Mês: abril 2014

É PRECISO CAMINHAR 2014-04-30 22:34:00

 
É PRECISO CAMINHARMOS COM O SENHOR

Sábado da II Semana da Páscoa

03 de Maio de 2014

 

Evangelho: Jo 6,16-21

16Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. 17Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles. 18Soprava um vento forte e o mar estava agitado. 19Os discípulos tinham remado mais ou menos cinco quilômetros, quando enxergaram Jesus, andando sobre as águas e aproximando-se da barca. E ficaram com medo. 20Mas Jesus disse: “Sou eu. Não tenhais medo”. 21Quiseram, então, recolher Jesus na barca, mas imediatamente a barca chegou à margem para onde estavam indo.
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O relato da caminhada de Jesus sobre as águas se encontra, curiosamente, entre a multiplicação dos pães (cf. Jo 6,1-15) e o discurso sobre o Pão da vida (Jo 6,26-66). O “sinal” da caminhada sobre as águas está estreitamente ligado com a multiplicação dos pães (cf. Jo 6.1-15). A multiplicação dos pães prepara a parte principal do discurso sobre o Pão da vida: “O verdadeiro pão de Deus, Sou Eu, é meu Corpo e meu Sangue… dados em alimento”, assim Jesus disse.

A caminhada sobre as águas inicia o final do discurso (Jo 6,60-71): nele aparece Jesus andando sobre as águas, mostrando seu domínio sobre a natureza. E isto é uma resposta às dificuldades dos que não aceitam o discurso de Jesus sobre o Pão de vida que é Ele próprio.

Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles”.  Jesus fica só. Por que não embarcou com os discípulos? Parece que foi muito intencional da parte de Jesus. O evangelista João ao empregar determinado(s) termo(s) é porque tem algum valor. A “noite”, as “trevas” têm um significado: Jesus está ausente. Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12): sua ausência significa a desorientação total. Através do mundo sensível o evangelista João sugere ou nos leva para o mundo espiritual. Tudo é símbolo. O evangelista João nos sugere que cultivemos nosso espírito de contemplação para captar o significado profundo das coisas e dos acontecimentos.

“Já estava escuro” ou “já era noite”, assim nos relatou o evangelista João. Esta noite era algo muito real. Mas, ao mesmo tempo, para o evangelista João “noite” significava a ausência de Jesus.

1. “Não tenham medo… Sou Eu”.   

Consciente ou inconscientemente temos medo de algo ou de alguém. Em outras palavras, convivemos com o medo, ou melhor, com os medos. Não estamos errados em sentir medo, porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Sentir medo é vivenciar a nossa condição de criatura. O medo é uma manifestação de nosso instinto fundamental de conservação. É a reação a uma ameaça para nossa vida, a resposta a um verdadeiro ou suposto perigo: desde o perigo maior, que é o da morte até os perigos particulares que ameaçam a tranqüilidade física ou nosso mundo afetivo.

Existem medos justificados como também os injustificados ou patológicos. Os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitar o perigo. O imprudente geralmente suprime o medo e se atira inutilmente ao perigo. O covarde teme tudo, se paralisa e não se atreve a correr nenhum risco. Não podemos nos torturar aumentando os nossos medos com nossa fantasia. O homem sadio usa seus medos para agir prudentemente.

“Não tenham medo… Sou Eu!”. Cristo dirigiu muitas vezes este convite aos homens com os quais se encontrava. Esta frase foi dita pelo Anjo do Senhor a Maria: “Não tenhas medo, Maria” (Lc 1,30). Foi dita ao São José: “Não tenhas medo, José” (Mt 1,20), e assim por diante.

O evangelho ou a Palavra de Deus, a Palavra daquele que é maior do que a morte nos ajuda a libertar de todos os nossos medos, revelando o caráter relativo, não absoluto dos perigos que os provocam. Há algo de nós que ninguém nem nada no mundo possa nos tirar: trata-se da alma imortal: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28ª).

De que não devemos ter medo? Não devemos ter medo da verdade sobre nós mesmos, sobre nossa vida, sobre nossas fraquezas, sobre nossos defeitos e limitações, sobre nossas dificuldades, sobre nossas incapacidades. Não podemos fingir como se fossemos super homens. Somente uma pessoa forte é que capaz de reconhecer suas próprias fraquezas e pede, sem medo nem vergonha a ajuda dos que mais competentes na área.

2. Em tudo devemos contar com Jesus

Os discípulos navegam pela noite sem “a Luz do mundo” (Jesus). Confiados no poder e na força próprios, eles pensavam que pudesse controlar as circunstâncias. De fato, sua força é insuficiente. O mar que eles acreditam poder dominar se torna incontrolável. Nessa altura, normalmente vem a pergunta na cabeça: Onde está o Senhor? Acaso, Ele nos abandonou? O Senhor jamais abandona os seus mesmo que eles O abandonem: “Não temais! Sou Eu!”.

Quantas vezes cada um de nós quer fazer as coisas sozinho, à sua maneira e não como o Senhor quer. Quantas vezes cada um de nós caiu na tentação de pensar: “Sou uma pessoa forte e independente, posso tudo!”. Mas cedo ou tarde vai cair no fracasso. Lança-se, então, a pergunta: “Senhor, por que me abandonaste?”. Mas, na realidade, fui eu quem abandonou o Senhor; esqueci-me dele. Sem o Senhor, nada podemos fazer (cf. Jo 15,5). Mas com Ele não há nada que possa me separar dele (cf. Rm 8,31-39). Se caminharmos com o Senhor nesta vida, se vivermos em comunhão com Ele, a nossa vida será mais leve, pois o jugo do Senhor é suave e sua carga é ligeira (cf. Mt 11,30).

Como na pesca milagrosa, o texto do evangelho deste dia quer nos transmitir uma verdade de que sem Jesus é inútil qualquer esforço na missão e não haverá paz. Mas quando Jesus se aproxima, volta novamente a calma, e o trabalho resulta plenamente eficaz. É preciso colaborar com a graça de Deus para que ela possa operar em nós e através de nós para um trabalho frutífero.

