Mês: fevereiro 2014

É PRECISO CAMINHAR 2014-02-28 18:09:00

 
QUARTA-FEIRA DE CINZAS

 05 de Março de 2014

 
Primeira Leitura : Jl 2,12-18

12 ‘Agora, diz o Senhor, voltai paramimcomtodo o vossocoração, comjejuns, lágrimase gemidos; 13 rasgai o coração, e nãoas vestes; e voltai parao Senhor, vossoDeus; eleé benigno e compassivo, paciente e cheiode misericórdia, inclinado a perdoar o castigo’.14 Quem sabe, se elese voltaparavós e vosperdoa, e deixaatrásde si a bênção, oblação e libaçãopara o Senhor, vossoDeus? 15 Tocai trombetaemSião, prescrevei o jejumsagrado, convocai a assembléia; 16 congregai o povo, realizai cerimônias de culto, reuni anciãos, ajuntai crianças e lactentes; deixe o espososeuaposento, e a esposa, seuleito. 17 Chorem, postosentreo vestíbulo e o altar, os ministrossagradosdo Senhor, e digam: ‘Perdoa, Senhor, a teupovo, e não deixes queesta tua herança sofra infâmia e queas nações a dominem.’ Porque se haveria de dizerentreos povos: ‘Ondeestá o Deus deles?’ 18 Então o Senhor encheu-se de zeloporsuaterra e perdoou ao seupovo.

Segunda Leitura- 2Cor 5,20-6,2

Irmãos: 20 Somos embaixadoresde Cristo, e é Deusmesmoqueexorta através de nós. Emnome de Cristo, nósvossuplicamos: deixai-vos reconciliarcomDeus. 21 Aquele quenão cometeu nenhumpecado, Deuso fez pecadopornós, paraque nele nósnos tornemos justiçade Deus. 6,1 Comocolaboradores de Cristo, nósvos exortamos a nãoreceberdes emvãoa graça de Deus, 2 pois ele diz: ‘No momentofavorável, eute ouvi e no diada salvação, eutesocorri’. É agora o momentofavorável, é agorao dia da salvação.

 

Evangelho: Mt 6,1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seusdiscípulos: 1“Ficai atentosparanãopraticar a vossajustiça na frentedos homens, sópara serdes vistosporeles. Casocontrário, não recebereis a recompensado vossoPaique está noscéus. 2Porisso, quando deres esmola, nãotoquesa trombetadiantede ti, como fazem os hipócritas nas sinagogase nas ruas, paraserem elogiados peloshomens. Emverdadevos digo: elesjáreceberam a suarecompensa. 3Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mãoesquerdanãosaiba o que faz a tua mãodireita, 4de modoquea tua esmola fique oculta. E o teuPai, quevê o queestá oculto, tedará a recompensa. 5Quandoorardes, não sejais comoos hipócritas, quegostam de rezar de pé, nas sinagogas e nas esquinasdas praças, paraserem vistospeloshomens. Emverdadevosdigo: elesjáreceberam a suarecompensa. 6Ao contrário, quandoorares, entra no teuquarto, fecha a porta, e reza ao teuPaique está oculto. E o teuPai, quevêo que está escondido, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não fiqueis como rostotristecomo os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, paraque os homens vejam queestão jejuando. Emverdadevos digo: elesjá receberam a suarecompensa. 17Tu, porém, quandojejuares, perfuma a cabeçae lava o rosto, 18paraqueos homensnãovejam quetuestás jejuando, massomenteteuPai, que está oculto. E o teuPai, quevêo que está escondido, te dará a recompensa”.
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Com a graçade Deus estamos na novaquaresma de nossavidaquecomeçacomesta Quarta-Feira de Cinzas.


A quaresmaé umtempoespecialparapormos emordemnossavidahumana e cristã. Devemos estaratentos e conscientesde que as principaisameaças à nossasobrevivência e à nossaconvivênciajánão vêm da naturezaexterna, e simde nossanaturezahumanainterna. São nossas hostilidades, nossodescaso, o egoísmo, o desamor, a arrogância, os comentáriosmaldosos, a maledicência, a difamação, a apatia, a indiferença, a ignorânciadeliberada etc. que põem a humanidade, a convivência e o mundoemperigo. Muitas vezessomos maisrivaisdo quefraternais. “A enfermidadequepadece o mundo, a enfermidadeprincipal do homem, não é a pobrezaou a guerra, é a falta de amor, a esclerose de coração” (Madre Teresa de Calcutá). A vidabaseadasobre estas tendênciasnegativas é uma vidaque se deteriora progressivamente.


E se o malvem de dentro de cadaindivíduo, a lutacontra o maldeve começar, então, dentro de cadaindivíduo e todoo resto segue daí. O pecado é, comefeito, uma questão do coração.O pecado é comoumespelhoquebradoqueemvez de refletirDeus, reflete emsia imagem da matériainforme.


O quenos é pedidona Quaresma é somenteuma coisa: quenossocoraçãoseja mais misericordioso, quenossocoração transborde de misericórdia, que prolonguemos e nosaproximemos da infinitamisericórdia de Deus. Esta é a quaresmamaisbelaquepodemos praticar.                                 

 

Cinza E SeuSignificadoParaNossaVida

   

Com a Quarta-feirade Cinzas abrimos a nossacaminhada quaresmal. E parainiciar esta caminhadanós recebemos cinzas, colocando-as na nossacabeça (testa).  O significadosimbólico da cinza está ligado comsuasemelhançacom o pó e com o fato de queela é o resíduofrio e ao mesmotempo purificado da queimaapós a extinçãodo fogo. Porisso, emmuitas culturaselaé símbolo da morte, da transitoriedade, do arrependimento e da penitência, mastambém da purificaçãoe da ressurreição. Paraexpressarluto, os gregos, os egípcios, os judeus, os árabese as tribos primitivas espalhavam cinzassobre a cabeçaouassentavam-se ou rolavam-se sobre as cinzas(algunstextosbíblicos paraentender o que foi dito: Gn 18,27;Jó 2,8;13,12;Is 44,20;61,3;Jr 6,26;Ez 27,30;Lm 3,16;2Sm 13,19;Jn 3,6;Mt 11,21). O homemexpressacomisso (cf. Gn 18,27) a consciênciada relativa nulidade da criaturadiantedo Criador. 

      

Ao recebermos as cinzas ouvimos uma das fórmulasusadas: “Tu és pó, e empóte hás de tornar” (Gn 3,19). A cinza recorda ao homem o reconhecimentode suaorigem. A cinza é levee porisso, ela é a imagemdas coisas frágeis e efêmeras. Tudo é caduco. E toda a vaidade, todo o brilhofalso e esta vidamortal, umdia conhecerão umfim. Recebemos as cinzasparanosrelembrar de quesomos pó; é uma lembrançade que somos pó, de quenãotemos moradacertaneste mundo, de quea morte é a únicarealidadeinevitávelno futuro de nossaexistência. Na verdade, não é a morteque é absurdae sim a vidasem a morte. Muitos se esquecem da mortee porisso, acabam vivendo absurdamente e acabam vivendo somenteemfunção do prazer. Como foi ditouma vez, quemvive emfunçãodo prazer, nãotem prazer de viver. O prazer deve serresultado de umviverbem. E paranóscristãosviverbem significa viver de acordocom os valorescristãos. A cinza é uma lembrançaincômodaparaquem acredita queo presentehistóricoé absoluto. Masesta lembrança, na verdade, nosajudaa vivermos bem, a colocarmos as coisasno seudevidolugarparaganharseujustovalor e suajustaperspectiva.

       

Com as cinzasrecebidas o homemexperimentao próprionada. Para expressá-lo, cobre-se de cinza. Quando o homemexperimenta o seunada, nãohá lugar nele paraa arrogância. Ao contrário, elevoltaa serhumilde: humus, pó, criaturadependente de Deus. Quando vivemos a humildadeque é a nossaprópriaexistênciao poder e a glóriamundanosnãovãonosatingir. Masquando o homemdeixar de reconhecersuacondição de criatura, querendo igualar-se a Deus,  ele se tornará umpómortoe porisso, terá quevoltarà terra de quefora tirado, “porqueés pó, empótehás de tornar” (Gn 3,19).

     

E somentequando o homemreconhece que é pó, que faz parteda terra, e quetudo o maisprovém de Deus, brotará novamente a vidadesse pó. E certamenteas cinzas usadas na Quarta-feirade Cinzas provém das palmas do Domingode Ramos do anoanterior, palmastriunfais do Cristovitoriososobreo pecado e a morte. Cristo, morrendo, deu novavida à terra, conquanto o homem se reconheça comoterra, pó. A quemassimconfessa o próprionadafaz-se ouvir a promessade Jesus Cristoquevem triunfar do pecadoe da morte, consolar os aflitos e dar-lhes, emlugar de cinzas, umdiadema, uma coroa de umrei.

