não pode ser entendida sem a luz da ressurreição.

1. Transfiguração Numa Montanha

A transfiguração acontece em uma alta montanha. A “montanha alta” simboliza o lugar de encontro do céu e da terra, lugar privilegiado para a revelação de Deus e a oração dos homens, recorda igualmente a revelação de Deus no Sinai (cf. Ex 19-20). A montanha, por ser um ponto elevado sobre a parte plana da terra, sempre foi considerada em todas as antigas religiões como um símbolo da “subida” do homem até Deus e como o sinal da manifestação ou epifania de Deus. Deus se manifesta no alto e o homem deve subir até Deus, abandonando uma vida medíocre, pois Deus está acima de nossos esquemas de viver.

Por isso, para o homem, subir a montanha significa superar-se a si mesmo, transcender-se, elevar-se um pouco mais além da rotina. Neste sentido, os textos bíblicos de hoje são um convite para a transcendência humana; transcendência que não será conseguida sem atravessar um caminho sinuoso, longo e escuro. No contexto da primeira leitura (Gn 22,1-18), a fé é subir até o pico mais alto da montanha de Deus para fazer ali o holocausto total de nós mesmos. A fé é o caminho da renúncia e da morte de nós mesmos para que Deus possa se manifestar através de nós. Somente com a morte de nós mesmos é que Deus pode anunciar e prometer uma vida nova para nós. Subir até Deus é morrer de nossos projetos pessoais, de tantos planos, esquemas e cálculos puramente humanos e pessoais para dar o lugar para os projetos de Deus. Certamente, nesta morte, Deus manifesta sua glória salvadora e sua eterna misericórdia.

Frases ou palavras como “o monte”, “os seis dias”, “os três acompanhantes”, “o esplendor”, “a visão” e “nuvem” recordam a Ex 24,9-18 (Moisés é chamado por Deus para subir a uma montanha). A expressão “depois de seis dias” equivale ao “sétimo dia”, isto é, um tempo de plenitude. Isto quer dizer que a transfiguração se converte em um momento de plenitude esperançadora no caminho para a dolorosa Jerusalém.

2. É Preciso Escutar Jesus Para Ser Salvo

Nessa transfiguração estão presentes Elias e Moisés. A presença de Moisés e de Elias, genuínos representantes da Lei e dos profetas (= AT) põe de manifesto que para o evangelista Mc, em Jesus se dá cumprimento total à lei e a profecia. Para Mc Jesus é o definitivo libertador de todo homem e mulher que assimilando sua causa, se deixa conduzir por ele para viver a plena liberdade de filhos de Deus (embora, muitas vezes, não saibamos lidar com nossa própria liberdade). 

Pedro, Tiago e João são testemunhas de alguns dos fatos mais importantes da vida de Jesus: a “ressurreição” da filha de Jairo (Mc 5,37), a transfiguração, a oração em Getsêmani (Mc 14,33). Os três apóstolos representam a Igreja, o novo Povo de Deus, o Povo que é interlocutor de Deus de Deus, que está em diálogo com Ele, que O escuta. Neles se expressa que a Igreja recebe do Pai, através dos apóstolos, a afirmação central da fé: o homem Jesus de Nazaré é o Filho de Deus. 

Um dos três apóstolos que é Pedro se extasia diante da luz da transfiguração. Ele sente como se estivesse no céu. Por isso, Pedro quer permanecer alí indefinidamente. Para isso, ele propõe a Jesus construir três tendas. É uma boa solução para seguir a Jesus sem ter que trilhar o difícil caminho para Jerusalém. Mas o evangelista Marcos comenta: “Pedro não sabia o que dizer”.

O relato é interrompido pela aparição de uma nuvem com uma voz que interpreta a transfiguração de Jesus e responde à reação de Pedro. A “nuvem” é sinal da presença de Deus (cf. Ex 40,35). A nuvem cobre com sua sombra Jesus e seus discípulos. E Deus fala da nuvem aos discípulos (cf. Ex 24,16), proclamando Jesus como seu Filho amado e convida os discípulos para que O escutem: “Este é o meu Filho amado, escutai-O!” O momento nos recorda o batismo de Jesus, mas com uma diferença. A voz não é dirigida mais exclusivamente a Jesus como no batismo (Mc 1,11), e sim aos discípulos. Um autêntico cristão é aquele que sabe escutar seu Mestre, Jesus Cristo, mesmo que suas palavras saiam da cruz e do sofrimento. Pedro é convidado pela Voz divina a voltar aos caminhos da vida para continuar no serviço do Reino de Deus.

Este é o meu Filho amado, escutai-O!”