3. Colaborar com o Senhor a partir de nossas condições

Não pedimos a Deus uma vida sem dificuldades, porque elas fazem parte de um verdadeiro crescimento. Não há crescimento sem dificuldades e obstáculos. Pedimos a Deus, sim, a força e a serenidade para encarar tudo na vida com ele. A partir do evangelho deste dia percebemos que a dificuldade não é um lugar vazio e desabitado, porque no meio da dificuldade está o Senhor. Ele está no centro da vida.  Tenhamos sagacidade para saber converter as dificuldades em lugar de encontro com Jesus, o Senhor que caminha sobre as águas dessas dificuldades. Basta escutá-lo em silêncio no meio do ruído do medo, e reconhecê-lo: “Não tenha medo, sou Eu”. E essas contrariedades serão esplêndida ocasião para o exercício contemplativo. Somente assim se produz o milagre.

Toda vez que celebramos a Eucaristia, o Ressuscitado se faz presente na comunidade reunida, nos é dada a Palavra salvadora e nos alimenta com o Pão da vida. É verdade que sua presença é sempre misteriosa como para os discípulos de então. Mas pela fé temos que saber ouvir a frase que tantas vezes se repete com suas variações na Bíblia: “Eu sou, não tenha medo!”. Com isso, de cada missa ganharemos mais ânimo e convicção para o resto da jornada, porque o Senhor nos acompanha, ainda que nós não O vejamos com os nossos olhos humanos.

P. Vitus Gustama,svd

Os sacramentos da iniciação cristã

Primeira comunhao mini

A Igreja chama de “sacramentos da iniciação cristã” o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. Nesta aula, Padre Paulo Ricardo fala sobre eles e, de modo especial, do Batismo, porta de entrada para todos os outros.

Catequese Papa Francisco – O Dom do Entendimento

Catequese com o Papa Francisco - 30/04/14
CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 30 de abril de 2014
Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Queridos irmãos e irmãs, bom dia
Depois de ter falado da sabedoria, como primeiro dos sete dons do Espírito Santo, hoje gostaria de colocar a atenção sobre o segundo dom, isso é, o entendimento. Não se trata daquela inteligência humana, da capacidade intelectual de que podemos ser mais ou menos dotados.  É, em vez disso, uma graça que só o Espírito Santo pode infundir e que suscita no cristão a capacidade de ir além do aspecto externo da realidade e perscrutar as profundezas do pensamento de Deus e do seu plano de salvação.
O apóstolo Paulo, dirigindo-se à comunidade de Corinto, descreve bem os efeitos deste dom – isso é, o que faz o dom do entendimento em nós – e Paulo diz isso: “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64, 4) tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo seu Espírito” (1 Cor 2,9-10). Isso obviamente não significa que um cristão possa compreender cada coisa e ter uma plena consciência dos planos de Deus: tudo isso permanece à espera de manifestar-se em toda a sua clareza quando nos encontrarmos diante dos olhos de Deus e formos realmente uma só coisa com Ele. Porém, como sugere a própria palavra, a inteligência permite “intus legere”, isso é, de “ler por dentro”: este dom nos faz entender as coisas como Deus as entende, com a inteligência de Deus. Porque uma pessoa pode entender uma situação com a inteligência humana, com prudência, e tudo bem. Mas entender uma situação em profundidade, como a entende Deus, é o efeito deste dom. E Jesus quis enviar-nos o Espírito Santo para que nós tenhamos este dom, para que todos nós possamos entender as coisas como Deus as entende, com a inteligência de Deus. É um belo presente que o Senhor deu a todos nós. É o dom com o qual o Espírito Santo nos introduz na intimidade com Deus e nos torna participantes do plano de amor que Ele tem conosco.
É claro, então, que o dom da inteligência está estreitamente conectado à fé. Quando o Espírito Santo habita o nosso coração e ilumina a nossa mente, faz-nos crescer dia após dia na compreensão daquilo que o Senhor disse e realizou. O próprio Jesus disse aos seus discípulos: eu vos enviarei o Espírito Santo e Ele vos fará entender tudo aquilo que eu vos ensinei. Entender os ensinamentos de Jesus, entender a sua Palavra, entender o Evangelho, entender a Palavra de Deus. Alguém pode ler o Evangelho e entender alguma coisa, mas se nós lemos o Evangelho com este dom do Espírito Santo podemos entender a profundidade das palavras de Deus. E isto é um grande dom, um grande dom que todos nós devemos pedir e pedir juntos: Dai-nos, Senhor, o dom do entendimento.
Há um episódio do Evangelho de Lucas que exprime muito bem a profundidade e a força deste dom. Depois de ter visto a morte na cruz e o sepultamento de Jesus, dois de seus discípulos, desiludidos e tristes, vão a Jerusalém e retornam ao vilarejo de nome Emaús. Enquanto estão a caminho, Jesus ressuscitado se aproxima e começa a falar com eles, mas os seus olhos, velados pela tristeza e pelo desespero, não são capazes de reconhecê-Lo. Jesus caminha com eles, mas eles estão tão tristes, tão desesperados, que não O reconhecem. Quando, porém, o Senhor explica a eles as Escrituras, para que compreendessem que Ele deveria sofrer e morrer e depois ressuscitar, as suas mentes se abrem e nos seus corações se reacende a esperança (cfr Lc 24, 13-27). E isto é o que faz o Espírito Santo conosco: abre-nos a mente, abre-nos para entender melhor, para entender melhor as coisas de Deus, as coisas humanas, as situações, todas as coisas. É importante o dom do entendimento para a nossa vida cristã. Peçamos esse dom ao Senhor, que nos dê, que dê a todos nós este dom para entender, como Ele entende, as coisas que acontecem e para entender, sobretudo, a Palavra de Deus no Evangelho. Obrigado.

Será que Deus escuta as orações dos pecadores?

Sera que deus escuta as oracoes dos pecadores mini

Pergunta-se se Deus escuta as orações dos pecadores. Trata-se de uma questão pertinente, já que alguns trechos das Escrituras podem deixar meio obscura esta realidade aparentemente tão óbvia. São João, por exemplo, escreve: “Qualquer coisa que pedimos recebemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é do seu agrado” [1]. Algumas passagens do Evangelho, no entanto, como a parábola do fariseu e do publicano [2] e o episódio do bom ladrão [3], indicam que Deus ouve as súplicas dos pecadores. O que dizer diante desse conflito?