   

Ao receberas cinzas, o cristãotestemunha o absolutode Deusemsuavida. E comoconseqüênciada profissãosobreo absoluto de Deus, o cristão relativiza todas as coisas. Istoquerdizerque as coisassomente têm seuvaloremrelação ao seuCriador. Sob o sinal das cinzas, o cristão reafirma hojea sualiberdadede filho de Deuse ao mesmotemporeafirma suacondiçãocomopóoucriaturae quesópode sobrevivercomotalporcausa da misericórdiade Deus. E Deusnão tem comonão ajudá-lo, poiso serhumanofoi feito de acordocom a própriaimagem de Deus(cf. Gn 1,26). Devemos ler, portanto, as trêspráticasde piedade apresentadas através do evangelhodeste diaqueabre nossacaminhadaquaresmal.

A leiturado Evangelhoquerresponder a seguintepergunta: “Comoagradar a Deus?”. A prática da esmola, da oração e do jejumtem finalidade de sintonizar-nos com a vontadedo Pai, de formaa preparar-nos da melhormaneirapossível, para a celebraçãoda Páscoa.

     

Jesus enuncia o princípiogeralsobre a práticadessa piedade. Estas obras de piedadenão se devem praticarparaganharprestígiodiantedos homens e comisso, adquirirposição de poderouprivilégio. Os que fazem assimprivam-se da comunicaçãodivina, cessa a relaçãode filho-Pai comDeus. Segundo Jesus, ninguémmerece a graça de Deusse ele finge executaraçãoquenão corresponde à atitudeinteriorqueelechama de hipocrisia.

 A esmola (vv.1-4)

   

A linguagemutilizada por Mt nesta passagem e nas outras duas seguintesrevela uma fortepolêmicaentrecristãose judeus. Os hipócritassão os fariseusdo tempo do evangelistaque praticavam e queriam imporaos outrosumcumprimentoexternoda Lei de Moisés. SegundoJesus aos quer querem entrarno Reino dos céusdevem cumprir a vontadedo Paisemostentação.

      

A expressãoutilizada por Mt paradescrever esta atitude e comportamento(praticar a justiça) somente aparece neste evangelho(setevezes. Cincodelas se encontram em Mt 5-7) e tem uma grandeimportânciapara a teologiade Mt. Masnãose trata da justiçacomo a entendemos. Quandose fala da justiçanoscírculosjudaicos trata-se do conjunto de atosque fazem o homemmerecedor da salvação. Entre os fariseusdo tempo de Jesus estesatos de piedadeeram fundamentalmentetrês: a esmola, a oração e o jejum. Masparamuitos estas práticasse tornavam uma questãopuramenteexterna e ummotivo de orgulho, até o pontode quealgunsfaziam exibiçãopúblicade sua religiosidade(justiça).

Os profetasdo AT falam freqüentemente do dever da compaixãoparacom o pobre, maseles acentuam muitomais a justiçado que a caridade. O mendigoouo pobre é acusaçãode umsistemainjustoquegera pobres e miseráveis, dependentes da “bondade” alheia.  Mendigo é o frutode uma sociedadequenãoquerpartilharseusbenspara os outros(Mas de outralado, certomendigo é aquelequequer uma vidafácil, poispelaexperiência, muitosnãoquerem trabalhar, apesarde alguém oferecer-lhe trabalho. Maselessãoapenasumgrupopequeno).

      

A esmoladeve serexpressãoda misericórdiaqueexiste no coração de quem se faz solidáriocom a carênciaalheia. A solidariedadeacontece quando o homemtem compaixão, quandosente na própriapeleo sofrimento alheio. O quesobraparanós, porpoucoque seja, semprefaz faltaparaos outrosquenão tem nada. Massempreficamos incomodados, pois sabemos queissonunca resolverá completamenteo problema do mendigoou do pobre. Mas a esmolaé umsinal, umlembretede que devemos lutarporumsistemaeconômicoquerealmentefaça uma partilha justa dos bens. Reflitamos as palavrasde São Basílio(+ 379): Ao famintopertence o pãoqueguardas. Ao homemnu, o mantoqueguardasaténosteuscofres. Ao queandadescalço, o calçadoqueapodrece em tua casa. Ao miserável, o dinheiroqueguardasescondido. É assimquevives oprimindo tantagentequepoderias ajudar”. E SantoAgostinho acrescenta: “O Senhorte fez servobom, mastu criaste emteucoraçãoummausenhor. Ficas alegresporcausa da riqueza do cofre e nãote lamentas pelapobrezade teucoração? Há acréscimoemtua arca, masobserva bem o quediminui emteucoração”.

      

O próprioJesus menciona a esmolaparacensurar a ostentação(cf. Mt 6,22ss). Isso devemos começardentro de nossafamília. Enquantoissonãoacontece, ficamos incomodados.

     

Ao dar a esmola Jesus pede  a separação da pessoaquem a dá do seugesto: “…a tua mãoesquerda ignore aquiloque faz a direita…E o teuPai…dar-te-á a recompensa”(vv.3-4). O resultadodo bem fica escondido ao homemque recusa de sero juiz de seusatos.  O únicocapazde apreciar é umDeusinvisível  quehabita no segredo e nãopresta conta a ninguém. Umditopopular diz: “Se vocêfizer umbenefício, nunca se lembre dele; se receberum, nuncase esqueça dele”. A vidavividaapenasparasatisfazer a própriapessoanunca satisfaz ninguém. Não há melhorexercícioparafortalecer o coraçãodo queestendero braçoparabaixo e erguerpessoas. A bondadeé o únicoinvestimentoquenuncafalha.

 A oração(vv5-6)

     

A instruçãosobre a oração(vv.5-15) é a maisextensadas trêspráticasde piedadejudaicae está situada no centroliterário do Sermãoda Montanha. Esta instruçãoestá compostaporuma introduçãosobrea forma de orar (vv.5-8), o Pai-Nosso (vv.9-13) e uma conclusãoquefala do perdão(vv.14-15).

      

Através deste texto Mt querfazer uma catequesesobre a oraçãocristã, semelhante a de Lc (Lc 11,1-11), mascadaum dos doisevangelistas se dirige a umgrupodistinto. Lc escreve para uma comunidadeque necessita aprendera orar. Mt, ao contrário, escreve para uma comunidadequejásabe orar, masnecessita aprender a fazera oração de outramaneira (“Quando orardes, nãosejais como os hipócritas…” v.5.7). Lc tem diante de si uma comunidadede origem pagã quenão tem hábitode orar(será queviraremos pagãos se pararmos de orar?). Mt, ao contrário, está diante de uma comunidadeonde há bastantesjudeusquehaviam aprendido a orartrêsvezespordiadesdesuainfância.

     

Mt enfrenta umproblemaemrelação à práticade oração. A oraçãocomo as demaispráticas religiosas os fariseus convertem emummotivode ostentação e emuma práticapuraexterna. A oraçãonão é maisummomentode falarcomDeus, masserve de instrumentoparaalcançarhonrae prestígiodiantedos homens.

     

Mt convida os cristãosa recuperar o sentidoreligioso da oração, purificando-a daquilo que há desviado a oração de seufim. Para Mt a oração do cristãodeve estabelecerumrelacionamento íntimocom o Pai: “…entra no teuquarto, fechaa porta, e reza ao teuPai” (v.6a), num clima de abandonoe confiançaemDeus: “O Pai de vocêsjá conhece as necessidadesquevocêstêm”(v.8). Os cristãos devem orarcomo Jesus orava. E o estilo desta oração é condensado na oraçãodo Pai-Nosso (vv.9-13).

      

Uma das principaisraízes da vida cristã quenosajuda a “sugar” a energiainesgotáveldo amordivinoé a prática da oração. Nossaoraçãodeve serdiscreta, vivida na intimidadede nossocoração, repleta de silênciocapaz de perceberas insinuações do EspíritoSanto. Massó se cresce na vidade oração, reservando a ela, diariamente, o mesmotempo, pelomenos, quereservamos às refeiçõesque nutrem o nossocorpo. Parasuperar as forçasmaioresque as nossas só pode serna oração. Orarourezar é estarcomDeus. A oraçãotambémnos faz maishumanos e maisfilhos e filhas de Deus.

 

O jejum

    

Sobre o jejumMt utiliza o mesmoesquemaliterárioquehá utilizado  nas duas instruçõesanteriores(quando…nãofaçam como os hipócritas: v.2.5.16). Comojáfoi refletido no domingoanterior, o jejumera uma práticaestendida entre os gruposreligiosos ao redorde Jesus (Mt 9,14). Os fariseus jejuavam duas vezesporsemana (Lc 18,12).

     

Mt relata queJesus praticou o jejumparapreparar-se antes de exercersuamissão(Mt 4,12). E a comunidade de Mt praticava o jejum (Mt 9,15), mas Mt querdarumsentidonovo a esta prática, evitando todaa ostentaçãoexterior.   

