Autor: Vitus Gustama

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-17 19:58:00

20/11/2017
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SENHOR, QUEO EU VEJA COMO TU VÊS
Segunda-Feira da XXXIII Semana Comum
Primeira Leitura:  1Mc 1,10-15.41-43.54-57.62-64
Naqueles dias, 10 brotou uma raiz iníqua, Antíoco Epífanes, filho do rei Antíoco. Estivera em Roma, como refém, e subiu ao trono no ano cento e trinta e sete da era dos gregos. 11 Naqueles dias, apareceram em Israel pessoas ímpias, que seduziram a muitos, dizendo: “Vamos fazer uma aliança com as nações vizinhas, pois, desde que nos isolamos delas, muitas desgraças nos aconteceram”. 12 Estas palavras agradaram, 13 e alguns do povo entusiasmaram-se e foram procurar o rei, que os autorizou a seguir os costumes pagãos. 14 Edificaram em Jerusalém um ginásio, de acordo com as normas dos gentios. 15 Aboliram o uso da circuncisão e renunciaram à aliança sagrada. Associaram-se com os pagãos e venderam-se para fazer o mal. 41 Então o rei Antíoco publicou um decreto para todo o reino, ordenando que todos formassem um só povo, obrigando cada um a abandonar seus costumes particulares. 42 Todos os pagãos acataram a ordem do rei 43 e inclusive muitos israelitas adotaram sua religião, sacrificando aos ídolos e profanando o sábado. 54 No dia quinze do mês de Casleu, no ano cento e quarenta e cinco, Antíoco fez erigir sobre o altar dos sacrifícios a Abominação da desolação. E pelas cidades circunvizinhas de Judá construíram altares. 55 Queimavam incenso junto às portas das casas e nas ruas. 56 Os livros da Lei, que lhes caíam nas mãos, eram atirados ao fogo, depois de rasgados. 57 Em virtude do decreto real, era condenado à morte todo aquele em cuja casa fosse encontrado um livro da Aliança, assim como qualquer pessoa que continuasse a observar a Lei. 62 Mas muitos israelitas resistiram e decidiram firmemente não comer alimentos impuros. 63 Preferiram a morte a contaminar-se com aqueles alimentos. E, não querendo violar a aliança sagrada, esses foram trucidados. 64 Uma cólera terrível se abateu sobre Israel.
Evangelho: Lc 18,35-43
35 Quando Jesus se aproximava de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho, pedindo esmolas. 36 Ouvindo a multidão passar, ele perguntou o que estava acontecendo. 37 Disseram-lhe que Jesus Nazareno estava passando por ali. 38 Então o cego gritou: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” 39 As pessoas que iam na frente mandavam que ele ficasse calado. Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” 40 Jesus parou e mandou que levassem o cego até ele. Quando o cego chegou perto, Jesus perguntou: 41 “Que queres que eu faça por ti?” O cego respondeu: “Senhor, eu quero enxergar de novo”. 42 Jesus disse: “Enxerga, pois, de novo. A tua fé te salvou”. 43 No mesmo instante, o cego começou a ver de novo e seguia Jesus, glorificando a Deus. Vendo isso, todo o povo deu louvores a Deus.
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Estar No Mundo Sem Ser Do Mundo
Durante esta semana que é a penúltima semana do Ano litúrgico lemos uma seleção dos livros dos Macabeus. Na Bíblia católica há dois livros dos Macabeus que são considerados “deuterocanônicos”: foram declarados inspirados por Deus nos concílios de Florença (1441), de Trento (1546) e Vaticano I (1870). Na verdade há quatro livros. Para os judeus e para os protestantes todos os quatro são apócrifos. Apócrifo é a palavra grega (apócryphos) que significa escondido, secreto, oculto. Os livros apócrifos são chamados assim porque não eram de uso público ou não eram usados oficialmente na liturgia e no ensino. Há outros livros apócrifos do AT como também há livros apócrifos do NT. Dos quatro livros dos Macabeus dois deles são considerados pela Igreja católica como apócrifos: o 3º Macabeus (130-100 a.C) e 4º Macabeus (século I a.C).
Os dois livros partem de uma ideia: a fé de Israel está correndo perigo, pois há oposição evidente entre o judaísmo (2Mc 2,21;8,1; 14,38) e o helenismo (2Mc 4,13-14; 11,2-3). Há tentação forte da parte do povo israelita de adotar a civilização grega que é mais elevada e desenvolvida do que a civilização judaica. Mas tem um preço alto a pagar: renunciar aos valores sagrados que significa uma traição à fé da Aliança. Isarel teve de lutar ao longo de sua história contra o sincretismo religioso. E agora tem que lutar contra outro tipo de sincretismo que o helenismo propõe. Uma parte do povo adotou o helenismo (apostasia). Mas a maioria conservadora recusou, pois o povo israelita é um povo eleito (2Mc 1,25). A identidade como o povo eleito conduz o povo para um nacionalismo feroz através do martírio. O povo israelita acredita que aquele que morre pela lei experimentará a ressurreição dos justos (2Mc 7,9).
Nesta luta o povo israelita tem uma convicção forte de que Deus não abandona seu povo da Aliança e por isso, o povo se apoia sempre em Deus na sua luta. As principais armas que o povo usa para cada batalha são a oração, o jejum e a leitura da Bíblia (1Mc 3,48), pois quem decide a batalha é o próprio Deus.
A Primeira Leitura de hoje nos narra a diversa reação dos israelitas diante da ordem de adotar a religião oficial pagã. Para os israelitas foi um tempo difícil: “Uma cólera terrível se abateu sobre Israel”. O pecado dos judeus apóstatas não era a aceitação ou não da cultura helênica, mas “aboliram o uso da circuncisão e renunciaram à aliança sagrada. Associaram-se com os pagãos e venderam-se para fazer o mal” e “Eles ofereceram sacrifícios aos ídolos e profanaram o sábado”.
A tentação da secularização continua existente. Mas para começar digamos que “secular”, “secularidade” e “secularização” fazem referência a “ser e estar no mundo” (no século). Quando falamos de secularidade para a Igreja ou para o cristianismo, entendemos com isso como “a maneira peculiar de ser Igreja encarnada”, no mundo e para o mundo. Certamente como sacramento de salvação.
Enquanto que secularização denotaria, em sentido negativo, a autonomia total do mundano e a separação com relação ao cristianismo e à Igreja. Em outras palavras, estaríamos falando de laicismo. O Vaticano II, em Gaudium et Spes, admite uma “relativa otonomia” do civil, isto é, uma sã secularidade.
Os elementos que devemos levar em conta são os seguintes: Primeiro, o Ser e o Fazer (identidade e missão) de uma Igreja que vive no mundo e para o mundo, exerce sua missão no mundo e por meio do mundo. É uma Igreja plenamente encarnada. Segundo, o Ser e o Fazer dos fieis leigos. Porque neles e por eles a Igreja vive “em plenitude e profundidade” a inserção no mundo: Sal da terra e luz do mundo. Esta “índole secular”, é a chave para entender a teologia e espiritualidade laical. Terceiro, o Ser e o Fazer dos presbíteros (diocesanos/seculares). Se a perfeição do presbítero diocesano ou secular consiste em viver a radicalidade da caridade pastoral, então está se encarnando na vivência no século.
Todas as formas de vida na Igreja estão no século, são seculares, ainda que a grande diferença sejam as formas de viver os dons do Espirito. Neste sentido, convem não nos esquecermos que nós cristaos estamos no mundo sem ser do mundo. A pastoral, no terreno da secularidade, se move entre a inserção real e trans-secularidade. Porque a logica e dialética do Reino de Deus é esta: “Já presente, mas não realizado em plenitude”.