Santo Tomás de Aquino, com seu gênio teológico, ilumina essa questão, lembrando que “a oração, afora o efeito do consolo espiritual que traz no momento em que é feita, possui dupla virtualidade quanto ao efeito futuro: a de merecer e a de impetrar” [4].

O valor impetratório é a eficácia da oração com relação à fé. O orante pede porque crê que Deus é onipotente e pode realizar aquilo que é o objeto de sua súplica: “A fé é necessária da parte de Deus, a quem oramos, isto é, que creiamos poder conseguir d’Ele o que pedimos” [5]. É claro que, no caso do pecador – de quem não está em estado de graça –, esta fé é uma fé morta, porque não é informada pela caridade. Então, Deus ouve aquela oração por pura misericórdia.

O valor meritório na oração só existe “enquanto [esta] procede da raiz da caridade, cujo objeto próprio é o bem eterno que merecemos gozar” [6]. “A oração sem a graça santificante não é meritória, como nenhum outro ato virtuoso” [7]. Não se confunda, aqui, a palavra “meritória” com a opinião de que a pessoa “merece” a graça que Deus lhe concede. Como diz o Concílio de Trento, “ninguém pode ser justo, senão aquele a quem se comunicam os merecimentos da Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo” [8]. Ou seja, a própria capacidade meritória é um dom de Deus: o único homem que realmente teve mérito diante de Deus foi Jesus Cristo; os demais são justificados na medida em que estão ou não unidos a Ele.

Então, a oração do amigo de Deus tem valor muito maior que a oração do pecador. Isso se dá, primeiramente, porque, se a pessoa ama a Deus, está em sintonia com o Seu coração, pedindo o que ela sabe que Ele lhe vai conceder. O pecador, ao contrário, pode pedir coisas fúteis ou até contrárias à vontade divina e isso, obviamente, tirará a eficácia de sua oração. Além disso, o pedido do justo é informado pela caridade: ele suplica as coisas a Deus desejando agradar o Seu coração.

Deus se agrada de nós, gosta de receber o nosso amor e de ver a nossa caridade. E é fonte de grande alegria para Ele atender os pedidos daqueles que O amam. Isso é visível na intercessão dos santos. Por que existem santos que têm um maior poder de intercessão? Por que se diz que a Virgem Santíssima é a “onipotência suplicante”, enquanto outros santos não têm a mesma eficácia de intercessão? Por causa do valor meritório. O amor da Virgem Santíssima, o fato de ela estar configurada ao coração de Cristo de forma perfeita, faz que a sua oração tenha grande poder diante de Deus, enquanto a oração de uma pessoa que passou pelo purgatório e tem menor glória no Céu tem menor eficácia. Tanto maior o amor dado a Deus, tanto mais generosa é a resposta d’Ele à sua súplica.

Então, a oração dos pecadores tem o seu valor: trata-se do valor impetratório. Já a oração do justo, da pessoa que está no caminho da santidade, tem um valor maior – o valor meritório –, porque, além da fé, contém a caridade ardente de quem é amigo de Deus.

Referências

  1. 1 Jo 3, 22
  2. Cf. Lc 18, 9-14
  3. Cf. Lc 23, 39-43
  4. Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 15
  5. Ibidem
  6. Ibidem
  7. Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 15, ad 1
  8. Concílio de Trento, Sessão VI, Decreto sobre a justificação, n. 800

As Suaves Lições da Minha Horta

Gosto muito da natureza, porque Deus nos fala e nos ensina através dela; por isso, cultivo uma pequena horta no quintal de minha casa. E cada vez que eu vou ali cuidar dela, aprendo muitas lições espirituais, de modo suave e silencioso, como Deus sa…

É PRECISO CAMINHAR 2014-04-29 23:00:00

 
PARTILHAR O PÃO É UM ATO SAGRADO, POIS PROLONGA O ATO GENEROSO DE DEUS

 

Sexta-Feira da II Semana da Páscoa

02 de Maio de 2014
                                                                                                                 

Texto de Leitura: Jo 6,1-15

Naquele tempo, 1Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado de Tiberíades. 2Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele operava a favor dos doentes. 3Jesus subiu ao monte e sentou-se aí, com seus discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. 5Levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” 6Disse isso para pô-lo à prova, pois ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer. 7Filipe respondeu: “Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um”. 8Um dos discípulos, André, o irmão de Simão Pedro, disse: 9“Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?” 10Jesus disse: “Fazei sentar as pessoas”. Havia muita relva naquele lugar, e lá se sentaram, aproximadamente, cinco mil homens. 11Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes. 12Quando todos ficaram satisfeitos, Jesus disse aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca!” 13Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido. 14Vendo o sinal que Jesus tinha realizado, aqueles homens exclamavam: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo”. 15Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte.
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Começamos hoje a leitura do famoso capítulo de São João. É uma verdadeira síntese teológica sobre a Eucaristia e sobre a fé. Neste capítulo teremos o relato de dois sinais (multiplicação dos pães e Jesus anda sobre as águas) seguido por um longo discurso de Jesus que expressa e prolonga o significado dos gestos de dois sinais prodigiosos (1. Multiplicação dos pães; 2. Jesus anda sobre as águas; 3. Discurso sobre o Pão da vida). A leitura de Jo 6 só terminará na III Semana da Páscoa.

O presente relato de Jo quer destacar o conhecimento sobre-humano de Jesus. Jesus aparece aqui como o Senhor. Desaparecem as marcas humanas como compaixão por uma multidão faminta que estava muito tempo sem comer (cf. Mc 6,34). Os sinóticos destacam mais a dimensão humanitária de Jesus do que sua dimensão divina. Toda a situação se desenvolve sob o controle de Jesus: ele sabe perfeitamente o que tem que fazer. Jesus tem a iniciativa em todo momento. Acentua-se a sua preocupação pelo homem para responder às suas necessidades mais profundas. O papel dos discípulos é reduzido.

     

No Evangelho de João, como já sabemos, não se usa o termo milagre, mas sinal. Um sinal nos leva daquilo que vemos para aquilo que não vemos, do conhecido ao desconhecido, isto é, que evoca algo que está muito além de sua própria realidade. O que o evangelista João chama de sinais são os gestos de Jesus. São chamados de Sinais porque remetem a algo mais profundo, ao significado. Somos convidados a descobrir o que tem por além de cada gesto de Jesus e de cada personagem.