       

Com o jejumevitamos que os bensdeste mundonãonos escravizem. Faz usodeles para o bempróprio e do próximo, e neles degusta o Bemmaiorque é Deus. Jejuar, então, significa abster-se de alimento, tomaruma atitude de respeitoe de liberdadediantedas coisas, fazerespaçoparaos outros e paraDeus, confiarna providência de Deus; constituirumato de conversãoa Deusatravésdas coisas. Neste tempoquaresmal devemos aprender a morrercomCristopararenascercomele. Com a ajuda de suagraça, devemos combatertudoaquiloque, na nossavida, impede o nascimento do homemnovo anunciado peloEvangelho: nossas tendênciasburguesas, nossospequenosapegos, o comodismo ouo medoquenos impedem uma atuaçãomaiseficaz, nossofarisaísmoemsóquererfazeraquiloquenos dá vantagemouprestígio, nossovício/nossadependênciada TV ou do mundovirtualcomoa internet etc.

      

Muita genteachaque a quaresma é apenasumtempoemquenão se come carneàs sextas-feiras. No Brasil a grandemaiorianãocome carneemdianenhumnãoporcausa de dietaouporquestão de saúde, masporquenão tem condiçãoparatercarne. Porisso, aquelesquenão passam necessidade, devem mesmopor uma questãode solidariedade aos necessitados, privam-se de carneoude outras coisas.

    

O jejumqueagradaa Deus, diz o profetaIsaías (Is 58,1-14) é quebrar as cadeias injustas, libertaros oprimidos, realizara justiça.

 

A quaresma, neste sentido, é o tempoemquereassumimos a nossavidacristã comumengajamento efetivo de transformação do mundoemvista do Reinode Deus. Nãodeixemos queestetempotãoespecialparanossoretiropessoalpassesemquehaja alguma transformação ou renovação na nossavida. Se não houver nenhuma transformação emnós neste tempo, a quaresmaserá apenasmaisuma quaresma na nossavida.

 

P. Vitus Gustama,SVD

É PRECISO CAMINHAR 2014-02-28 17:13:00

 
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Terça-Feira Da VIII Semana Do Tempo Comum

04 de Março de 2014

 

 
Primeira Leitura: 1Pd 1,10-16
 
Caríssimos, 10 esta salvação tem sido objeto das investigações e meditações dos profetas. Eles profetizaram a respeito da graça que vos estava destinada. 11 Procuraram saber a que época e a que circunstâncias se referia o Espírito de Cristo, que estava neles, ao anunciar com antecedência os sofrimentos de Cristo e a glória consequente. 12 Foi-lhes revelado que, não para si mesmos, mas para vós, estavam ministrando estas coisas, que agora são anunciadas a vós por aqueles que vos pregam o evangelho em virtude do Espírito Santo, enviado do céu; revelações essas, que até os anjos desejam contemplar! 13 Por isso, aprontai a vossa mente; sede sóbrios e ponde toda a vossa esperança na graça que vos será oferecida na revelação de Jesus Cristo. 14 Como filhos obedientes, não modeleis a vossa vida de acordo com as paixões de antigamente, do tempo da vossa ignorância. 15 Antes, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos, também vós, em todo o vosso proceder. 16 Pois está na Escritura: “Sede santos, porque eu sou santo”.

 

Evangelho: Mc 10,28-31

Naquele tempo, 28começou Pedro a dizer a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. 29Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, 30receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna. 31Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros”.
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O texto do evangelho de hoje, como também o do dia anterior, se encontra na parte central do evangelho de Marcos (Mc 8,22-10,52). Este conjunto começa com a cura do cego (8,22-26) e termina com a mesma (10,46-52). Com isso Marcos quer nos mostrar que os discípulos continuam com sua incompreensão diante da missão de Jesus.

No início e no fim desta seção, Marcos coloca o tema de fé como dom de Deus. A fé faz ver quem é Jesus e faz entender o sentido da vida e de nossa presença neste mundo. Desde o começo da atividade pública de Jesus, Marcos mostrou-nos a cegueira dos discípulos. Mas Jesus fará tudo para, pouco a pouco, tirar a cegueira dos discípulos. A visão clara que se tem de Jesus não vem de uma só vez. Mas, aos poucos, com a ajuda de Jesus, vamos vendo com mais clareza e com maior nitidez quem é Jesus e o que significa seguir a este Jesus neste mundo. A fé também faz ver o caminho que Jesus trilhou e que devemos trilhar. Assim a seção começa e termina com a cura de um cego (8,22-26; 10,46-52). E essas duas curas têm uma função simbólica: para mostrar a cegueira dos discípulos. Elas também lembram o leitor de que é Jesus quem faz possível a fé daqueles que acreditam nele e O seguem no caminho.

No evangelho do dia anterior (Mc 10,17-27) o jovem rico recusou o convite de Jesus para que ele vendesse tudo que tinha para depois dar tudo aos pobres. Em vez de seguir a Jesus, Àquele que tem “as palavras da vida eterna” (Jo 6,68b), o jovem rico foi embora triste porque tinha muitos bens e não quis partilhá-los nem com os necessitados (pobres). Depois que ele foi embora, Jesus pronunciou esta frase para os discípulos: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!”.

Os discípulos ficaram espantados diante da afirmação de Jesus. Para os discípulos seguir a Jesus significa enriquecer-se de bens materiais. Por isso ficaram assustados com as palavras de Jesus: “Então, quem pode ser salvo?” (Mc 10,26). Ao que Jesus respondeu: Aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo é possível” (Mc 10,27). Para Jesus o caminho da vida consiste em enriquecer-se diante de Deus. só quem sabe perder a vida neste mundo por causa do evangelho vai recuperá-la na vida eterna. Salvar-se não está nas mãos do homem, mas é um dom gratuito de Deus e não pode merecer-se. Somente quando for acolhido o evangelho e viver-se na graça é que conduz a pessoa à vida eterna. Trata-se de uma vida sustentada pela força de Deus.

Ao ouvir a afirmação de Jesus, Pedro também perguntou a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. E o evangelista Mateus explicita ou acrescenta a seguinte frase: “O que é que vamos receber?” (Mt 19,27). Pedro já abandonou tudo, desapegou-se de tudo para se aderir a Jesus e quer saber de Jesus qual será a recompensa do seguimento.

O que é que tem no fundo ou por trás da frase de Pedro? Está seu conceito político e interesseiro do Messianismo. Os discípulos buscam postos de honra, recompensas humanas, soluções econômicas e políticas. Eles querem transformar Jesus em empresário para resolver sua carência econômica.

Jesus, com sua paciência, continua educando os discípulos e lhes garante: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna”. A afirmação de Jesus vale para qualquer pessoa que se adere a Jesus e que se dedica à propagação do evangelho de Jesus. Jesus assegura que no Reino ou na nova sociedade, na nova família não haverá miséria, pois vivem na partilha, na solidariedade, na compaixão, na fraternidade. Nessa nova família não haverá domínio, nem desigualdade nem superioridade nem poder. Por isso, na segunda afirmação de Jesus a palavra “pai” não se menciona que é símbolo do poder ou de autoridade. Em Mateus podemos entender o sentido dessa afirmação quando Jesus disse: “Quanto a vós, não permitais que vos chamem ‘Rabi’, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos. A ninguém na terra chameis ‘Pai’, pois um só é o vosso Pai, o celeste” (Mt 23,8-9). Chamar Deus de Pai leva a pessoa a viver a fraternidade na convivência com os demais, pois todos são filhos e filhas de Deus (cf. 1Jo 3,1-2).

Necessitamos dos bens materiais como meio na nossa vida, pois uma pessoa pode rezar ou meditar durante horas, mas no fim ela precisará dum pedaço de pão e dum copo de água. Mas reparamos que os bens materiais sempre são alheios a nós. Eles nunca serão nossos amigos. A vida feliz está na partilha, na solidariedade, na fraternidade, na compaixão, no amor mútuo, na caridade e assim por diante. A partilha é a alma do projeto de Jesus Cristo. Ele nos chama para segui-lo nessa direção. No evangelho de Marcos Jesus e seu Espírito vão ajudando os discípulos para que cheguem à maturidade de sua fé. Somente depois da ressurreição (Páscoa) eles vão se entregar também gratuito e generosamente ao serviço de Jesus Cristo e da comunidade até sua morte, pois eles captaram o sentido da mensagem de Jesus.

A resposta de Jesus diante da pergunta de Pedro é esperançosa e misteriosa, ao mesmo tempo: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida e, no mundo futuro, a vida eterna”. Não se trata de quantidades aritméticas (cem vezes). A resposta se refere à nova família que se cria em torno de Jesus: deixamos um irmão e encontramos cem irmãos (irmãs). O laço desta nova família está na prática da vontade de Deus que consiste na prática do bem e na vivência do amor fraterno: “Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3,35).