Podemos ser modernos e assumir todos os progressos da ciência e da cultura, mas o que não temos que perder é nossa fé e nosso estilo cristão de vida. Somos “o sal da terra” e “a luz do mundo” (Mt 5,13-14). Ai está nosso testemunho: ser fortes para lutar contra corrente. Ou pode seguir corrente sem nos deixar levar pela correnteza do modernismo. Os judeus fieis foram assim com todas as consequências: “Muitos israelitas resistiram e decidiram firmemente não comer alimentos impuros. Preferiram a morte a contaminar-se com aqueles alimentos. E, não querendo violar a aliança sagrada, esses foram trucidados”. Nos seus lábios põem o Salmo Responsorial de hoje: “Quando vejo os renegados, sinto nojo, porque foram infiéis à vossa lei…. Mesmo que os ímpios me amarrem com seus laços, nem assim hei de esquecer a vossa lei”.
Senhor Que Eu Enxergue Sua Presença Para Entender o Sentido Da Minha Vida
Continuamos escutando as ultimas e importantes lições dadas por Jesus no seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28).
No Evangelho deste dia o evangelista Lucas conta como Jesus, depois de anunciar sua Paixão e ressurreição, curou um cego dentro do contexto de uma subida para Jerusalém. A incredulidade dos apóstolos é um tema freqüente nos anúncios da Paixão e da subida para Jerusalém. Os apóstolos ficam como que cegos diante deste anúncio. Jesus não para de dar lições para que os apóstolos possam entender o sentido da missão de Jesus que, um dia, eles devem levá-la adiante.
Por isso, a intenção do evangelista Lucas é bem clara ao colocar este episódio aqui: para compreender o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus é preciso abrir os olhos da fé para poder entender as Escrituras. Os meios humanos são inadequados. É preciso deixar-se conduzir por outro para descobrir a Luz.
Como Deus é Luz, ele colocou seus olhos nos olhos de Jesus para poder olhar para nosso mundo como ninguém neste mundo. E como Jesus é a Luz do mundo (cf. Jo 8,12), ele devolveu a visão para o mendigo cego: “Enxerga, pois, de novo. Tua fé te salvou!”, disse Jesus ao cego.
Um provérbio árabe diz: “Vem a mim com teu coração e eu te darei meus olhos”. Jesus também nos diz: “Vem a mim com teu coração!”. Temos que nos aproximar de Jesus com nosso coração, com nossa coragem de ver, de vê-Lo todo e de ver o mundo e os outros homens como Deus os vê: com amor e compaixão. A fé também é um grito de socorro: “Jesus, tem piedade de mim!”. Jamais podemos desistir de gritar a Jesus para pedir socorro, como pediu o cego mendigo. Somente os olhos de Jesus podem nos fazer ver com alegria a vida até nas suas dores. 
Não há nada que seja mais belo ou formoso na vida do que poder ver: ver o rosto da mãe ou do pai, ver o sorriso de uma criança, ver os olhos da pessoa amada, ver uma passagem, ver o sol, a natureza, a obra dos homens, ver “as obras dos dedos de Deus” (Sl 8,4) e assim por diante. Jesus nos chamou para ver: “Venham e vejam!” (Jo 1,39), disse Jesus aos dois discípulos de João que mais tarde se tornarão discípulos seus. É para ver a vida a partir de uma perspectiva especial para poder caminhar na direção certa.
O olhar é um dom precioso e fascinante legado pelo Criador. É uma das áreas humanas que mais chama a atenção das pessoas. O olhar é como uma bússola a guiar nossos passos, nossos gestos, nossas atitudes. O olhar sempre está aí atento a um ou outro detalhe. Os olhos determinam um pouco ou muito do que somos. E o olhar é sempre anterior às nossas palavras.
É tão natural olhar, que nem nos damos conta desse misterioso gesto. Muitas vezes olhamos; poucas vezes, porém, nos encontramos. Alguns se limitam a olhar os outros para anotar seus possíveis defeitos. Não deixa de ser a mais trágica expressão de nossa crueldade. O olhar superficial jamais enxerga alguém; os outros são objetos de curiosidade, de conversa.
O cego da nossa história está sentado à beira do caminho e pede esmola. O estar sentado significa acomodação, instalação, conformismo. Ele está privado da luz e da liberdade e está conformado com a sua triste situação, sabendo que, por si só, é incapaz de sair dela. E o pedir esmola indica a situação de escravidão e de dependência em que o homem se encontra.
Num diálogo público com o cego, Jesus pergunta ao cego sobre o que ele quer: “O que queres que eu faça por ti?”. E o cego sabe muito bem daquilo que ele quer: “Senhor, que eu veja!”. “Enxerga, pois, de novo. Tua fé te salvou” é a resposta de Jesus. E aconteceu o milagre. A Palavra de Jesus devolve ao cego a vista como símbolo da fé. Por isso, o evangelista Lucas nota que esse homem, depois que ficou curado, “seguia a Jesus”. É um corte radical com o passado, com a vida velha, com a anterior situação, com tudo aquilo em que se apostou anteriormente, a fim de começar uma vida nova ao lado de Jesus.
Diante de Jesus e com Jesus não há situação por difícil que seja que não haja solução. É preciso, no entanto, que não nos fechemos no nosso egoísmo e na nossa auto-suficiência, surdos e cegos aos apelos de Deus; é preciso que as nossas preocupações com os valores efêmeros não nos distraiam do essencial; é preciso que aprendamos a reconhecer os desafios de Deus nesses acontecimentos banais com que, tantas vezes, Deus nos interpela e questiona.
Uma das razões que nos impedem de sermos autenticamente nós mesmos e encontrar nosso caminho é não compreender até que ponto estamos cegos. Mas a tragédia está no fato de que não estamos conscientes de nossa cegueira. Vivemos num mundo de coisas que captam ou chamam nossa atenção e se impõem. O que é invisível, ao contrário, que não se impõe, nós devemos buscá-lo e descobri-lo. O mundo exterior pretende nossa atenção. Enquanto que Deus se dirige a nós com discrição.
Ser incapaz de perceber o invisível, ou ver somente o mundo da experiência significa ficar-se fora do mundo da experiência, significa ficar-se fora do pleno conhecimento, significa ficar-se fora da experiência da realidade total que é o mundo de Deus e Deus no coração do mundo.
Além de ser incapaz de perceber o invisível, o egoísmo reduz o homem a seus próprios desejos e interesses, lhe fecha os olhos e o coração, o paralisa à margem do caminho por onde percorre a vida. O homem que vegeta em seu egoísmo tem um coração demasiado estreito para acolher o próximo e demasiado estreito para receber Deus.
O encontro com o próximo é indispensável para o encontro com Deus, pois isto é o primeiro que cremos: que Deus se fez homem (Jo 1,14). Não é possível escutar a Palavra de Deus, se não estamos dispostos a escutar os homens. Por isso, a dificuldade da fé não é outra coisa que nosso próprio egoísmo, nossa auto-suficiência, porque a fé é abertura, encontro, aceitação.
O cego que voltou a ver é o símbolo de todos os homens que desejam ver, caminhar e viver. Sobretudo é um símbolo para todos em tempos de crise, de obscuridade, de desorientação. É um símbolo para o homem que, apesar de tudo, busca e continua buscando sua direção ou seu guia para sua vida. Junto ao homem que busca, Jesus passa como a Vida, a Luz e o Caminho para o homem. Com Jesus o homem se encontra consigo mesmo e com Deus que direciona a vida para sua plenitude. A fé em Jesus é uma luz que ilumina a vida. A luz da fé ilumina e dá sentido à nossa vida porque põe claridade na origem, de onde viemos e no término, no fim de nosso destino.
O cego não pede outra coisa a não ser a capacidade de enxergar de novo: “Senhor, que eu possa enxergar de novo”. A luz divina que opera nele não lhe permite ver outra coisa na vida a não ser o caminho que Jesus traçou que ele precisa trilhar para chegar à vida eterna.
E os nossos olhos servem para enxergar o caminho de Jesus ou para ver os defeitos dos outros? Quem enxerga apenas os defeitos dos outros é porque a luz divina ainda não operou na sua vida. Precisamos rezar com o cego mendigo: “Senhor que eu possa enxergar de novo!”.