O evangelho fala da multiplicação dos pães. Logo no início, ao ver a multidão, Jesus perguntou a Filipe: “Onde vamos comprar pão para eles comerem?” (v.5). Através desta pergunta o texto quer nos dizer que a primeira preocupação de Jesus é com a sobrevivência do povo. Jesus provoca seus seguidores, representado por Filipe sobre como resolver a questão da fome do povo. Para Filipe a fome do povo não tem solução: “Duzentos denários de pão não seriam suficientes para que cada um recebesse um pedaço” (um denário é a diária de um lavrador: Mt 20,2, isto quer dizer que 200 dias de trabalho não são suficientes para alimentar tanta gente).

Surgiu André, o irmão de Pedro com uma solução: “Aqui há um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes”.Ele representa a nova proposta diante da fome do povo. Pão de cevada e peixe eram a comida dos pobres (arroz e feijão para o povo brasileiro). Os ricos comiam o pão de trigo. O menino e os pães cevadas lembram o profeta do pão, Eliseu, no AT (2Rs 4,42-44). O menino neste relato tem generosidade de entregar seu pão e peixe. Ele não retém para si seu alimento nem pergunta de que ele se alimentará. O menino recorda, por isso, os pequenos que estão dispostos a servir e a partilhar os bens da vida, sem submetê-los à ganância. Ele representa todos aqueles que acreditam sempre na providência divina mesmo que estejam cercados pelas dificuldades, e continuam sendo generosos apesar do pouco que eles têm.

E Jesus pega o pão e faz a oração de bênção e de agradecimento. Aqui ele não agradece ao menino que ofereceu os pães e sim a Deus. Esse detalhe é importante, pois coloca os bens que sustentam a vida dentro do projeto de Deus. Ao dar graças a Deus, Jesus está tirando os bens da vida das garras da ganância e do acúmulo para colocá-los no âmbito da partilha e da gratuidade. Aqui a bênção sobre o pão é o reconhecimento público da bondade de Deus. Ao agradecer a Deus pelo pão que se tem, Jesus nos ensina a colocarmos os bens que sustentam a vida dentro do projeto de Deus cuja alma é a partilha. Dar graças a Deus significa reconhecer que algo que se possui é dom recebido de Deus. Nada criamos. Tudo é criado por Deus gratuitamente e nós usufruímos tudo gratuitamente. O preço dessa gratuidade vinda de Deus deve ser a bondade praticada por nós. Dar graças a Deus pelos bens que temos significa reconhecer sua origem última em Deus e que quem os possui é apenas um administrador encarregado de colocá-los à disposição dos irmãos mais necessitados com a mesma gratuidade com que os recebeu de Deus. O sinal operado por Jesus, o pão partilhado, consiste precisamente em libertar a criação do egoísmo que esteriliza a humanidade para que se converta em dom de Deus para todos. Ao restituir a Deus, com sua ação de graças, os bens da comunidade, Jesus restaura seu verdadeiro destino, que é a humanidade inteira. Com sua ação, Jesus ensina seus discípulos e todos os cristãos sobre qual é a missão da comunidade: a de manifestar a generosidade do Pai que criou tudo de graça, compartilhando os dons que d’Ele recebemos.

Jesus saciou concretamente o povo faminto a partir de uma realidade terrestre e retirou-se, depois, da multidão. O pão que ele fornece não é somente o símbolo do pão sobrenatural: não é possível revelar o pão da vida eterna sem se engajar verdadeiramente nas tarefas da solidariedade humana. Os pobres e os miseráveis são o teste por excelência da qualidade de nossa caridade. Na verdade, os necessitados nos transformam em pessoas mais humanas através da partilha que fazemos. Fica o gesto de amor de Jesus no ato de compartilhar o pão, e a nossa tarefa é de continuar esse gesto ao longo da história.

Na eucaristia recebemos o pão da vida eterna. Mas somente existe verdadeira recepção desse pão da vida, quando estamos dispostos a partilhar o que temos e somos para com os necessitados. Ninguém pode reter para si o pão num egoísmo desenfreado enquanto que os outros estão carentes dele. Quando muitos morrem por falta de pão, não é porque Deus deixa de faltar o trigo, e sim porque nós deixamos que falte o amor; porque nós deixamos o egoísmo dominar nossa vida. Em cada pão partilhado ou dado com o amor, o egoísmo é esmagado. Em cada pão partilhado com amor há um gesto sagrado, pois Deus está presente nesse gesto de partilha que é a alma do projeto de Deus. Deus faz festa quando um coração sabe amar, partilhando com o irmão necessitado o pão que se tem. Por isso, que estejamos atentos para que a nossa prática religiosa não seja mais importante do que o próprio Deus e Sua imagem que é o nosso próximo que espera de nós um gesto de bondade. Recebemos o Corpo de Cristo na Eucaristia para que nós sejamos vida para o próximo. Se não, a Eucaristia careceria de sentido.

 

P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2014-04-29 17:52:00

 
SER DO CÉU  OU SER DA TERRA?

Quinta-Feira da II Semana da Páscoa

01 de Maio de 2014

 

Texto de Leitura: Jo 3, 31-36

31“Aquele que vem do alto está acima de todos. O que é da terra, pertence à terra e fala das coisas da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos. 32Dá testemunho daquilo que viu e ouviu, mas ninguém aceita o seu testemunho. 33Quem aceita o seu testemunho atesta que Deus é verdadeiro. 34De fato, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque Deus lhe dá o espírito sem medida. 35O Pai ama o Filho e entregou tudo em sua mão. 36Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna. Aquele, porém, que rejeita o Filho não verá a vida, pois a ira de Deus permanece sobre ele”.
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Estamos na conclusão de Jo 3 que contém a conversa entre Jesus e Nicodemos. Nesta conclusão o evangelista João nos descreve a superioridade de Jesus em relação aos demais seres humanos e a todos os enviados anteriores a Ele. Para descrever isto, Jesus usa os termos relacionados ao espaço: “do alto”, “da terra”. Jesus vem do “alto” (cf. Jo 1,1-18). Um profeta pode ser maior de quaisquer outros profetas, mas ele vem da “terra”, e por isso, não pode ser superior a Jesus.