Quantos irmãos e irmãs leigos, quantos pastores, quantos médicos e enfermeiros sem fronteiras e as demais pessoas de boa vontade que entregam sua melhor força e tempo para trabalhar pelo bem dos irmãos da comunidade e fora da comunidade e para ajudar os sofredores em todos os sentidos! Quantos sacerdotes, quantos religiosos e religiosas, quantas pessoas consagradas que não formaram a própria família, mas não por isso que deixaram de amar. Ao contrário, eles estão plenamente disponíveis para todos, movidos de um amor universal. Todos esses irmãos e irmãs são reflexos da generosidade de Jesus Cristo neste mundo. Jesus está presente nesses irmãos e irmãs, se quisermos perguntar onde está Jesus Cristo (cf. Mt 25,31-46). Jesus promete já desde agora uma grande satisfação e promete a vida eterna: “receberá cem vezes mais agora, durante esta vida e, no mundo futuro, a vida eterna”. Mas o verdadeiro amor supõe sacrifício, cruz e perseguição, porém, vale a pena! A Páscoa salvadora passa pelo caminho da Cruz da Sexta-Feira Santa. A vida do cristão não termina na Sexta-Feira Santa. Ela termina na ressurreição. A força da ressurreição dá força e anima o cristão para encarar a cruz da Sexta-Feira Santa. Jesus nos mostrou isso.

P. Vitus Gustama,svd

A Penitência Quaresmal

Sao francisco penitencia mini

Por que falar de mortificação se o Deus cristão é o Deus da vida? Não é a penitência um conceito medieval e ultrapassado? Não existe algo de patológico na valorização da dor? Impor sacrifícios ao corpo não é uma influência indevida do dualismo platônico dentro do cristianismo? Quem pratica a ascese não vai se tornando gradualmente uma pessoa pessimista, alienada, acomodada e sem energia para a transformação da realidade? Todas essas perguntas, resultado da atmosfera laxista da modernidade, são bastante pertinentes. É importante explicar às pessoas as razões pelas quais os cristãos fazem – ou devem fazer – penitência.

Urge, antes de explicar a doutrina católica sobre essa questão, lembrar as duas correntes que se chocavam, no início do século XX, sobre a questão da penitência. A primeira, o naturalismo, propalada pelo modernismo e, hoje, pela teologia da libertação, é influenciada pelo “mito do bom selvagem”, do filósofo Jean-Jacques Rousseau, segundo o qual o homem, no “estado de natureza”, é bom e é a sociedade o que o corrompe. Percebe-se, pelo discurso das pessoas, que é essa a visão que geralmente prevalece no ambiente educacional. Os educadores tendem a achar que seus alunos serão educados pela simples “conscientização”, pela mera apreensão do que lhes é passado, como na gnose, em que as pessoas são salvas pelo conhecimento, dispensando o auxílio de um salvador.

A outra corrente, o jansenismo, perdeu a sua força. Mas era um excesso bastante atraente na passagem do século XIX para o século XX. A essa visão rigorista, com uma visão negativa do homem, aproximando-se da visão antropológica de Martinho Lutero, opôs-se a majestade espiritual de Santa Teresinha do Menino Jesus, que, com sua vida, assinou uma resposta de Deus à humanidade sobre essa questão.

Ainda hoje, a Igreja repete o chamado de Jesus à penitência. Mas, afinal, por que o faz? Será porque o corpo foi criado por um deus mau, como dizem os maniqueístas? Ou porque a nossa alma está aprisionada na matéria, como creem os platônicos? Definitivamente, não. A razão básica pela qual a Igreja fala de penitência está no amor. E, já que o homem está marcado pelo pecado original, só é possível que ele cresça no amor crucificando, pela vida ascética, o seu “homem velho”, a fim de dar à luz o “homem novo” em Cristo. Está aqui a didática por trás da Quaresma e da Páscoa e a razão pelo qual esses dois tempos litúrgicos estão no centro da vida da Igreja. Essa purificação não se trata de um luxo de uma casta superior, como queriam os jansenistas, nem de um “dolorismo” masoquista, como querem os naturalistas, mas do caminho pelo qual necessariamente vem a santificação dos membros do Corpo Místico de Cristo.

“Garanto-vos: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna”[1].

“Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína?”[2].

Não foi, afinal, o próprio Cristo quem pronunciou as palavras acima? Então, como é possível que muitos passem por cima de suas palavras, negando a importância ou mesmo a necessidade de penitenciar-se e portando-se, no fim das contas, “como inimigos da cruz de Cristo”[3]?

Então, confirmada pelo próprio divino fundador da Igreja a necessidade da mortificação, valem as preciosas considerações do padre Reginald Garrigou-Lagrange, retiradas de seu livro Les Trois Ages de la Vie Interieure [“As Três Idades da Vida Interior”][4]. Ele explica, nessa obra, as quatro razões por que é essencial fazer penitência.

A primeira é por causa das consequências do pecado original. Hoje, infelizmente, muitos teólogos aderiram à moda de negar a existência do pecado original, reputando-o como uma invenção de Santo Agostinho. Sabe-se, no entanto, que os fundamentos dessa doutrina estão nas próprias palavras de São Paulo: “No meu íntimo, eu amo a lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado que está nos meus membros”[5]. Ora, de que fala o Apóstolo, ao se referir à “lei do pecado que está nos meus membros”, senão ao pecado original?

Por conta do pecado original, São Tomás de Aquino diz haver no homem quatro vulnera (“lesões”, “feridas”), como ele mesmo explica:

“Pela justiça original, a razão continha perfeitamente as potências inferiores da alma, sendo ela mesma aperfeiçoada por Deus, a quem estava sujeita. Ora, essa justiça original perdeu-se pelo pecado do primeiro pai, como já dissemos (q. 81, a. 2). Por isso, todas as potências da alma ficaram, de certo modo, destituídas da ordem própria, pela qual naturalmente se orientavam para a virtude. E a essa destituição mesma se chama lesão da natureza.”

“Ora, são quatro as potências da alma capazes de serem sujeitos das virtudes, como já se disse (q. 61, a. 2), e são as seguintes. A razão, sujeito da prudência; a vontade, da justiça; o irascível, da fortaleza; a concupiscência, da temperança. Por onde, a lesão da ignorância consiste em a razão ter ficado privada de ordenar-se para a verdade. A da malícia, em a vontade ter ficado privada de ordenar-se, para o bem. A da fraqueza em o ter o irascível ficado privado de ordenar-se para o árduo. E enfim, a da concupiscência em o ter a concupiscência ficado privada de ordenar-se ao prazer moderado pela razão.”

“Por onde, são essas quatro as lesões infligidas a toda a natureza humana pelo pecado do primeiro pai.”[6]

Então, as quatro potências que são sujeitos das virtudes cardeais ficaram, após o pecado original, enfraquecidas: a razão, pela vulnus ignorantiae (“lesão da ignorância”), que põe o homem sob o perigo de enganar-se a si mesmo; a vontade, pela vulnus malitiae (“lesão da malícia”), que é uma tendência mais ou menos acentuada para a maldade; o apetite irascível, pela vulnus infirmitatis (“lesão da fraqueza”), que transfere a “energia interior” que se deveria usar na luta pelo árduo para a raiva e para a cólera; e o apetite concupiscível, pela vulnus concupiscentiae (“lesão da concupiscência”), que faz o homem trocar o deleite honesto nas coisas divinas pelos prazeres indecentes da carne.

Para vencer essas tendências, é preciso exercitar as quatro virtudes cardeais, a saber, a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. O livro “Um Olhar que Cura”[7] é uma tentativa de analisar e remediar essas tendências presentes no homem após a queda.

É importante destacar que o ensinamento da Igreja não é o que o pecado original tenha corrompido totalmente a natureza humana. Essa é uma tendência dos protestantes e dos jansenistas, que acham que do ser humano nada pode sair de bom. A doutrina católica, explicitada pelo Concílio de Trento, é que, “sendo ela [a concupiscência] deixada para o combate, não pode prejudicar os que não lhe dão consentimento e que a ela se opõem virilmente resistência com a graça de Jesus Cristo”[8].

A segunda razão para a penitência são as consequências de nossos pecados pessoais. O próprio Aquinate lembra que “a nossa inclinação para o bem da virtude fica diminuída pelo pecado atual”[9], ou seja, por “aquele que o homem, chegado ao uso da razão, comete por sua livre vontade”[10]. Uma pessoa que, antes de converter-se, viveu na devassidão, terá, evidentemente, mais dificuldades para viver a vida de virtude que uma que foi preservada disso. Por isso, precisa penitenciar-se, para não deixar que a “lei do pecado” nos seus membros o servilize, tornando-o novamente escravo da “fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, discórdia, ciúme, ira, rivalidade, divisão, sectarismo, inveja, bebedeira, orgias e outras coisas semelhantes”. Diz São Paulo que “os que fazem tais coisas não herdarão o Reino de Deus”[11]. O combate contra o pecado é algo que jamais se pode negligenciar.

A terceira razão é a grandeza de nosso fim sobrenatural. A penitência é importante por conta da altíssima vocação dos cristãos, chamados a serem filhos de Deus. “Vós estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”, diz São Paulo: esse é o princípio básico da mortificação. O próprio Batismo trata-se de uma morte: entra-se na pia batismal como alguém que é sepultado e cuja vida, a partir de então, está no Céu. Para aspirar às coisas do alto e viver de modo digno a vocação recebida no Batismo, porém, é preciso desapegar-se das coisas deste mundo: “Fazei morrer aquilo que em vós pertence à terra: fornicação, impureza, paixão, desejos maus e a cobiça de possuir, que é uma idolatria”[12].