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P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-15 18:41:00

17/11/2017
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CONTEMPLAR DEUS NA SUA CRIAÇÃO E VIVER PERMANENTE VIGILANTE
Sexta-Feira da XXXII Semana Comum
Primeira Leitura: Sb 13,1-9
1 São insensatos por natureza todos os homens que ignoram a Deus, os que, partindo dos bens visíveis, não foram capazes de conhecer aquele que é; nem tampouco, pela consideração das obras, chegaram a reconhecer o Artífice. 2 Tomaram por deuses, por governadores do mundo, o fogo e o vento, o ar fugidio, o giro das estrelas, a água impetuosa, os luzeiros do dia. 3 Se, encantados por sua beleza, tomaram estas criaturas por deuses, reconheçam quanto o seu Senhor está acima delas: pois foi o autor da beleza quem as criou. 4 Se ficaram maravilhados com o seu poder e a sua atividade, concluam daí quanto mais poderoso é aquele que as formou: 5 de fato, partindo da grandeza e da beleza das criaturas, pode-se chegar a ver, por analogia, aquele que as criou. 6 Contudo, estes merecem menor repreensão: talvez se tenham extraviado procurando a Deus e querendo encontrá-lo. 7 Com efeito, vivendo entre as obras dele, põem-se a procurá-lo, mas deixam-se seduzir pela aparência, pois é belo aquilo que se vê! 8 Mesmo assim, nem a estes se pode perdoar: 9 porque, se chegaram a tão vasta ciência, a ponto de investigarem o universo, como é que não encontraram mais facilmente o seu Senhor?
Evangelho: Lc 17,26-37
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 26 Como aconteceu nos dias de Noé, assim também acontecerá nos dias do Filho do Homem. 27 Eles comiam, bebiam, casavam-se e se davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca. Então chegou o dilúvio e fez morrer todos eles. 28 Acontecerá como nos dias de Ló: comiam e bebiam, compravam e vendiam, plantavam e construíam. 29 Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, Deus fez chover fogo e enxofre do céu e fez morrer todos. 30 O mesmo acontecerá no dia em que o Filho do Homem for revelado. 31 Nesse dia, quem estiver no terraço, não desça para apanhar os bens que estão em sua casa. E quem estiver nos campos não volte para trás. 32 Lembrai-vos da mulher de Ló. 33 Quem procura ganhar a sua vida, vai perdê-la; e quem a perde, vai conservá-la. 34 Eu vos digo: nessa noite, dois estarão numa cama; um será tomado e o outro será deixado. 35 Duas mulheres estarão moendo juntas; uma será tomada e a outra será deixada. 36 Dois homens estarão no campo; um será levado e o outro será deixado.’ 37 Os discípulos perguntaram: ‘Senhor, onde acontecerá isso?’ Jesus respondeu: ‘Onde estiver o cadáver, aí se reunirão os abutres.’
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A Criação ou a Natureza É Uma Das Portas Para Conhecer Deus

São insensatos por natureza todos os homens que ignoram a Deus, os que, partindo dos bens visíveis, não foram capazes de conhecer aquele que é; nem tampouco, pela consideração das obras, chegaram a reconhecer o Artífice”, escreveu o autor do livro de Sabedoria que lemos na Primeira Leitura.
Estamos diante de um texto com o interesse teológico muito profundo. O autor afirma que há possibilidade de conhecer Deus através da contemplação da natureza ou de toda a criação.
A contemplação da criação ou de cada criatura leva o homem ao “Artífice” do universo criado. No âmbito religioso, a contemplação é sempre considerada como um ato de altíssima espiritualidade que penetra na esfera luminosa das verdades divinas, enombrecendo e transformando o espirito. No âmbito cristão a contemplação recorda o desejo de ver Deus e de contemplar seu rosto, que era próprio dos justos do Antigo Testamento. “O esforço de fixar em Deus o olhar e o coração, que nós chamamos contemplação, se converte no ato mais alto e mais pleno do espirito, no ato que hoje pode e deve hierarquizar a imensa pirâmide da atividade humana” (Papa Paulo VI: Homilia na IX Seção do Concílio Vaticano II, 9 de Dezembro de 1965)
Segundo a tese do livro de Sabedoria, os pagãos teriam que reconhecer Deus através da natureza criada. Mas foram nescios e vãos, pois ficaram no criado sem dar o salto ao Criador. Eles se deixaram apenas deslumbrados pela beleza e grandeza das coisas, e têm como deuses o fogo, o cofre estrelado, a água impetuosa, os luminares celestiais sem chegar ao Criador. O cosmos é bom e maravilhoso, mas teriam que descobrir o Senhor Criador. Segundo o livro de Sabedoria, esta é a falha dos que chegaram a uma religião naturalista, adorando ao sol e à lua ou aos grandes rios. Este é o maior ataque do autor do livro de Sabedoria contra a idolatria, isto é, contra os que construíram com suas próprias mãos ídolos de pedra ou de madeira e os adoraram. Para o livro de Sabedoria, os idólatras são muito néscios.  
É a mesma razão que no Novo Testamento faz São Paulo na sua crítica aos pagãos em sua Carta aos Romanos (Rm 1,18-32). Apesar de Deus ter se revelado na criação, eles não reconheceram o Criador “Jactando-se de possuir a sabedoria, tornaram-se tolos e trocaram a glória de Deus incorruptível por imagens do homem corruptível, de aves, quadrupedes e repteis” (Rm 1,22-23).
Na verdade este salto de qualidade afirmamos e confessamos no nosso Credo: “Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra” (leia o Novo Catecismo números 279-301). Jamais podemos perder nossa capacidade de admirar a formosura e grandeza da criação para poder contemplar a grandeza de Deus atrás de tudo isso. A criação nos aponta para o Criador. A perfeição do Criador se reflete na perfeição da criação.
Também na Oração Eucaristia IV confessamos a grandeza do Deus Criador: “Nós proclamamos a vossa grandeza, Pai santo, a sabedoria e o amor com que fizestes todas as coisas: criastes o homem e a mulher à vossa imagem e lhes confiastes todo o universo, para que, servindo a vós, seu Criador, dominassem toda criatura”.
Tanto em suas grandes dimensões como nas pequenas (o macrocosmos e o microcosmos) é admirável o que Deus criou. Os ecologistas têm toda a razão para admirar e defender a natureza. Além disso, nós cristãos sabemos ver Deus em todo criado, no fundo dos mares e no vigot das montanhas, na anatomia humana e nos caprochosos colores de uma flor ou de uma mariposa/ borboleta, nas grandesa dos espaços cósmicos e na estrutura de um pequeno animal. Portanto, com o Salmo Responsorial (Sl 18) podemos dizer convencidos: “Os céus proclamam a glória do Senhor, e o firmamento, a obra de suas mãos; o dia ao dia transmite esta mensagem, a noite à noite publica esta notícia”.
É sempre bom sairmos um pouco de nossa casa para contemplar o céu e a natureza a fim de louvar a Deus, nosso Criador. O louvor a Deus afasta todo tipo de tristeza, de pessimismo e de qualquer pensamento negativo!
Estejamos Preparados Para a Última Vinda Do Senhor
Continuamos a escutar as últimas e importantes lições de Jesus no seu caminho para Jerusalém onde Ele será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,58-19,28).
No texto do evangelho do dia anterior, Jesus nos anunciava sobre a imprevisibilidade da chegada do Reino de Deus (cf. Lc 17,20-25). No texto do evangelho de hoje Jesus reforça sua afirmação comparando sua vinda à do dilúvio no tempo de Noé e ao castigo sobre Sodoma no tempo de Ló (Lot). E por isso, Jesus quer que estejamos permanentemente vigilantes. Trata-se, então, da lição sobre a vigilância.
Para falar sobre a vigilância no texto do evangelho de hoje Jesus usa uma linguagem apocalíptica, aludindo, uma parte, aos dias cruciais de Noé e do dilúvio, e outra parte, aos dias cruciais do encontro derradeiro dos homens com Deus, seu Criador. Em ambos os tempos se encontram Deus, amor, Criador, juiz misericordioso e nós, homens, pecadores, objetos do amor misericordioso de Deus (cf. Jo 3,16; Jo 13,1).
O juízo de Deus se revela em forma de surpresa (Lc 17,26-32), como aconteceu na época de Ló (Lot) onde os homens continuavam ocupados em grandes afazeres da vida: fortuna, diversão, comida, negócios, vida familiar, vida de prazer e assim por diante, e foram surpreendidos por uma fatalidade.
Às vezes, o centro da vida de uma pessoa é o trabalho. Muitas pessoas estão submersas nas realidades temporais que absorvem totalmente sua atenção: subsistência, vida família, vida profissional (carreira), dinheiro e os demais bens materiais, prazer e assim por diante. Mas a vida está acima e além da história e do tempo. Deus é quem dá sentido à vida dos homens. Deus é quem responde os anseios mais profundos. A vida sem sentido se torna vazia. O sentido da vida está n’Aquele que criou a vida. Por isso, “O homem, para onde se dirija, sem se apoiar em Deus, só encontrará dor. E ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus” (Santo Agostinho). Para algumas pessoas há uma dependência exagerada do trabalho. Quando há dependência, não há liberdade. Há pessoas que se entreguem a tudo desde que não fiquem no vazio. Mas cedo ou tarde chegará esse vazio quando a pessoa perder suas forças para trabalhar. O trabalho absorve tanto a vida de um ser humano a ponto de ele esquecer a dimensão profunda de sua vida. “Saberás da dor de estar só e da pena de estar com muitos… Saberás das escuras que são as noites e os longos que podem ser os dias… Saberás da fome da carne e da angústia do espírito…”, escreveu o Papa João XXIII (São João XXIII). Não se pode ignorar que tudo quanto se alcança (materialmente, socialmente) se perde. Só o que se é, permanece. A vida nunca é o que se tem. A vida é o que se é. Saberás que o amor ajuda. Que a compreensão alenta. Que a esperança sustenta. Que a fé engrandece. E que tu estás com o Senhor” (João XXIII).
Em silêncio de cada dia Deus continua nos chamando para uma autêntica verdade de nossa vida. Para poder ouvir esse Deus é necessário criar o silêncio dentro de nós. Noé escutava esse Deus e se salvou do dilúvio (cf. Gn 7,1-8,22). Ló (Lot) escutava a voz de Deus e se escapou do fogo devorador (cf. Gn 19,1-29). O silêncio possibilita a presença da eternidade. No silêncio posso me encontrar com a própria verdade. No silêncio posso encontrar meu eixo e minha salvação. Ao contrário, no meio de muito barulho e de muita agitação nada se escuta claramente e nada se vê nitidamente. A agitação não deixaria de ser uma fuga do encontro consigo próprio e com a verdade. O silêncio é um verdadeiro encontro. Qualquer encontro dá-se e realiza-se a partir do esvaziamento para possibilitar o próprio encontro e a partilha. Somente podemos apertar a mão do outro se as duas mãos (a minha e a do outro) estiverem vazias.
Diante desta chamada silenciosa de Deus há dois tipos de reações: os que estão demasiadamente ocupados em seus negócios preferem não escutar, pois para eles isso tiraria seu momento de prazer como os habitantes de Sodoma. E os que, escutando em princípio a chamada, sentindo a nostalgia do mundo que abandonaram, voltam ao mundo antigo, como aconteceu com a mulher de Ló (Lot) e se tornou vítima fatal dessa volta para o mundo antigo (cf. Gn 19,26). São Pedro nos alerta com as seguintes palavras: “Com efeito, se, depois de fugir às imundícies do mundo pelo conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, de novo são seduzidos e se deixam vencer por elas, o seu ultimo estado se torna pior do que o primeiro” (2Pd 2,20; leia 2Pd 2,4-22). Foi isso que aconteceu com a mulher de Ló (Lot). Não podemos seguir a Jesus que é a novidade de nossa vida e viver como antes.
O tempo de Deus é um dom, mas por sua natureza está ligado a uma tarefa que devemos realizar. Para responder adequadamente a esse dom é exigido de nós um compromisso no qual estamos obrigados a empenhar toda nossa força e nossa atuação para praticar o bem. A liberdade que nos é concedida deve adequar-se ao querer de Deus acerca da história dos homens e sua salvação. E as leituras bíblicas destes dias são um aviso para que estejamos preparados e vigilantes permanentemente olhando com seriedade para o futuro vivendo o presente na sua profundidade e tratar a vida com carinho, pois a vida é de Deus e Deus está nela.
Deus está aqui e agora na vida de cada um de nós. Deus se faz homem em Jesus Cristo e Jesus Cristo se faz alimento para nós na Palavra proclamada, meditada e vivida e na Eucaristia. O Jesus eucarístico que recebemos na Eucaristia será nosso Juiz, como Filho do Homem, e, Ele nos assegura: “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no ultimo dia” (cf. Jo 6,35-57). Aceitar Jesus Cristo e reconhecê-Lo como nosso Deus (Jo 1,1-3.14), como Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6) significa não perder a oportunidade de que Aquele que é esperado como Juiz no final dos tempos, chegará para nós como Pastor misericordioso para nos levar, nos seus ombros, de retorno para a casa do Pai (cf. Jo 14,1-3). Então, estaremos certos de que seremos de Deus e estaremos com Ele na felicidade eterna.