“Aquele que vem do alto está acima de todos”.

Esta expressão significa ocupar uma posição de poder e de domínio. Jesus obteve essa posição como Senhor sobre todos com sua ressurreição ou glorificação. Jesus é superior a todos os demais seres humanos, porque ele experimentou a intimidade profunda do Pai e é a própria Palavra do Pai (Jo 1,1-5). Jesus é apresentado como Revelador do Pai, por excelência: sua vinda do céu (v.31), a fonte de seu testemunho: Jesus não fala por si mesmo, mas Ele fala as palavras de Deus (o que ele viu e ouviu do céu: v. 32), e o fato de Deus ter entregue tudo em suas mãos (v.35). Por isso, Jesus é distinto e superior a todos os anteriores enviados de Deus.

Toda a vida de Jesus teve como pano de fundo o amor razão pela qual foi enviado (Jo 3,16) e o qual ele colocou como o Mandamento Novo (Jo 13,34). O amor é o eixo condutor da vida. Este amor foi tão tenso na vida e missão de Jesus que o Pai não hesitou em colocar nas mãos do Filho, inclusive o poder de julgar a vida de quem se negar a crer nele. A superioridade divina consiste no amor. Deus é onipotente, mas no amor, pois ele ama até aquele que não é digno de ser amado pelo modo de viver. Se Jesus ocupa essa posição superior a todos os demais seres humanos não devemos ter medo dos demais. Precisamos, sim, acreditar cegamente nele para que possamos também triunfar.

Hoje o evangelho nos convida a deixarmos de ser “mundanos”, a deixarmos de ser homens que somente falam de coisas mundanas, para passarmos a falar como “aquele que vem de cima” que é Jesus. Falaremos como ”aquele vem de cima”, quando vivermos conforme os valores cristãos reconhecidos como valores universais, tais como amor, compaixão, bondade, solidariedade, igualdade, honestidade, justiça e assim por diante. Estar na superioridade é aquele que mantém sua vida de acordo com os valores.

É preciso olharmos para cima, para o céu para poder ordenar nossa vida aqui em baixo, no mundo. É necessário que em todo momento e circunstância nos esforcemos a ter o pensamento de Deus, que tenhamos ambição de ter os mesmos sentimentos de Cristo. Se atuarmos como “aquele que vem de cima” descobriremos facilmente o sentido da vida, das coisas e das pessoas ao nosso redor até o sentido de nosso sofrimento e dor. Se tivermos os sentimentos como os “daquele que vem do alto”, amaremos todos os seres humanos sem exceção e nos preocuparemos em cuidar da nossa própria vida e da vida dos demais, inclusive da vida da natureza criada por Deus. São Paulo nos aconselha: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às de terra” (Cl 3,1-2).

“O que é da terra pertence à terra e fala das coisas da terra”. Ser da terra é ser limitado por um horizonte terreno incapaz de ver além da aparência. No olhar do terreno só tem coisas. É não ter o conhecimento imediato de Deus. Quem ama ao mundo fala somente coisas mundanas. Quem ama a Deus fala as coisas do alto.

Cada cristão deve saber identificar as duas classes de consciências pelas quais o ser humano pode optar: o terreno (inferno, egoísta, prepotência etc.) ou o celestial (amor, partilha, fraternidade, igualdade, etc.). Estes dois pólos de consciência expressam realmente os elementos com os quais cada um se identifica: um, busca seus próprios interesses (ser interesseiro); o outro, busca a criação de uma sociedade igualitária, mais fraterna, mais justa, mais honesta e assim por diante.

O celestial e o terreno influenciam nossa maneira de viver de cada dia. Mas no fim, o celestial triunfará e o terreno fracassará apesar da aparência vitoriosa. Fica apenas na aparência. Quem fica na aparência, vive apenas na superficialidade. Santo Agostino dizia: “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando o mundo nos tornamos mundanos (Serm. 121,1)… O amor ao mundo corrompe a alma; o amor ao Criador do mundo a purifica (Serm. 142,3,3).Queres saber que tipo de pessoa és? Põe à prova teu amor. Se amas as coisas terrenas, és terra. Se amas a Deus, não tenhas medo de dizer: és Deus” (Santo Agostinho: In epist. Joan. 2,214).

A verdade está em Deus e por isso, a verdade é eterna e imutável; os meios não são imutáveis nem eternos. A busca da verdade será sempre um exercício de modéstia, pois trata-se de indagar e não de possuir a verdade. O nosso conhecimento nunca é absoluto nem total, mas sempre parcial, pois vemos as coisas apenas do nosso ângulo, mas ainda tem outros ângulos. A verdade é uma só e universal e nunca parcial. Ou é a verdade ou não é verdade.

Deveríamos nos perguntar hoje: em quem cremos; em quem confiamos, quais são as fontes onde buscamos a verdade? Lamentavelmente temos experiência do que é a mentira. Muitas vezes fabricamos fatos inexistentes só para nos aparentar bons. Mentira é aquela distorção do real que gera desconfiança, medo, distancia e confusão. Diante da mentira se situa a Verdade, mencionada na página do evangelho de hoje. A verdade é o próprio Deus (Jo 14,6) e por isso, gera a vida. A verdade é o conhecimento do sentido da vida. A mentira gera a morte. “O que é da terra pertence à terra e fala das coisas da terra”. Mas “Aquele que vem do alto está acima de todos”. Quem é da terra (mundano) pensa a partir do pó, do caduco, do efêmero, a partir dos próprios interesses. Quem é do alto, do céu pensa e fala como filho (filha) de Deus com pensamentos de Deus.A que você pertence: às coisas do alto ou à terra? Mas lembremo-nos aquilo que dizia Santo Agostinho que serve de alerta para nós: “Quando lhe convém, o homem esquece que é cristão” (In ps. 21, 2,5).

P. Vitus Gustama,svd

Santa Catarina de Siena, a voz profética de Deus

Santa catarina de siena frame

Nascida em Siena, na Itália, por volta de 1347, “Catarina ouvira o chamamento de Deus desde a mais tenra infância, numa idade em que, normalmente, só se pensa em brincar” [1]. Passava sua infância aproveitando o silêncio e a solidão de sua casa para rezar e, em segredo, flagelar seus ombros com uma corda, por amor a Deus.