São João da Cruz, ao falar, na sua “Subida ao Monte Carmelo”, de pequenas imperfeições que nos impedem de progredir na vida espiritual, escreve que “pouco importa estar o pássaro amarrado por um fio grosso ou fino; desde que não se liberte, tão preso estará por um como por outro”[13]. Daqui a necessidade da penitência. Só por esse caminho é possível corresponder à nossa vocação à santidade, exercitando a virtude da magnanimidade, da qual se falou no último Programa Ao Vivo[14].

O quarto motivo para a mortificação é porque devemos imitar e seguir Nosso Senhor crucificado. Como escreve São Paulo, à comunidade de Corinto:

“Todavia, esse tesouro trazemo-lo em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa. Somos atribulados por todos os lados, mas não desanimamos; somos postos em extrema dificuldade, mas não somos vencidos por nenhum obstáculo; somos perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados. Sem cessar e por toda a parte levamos no nosso corpo a morte de Jesus, a fim que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo”[15].

Por fim, é válido recordar que todas essas recomendações são importantes não apenas para o tempo da Quaresma, que se avizinha, como para toda a nossa vida. É incompreensível que queiramos ser santos, progredindo no amor, sem sofrimento e sem mortificações. Se olharmos para a vida dos grandes santos, veremos que todos fizeram grandes penitências e, justamente por isso, se tornaram mestres do amor. “Dá-nos muito ânimo – diz Santa Teresa de Ávila – vermos praticado por outros, com tanta suavidade, sacrifícios que nos parecem impossíveis de abraçar. Vendo seus altos voos, nós nos atrevemos a voar também. Como os filhotes das aves, quando o aprendem. Embora não se arrisquem logo a dar grandes voos, pouco a pouco imitam seus pais”[16].

Para vencer o nosso amor-próprio desordenado (filáucia), raiz de nossos pecados, só existe um caminho: penitência e oração. Não é uma questão de “dolorismo”, de massacrar-se, mas de amar. Não nos tornaremos pessoas verdadeiramente amantes de Deus se continuarmos seguindo a lei de nossa carne, que é fugir da dor e buscar o prazer. Não sem razão Jesus diz que “o Reino dos Céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam”[17].

Quando, porém, os homens se recusam a oferecer-se a Deus em sacrifício, a própria vida nesta terra transforma-se em um inferno. O egoísmo e a perversidade que imperam hoje são frutos da “cultura do analgésico”, que, recusando o patrimônio da pedagogia cristã, lança fora a necessidade da luta e da penitência para a autêntica elevação do homem. Este, influenciado pelo naturalismo, degrada-se cada vez mais. É que quando essa criatura, criada à imagem e semelhança de Deus, não é fiel à sua altíssima vocação, acaba por rebaixar-se mais que os próprios animais.

Corruptio optimi pessima est: de fato, nenhuma matilha de cachorros é tão desordenada e violenta quanto um bando de pessoas que abandona a Deus, assim como nenhum animal no cio é tão devasso quanto um homem afundado nos vícios. É assim porque o ser humano foi chamado às alturas. Nenhuma espécie se destrói por excesso de comida, bebida, sexo, vanglória ou presunção, senão a espécie humana. Olhando para a terrível situação de decadência do homem, torna-se palpável isto: “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á”.

Por outro lado, “quem perder a sua vida por amor vai salvá-la”. Penitenciemo-nos nesta Quaresma, mas jamais descuidemos da mortificação, pois o demônio e o pecado não tiram férias.

Material

Referências bibliográficas

  1. Jo 12, 24-25
  2. Lc 9, 23
  3. Fl 3, 18
  4. A edição utilizada pelo Padre Paulo Ricardo é italiana, disponível para aquisição no site Amazon. Também é possível ler a obra na íntegra, em inglês, na Internet.
  5. Rm 7, 22-23
  6. Suma Teológica, I-II, q. 85, a. 3
  7. O livro “Um Olhar que Cura” está disponível para aquisição na loja virtual da Canção Nova. Há tambémo curso sobre doenças espirituais, no site, com o mesmo nome.
  8. Concílio de Trento, 5ª sessão, 17 de junho de 1546: Decreto sobre o pecado original. Cf. Denzinger-Hünermann, n. 1515
  9. Suma Teológica, I-II, q. 85, a. 3
  10. Catecismo de São Pio X, n. 946
  11. Gl 5, 19-21
  12. Cl 3, 3.5
  13. Subida ao Monte Carmelo, livro I, capítulo XI, n. 4. In Obras Completas, volume I, p. 29
  14. Programa Ao Vivo n. 79 – Oração: porta da santidade
  15. 2 Cor 4, 7-10
  16. Santa Teresa de Jesus. Castelo Interior ou Moradas. Terceiras Moradas, capítulo 2, n. 12. In São Paulo: Paulus, 2014. p. 67
  17. Mt 11, 12

Por que as pessoas não estão mais rezando pelas almas do Purgatório?

Purgatorio mini

O Concílio de Trento, em 1563, ensinou que o purgatório existe e que as almas aí retidas podem ser ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e sobretudo pelo santo sacrifício do altar.

Entrar no céu e participar da glória de Deus é o anseio de cada cristão. No entanto, para que isso aconteça é preciso que a pessoa esteja totalmente purificada de seus pecados e pronta para amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e com todo o seu entendimento.

Para a expiação dos pecados existe o Purgatório. O Concílio de Trento, em sessão datada de 3 e 4 de dezembro de 1563, emitiu o seguinte decreto:

a) Já que a Igreja católica, instruída pelo Espírito Santo, a partir das sagradas Escrituras e da antiga tradição dos Padres, nos sagrados concílios e mais recentemente neste Sínodo ecumênico, ensinou que o purgatório existe e que as almas aí retidas podem ser ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e sobretudo pelo santo sacrifício do altar, o santo Sínodo prescreve aos bispos que se empenhem diligentemente para que a sã doutrina sobre o purgatório, transmitida pelos santos Padres e pelos sagrados Concílios, seja acreditada, mantida , ensinada e pregada por toda parte.[1]

Para rezar pelas almas do Purgatório, o fiel deve exercitar três virtudes: a fé, a caridade e a justiça. Quanto a fé é preciso crer naquilo que a Igreja ensina. Como vemos acima, o Purgatório existe e ela afirma que, para ele “vão as almas das pessoas que morreram em estado de graça, mas ainda não satisfizeram completamente por seus pecados e penas temporais”.[2]

Ora, a maior parte das pessoas vai para o Purgatório, isso é inegável, pois são pouquíssimas as que chegam a tão alto grau de santidade ainda nesta vida ou aquelas que, na hora da morte, receberam indulgência plenária.

Contudo, é possível ajudar as almas que, embora salvas, devem padecer suas penas. Isso pode se dar através da oração, penitência e obras de caridade, já que essas almas nada podem fazer por si mesmas e contam exclusivamente com a ajuda dos que estão ainda nesta vida. E o maior auxílio que se pode prestar a elas é a Santa Missa. O mesmo Concílio de Trento afirma em seu Cânon 3:

Se alguém disser que o sacrifício da Missa só e de louvor e ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício realizado na cruz, porém não sacrifício propiciatório; ou que só aproveita a quem o recebe e não se deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades: seja anátema.

Antigamente havia o piedoso costume de se terminar a lista de intenções da Missa com um pedido pelas almas padecentes. Infelizmente esse gesto caiu em desuso e seria salutar recuperá-lo. Trata-se de um gesto de caridade para com aqueles que estão impossibilitados.

E a caridade é a segunda virtude a ser exercitada. Ela consiste em amar. Amas estas pessoas que são as mais necessitadas, pois nada podem fazer, estão num estado de total passividade, completamente dependentes da caridade dos que estão nesta vida. De nada adiantar rezar para aquelas almas que estão no Inferno, sua condição é eterna; nem para aquelas que já estão no Céu, pois são elas que intercedem pelos vivos. O dever de caridade de cada um é, portanto, pedir por aqueles que padecem suas penas no Purgatório.

Nossa Senhora, em Fátima, ensinou a rezar do seguinte modo: “Ó meu bom Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno, levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente as que mais precisarem”. E as que mais precisam são justamente as que estão no Purgatório.

A terceira virtude que deve ser exercitada é a Justiça. Ela possui dois aspectos: o primeiro é o da piedade para com os antepassados. Existe uma obrigação filial em se rezar pela ascendência. Deve-se a própria vida a cada um deles.

O segundo aspecto é por causa da justiça em seu sentido estrito, ou seja, quantas pessoas não estão no Purgatório padecendo por nossa culpa? Os maus exemplos, a cumplicidade no pecado, os maus conselhos; quantas pessoas foram levadas ao pecado por nossa causa e hoje, falecidas, estão pagando no Purgatório e se purificando para ver a Deus por nossa culpa? Portanto, é obrigação de justiça rezar por elas.

Assim, urge exercitar as três virtudes, recuperando a prática de piedade que a Igreja acalenta a tantos séculos que é rezar pelos falecidos.