P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-13 20:57:00

15/11/2017
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VIVER E GOVERNAR COM RESPONSABILIDADE E COM GRATIDÃO
Quarta-Feira da XXXII Semana Comum
Primeira Leitura: Sb 6,1-11
1 Escutai, ó reis, e compreendei. Instruí-vos, governadores dos confins da terra! 2 Prestai atenção, vós que dominais as multidões e vos orgulhais do número de vossos súditos. 3 Pois o poder vos foi dado pelo Senhor e a soberania, pelo Altíssimo. É ele quem examinará as vossas obras e sondará as vossas intenções;4 apesar de estardes a serviço do seu reino, não julgastes com retidão, nem observastes a Lei, nem procedestes conforme a vontade de Deus. 5 Por isso, ele cairá de repente sobre vós, de modo terrível, porque um julgamento implacável será feito sobre os poderosos. 6 O pequeno pode ser perdoado por misericórdia, mas os poderosos serão examinados com poder. 7 O Senhor de todos não recuará diante de ninguém nem se deixará impressionar pela grandeza, porque o pequeno e o grande, foi ele quem os fez, e a sua providência é a mesma para com todos; 8 mas para os poderosos, o julgamento será severo. 9 A vós, pois, governantes, dirigem-se as minhas palavras, para que aprendais a Sabedoria e não venhais a tropeçar. 10 Os que observam fielmente as coisas santas serão justificados; e os que as aprenderem vão encontrar sua defesa. 11 Portanto, desejai ardentemente minhas palavras, amai-as e sereis instruídos.
Evangelho: Lc 17,11-19
 
Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. 12 Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância, 13 e gritaram: ‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!’ 14 Ao vê-los, Jesus disse: ‘Ide apresentar-vos aos sacerdotes.’ Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. 15 Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; 16atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. 17 Então Jesus lhe perguntou: ‘Não foram dez os curados? E os outro nove, onde estão? 18 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?’ 19 E disse-lhe: ‘Levanta-te e vai! Tua fé te salvou.’
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Quem Governa Os Outros Sem Sabedoria Será Examinado Com Poder Por Deus
Escutai, ó reis, e compreendei. O poder vos foi dado pelo Senhor e a soberania, pelo Altíssimo. É ele quem examinará as vossas obras e sondará as vossas intenções. O pequeno pode ser perdoado por misericórdia, mas os poderosos serão examinados com poder. Para os poderosos, o julgamento será severo”.
Desde o princípio, o livro de Sabedoria vai se dirigindo sobretudo aos governantes, aos que são encarregados a governar os demais: “Amai a justiça, vós que governais a terra” (Sb 1,1) que lemos na Segunda-feira passada. E hoje o livro diz aos governantes: “Escutai, ó reis, e compreendei. Instruí-vos, governadores dos confins da terra!”. Segundo o livro de Sabedoria, os governantes são os que mais necessitam da sabedoria para tomar decisões justas. A atualidade dessas palavra não perdem seu valor para todas as épocas, especialmente para o mundo em que vivemos neste exato momento.
O livro de Sabedoria dá aos governantes umas advertências muito claras: “O poder vos foi dado pelo Senhor e a soberania, pelo Altíssimo”. E por isso, o juízo sobre sua atuação será mais exigente do que para os demais: “É ele quem examinará as vossas obras e sondará as vossas intenções….  Para os poderosos, o julgamento será severo”. Quanto maior for a responsabilidade, maior será a cobrança da parte de Deus. A cobrança é proporcional à reponsabilidade recebida: “Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” (Lc 12,48).
O Salmo Responsorial (Sl 81) encarrega os governantes para fazer justiça aos indefesos e aos órfãos, aos pobres e humildes, libertar o oprimido, o infeliz das mãos dos poderosos: “Fazei justiça aos indefesos e aos órfãos, ao pobre, e ao humilde absolvei! Libertai o oprimido, o infeliz, da mão dos opressores arrancai-os!”. Se eles não o fizerem, não escaparão do juízo de Deus: “Eu disse: ´Ó juízes, vós sois deuses, sois filhos, todos vós, do Deus Altíssimo! E, contudo, como homens morrereis, caireis como qualquer dos poderosos! ´”.
É preciso estarmos conscientes de que a advertência serve para o mundo civil, eclesial, pastoral, familiar e assim por diante. No ambiente de uma família, de uma comunidade, de uma parórquia, de uma diocese ou de uma Igreja em geral, quem tem autoridade ou o dom de governar os outros deve recordar que Deus julgará suas ações com maior rigor. É o que também Jesus ensina em suas parábolas sobre os criador/servos e os administradores que esperam a volta do seu senhor. Os damnistradores com a maior responsabilidade receberão o maior castigo se cometerem injustiças e a tirania ou se não governarem com o amor fraterno. Todos terão que prestar contas diante de Deus sobre sua vida e sua atuação no mundo. Há tempo para se converter se alguém governou com injustiça!
Viver Como Cristãos é Viver Eucaristicamente, Isto É, Viver Na Gratidão Permanentemente
Continuamos a caminhar com Jesus para Jerusalém ouvindo e meditando suas ultimas lições para nós, seus seguidores (Lc 9,51-19,28), pois logo depois ele será condenado à morte (crucificado). Uma das lições que tiramos do texto de hoje é a de agradecimento através da cena dos dez leprosos em que somente um voltou para agradecer pelo beneficio recebido (cura).
  • “A gratidão é o único tesouro dos humildes” (William Shakespeare).
  • “A gratidão é a virtude das almas nobres” (Esopo).
  • “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida” (Sêneca).
  • “A gratidão é um fruto de grande cultura; não se encontra entre gente vulgar” (Samuel Johnson).
  • “Expresse gratidão com palavras e atitudes. Sua vida mudará muito de modo positivo” (Masaharu Taniguchi).
     