“O desejo de isolamento e as lendas dos padres do deserto, que tanto lhe ocupavam a imaginação, levaram-na a sonhar com um gruta solitária onde pudesse esconder-se para entreter-se exclusivamente com Deus”. De fato, um dia, cruzando o portão de sua cidade, Catarina saiu à procura de uma dessas grutas onde se escondiam os eremitas. Achando uma, entrou e, pondo-se de joelhos, rezou fervorosamente. Nessa experiência, aconteceu-lhe de “ser levantada do solo e flutuar livremente sob a abóbada”. A humilde criança, “temendo tratar-se de uma tentação do diabo para impedi-la de rezar, redobrou de ardor e de firmeza na oração” [2].

A pequena Catarina não se preocupava com as coisas com que normalmente dispendiam seus familiares. Ainda com sete anos, ansiando entregar-se exclusivamente a Deus, sem nenhuma ligação com o mundo aborrecedor dos homens, Catarina suplicou à Virgem Maria que a conservasse casta, a fim de tornar-se esposa de Jesus.
“Amo-O com toda minha alma – dizia a Nossa Senhora – e prometo a Ele e a Ti jamais aceitar outro esposo” [3].

Para fugir de seus pais, que queriam vê-la casada, Catarina cortou sua longa cabeleira, sem lhes dizer uma palavra. Para castigá-la, a mãe impediu-a de ter um quarto próprio, pondo-a para viver com o irmão Stefano. Mas nem isso a podia afastar de seu Bem-Amado. “Durante o dia, enquanto Stefano se atarefava no porão diante dos caldeirões da tinturaria, Catarina tinha o aposento só para ela; e à noite Stefano dormia como uma pedra, sem se aperceber das longas vigílias que a irmã passava em oração, a mil léguas deste mundo terrestre” [4]. Mais tarde, depois de uma experiente vida de oração, Catarina aconselhava aos seus filhos:
“Construí uma cela no fundo de vossa alma e de lá não vos afasteis mais” [5]. Parecia prefigurar a bela analogia feita por Santa Teresa de Ávila, ao comparar a alma a um castelo em cujo centro está Jesus.

Visitada em sonho por São Domingos de Gusmão, Catarina tomou a firme resolução de tornar-se “mantelata” – como eram chamadas as leigas da ordem dominicana. Quando comunicou a decisão aos familiares, as reações foram as mais negativas possíveis. O seu virtuoso pai, no entanto, acalmou a todos, com maturidade: “Deixem-na inteiramente livre para servir a seu Esposo e rezar assiduamente por nós. Jamais teríamos sido capazes de proporcionar-lhe tão gloriosa aliança.
Não nos lamentemos, pois, se, ao invés de tomar por esposo um homem mortal, ela se entregar ao Deus feito homem, que é eterno” [6].

Voltando a ter um quarto só para si, Catarina entregou-se com assiduidade à vida de penitência. Consciente de que, como ela mesma escreveu mais tarde, “a satisfação se dá pelo amor, pelo arrependimento e pelo desprezo do pecado” e que
“os gestos finitos são insuficientes para punir ou satisfazer, sem a força da caridade” [7], unia às suas severas mortificações corporais e a seus rigorosos jejuns um amor filial a Jesus.

Admitida, então, na Ordem Terceira de São Domingos, não demorou muito para que sua vida de virtudes atraísse as pessoas à sua volta. Em torno dela, nota o Papa Bento XVI, “foi-se constituindo uma verdadeira família espiritual. Tratava-se de pessoas fascinadas pela respeitabilidade moral desta jovem mulher de elevadíssimo nível de vida, e por vezes impressionadas também pelos fenômenos místicos aos quais assistiam, como os frequentes êxtases. Muitos se puseram ao seu serviço e sobretudo consideraram um privilégio ser orientados espiritualmente por Catarina” [8]. Daniel-Rops ainda faz notar que, “nesse núcleo de cristãos autênticos, lia-se a Divina Comédia, meditavam-se os místicos e perscrutavam-se os artigos da Suma de São Tomás de Aquino”. Todos carinhosamente chamavam Catarina de “dolcissima mamma” [9], pois se consideravam seus filhos espirituais.

Ao lado de uma sólida vida interior, Santa Catarina de Siena desempenhou um papel fundamental na história da Igreja, ao pedir ao Papa Gregório XI o fim do terrível “grande cisma do Ocidente”. Ela exortou o Sumo Pontífice a sair do exílio em Avinhão e voltar para Roma, a fim de devolver a unidade ao povo católico. Fê-lo por amor à Igreja, ao Papa – a quem chamava de “doce Cristo na terra” – e aos sacerdotes – que ela tinha em altíssima conta, mesmo consciente de suas faltas humanas. Sobre esses, ela escrevia, repetindo palavras do próprio Senhor:

“Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: ‘Não toqueis nos meus cristos’ (Sl 105, 15). (…) Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a mim. Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos, procurais meus ministros.

Não por eles mesmos, mas pelo poder que lhes dei. Se recusais fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. (…) Mas também o desrespeito. Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei, e por isso mesmo não podem ser ofendidos. Quem os ofende, a mim ofende. Disto a proibição: ‘Não quero que mãos humanas toquem nos meus cristos’!” [10]

Com seus ensinamentos, Catarina não só pedia a volta do clero à pureza dos costumes, mas também o respeito devido aos sacerdotes pelo caráter que receberam no sacramento da Ordem. Quando se procura os sacerdotes para receber os sacramentos ou quando se beija as suas mãos ungidas, não se faz isso “por eles mesmos”, mas pelo poder que Deus lhes deu de trazer à humanidade a Eucaristia e a remissão dos pecados.

Ao fim de sua vida, a santa de Siena configurou-se inteiramente a Nosso Senhor, sendo coroada com os santos estigmas. Ela –
“que era capaz de não tomar, durante cinquenta e cinco dias, outro alimento senão uma hóstia” – converteu-se em um milagre vivo de Deus. Por isso, ainda em 1461, menos de um século depois de seu nascimento para o Céu, foi canonizada pelo Papa Pio II.