No sentido lexical, a palavra “Escutar” significa tornar-se ou estar atento para ouvir, ou aplicar o ouvido com atenção para perceber ou ouvir (Aurélio).

Na Bíblia, a escuta é uma palavra–chave que caracteriza toda a tradição do povo hebraico. O povo foi formado pela escuta da Palavra de Deus. Por isso, o piedoso israelita, para se compenetrar da vontade de Deus, repete dia a dia esta frase: “Escutai, ó Israel”, conhecido como “Shemah” (Dt 6,4;Mc 12,29), que desde o fim do século I d. C não deixou de ser rezado de manhã e à tarde pelos judeus observantes. Por trás da palavra “Shemah”, que convida Israel a se colocar numa atitude de escuta, proclama-se solenemente a unidade de Deus que causa a união plena e total de Israel com o Senhor. Isto quer dizer que ao escutarmos Jesus, a Palavra do Pai, a unidade divina feita carne, criaremos a união plena com Deus e entre nós. Segundo o sentido hebraico a palavra “escutar” ou “acolher a Palavra de Deus” não é somente prestar-lhe ouvidos atentos, mas abrir-lhe o coração (At 16,14), pô-la em prática (Mt 7,24ss) e obedecer-lhe(Lc 1,38).  Essa obediência da fé é que a pregação ouvida exige. Como diz São Paulo: “A fé procede da audição e a audição da Palavra de Cristo” (Rm 10,14-17).O drama do homem, na verdade, consiste em não escutar a Deus e a Sua Palavra, não escutar os bons conselhos, não escutar as boas orientações. Deus diz no livro de Deuteronômio: “Eu, Deus, pedirei contas a quem não escutar as palavras de quem pronunciar em meu nome” (Dt 18,16.19). Por isso, Jesus declara feliz quem escuta a Palavra de Deus e a observa: “Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a observa” (Lc 11,28), pois eles são comparados a um homem que construiu a casa sobre a rocha (cf. Mt 7,24).

A primeira leitura (Gn 22,1-18) nos apresenta Abraão como exemplo da escuta atenta. Na sua existência Deus ocupa o lugar absolutamente central. Para ele Deus é o valor máximo, a prioridade fundamental. Para ele nada mais conta quando estão em jogo os planos de Deus. Por isso, ele nos ensina a confiar em Deus mesmo quando tudo parece cair à nossa volta e quando os caminhos de Deus se revelam estranhos e incompreensíveis, pois Deus é fiel.

3. A Transfiguração É A Resposta De Deus Sobre O Futuro Do Homem

A transfiguração de Jesus é a resposta de Deus para os discípulos, desanimados diante do anúncio da paixão e morte de Jesus. Deus quer mostrar-lhes antecipadamente, ainda que seja só num momento rápido, a glória de Jesus Cristo e a futura glória dos que vivem fielmente segundo a vontade de Deus ainda que tenham que atravessar o caminho de sofrimento. Através da transfiguração de Jesus, Deus quer nos dizer que a vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de colocar a sua vida ao serviço dos irmãos.

A antecipação da ressurreição, através da transfiguração, para os discípulos será uma força para o caminho que têm que percorrer. A vida, por dura que possa ser (cruz, morte), será vivida em outra perspectiva: a ressurreição transfigura tudo. A morte não terá a última palavra sobre a vida do homem. A partir da experiência da transfiguração tudo pode ser graça apesar de ter uma aparência da cruz, pois Deus envolve tudo na sua misericórdia.

A glória de Jesus se manifesta nas suas vestes brancas e resplandecentes que eram símbolo da glória dos justos no céu (Dn 7,9) e na brancura deslumbrante que simboliza a glória da condição divina(cf. Mc 16,5). Isto quer nos dizer que o Deus de Jesus é Aquele que mostra logo no início a vitória final. Por isso, em cada anúncio da paixão e morte de Jesus acrescenta-se também o anúncio da ressurreição, a vitória garantida sobre a morte.  E a vitória garantida no fim anima qualquer um para lutar até o fim sem se cansar. A vitória garantida dá força para cada seguidor para lutar até o fim.

Podemos dizer que a transfiguração é o grito de Deus para não ficarmos desanimados na nossa vida, pois a lógica de Deus não nos conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim. Cada um de nós precisa parar da agitação cotidiana para escutar esse grito de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

Ascensão e queda dos Templários

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Lendas e fatos, mitos e mistérios: o que há de tão impressionante na história dos Templários? Nesta aula de História da Igreja, confira um resumo da saga dos “Pobres Cavaleiros de Cristo”, desde a glória de seus primeiros anos até a sua decadência e extinção precoce.