Referências biliográficas

  1. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, Denzinger-Hünnermann, nº 1820
  2. Idem, M:2bc
  3. Ibidem, nº 1753

Oração: a porta da santidade

Fonte: Padre Paulo Ricardo Versão áudio Há três perguntas básicas sobre a oração que devem ser respondidas nesta aula, a saber: O que é oração? Como começar uma vida de oração? Como perseverar em uma vida de oração? Falaremos, principalmente, da oração dos principiantes, daqueles que estão ainda no começo da vida espiritual. Antes de […]

A Economia Sacramental

A ultima ceia mini

Os sacramentos “são como que forças que saem do Corpo de Cristo para curar as feridas do pecado e para nos dar a vida nova do Cristo” (CIC 1116).

Carta aos Consagrados 2014 – Geração Totus Tuus

Carta aos consagrados

Após quatro Campanhas Nacionais de Consagrações à Virgem Maria, através do método proposto por São Luis Maria Montfort, o número das Consagrações cresce ano após ano, aos milhares. Sabendo muito bem que nossa preocupação não é com o número de Consagrações, mas com a santidade que brota na vida daqueles que vivem a Consagração que fizeram, alegramo-nos por a Mãe de Deus ser mais conhecida e amada, e por meio Dela, Jesus Cristo, a própria Hóstia Consagrada (TVD n.48).

No ano passado, tivemos a Jornada Mundial da Juventude, com a visita do Papa Francisco ao Brasil. Nela, nós pudemos perceber o quanto a Consagração tem se propagado especialmente entre os jovens. A JMJ foi inspiração do próprio Beato João Paulo II, que se consagrou totalmente à Virgem Maria pelo método de São Luis, com o lema
Totus Tuus, que significa “Todo Teu” (Todo de Maria).

Foi uma espera de anos, mas finalmente chegou o grande momento em que o João Paulo II será elevado à glória dos altares. Será canonizado juntamente com João XXIII, o Papa que convocou o Concílio Vaticano II e rezou pela renovação espiritual do Povo de Deus. A canonização de ambos será dia 27 de abril, providencialmente, véspera da Memória de São Luis Maria Montfort, talvez um sinal da ligação entre estes santos.

Recebemos, agora, toda esta herança de João Paulo II, que testemunhou a sua entrega a Cristo, por meio da Virgem Maria, denunciando aquilo que ele chamou de “cultura da morte” e do pecado, apresentando ao mundo a Teologia do Corpo.

Nós fazemos parte desta geração que, como João Paulo II, quer viver o “
Totus Tuus”, seguindo o seu exemplo de Consagração Total. Somos desta geração formada por ele, e gerada pela Virgem Mãe. É a Geração Totus Tuus,

Temos agora, portanto, um momento de graça, para, a exemplo de João Paulo II, vivermos e propagarmos a Consagração, principalmente entre os jovens, que tanto João Paulo II buscou, e assim, continuar formando a Geração
Totus Tuus. É da juventude que sairão as vocações ao Sacerdócio, à Vida Consagrada, à Vida Missionária e aos Matrimônios santos que geram filhos santos para Deus!

Algumas questões práticas:

  1. DATA DE CONCLUSÃO DA V CAMPANHA NACIONAL: A data da conclusão da V Campanha Nacional de Consagrações à Virgem Maria já está marcada: 12 de Dezembro de 2014, Memória das Aparições de Nossa Senhora em Guadalupe, padroeira da América.
  2. CONSAGRA-TE: Para que as Consagrações se propaguem, é importante realizarmos nas diversas cidades um encontro com o nome de “Consagra-te”, onde se apresente a Consagração Total pelo método de São Luis, para que, a partir do encontro, sejam formados os grupos de preparação. Se visarmos a Consagração em 12 de Dezembro, sugerimos que estes encontros aconteçam até o início do mês de Outubro, para haver tempo hábil das pessoas estudarem o “Tratado” (em grupo ou individualmente) e realizarem as orações preparatórias.
  3. MEMÓRIA DE SÃO LUIS MONTFORT: Celebremos, solenemente, a memória de São Luis Maria de Montfort, no dia 28 de Abril. É importante lembrarmos-nos desta data em nossas Paróquias, Comunidades e Grupos, também como meio para propagarmos a Consagração Total.
  4. SÚPLICA PARA AO ANO MARIANO EM 2016-2017 e DOUTORIZAÇÃO DE SÃO LUIS: preparemo-nos para o Centenário das Aparições da Santíssima Virgem em Fátima, que celebraremos no ano de 2017, bem como para os 300 anos da morte de São Luis Montfort em 2016. Para isso, supliquemos a Deus e ao Papa Francisco a graça de um Ano Mariano em 2016-2017, bem como a elevação São Luis Montfort ao caráter de Doutor da Igreja.
  5. IMPORTANTE: Convocamos todos os Consagrados, dos vários grupos, movimentos e comunidades, para se unirem em oração conosco nestes empreendimentos, a oferecerem jejum e penitência a Deus por meio da Santíssima Virgem em vista que os Seus Planos se realizem e o Seu Imaculado Coração Triunfe, e para tomarem as devidas iniciativas para que estes eventos aconteçam em suas cidades.

Estas são as aspirações dos Representantes da Campanha Nacional de Consagrações à Virgem Maria, reunidos em nosso Encontro Nacional de Lideranças Católicas e Pró-Vida, realizado nos dias 16 a 19 de Janeiro de 2014, na cidade de Luziânia-GO.

Por Equipe Consagra-te | consagrate.com

Carnaval e Quaresma

“Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine.” (1 Coríntios 6:12) Vários autores explicam o nome Carnaval a partir do latim “carne vale”, isto é, “adeus carne” ou “despedida da carne”; o que significa que no Carnaval o consumo de carne era considerado lícito […]

É PRECISO CAMINHAR 2014-02-27 22:57:00

 
USAR E PARTILHAR OS BENS MATERIAIS SEM SER POSSUIDO POR ELES

Segunda-feira da VIII Semana Do Tempo Comum

03 de Março de 2014

 

 Primeira Leitura: 1Pd 1,3-9

3 Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para uma esperança viva, 4 para uma herança incorruptível, que não estraga, que não se mancha nem murcha, e que é reservada para vós nos céus. 5 Graças à fé, e pelo poder de Deus, vós fostes guardados para a salvação que deve manifestar-se nos últimos tempos. 6 Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. 7 Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira — mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo — e alcançará louvor, honra e glória, no dia da manifestação de Jesus Cristo. 8 Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, 9pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação.
 

Evangelho: Mc 10,17-27

Naquele tempo, 17Ao retomar seu caminho, alguém correu e ajoelhou-se diante de Jesus, perguntando: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” 18Jesus respondeu: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus.19Tu conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não defraudes ninguém; honra teu pai e tua mãe!” 20Entao, ele replicou: “Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde minha juventude”. 21Fitando-o, Jesus o amou e disse: “Uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” 22Ele, porém, contristado com essa palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens.. 23Entao Jesus, olhando em torno, disse a seus discípulos: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus!” 24Os discípulos ficaram admirados com essas palavras. Jesus, porém, continuou a dizer: “Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25É mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” 26Eles ficaram muito espantados e disseram uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27Jesus, fitando-os, disse: “Aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo é possível”.
____________________________

Lemos no evangelho deste dia que “alguém” (sem nome, que pode ser qualquer um de nós) correu ao encontro de Jesus para fazer a seguinte pergunta: “Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?” É uma pergunta que jovens faziam aos rabis, quando se apresentavam para iniciarem a formação acadêmica nas escolas hebraicas: que devo fazer? No evangelho de Mateus o jovem rico diz: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?” (Mt 19,16).

     

Antes de responder à pergunta desse rico, Jesus se cautela diante do apelativo “bom”: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus”. Essa precisão servirá para se compreender a resposta que Jesus fará a esse rico. Esta observação de Jesus corresponde perfeitamente à concepção bíblica e judaica segundo a qual só Deus é chamado bom, porque ele usa de misericórdia, socorre os pobres e defende os fracos (cf. Dt 10,18). Por isso, a única condição para entrar na vida eterna é imitar o único bom, Deus. A fidelidade a Deus é exercida no amor ao próximo, síntese dos mandamentos (cf. Rm 13,8-10).

    

Jesus prossegue, indicando ao seu interlocutor o caminho para “herdar” a vida definitiva junto a Deus, e citou só os mandamentos que se referem aos deveres para com o próximo (v.19). Jesus omite os mandamentos referentes a Deus. em vez disso, ele recorda os éticos, os que se referem ao próximos, que são independentes de todo contexto religioso: Tu conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não defraudes ninguém; honra teu pai e tua mãe!”.  O rico responde: “Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde a minha juventude” (v.20).

  

O texto prossegue: “Fitando-o, Jesus o amou e disse: ’uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me’” (v.21).