“Nunca, ao longo da sua breve existência, se rompeu o seu contato com Aquele que a chamava pelo nome” [11], escreveu Daniel-Rops. E, agora, na Pátria Celeste, nada mais pode romper os laços tão estreitos que unem o seu coração ao Sagrado Coração de Jesus. Que a sua intercessão nos torne fiéis e perseverantes na oração e na penitência e fortaleça os nossos laços com a Igreja triunfante, de cuja plenitude pretendemos, com a graça de Deus, participar.

Santa Catarina de Siena, rogai por nós!


Por
Equipe Christo Nihil Praeponere

Recomendação

Catarina de Siena, de Sigrid Undset

Referências

  1. Henri Daniel-Rops. A Igreja da renascença e da reforma (I). Trad. Emérico da Gama. Quadrante: São Paulo. p. 20
  2. Sigrid Undset. Catarina de Siena. Trad. Maria Helena A. L. Senise. Agir: Rio de Janeiro, 1956. p. 15
  3. Ibidem, p. 17
  4. Ibidem, p. 24
  5. Ibidem, p. 25
  6. Ibidem, p. 30
  7. O Diálogo, 3
  8. Audiência Geral, 24 de novembro de 2010
  9. Henri Daniel-Rops. A Igreja da renascença e da reforma (I). Trad. Emérico da Gama. Quadrante: São Paulo. p. 22
  10. O Diálogo, 116
  11. Henri Daniel-Rops. A Igreja da renascença e da reforma (I). Trad. Emérico da Gama. Quadrante: São Paulo. p. 21

A Divina Misericórdia

A divina misericordia mini

O bem-aventurado Papa João Paulo II beatificou e canonizou, no ano 2000, sua conterrânea Santa Faustina Kowalska, uma santa religiosa que recebeu visões e revelações de Nosso Senhor a respeito da Divina Misericórdia. Em seu famoso diário, Santa Faustina relata o momento em que Jesus lhe pediu a instituição da festa da Sua Misericórdia:

“A Minha imagem já está na tua alma. Eu desejo que haja a Festa da Misericórdia. Quero que essa Imagem, que pintarás com o pincel, seja benzida solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa, e esse domingo deve ser a Festa da Misericórdia.” [1]

Atendendo ao apelo do próprio Jesus pelas palavras de Santa Faustina, João Paulo II estabeleceu o segundo domingo da Páscoa – tradicionalmente conhecido como Dominica in Albis – como a festa da Divina Misericórdia. E, este ano, ele mesmo será canonizado por ocasião da festa que instituiu.

Mas, o que é verdadeiramente a misericórdia de Deus? Qual a teologia que está por trás dessa bela festa da Igreja?

O padre Reginald Garrigou-Lagrange, ao explicar por que “Mãe de misericórdia é um dos maiores títulos de Maria”, distingue a “misericórdia, que é uma virtude da vontade, e a piedade sensível, que não passa de uma louvável inclinação da sensibilidade”. Esta última – que “nos leva a nos compadecer dos sofrimentos do próximo, como se nós o sentíssemos em nós mesmos” – é própria apenas dos seres humanos, não de Deus, “já que [Ele] é um espírito puro” [2]. Nas palavras de Santo Tomás de Aquino, “não é próprio de Deus contristar-se com a miséria de outrem” [3]. Mas, é própria de Deus a misericórdia, que é fundada na vontade. Ao dirigir-se às criaturas, Ele sempre as ama misericordiosamente.

Em nenhuma outra obra divina essa realidade é mais palpável que na Redenção. O homem, que já era um nada diante de Deus pela simples condição de criatura, após o pecado, ficou, por assim dizer, “abaixo do nada”. E foi por este homem que o próprio Deus se encarnou e manifestou a Sua misericórdia.

Quanto à questão se a Encarnação teria acontecido, mesmo que o homem não tivesse pecado, alguns teólogos escolásticos – como Duns Escoto – são da posição afirmativa: ainda se o homem não tivesse pecado, Deus teria se encarnado. O Aquinate, ao contrário, responde deste modo:

“As obras puramente voluntárias de Deus, sem haver nenhum débito para com a criatura, nós não as podemos conhecer, senão enquanto manifestadas pela Sagrada Escritura, que nos torna conhecida a vontade divina. Ora, como a Sagrada Escritura, sempre dá como razão à Encarnação o pecado do primeiro homem, mais convenientemente se diz que a obra da Encarnação foi ordenada por Deus como remédio do pecado, de modo que, se o pecado não existisse, a Encarnação não teria lugar. Embora por aí não fique limitado o poder de Deus; pois, Deus teria podido encarnar-se mesmo sem ter existido o pecado.” [4]

Tomás destaca que a Encarnação é um ato da soberana liberdade de Deus. Quando Ele decidiu encarnar-Se, em seu plano de amor, fê-lo como realidade que pressupunha a queda do homem. Não se deve ficar construindo hipóteses, como se Deus pudesse caber em raciocínios humanos, nem limitar o poder de Deus, que “teria podido encarnar-se mesmo sem ter existido o pecado”.

Então, a misericórdia infinita de Deus se mostra eminentemente na Redenção. Por isto é coerente dizer que do peito aberto de Jesus, trespassado pela lança, brotam os rios “da misericórdia divina” – a água e o sangue [5]: porque, de fato, é na Redenção que Ele manifesta de modo mais elevado a Sua misericórdia. Muito mais que na Criação, a propósito. Nesta, Deus faz as criaturas do nada; naquela, porém, Ele faz muito mais: transforma um réprobo, uma pessoa que merecia o inferno, em um salvo, em um eleito.

“De dois modos podemos dizer que uma obra é grande. – Quanto ao modo de agir e então a maior obra é a da criação, em que o ser foi feito do nada. – Ou quanto à grandeza da obra. E neste sentido maior obra é a justificação do ímpio, que termina pelo bem eterno da participação divina, do que a criação do céu e da terra, que termina no bem da natureza mutável. Por isso, Agostinho, depois de ter dito, que maior obra é fazer do ímpio um justo, que criar o céu e a terra, acrescenta: O céu e a terra passarão; porém a salvação e a justificação dos predestinados permanecerão.” [6]

Mas, pergunta-se, como é possível conciliar a misericórdia de Deus com a Sua justiça? Garrigou-Lagrange, ao falar desses dois atributos divinos, escreve que, se a justiça é um “galho” da árvore do amor de Deus, esta árvore não é senão a sua misericórdia e a sua bondade, sempre desejosa de comunicar-se aos homens e “irradiar-se” [7]. Em outras palavras, a justiça divina sempre se manifesta na vida dos homens como demonstração de Seu amor e de Sua misericórdia. Quando somos acometidos por doenças e sofrimentos, podemos certamente dizer que elas não passam de “penas medicinais”, “remédios de Deus”, a fim de que nos convertamos e nos voltemos a Ele. Em meio às cruzes deste “vale de lágrimas”, urge que enxerguemos, em nossas vidas, a ação onipotente de Deus, que é capaz de tirar o bem do mal – e verdadeiramente o faz.