    Os leprosos eram, na época de Jesus, os seres mais depreciáveis. Eles permaneciam isolados, pois a lepra era considerada, segundo o modo de pensar na época, como meio pelo qual Deus usava para castigar os grandes pecadores. Tocar num leproso causava a impureza cultual. Por isso, eles gritavam: “Lepra! Lepra!”, assim que as pessoas se aproximassem deles (CF. Lv 13, 45). Eles viviam em cavernas ao longo dos caminhos e comiam o que os peregrinos lhes davam. Por serem considerados “grandes pecadores” eles eram considerados como pessoas impuras não aptas para conviver com as demais pessoas na sociedade, muito menos para participar das atividades cultuais/religiosas. Praticamente não eram considerados seres humanos. Se houvesse a cura, eles se apresentariam aos sacerdotes que tinham autoridade para declarar quem era puro e quem era impuro.
     
    Jesus permite que um grupo de leprosos se aproxime dele. Com este gesto Jesus rompe com a mentalidade segregacionista que divide o mundo em puros e impuros, sagrados e profanos, pois todos são filhos de Deus que necessitam do mesmo tratamento e da mesma proteção (cf. 1Jo 3,1).
     
    O pedido dos leprosos é simples: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”. Jesus os remete ao sacerdote que era a instituição encarregada de decidir quem era puro e quem era impuro. E no caminho todos ficaram curados. O que é condenável aos olhos do homem é redimido por Deus em Jesus Cristo.
     
    Mas unicamente quem voltou para agradecer a Jesus era um samaritano, um estrangeiro. Aqueles que são considerados aparentemente como “adversários” de Deus é que sabem reconhecer a grandeza de Deus em Jesus Cristo que é capaz de transformar aquilo que é impossível em possível, um sonho impossível em um sonho realizado (cf. Lc 1,37; 18,27). Com isso o leproso curado, o samaritano, experimentou em sua vida o passo salvador de Deus em Jesus Cristo.
     
    O leproso curado que voltou a Jesus sabe que Quem lhe deu a cura vale muito mais do que a instituição a qual deve se apresentar. Ele reconhece Jesus acima de outras instâncias de Israel. O leproso curado entende que Jesus o integrou à comunidade humana, não importa que como leproso e estrangeiro era um duplo marginalizado. Diante de Jesus ele se prostra e reconhece no Homem da Galiléia seu Redentor. A fé do homem enfermo e marginalizado é que lhe permite ser completamente redimido. Se os outros nove leprosos correram atrás de seus opressores, o samaritano curado foi atrás de seu Libertador, ao se jogar aos pés de Jesus.
     
    Algumas lições que Jesus nos dá:
  • Os do povo eleito, os da Igreja, são os que menos sabem agradecer pelos favores de Deus, e por isso, vivem tristes e desorientados. Não existe um só dia em que Deus não nos conceda alguma graça particular e extraordinária. Pare e verifique! Agradecer é uma atitude própria de quem tem dignidade. Quem não sabe agradecer está mal preparado para conviver.
     
  • Deus em Jesus Cristo se preocupa com a dignidade e a salvação do homem. Por isso, o próprio homem, especialmente os cristão e todas as pessoas de boa vontade devem se preocupar com a dignidade humana sem excluir nenhuma pessoa da convivência. Jesus acolhe os excluídos da sociedade, logo os cristãos devem fazer a mesma coisa, pois eles são “outro Cristo” neste mundo.
     
  • Através da cura dos dez leprosos, Lucas quer nos mostrar que Deus tem uma proposta de vida nova e de libertação oferecidas a todos, mas sob uma condição: que o homem obedeça à Palavra de Deus, pois ela tem o poder libertador.
     
  • A vida fundada sobre o egoísmo, sobre a exclusão, sobre a discriminação, sobre a arrogância ou prepotência, sobre o complexo de superioridade é precisamente o câncer que ameaça a convivência e ameaça a humanidade. Se levantarmos barreiras contra os outros, é porque nosso amor é ainda pequeno e bem frágil, pois nada é sem valor e ninguém é pequeno quando o amor é grande.
     
  • Os dez leprosos, os excluídos querem nos ensinar com sua vida e exemplo que jamais podemos ficar desesperados quando encontrarmos alguma dificuldade de qualquer espécie, pois a vida é de Deus e Deus está nela (cf. Gn 2,7). Uma sabedoria oriental diz: “Volta sempre teu rosto na direção do sol e, então, as sombras ficarão para trás”. Esse sol é Deus, e as sombras são nossas dificuldades.
     
    Nós começamos nossa celebração eucarística com uma súplica parecida à dos leprosos: “Senhor, tende piedade de nós!”. Fazemos bem, porque somos débeis e pecadores e sofremos diversos tipos de “lepra”.
     
    Mas será que sabemos também rezar e cantar dando graças a Deus por tudo na nossa vida? Há pessoa que nos parecem “aleijados” e que nos dão lições porque sabem reconhecer a proximidade de Deus, enquanto que nós, talvez pela familiaridade e pela rotina dos sacramentos, por exemplo, não sabemos nos alegrar pela cura de nossos pecados que Jesus Cristo nos concede através do sacramento da reconciliação. Jesus quer que saibamos cultivar em nós um coração que saiba agradecer por tudo de bom na nossa vida. Somente um coração grande é que sabe agradecer. Um coração mesquinho só sabe cobrar e reclamar. Como é fácil trabalhar com uma pessoa de grande coração porque ela tem capacidade de ver e de perceber o que é bom no outro e por isso, sabe agradecer. Precisamos procurar razão para agradecer e não motivos para reclamar e murmurar. Quem sabe agradecer tem uma vida leve e livre para ser vivida. Uma vida vazia de agradecimento é uma vida pesada para ser vivenciada e vivida.
     
    Mas será que temos sido pessoas agradecidas? Somente o seremos quando, mediante nossa vida e nossas obras de caridade, nos convertermos em uma contínua glorificação do Santo Nome do Senhor através da vivência do amor fraterno. Verifique, se você também passou por uma experiência de “leproso” na sua vida: desespero, sentimento de desprezo e de abandono, ser excluído. Mas Deus também na nossa vida como Salvador. A Ele é que devemos dirigir nosso simples pedido: Tem piedade de mim, Senhor!
     
    Se nos afundamos na dor humana, mais fundo estás Tu integrando as feridas. Se subimos no êxtase, ali te encontramos abrindo o instante a novas plenitudes” (Benjamin González Buelta: SALMOS: Para Sentir e Saborear As Coisas Internamente).
     P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-13 18:20:00

14/11/2017
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SER SERVO JUSTO DO SENHOR
Terça-Feira da XXXII Semana Comum
Primeira Leitura: Sb 2,23–3,9
2,23 Deus criou o homem para a imortalidade e o fez à imagem de sua própria natureza; 24 foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo, e experimentam-na os que a ele pertencem. 3,1 A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. 2 Aos olhos dos insensatos parecem ter morrido; sua saída do mundo foi considerada uma desgraça, 3 e sua partida do meio de nós, uma destruição; mas eles estão em paz. 4 Aos olhos dos homens parecem ter sido castigados, mas sua esperança é cheia de imortalidade; 5 tendo sofrido leves correções, serão cumulados de grandes bens, porque Deus os pôs à prova e os achou dignos de si. 6 Provou-os como se prova o ouro no fogo e aceitou-os como ofertas de holocausto; 7 no dia do seu julgamento hão de brilhar, correndo como centelhas no meio da palha; 8 vão julgar as nações e dominar os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre. 9 Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque a graça e a misericórdia são para seus eleitos.
Evangelho: Lc 17,7-10
Naquele tempo, disse Jesus: 7 “Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: ‘Vem depressa para a mesa?’ 8 Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso poderás comer e beber?’ 9 Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado? 10 Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer’”.
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Ser Justo É Estar Com Deus Eternamente

A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque a graça e a misericórdia são para seus eleitos”.