“Fitar” é o mesmo que cravar, admirar, fixar a atenção e o pensamento, ficar imóvel. O sinal distintivo da identidade do discípulo é seguir a Jesus, isto é, ficar envolvido em seu destino, seu modo de amar e de ser fiel ao outro homem até o testemunho supremo da cruz (cf. Jo 13,1). A diferença entre a renúncia aos bens como estilo de vida e o seguimento evangélico está nessas duas palavras de Jesus: “dá-os aos pobres”. Se nos detivermos na primeira: “vai e vende tudo o que tens”, ainda nós estaremos no limiar do evangelho que para termos liberdade interior, devemos nos afastar (longe de cobiça ou ganância) de todas as coisas e preocupações materiais.

A novidade evangélica é o convite: “dá aos pobres, porque assim tu imitas o único bom, Deus; depois vem e segue-me”. Trata-se de seguir aquele que, pelos pobres, deixou não só sua atividade, a segurança social e os laços de parentesco, mas também entrega sua própria existência como dom de amor pelos muitos, pela libertação deles (cf. Mc 10,45).

           

O homem rico, pelo seu apego à riqueza, não aceita o convite de Jesus. Seu amor aos outros é relativo, não chega ao nível necessário para um cristão. Não está disposto a trabalhar por uma mudança social, por uma sociedade justa; a antiga lhe basta. Prefere o dinheiro ao bem do homem.

A cena do evangelho de hoje é simpática: uma pessoa (jovem) inquieta que busca caminhos e quer dar um sentido mais pleno para sua vida. Mas o diálogo, que prometeu muito, acaba em fracasso. Tampouco Jesus consegue tudo o que quer em sua pregação, pois ele respeita, com delicadeza, a liberdade das pessoas. Alguns lhe seguem, deixando tudo para trás, como os apóstolos. Outros, como o homem rico no evangelho de hoje, ficam para trás, pois seus bens estão na sua frente que acabam não vendo mais nada senão os bens.

O jovem rico se converteu em símbolo de qualquer cristão que quando chegou o momento não quis aceitar a mensagem de Jesus. Jesus não pede “coisas” e sim a entrega total. Não se trata de “ter” e sim trata-se de “ser” e de “seguir” vitalmente a Jesus: “Quem quer me seguir, carregue sua cruz de cada dia e me siga. Quem quer guardar sua vida, vai perdê-la”. Para todos nós custa muito renunciar ao que estamos apegados: as riquezas ou ideias ou a família, ou os projetos individuais ou a mentalidade. Quando estamos cheios de coisas, menos agilidade para avançarmos pelo caminho de vida e de Deus. Um atleta que quer correr, mas com uma mala às costas, será difícil conseguir medalha.

      

Jesus pede a todos os seus seguidores que tenham o desprendimento que sabe se conformar com o necessário e compartilhar com os outros o que se tem, sem entesourar nem incorrer na idolatria do dinheiro como bem supremo. Um dia seremos obrigados a largar tudo quando chegar nosso momento para partir deste mundo. De fato, temos apenas o usufruto das coisas criadas por Deus para nossa felicidade neste mundo e não para possuí-las.

P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2014-02-27 21:40:00

 
VIVER NA CERTEZA DO AMOR DE DEUS

VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM A

02 de Março de 2014
 

 

Primeira Leitura: Is 49,14-15

14 Disse Sião: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!” 15 Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti.
 
 

Segunda Leitura: 1Cor 4,1-5

Irmãos: 1 Que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. 2 A este respeito, o que se exige dos administradores é que sejam fiéis. 3 Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por algum tribunal humano. Nem eu me julgo a mim mesmo. 4 É verdade que minha consciência não me acusa de nada. Mas não é por isso que eu posso ser considerado justo. 5 Quem me julga é o Senhor. Portanto, não queirais julgar antes do tempo. Aguardai que o Senhor venha. Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações. Então, cada um receberá de Deus o louvor que tiver merecido.
Evangelho: Mt 6,24-34

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 24 “Ninguém pode servir a dois senhores; pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. 25 Por isso eu vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa? 26 Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? 27 Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida, só pelo fato de se preocupar com isso? 28 E por que ficais preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. 29 Porém, eu vos digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. 30Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé? 31 Portanto, não vos preocupeis, dizendo: ‘O que vamos comer? O que vamos beber? Como vamos nos vestir? 32 Os pagãos é que procuram essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. 33 Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34 Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas”.

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O texto lido neste dia se encontra no contexto do Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,28). Através do texto de hoje Jesus explicita a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres no espírito” (Mt 5,3). E ao dizer “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça”, na verdade, Jesus quer explicitar o pedido encontrado na oração do Pai-Nosso: “Venha a nós o vosso Reino” (Mt 6,10), para dizer que “Não só de pão o homem vive, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4,4; Dt 8,3). Segundo Jesus as preocupações caseiras não devem sufocar os projetos do Reino de Deus (amor, justiça, compaixão, solidariedade, igualdade, comunhão etc.).

  

O evangelho deste dia nos chama a fazermos a escolha entre um dos dois senhores com suas conseqüências: Deus que nos proporciona a vida plena ou cobiça pelos bens materiais que nos leva à frustração eterna. “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24b). Toda escolha implica renúncia. Quem está cheio de criatura (dos bens materiais) é porque está vazio de Deus. Quem está cheio de Deus é porque está vazio de criaturas.

1. Deus E Dinheiro: A Quem Ou A Que Servimos?

      

Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24b).

O que significa servir a Deus? O que significa servir ao dinheiro?

Para responder a esta pergunta vamos olhar para as tentações de Jesus (Mt 4,1-11). O que fez Jesus durante as tentações, quando o diabo lhe prometeu o domínio absoluto sobre o mundo e toda sua glória com todas as suas riquezas? Jesus respondeu: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto” (Mt 4,10). Jesus, como homem, fez sua opção: servir a Deus.

Agora Jesus exige de cada um de nós: a quem servimos ou a que servimos?

Por um lado estão o dinheiro, os bens, as comodidades deste mundo. Apegar-se a eles significa viver nas trevas. Temos apenas o direito de uso sobre os bens. Esse direito cessará assim que partirmos deste mundo. A preocupação exagerada e desenfreada pelos bens materiais pode fazer nascer no coração a cobiça e a inveja. A cobiça é irmã da inveja, e as duas (cobiça e inveja) nascem da preocupação exagerada pelos bens materiais. O avarento é escravo do dinheiro que tem, e o invejoso é o escravo do dinheiro dos outros. Para Jesus a busca do Reino, se for sincera, dá sentido às preocupações caseiras que ele mesmo ensinou no Pai-Nosso para pedir a Deus o pão nosso de cada dia (Mt 6,11). Mas a busca desenfreada dos bens materiais pode impedir a mais acentuada preocupação do Reino: amar a Deus que se traduz no amor ao próximo.

Jesus nos adverte: “Vós não podeis ser escravos/ servos do Mamon”. O termo aramaico “mamôn” significa “fortuna”, “bens”. Por que nenhum cristão pode ser escravo/ servo dos bens materiais? Porque aquele que coloca os bens temporais como finalidade última de sua vida, que ama os bens acima de tudo e para alcançá-los não mede os meios até os meios injustos, terá conseqüentemente e necessariamente que desprezar a Deus. Além disso, o amor pelo dinheiro fecha completamente o coração humano num egoísmo e não sobra nenhum espaço para amar os demais homens. Mais ainda, o amor pelo dinheiro torna o homem injusto, prepotente, corrupto, explorador e violento. Em nome de dinheiro o homem é capaz de matar seu próximo. Jesus não afirma que o dinheiro ou os bens materiais não sejam necessários para viver, mas que sejam regidos por uma escala de valores para que eles possam ocupa seus devidos lugares como meio e não como fim.

Por outro lado está Deus. Servir a Deus, segundo as Sagradas Escrituras, é sinal da grandeza, porque não se trata de nos sentirmos servos e sim “filhos” (cf. 1Jo 3,1-2). Nos versículos anteriores deste texto Jesus nos ensinou a chamar Deus de Pai Nosso (cf. Mt 6,9-15). Servir a Deus significa colaborar com Ele, atuar em comunhão com Ele. Como Pai Deus sempre respeita nossa individualidade e nossa personalidade. Se optarmos a servir a Deus, nós nos daremos conta de que as riquezas passam a ser relativas e descobriremos que estão destinadas a todos. Tudo foi criado por Deus e destinado a todos. Toda preocupação que facilita a prática da caridade é sempre boa. “Quando você descobrir a alegria de compartilhar o seu pão com seu irmão, você renunciará facilmente ao prazer de comê-lo sozinho. Se você perde os seus bens e é pobre por amar os seus irmãos, você é um santo pelo amor que possui, e não pelo dinheiro que lhe falta” (René Juan Trossero).

  

“Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”,

O verbo que o texto usa é “servir” (douleúein, grego) de onde se deriva o substantivo “servo” ou “escravo”. Por isso, podemos traduzir a frase a partir do substantivo para perceber seu conteúdo: “Vós não podeis ser servo de Deus e escrava de dinheiro simultaneamente”. Nenhum homem podia ser escravo/ servo de dois senhores (donos) na época de Jesus ou em qualquer época.   Na época “escravo” não era tratado como pessoa, mas como coisa (objeto). Ele não tinha direito nenhum. Seu dono podia fazer com ele como quisesse. Como coisa (objeto) e não como pessoa, o escravo podia ser vendido ou ser morto pelo seu dono. O dono possuía um escravo como possuir qualquer coisa. O escravo não tinha tempo para si, somente para seu dono. Seu tempo pertencia ao seu dono.