Entretanto, quando Deus nos perdoa e não nos pune por nossos pecados, não está, de certo modo, cometendo uma “injustiça”? Segundo Tomás, não:

“Deus age misericordiosamente, quando faz alguma coisa não em contrário, mas, além da sua justiça. Assim, quem desse duzentos dinheiros ao credor, ao qual só deve cem, não pecaria contra a justiça, mas agiria liberal ou misericordiosamente. O mesmo se daria com quem perdoasse a injúria, que lhe foi feita; pois, quem perdoa, de certo modo dá; e por isso o Apóstolo chama ao perdão, doação (Ef 4, 32): Perdoai-vos uns aos outros como também Cristo vos perdoou. Donde resulta que, longe de suprimir a justiça, a misericórdia é a plenitude dela. Donde, o dizer a Escritura (Tg 2, 13): A misericórdia triunfa sobre o justo.” [8]

O perdão misericordioso concedido aos pecadores não está “abaixo” da justiça – como que a contrariando –, mas “além” dela. Em Deus, não existe “justiça comutativa” – dar a alguém aquilo que se lhe deve –, já que Ele não deve nada a ninguém. O que há é a “justiça distributiva”, em que Ele distribui seus dons aos homens, dons que não lhes eram devidos; obras, portanto, de Sua misericórdia.

Pergunta-se, ainda, como conciliar a misericórdia divina com a existência do inferno. Para resolver esse problema, é preciso entender que o inferno existe não por uma deficiência do amor de Deus – que é, por essência, infinito –, mas por um abuso da liberdade humana. Quando um católico, por exemplo, que recebeu a graça de ser incorporado à Igreja, ter acesso aos Sacramentos, à vida dos santos e à Palavra de Deus, se fecha aos apelos do céu e endurece o seu coração, está vivendo uma realidade chamada “remorso”. O remorso, longe de ser uma dor pela ofensa cometida contra Deus, é um “remordimento” de si mesmo, como um animal que se põe a lamber as próprias feridas. Nessa atitude, percebe-se uma rebelião contra Deus, uma atitude de orgulho que impede que a misericórdia divina aja efetivamente sobre a alma. Por isso, é necessário sempre pedir a Deus a graça do verdadeiro arrependimento de nossos pecados.

Quem não chegou ao conhecimento do Evangelho deve acolher os apelos de Deus em sua consciência para que se salve por caminhos que só Ele conhece. No caso de um católico, todavia, privilegiado por estar na Santa Igreja, desprezar o grande dom dos Sacramentos – sobretudo, o da Confissão e o da Eucaristia – seria uma grande ingratidão. “A quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” [9], diz Nosso Senhor. Eis o coração da festa da Divina Misericórdia: como alguém, incorporado ao Corpo Místico de Cristo e consciente do amor infinito que Jesus manifestou por si na Cruz, pode deixar de corresponder a essa atitude, devolvendo com amor a um Deus tão bondoso?

A tal ponto chegou a bondade de Deus que, não se contentando em compadecer-Se e encarnar-Se para nos salvar, quis deixar-nos o precioso dom da Eucaristia, a fim de que, comungando quotidianamente de Seu próprio Corpo e Sangue, nos santificássemos. Então, como Ele nos deu tanto, devemos respondê-Lo com muito, ao invés de presumirmos de nossa salvação e afundarmo-nos no pecado. Diz Nosso Senhor a Santa Faustina: “A falta de confiança das almas dilacera-Me as entranhas. Dói-Me ainda mais a desconfiança da alma escolhida. Apesar do Meu amor inesgotável, não acreditam em Mim, mesmo a Minha morte não lhes é suficiente. Ai da alma que deles abusar!” [10].

Ora, não se disse, no começo do programa, com o Aquinate, que “não é próprio de Deus contristar-se”? Como, então, entender a mensagem de Jesus, que diz sentir dilaceradas as Suas entranhas pela “falta de confiança das almas”? Que se entenda: Nosso Senhor verdadeiramente sofreu, ao encarnar-Se e experimentar a Paixão. Mas, considerando que agora está no Céu, em corpo glorioso, e não pode mais sentir dor, dizer que Deus “se entristece” ou “sente dor” não é nada mais que um recurso metafórico e pedagógico para fazer as pessoas compreenderem o quanto Ele ama os homens. Não se pode atribuir paixões a Deus: Ele realmente nos amou, nos ama e nos amará eternamente, porque não revoga seus decretos de amor. Entretanto, a dor propriamente dita só aconteceu no coração humano de Cristo em seu suplício terreno.

Por isso, a festa da Divina Misericórdia e a devoção a Jesus misericordioso são uma forma de renovar a tradicional devoção ao Sagrado Coração de Jesus; de celebrar o coração humano de Cristo que amou a Deus infinitamente e fez-Se vítima para salvar a humanidade.

Recomendação de livro

Diário – A Misericórdia Divina na minha alma | Apostolado da Divina Misericórdia

Referências

  1. Diário, n. 49
  2. Mãe de misericórdia | Permanência
  3. Suma Teológica, I, q. 21, a. 3
  4. Suma Teológica, III, q. 1, a. 3
  5. Jo 19, 34
  6. Suma Teológica, I-II, q. 113, a. 9
  7. Na tradução inglesa de Providence: “If justice is a branch springing from the tree of God’s love, then the tree itself is mercy, or pure goodness ever tending to communicate, to radiate itself externally” (V, 26). O livro completo pode ser lido no site da EWTN.
  8. Suma Teológica, I, q. 21, a. 3, ad 2
  9. Lc 12, 48
  10. Diário, n. 50