Continuamos a acompanhar a leitura do Livro de Sabedoria (em 2018 será o livro de estudo da CNBB para o mês da Bíblia). É um livro cujo ano de composição continua em discussão.  Alguns autores sugerem que o Livro foi escrito no tempo de Augusto: entre o ano 30 antes de Cristo e o ano 14 da era cristã. Outros dizem que sua redação aconteceu entre os anos 80 e 30 antes de Cristo. Este livro foi escrito por um judeu alexandrino de língua e cultura gregas (helenistas) e tem como destinatário os israelitas de diáspora em Alexandria do Egito. Os israelitas de Alexandria se eencontram nas seguintes situações: Há grande variedade de religiões e sistemas filosóficos (estoicismo e epicurismo) que proporcionam sabedoria e salvação juntamente com o conhecimento do sentido da vida. Há também ambiente de hedonismo e moralidade contrários aos costumes israelitas. Por fim, há a perseguição vinda dos ímpios contra os israelitas.
Para manter sua identidade como parte do povo da Aliança, um judeu escreveu este livro para os israelitas nestes ambientes. O autor pretende estimular os israelitas de diáspora para que continuem fieis à tradição do povo da aliança. Além disso, o autor do livro também pretende estabelecer o dialogo entre a religião judaica e a cultura grega (helenista) com o intuito de atrair os pagãos para a fé de Israel.
Um dos aspectos em que o livro de Sabedoria nos apresenta, em relação ao resto do Antigo Testamento é seu avanço na reflexão sobre a vida futuro (vida além da morte) como nos apresenta o texto da Primeira Leitura de hoje.
Sabemos muito bem que a interrogação sobre a vida e a morte preocupa todos os homens. Mas, antes de mais nada, o texto da Primeira Leitura de hoje nos diz: “Deus criou o homem para a imortalidade e o fez à imagem de sua própria natureza”. O horror da morte é eliminado por esta afirmação. De fato, não morremos e sim partimos para a eternidade. Como é a vida eterna? É a mesma pergunta de um bebê dentro da barriga da mãe: “Como é a vida fora daqui?”. Em segundos e minutos o bebê logo o saberá e o conehcerá assim que sair do seu mundo do ventre materno para o mundo dos que o esperam com amor.
O mal, o pecado e como consequência, a morte, segundo o texto, entrou depois “por inveja do diabo”. Mas seja qual for a origem da morte, o que é mais importante é o além da morte. Os justos estão destinados à vida e não à morte: “A vida dos justos está nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos parecem ter morrido; sua saída do mundo foi considerada uma desgraça, e sua partida do meio de nós, uma destruição; mas eles estão em paz”, afirma o autor do Livro de Sabedoria.
Esta perspectiva é que dá sentido e esperança para nossa vida e nossa luta de cada dia para viver uma vida de honestidade e de justiça, de amor e de vondade, pois tudo isto é destinado para a eternidade com Deus.
Com os olhos humanos, a morte é um mistério sem sentido, um fatalismo sem esperança. Mas as palavras do livro de Sabedori que lemos hoje nos orienta para uma visão mais luminosa da vida após a morte. Os justos viverão em Deus, no amor, na felicidade sem fim. As tribulações e as provas para o justo ficam impotentes diante da intensidade do que se espera em Deus: “Tendo sofrido leves correções, serão cumulados de grandes bens, porque Deus os pôs à prova e os achou dignos de si. Provou-os como se prova o ouro no fogo e aceitou-os como ofertas de holocausto”.
A sabedoria humana se contenta com a perspectiva daqui deste mundo.  e por isso, a morte ela considera como desgraça total: “Aos olhos dos insensatos os justos parecem ter morrido; sua saída do mundo foi considerada uma desgraça, e sua partida do meio de nós, uma destruição”. Mas não é assim nos planos de Deus. O homem mundando pensa apenas nas coisas mundanas e passageiras, briga por que aquilo que não lhe pertence e que não o leva na hora da morte. É a morte vã!
Graças à ressurreição de Jesus Cristo motivo pelo qual temos razoes maiores que o autor do livro de Sabedoria. Como Cristo ressuscitado nossa existência é destinada para a glória: “Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor ficarão junto dele, porque a graça e a misericórdia são para seus eleitos”.
No ano litúrgico, na celebração de um santo ou santa, a Igreja não escolheu o dia em que nasceu para este mundo e sim no dia em que partiu deste mundo, seu autentico “dies natalis”, pois a morte do ponto de vista cristão é o verdadeiro nascimento para a vida eterna. “Creio na comunhão dos santos…. Creio na ressurreição da carne… Creio na vida eterna”. Assim rezamos e afirmamos nas nossas orações e celebrações, mesmo que não estejamos conscientes do valor dessas afirmações.
Somos Simples Servos Do Senhor, Pois Fazemos O Que devemos
Continuamos a acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém onde será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Continuamos também a escutar atentamente suas ultimas e importantes lições para todos nós, cristãos. Por isso, essa parte é chamada de Lições do caminho.
O texto do evangelho de hoje nos narra a parábola do agricultor que explora sem remorso seu servo. Precisamos saber de que no costume da antigüidade não existia contrato de trabalho que determinasse os limites de horário de trabalho ou reconhecesse horas extras de trabalho. O servo era propriedade do seu senhor, sem direitos à recompensa e ao reconhecimento. Por isso, se lêssemos literalmente esta parábola, ela traria um choque para nós ou se justificaria todo tipo de escravidão existente ainda na sociedade atual. Mas as parábolas de Jesus se servem das experiências reais para falar de outra coisa. É claro que Jesus não aprova a conduta daquele senhor que é abusiva e arbitrária, mas serve-se de uma realidade do seu tempo para ilustrar qual deve ser a atitude da criatura (ser humano) em relação ao Criador (Deus). O ser humano deve estar consciente de que tudo de bom procede do Senhor.
Logo depois de dizer que a fé nos faz realizar grandes obras no texto do evangelho do dia anterior (cf. Lc 17,1-6), Jesus nos mostra que, nem por isso, temos que ficar nos exibindo, vaidosos com o que pudermos realizar. Quando nós fazemos algo, em primeiro lugar, é porque a graça de Deus nos acompanha: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.  Servo inútil, no Evangelho de hoje, é aquele que une com simplicidade fé e serviço sem esperar outra recompensa que não seja a alegria de estar trabalhando por uma boa causa. Por isso, Santo Ambrósio comenta: “Não te julgues mais por tu seres chamado filho de Deus, deves, sim, reconhecer a graça, mas não deves esquecer a tua natureza, nem te envaideças por teres servido fielmente, já que esse era o teu dever. O sol cumpre a sua tarefa, a lua obedece, os anjos também servem”. Servir ao Senhor no irmão e pela comunidade é uma graça que Deus nos dá. Temos que agradecer a Deus por ser úteis para os outros no serviço fraterno. Mas temos que admitir que se Deus não nos ajudar, seremos incapazes de levar a cabo o que Ele nos encomendou. A graça divina é a única coisa que pode potenciar os nossos talentos humanos para trabalharmos por Cristo no irmão com quem ele se identifica (cf. Mt 25,40.45). Sem a graça santificante, para nada serviríamos. Santo Agostinho compara a necessidade do auxílio divino à da luz para podermos ver. É o olho que vê, mas não poderia fazê-lo se não houvesse luz, pois mesmo que tenhamos olhos saudáveis, eles não funcionam na escuridão. Do mesmo modo, podemos abrir as janelas de nossa casa, mas se não houver a luz (sol), a sala não será iluminada. Mesmo que abramos a janela à noite escura, a sala continuará escura, se não houver nenhuma lâmpada (luz).
Lucas também quer sublinhar o tema da gratuidade da fé. Quer-se afirmar firmemente que a fé é antes de tudo um dom. Nossa capacidade de viver a fé, de cumprir o “que lhe havia mandado” é também graça. Deus nos dá o tempo suficiente para viver nossa fé. Por isso, a afirmação de “inutilidade”, de que somos pobres servidores, é perfeitamente coerente com uma fé profundamente comprometida. A vida de fé é sempre um dom que acolhemos na medida em que amamos Deus e os demais. Fazemos o mínimo, de acordo com nossa capacidade, e Deus faz o máximo: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.
Em conseqüência, paradoxalmente, os servos verdadeiramente úteis são os que se reconhecem “inúteis”. “O serviço do Senhor é livre. É um serviço de total liberdade, no qual não é a necessidade quem serve, e sim o amor. Faz-te escravo da caridade, uma vez que a verdade te faz livre” (Santo Agostinho). Somente os que vivem e reconhecem esse dom podem ser portadores da gratuidade do amor de Deus aos demais.
A alegria de um cristão consiste em entregar-se sem reservas, à missão recebida, sem nada exigir. Basta-lhe a consciência do dever cumprido. A partir desta humildade na fé, tudo quanto façamos, por mais duro e esgotante que seja, resta-nos somente dizer: “Fiz tudo o que devia fazer”. Tudo mais está entregue à benevolência de Deus. O cristão que não serve, não serve como cristão.O amor autêntico é sempre contemplativo, permitindo-nos servir o outro não por necessidade ou vaidade, mas porque ele é belo, independentemente da sua aparência: Do amor, pelo qual uma pessoa é agradável a outra, depende que lhe dê algo de graça” (Papa Francisco: Evangelii Gaudium n. 199).
Todos na comunidade, na verdade, somos pobres e simples servos de Deus. São Paulo diz: “Evangelizar não é glória para mim, senão necessidade. Ai de mim se não evangelizar. Eu que, sendo totalmente livre, fiz-me escravo de todos para ganhar a todos…” (1Cor 9,16.19).  Este texto é convite para vestirmos a humildade, pois, na verdade, fazemos muito pouco para Deus no próximo em comparação às bênçãos de Deus que recebemos diariamente.
Com esta parábola, Jesus também quer dizer a todos os seguidores de Cristo, que o serviço prestado deve ser desinteressado e gratuito. Assim está sendo desmantelada toda pretensão humana que tenta de alguma maneira servir-se de Deus ou condicioná-lo através de uma relação religiosa de tipo contratual ou contabilizável, segundo o modelo farisaico. E esta crítica à religiosidade mercantil e pretensiosa é tanto mais urgente quanto mais na comunidade a função ou o serviço goza de certo prestígio ou de responsabilidade. Não é por acaso que a parábola do servo sem pretensões é dirigida aos discípulos. Todos na comunidade são pobres e simples servos (cf. 1 Cor 9,16.19-23).
Outro cerne dessa parte diz respeito à atitude da pessoa. A atitude de um arrogante vê Deus muito feliz pelo fato da pessoa realizar o bom serviço. No entanto, a atitude adequada é a de agradecimento por termos privilégio e a oportunidade de servir a Deus. Seja qual for a recompensa que obtivermos por servir a Deus, na verdade, não a merecemos, mas a ganhamos porque Deus é gracioso. Nenhum cristão pode gabar-se diante de Deus (Rm 3,27). Os servos fiéis entendem isso, pelo que prosseguem em seu trabalho para Deus, motivados pelo amor a Deus e não por um senso de importância própria ou cobiça pela recompensa. Deus nos criou e tudo de bom vem dele.  Não podemos, por isso, nos vangloriar de nenhum bem que tenhamos recebido de Deus (cf. Ef 2,8). Todos os nossos méritos provêm de Deus. Evita-se assim qualquer auto-justificação farisaica. O que temos que fazer diante de tudo isto é agradecer a Deus. Temos que procurar sempre as razões para agradecer a Deus e não os motivos para reclamar a Deus por tudo que não anda bem na nossa vida. Deus já deu tudo para nós. O que fazemos é muito pouco em comparação com tudo que Deus nos deu através da sua criação. Somos nós que não sabemos nos comportar diante de tantos dons divinos que recebemos. Somos, às vezes, como os peixes que nadam na água que ainda perguntam se existe a água, ou onde está a água.
Para chegar até este ponto, para a fé ser viva e atuante, precisamos alimentá-la de diversas formas, todos os dias, sobretudo com a oração, com a reflexão, com a leitura da Palavra de Deus, com a participação na vida da Igreja e com o serviço ao próximo etc.. Sem alimentarmos a nossa fé com tudo isso, ficaremos frágeis e nos tornamos inconstantes.
Senhor, ajuda-me a ser aquele que espera sem cansaço, escuta sem fadiga, recebe com bondade, dá com amor. Ajuda-me a ser aquela presença que atrai, a amizade repousante e enriquecedora, a paz que irradia alegria e serenidade. Amém!
P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-11 21:00:00