Jesus quer nos dizer desta maneira: “Vocês devem ser servos de Deus”. Em relação a Deus, nós pertencemos a Ele. Pertencer a Deus não é fator de alienação, mas de afirmação, isto é, não somos anônimos, mas cada um tem nome para Deus e é amado por Ele. Eu não sou alienado, mas sou de Deus e pertenço a Deus.

Ao dizer que “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, Jesus quer nos ensinar que existe a incompatibilidade entre Deus e o dinheiro. O projeto de Deus se fundamenta na partilha. O dinheiro, ao contrário, se fundamenta na concentração de bens com o intuito de manter privilégios diante da maioria que não tem nada para viver ou sobreviver. O dinheiro transforma o próximo em objeto de exploração. A sede de dinheiro causa separação entre as pessoas até pode criar inimizade. Quando os bens materiais começarem a mandar numa pessoa que os possui, eles farão desaparecer a liberdade do seu dono.  Somente ganhará novamente a sua liberdade quando ele começar a mandar nos seus bens. Se o projeto de Deus, vivido por um cristão, se fundamenta na partilha, consequentemente o outro será considerado irmão e não como rival. O homem que vive conforme o projeto de Deus não deixa ninguém morrer de fome, pois isto seria uma agressão contra o irmão. Por isso Mahatma Gandhi dizia: “O mundo tem o suficiente do que os homens precisam, mas não do que cobiçam”.

Jesus dá como exemplo a vida dos pássaros para corrigir a cobiça humana. Os pássaros se esforçam por comer e não se dedicam para acumular. A preocupação obsessiva pelos bens materiais impede qualquer homem de viver e de conviver como irmão. Quem está centrado somente nos bens materiais não podem criar uma autêntica rede de relações humanas, um mundo mais justo onde o compartilhar e não o acumular seja a meta, onde a providência divina se transforma e se traduz em providência humana, pois um cuida do outro mutuamente.

Portanto, nós devemos perseverar no bem para a nossa própria felicidade, ou necessariamente nós vamos avançar na estrada do mal para nossa própria frustração eterna. Quem não cultiva o bom trigo deixa caminho aberto para as ervas daninhas. Por isso, somos chamados a nos converter permanentemente. Converter-se neste sentido é decidir com o coração pelo bem ou pelo mal. Cada um é responsável pelos frutos do seu campo.

 

2. Colocar Deus E Sua Justiça Como Centro De Nossa Existência E Convivência      

Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todas as outras coisas vos serão dadas por acréscimo”.  Vosso Pai, que está nos céus, sabe do que vós precisais.

Quem orienta sua vida pela busca do Reino de Deus e sua justiça não tem porque deixar-se dominar pela avidez ou preocupação exagerada pelos bens materiais. O olhar de quem acredita no amor de Deus e na sua providência centra-se no que é essencial. O resto vem-lhe por acréscimo: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todas as outras coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33). Jesus não nos diz: “Buscai mais nada”, mas “Buscai primeiro”. Isto significa a prioridade.

Daí surge a pergunta: O que é que é essencial como prioridade que dá sentido para minha vida e que me dignifica como pessoa? O que me faz digno e valioso, mais do que qualquer coisa no mundo? Não é meu caráter? Não é minha bondade e meu amor vividos na convivência com os demais? Não é minha honestidade nos negócios? Não é a minha certeza de que além da vida na história existe a eternidade? Será que eu coloco tudo isto como prioridade na minha vida?

Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça”. A justiça do Reino de Deus é o sinônimo de amor misericordioso, solidariedade fraterna, perdão reconciliador, igualdade respeitosa, empenho por construir a paz e a recusa de toda forma de idolatria e de injustiça. Tudo isto é a prioridade de quem acredita em Deus, de quem se diz cristão. Nós podemos também priorizar nosso tempo: parar para examinar sobre como organizamos nosso tempo. Quantas horas nós usamos de nosso tempo para a Televisão e outras coisas e quanto tempo usamos para orar, ler e meditar a Palavra de Deus? Nós somos chamados a olhar para as facetas de nossa vida e suas prioridades. Fazer tudo isto não é perder, mas ganhar: “… todas as outras coisas vos serão dadas por acréscimo”, promete-nos o Senhor.

 

3. Deixar-se Amar E Guiar Por Deus, o Pai Amoroso

Não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo do que a roupa?… Vosso Pai, que está nos céus, sabe do que precisais de tudo isso (Mt 6,25).

Jesus nos ensina que Deus é nosso Pai, ou melhor dizer, nosso Papaizinho. Através do profeta Isaías Deus, no seu amor materno, faz-nos esta pergunta-afirmação: “Por acaso uma mulher se esquecerá da sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me esqueceria de ti. Eis que te gravei nas palmas da mão” (Is 49,15-16).

O amor de Deus por nós é feito de ternura, de misericórdia, de compaixão, de fidelidade e de eternidade. Esta mensagem extraordinária nos assegura e nos garante que temos um Pai que pensa em nós muito mais do que nas flores no campo e nos pássaros no céu (cf. Mt 6,26-28). Ele nos ama tanto a ponto de enviar seu Filho único para nos salvar: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Em Jesus Deus nos amou até o fim (cf. Jo 13,1).

   

A espiritualidade do Sermão da Montanha está contra a ansiedade de satisfazer apenas as necessidades materiais. A preocupação exagerada pelos bens materiais revela que a opção fundamental deste tipo de cristão está nas coisas efêmeras que na verdade servem apenas como meio e não como fim, pois os bens materiais continuam sendo criaturas e não Criador. Quando uma pessoa começar a se identificar com o que possui (como com os bens materiais), sem perceber ela vira coisa e não pessoa. Conseqüentemente, a partir do momento em que não tiver mais bens materiais, ela perderá a razão de viver, se desespera até chegar ao ato extremo: suicídio. É triste para um ser humano quando ele é considerado por aquilo que possui e não por aquilo que ele é. É triste também para uma pessoa que só olha para o que o outro tem e não para aquilo que ele realmente é como um ser humano, filho de Deus. O que faz uma pessoa ser pessoa é seu amor pelo próximo, seu respeito pela dignidade e pelos direitos dos outros, seu amor pela justiça e honestidade, sua solidariedade e compaixão pelo próximo.

   

O mundo foi criado originalmente em função do homem, e não o homem para o mundo (cf. Gn 1,28-30). As aspirações do homem, por isso, devem ser superiores a qualquer coisa que ele possa possuir e conquistar. São Paulo numa expressão muito rica e profunda diz; “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23). Não pertencemos às coisas e sim a Cristo. As coisas podem pertencer a nós e não vice-versa. A consciência desta pertença a Cristo faz com que tudo seja ordenado e ganhe seu justo valor e sua justa perspectiva na nossa vida. “A verdadeira felicidade não consiste em possuir o que se ama, mas em amar o que se devepossuir” (Santo Agostinho). Não é o mundo que nos separa de Deus, e sim a nossa aceitação em viver como o mundo quer. O mundo é como um cão acorrentado que pode latir muito, mas não morde quem mantiver a distância, vivendo os valores ensinados por Jesus Cristo. O homem se distancia do mundo não pelo seu afastamento ou pela fuga dele, mas pela vivência dos valores do Reino. A perfeição não consiste na ausência dos desejos, mas em colocar os desejos em ordem para que o ser humano possa chegar à sua plena realização como ser humano e ser transcendente capaz de ver além do sentido.

E consciente ou inconscientemente todo domingo ou todo dia nós renovamos nossa filiação divina ao professar o nosso credo em Deus Pai: “Creio em Deus Pai”. Mais do que uma relação filosófica que designa as relações de Criador para com a criatura, o texto enfatiza as relações pessoais entre Deus como Pai e nós como filhos. Se Deus vela com solicitude sobre as criaturas tão frágeis como são os pássaros e as flores no campo, que são pouco mais do que nada, e nada fazem, que cuidados não terá Deus em relação às criaturas mais dignas, suas obras primas que são os homens? Cristo quer nos libertar de nossa inquietação exagerada para que possamos nos consagrar total e fielmente à procura daquilo que nos dignifica e nos diviniza: o Reino de Deus e sua justiça. A atitude de um cristão diante de Deus deve ser semelhante à situação de uma criança que é serena e tranqüila porque seu pai e sua mãe pensam nela e a amam.

          

Já que pertencemos a Deus pelo fato de sermos filhos no Filho pelo Batismo em vez de perguntar: “O que eu desejo fazer”, nós devemos nos perguntar: “O que Deus quer ou deseja que eu faça?”.  Em vez de dizer “Eu vou fazer aquilo que eu quero”, um cristão diz: “Eu vou fazer aquilo que Deus quer”. Porque fazer aquilo que Deus quer é que me faz mais humano, mais filho e mais irmão para os outros.

P. Vitus Gustama,svd