13/11/2017
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VIVER E CONVIVER COM SABEDORIA E RESPONSABILIDADE COMO CRISTÃOS
Segunda-Feira da XXXII Semana Comum
Primeira Leitura: Sb 1,1-7
1 Amai a justiça, vós que governais a terra; tende bons sentimentos para com o Senhor e procurai-o com simplicidade de coração. 2 Ele se deixa encontrar pelos que não exigem provas, e se manifesta aos que nele confiam. 3 Pois os pensamentos perversos afastam de Deus; e seu poder, posto à prova, confunde os insensatos. 4 Sabedoria não entra numa alma que trama o mal nem mora num corpo sujeito ao pecado. 5 O espírito santo, que a ensina, foge da astúcia, afasta-se dos pensamentos insensatos e retrai-se quando sobrevém a injustiça. 6 Com efeito, a Sabedoria é o espírito que ama os homens, mas não deixa sem castigo quem blasfema com seus próprios lábios, pois Deus é testemunha dos seus pensamentos, investiga seu coração segundo a verdade e mantém-se à escuta da sua língua; 7 porque o espírito do Senhor enche toda a terra, mantém unidas todas as coisas e tem conhecimento de tudo o que se diz.
Evangelho: Lc 17,1-6
Naquele tempo, 1 Jesus disse a seus discípulos: “É inevitável que aconteçam escândalos. Mas ai daquele que produz escândalos! 2 Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos. 3 Prestai atenção: se o teu irmão pecar, repreende-o. Se ele se converter, perdoa-lhe. 4Se ele pecar contra ti sete vezes num só dia, e sete vezes vier a ti, dizendo: ‘Estou arrependido’, tu deves perdoá-lo”. 5 Os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta a nossa fé!” 6 O Senhor respondeu: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”.
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Viver Conforme a Palavra de Deus É Viver Com Sabedoria
Amai a justiça, vós que governais a terra; tende bons sentimentos para com o Senhor e procurai-o com simplicidade de coração. Ele se deixa encontrar pelos que não exigem provas, e se manifesta aos que nele confiam…  Sabedoria não entra numa alma que trama o mal nem mora num corpo sujeito ao pecado”. Assim lemos na Primeira Leitura.
Esta semana acompanharemos a Primeira Leitura tirada do Livro de Sabedoria, o último livro do AT (uns cinquenta anos antes de Cristo.
O Livro de Sabedoria é dedicado aos judeus da diáspora, especialmente para aqueles que viviam em Alexandria de Egito em meio da cultura helenista com problemas para manter sua própria identidade como o povo da Aliança. Todo o livro é um canto à verdadeira sabedoria oposta à dos ímpios que não tem a mentalidade de Deus.
O livro de Sabedoria está já muito próximo e prepara o Novo Testamento. A linguagem deste livro sobre o Espirito e sobre a sabedoria de Deus se assemelham ao que nos será revelado sobre Jesus Cristo e o Espirito Santo. Também chegou, em sua gradual maturidade para vislumbrar claramente a doutrina sobre a vida futura e sobre o premio e castigo além da morte.
Todos necessitam da sabedoria, isto é, a intuição interior que nos faz ver as coisas com o olhar de Deus.
A sabedoria simplesmente significa a capacidade de fazer as escolhas corretas, de tomar as decisões certas, de escolher os valores verdadeiros que conduzem o homem à sua realização, e à sua felicidade. A sabedoria é um tipo de “luz” que indica caminhos e que permite discernir as opções corretas a tomar. É ela que permite ao homem gozar os bens terrenos com maturidade e equilíbrio, sem obsessão e sem cobiça, colocando-os nos seu devido lugar e não deixando que sejam eles a conduzir a vida do homem e a ditar as suas opções.
A Palavra de Deus nos ajuda a discernirmos o bem e o mal e a fazer as opções corretas. Ela ressoa no nosso coração, confronta-nos com as nossas infidelidades, critica os nossos falsos valores, denuncia os nossos esquemas de egoísmo e de comodismo, alerta o perigo de nossa prepotência, mostra-nos o sem sentido das nossas opções erradas, grita-nos que é preciso corrigir o nosso rumo/direção, desperta a nossa consciência, indica-nos o caminho para Deus. É preciso que a Palavra de Deus esteja no centro da nossa experiência de fé e da nossa caminhada existencial, pois é ela que nos questiona, que nos transforma, que nos indica caminhos, que nos permite discernir a vontade de Deus.
Somos Chamados a Conviver Como Irmãos, Filhos e Filhas do mesmo Deus
Continuamos a acompanhar Jesus na sua última viagem para Jerusalém, pois lá ele será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Ele aproveita essa viagem para nos passar suas ultimas e importantes lições para nosso seguimento como cristãos (Lc 9,51-19,28).
No texto do evangelho de hoje encontramos três lições que Jesus passa para todos nós, seus seguidores e para todas as pessoas de boa vontade. As duas primeiras lições se referem às relações fraternas: sobre o escândalo e a necessidade do perdão mútuo (Lc 17,1-4). A terceira lição se refere ao tema da fé (Lc 17,5-6).
1. Não Sejamos Ocasião De Tropeço Para Os Outros

“É inevitável que aconteçam escândalos. Mas ai daquele que produz escândalos! Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos”. Assim Jesus começou suas lições. Trata-se do tema sobre o escândalo.

A palavra escândalo provém do grego “skándalon” que significa pedra de tropeço que aparece ou que é colocada no caminho de alguém que o leva a cair ou que provoca a queda de alguém.
Há escândalo ativo  que é toda palavra ou ação contrária à caridade, que cria perigo de pecado para o próximo. Há também o escândalo passivo que é a própria queda do próximo prejudicado pelo comportamento do outro. A pessoa sofre dano espiritual porque é frágil, pouco instruída, propensa a interpretar erroneamente o comportamento alheio.
Há o escândalo direto quando alguém procura e deseja que o próximo peque; chama-se também sedução. Há também o escândalo indireto, isto é, um ato que em si não é mau, mas pode ter as aparências de mal, de modo que possa levar o próximo à queda (p. ex. hospeda em casa uma pessoa de má vida, embora não tenha más intenções).
Jesus pede que não sejamos ocasião de tropeço para os outros, especialmente para os pequenos (os pobres, os humildes, os que não têm recursos materiais ou espirituais etc.) por meio de nossas atitudes negativas e de nossos maus exemplos. Cada cristão tem uma missão de levantar as pessoas prostradas pelos problemas e dificuldades encontrados na vida e não para causar a queda de quem quer que seja.
Em outras palavras, cada cristão não somente tem responsabilidade sobre si próprio, mas também sobre os demais. A palavra “responsabilidade” tem sua origem etimológica no latim: “respondere” que significa “prometer”, “garantir”. O que garante a responsabilidade e o sentido da vida do ser humano são os valores. Ter responsabilidade significa ser coerente com os valores reconhecidos. Responsabilizar-se significa elevar a própria existência para uma dimensão superior por causa da vivência dos valores reconhecidos. Responsabilidade e valores sempre andam inseparáveis. Todo ato autenticamente responsável está em comunhão com os valores. Quem vive de acordo com a responsabilidade jamais se torna escândalo para os demais.
“Os pequenos” dos quais Jesus fala neste texto são os que ainda estão fracos na fé. Em vez de fazer escândalo contra eles, o cristão deve dar-lhes a atenção e acolhê-los e cuidá-los. A palavra “cuidar” sempre se refere ao amor, à atenção, à proteção e assim por diante. Os que têm mais maturidade na fé jamais podem ser causadores de qualquer tipo de escândalo (cf. Rm 14,13; 1Cor 8,9.13).
2. Necessidade Do Mútuo Perdão
“Se o teu irmão pecar, repreende-o. Se ele se converter, perdoa-lhe. Se ele pecar contra ti sete vezes num só dia, e sete vezes vier a ti, dizendo: ‘Estou arrependido’, tu deves perdoá-lo”. Esta é a segunda lição dada por Jesus neste texto.
A comunidade cristã não é feita de pessoas isentas de fraquezas e limitações. Por isso, a convivência se torna vulnerável, no sentido de que um é capaz de ferir o outro, muitas vezes por causa das limitações. Daí a exigência de reconciliação ou de mútuo perdão. Isto supõe o reconhecimento do pecado, por parte de quem ofendeu o irmão e a oferta de perdão e de reconciliação de quem se sentiu ofendido.
Para os cristãos e para quem acredita em Deus de amor e de misericórdia, o perdão não é apenas uma exigência moral, e sim o testemunho visível da reconciliação de Deus operando em cada um de nós. Porque a lei do perdão é vinculante, e não facultativa: é como um contrato firmado com o sangue de Cristo. Depende de mim ratificá-lo, derramando sobre os meus semelhantes aquilo que Deus me deu. Por isso, quando alguém perdoa o outro, na verdade, ele está agindo em conformidade com Deus que concede prodigamente o seu perdão para o ser humano. O perdão é a expressão máxima do amor. Se Jesus insiste no perdão mútuo como a expressão máxima do amor é porque somente o amor tem futuro e se conta diante de Deus. O mal não se conta diante de Deus e por isso, ele não tem futuro.
3. É Preciso Manter a Fé Firme Permanentemente
“Os apóstolos disseram ao Senhor: ‘Aumenta a nossa fé! ’. O Senhor respondeu: ‘Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria’’”. É a terceira lição que Jesus passa para todos os seus seguidores.
Para cada cristão não se tornar pedra de tropeço aos demais e para ser capaz de perdoar mutuamente é preciso manter a fé firme permanentemente.
Os apóstolos percebem que estão vacilando, sentem-se tentados a voltar atrás, como tinham feito muitos discípulos (cf. Jo 6,60). Eles reconhecem que somente a força da fé os permitirá aceitar, com todas as suas conseqüências, as exigências do perdão. Eis então que surge espontaneamente nos seus lábios o pedido de socorro: “Aumenta a nossa fé!” Os apóstolos têm certeza que só com a confiança ilimitada em Jesus é que eles podem realizar coisas impossíveis aos olhos humanos. Por isso, eles querem ter o poder de Jesus Cristo.
Os discípulos querem ter mais fé. A resposta de Jesus tira deles o conceito de maior ou menor em termos de fé para o conceito de uma fé genuína. Basta ter uma mínima fé, mas autêntica (como o grão de mostarda, Lc 13,19) para que o homem possa realizar grandes coisas. Se há fé real, então, os efeitos se segurarão. Não é tanto uma grande fé em Deus que é exigida, quanto a fé num Deus grande. A imagem da amoreira arrancada e transplantada no mar expressa plasticamente a força da confiança plena em Deus. Isto quer dizer que a fé genuína pode realizar aquilo que a experiência, a razão e a probabilidade negariam, se for exercida dentro da vontade de Deus. Quando a força humana terminar, a fé vai a continuar, pois a fé transforma os nossos limites em forças, pois a fé é a participação na vida divina. A fé nos dá a convicção de que estamos constantemente envolvidos pelo amor de Deus.
P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-10 18:23:00

Domingo, 12/11/2017
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APRENDER A VIVER NA PRUDÊNCIA NA ESPERA DO ENCONTRO DERRADEIRO COM DEUS
XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM
Primera leitura: Sb 6:12-16
12 A sabedoria é radiante e imarcescível, e facilmente se deixa contemplar e encontrar pelos que a amam e procuram. 13 Ela se antecipa aos que a desejam, sendo a primeira a se fazer conhecer. 14 Quem madruga para ela, não se cansará, pois a encontra sentada à sua porta. 15 Meditar sobre ela é com efeito a perfeição da inteligência, quem lhe consagra sua vigília depressa estará livre de cuidados. 16 Ela mesma procura por toda parte os dignos dela, de boa vontade lhes aparece no caminho e vem ao encontro de todos os desejos.
Segunda leitura: 1Ts 4:13-18
13 Não queremos, irmãos, que fiqueis na ignorância a respeito dos mortos; não vos deixeis tomar pela tristeza, como os outros que não têm esperança. 14 Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também devemos crer que Deus, por meio de Jesus, levará junto com ele os que morreram. 15 Isto vos dizemos segundo a palavra do Senhor: nós, os vivos, os que ficarmos para a vinda do Senhor, não procederemos os que morreram. 16 Isto porque o mesmo Senhor descerá do céu, quando for dado um sinal, o grito do Arcanjo, o toque da trombeta divina, e os mortos ressuscitarão primeiro pelo poder de Cristo.17 Depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles por entre nuvens, nos ares, ao encontro do Senhor, e estaremos para sempre com o Senhor. 18 Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras.
Evangelho: Mt 25,1-13
Naquele tempo, disse Jesus, a seus discípulos: 1 O reino dos céus é comparável a dez virgens que saíram com suas lâmpadas ao encontro do esposo. 2 Cinco delas eram imprevidentes e cinco previdentes. 3 As descuidadas, tomando as lâmpadas, não levaram azeite consigo. 4 As prudentes, porém, juntamente com as lâmpadas, levaram vasilhas de azeite. 5 Ora, como o esposo demorava a chegar, todas pegaram no sono e ficaram dormindo. 6 À meia-noite, ouviu-se um grito: ‘Aí vem o esposo. Ide a seu encontro’. 7 Então todas aquelas virgens se levantaram e começaram a preparar as lâmpadas. 8 As descuidadas disseram, então, às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão se apagando’. 9 Mas as prudentes responderam: ‘De jeito nenhum. Poderia acontecer que não baste nem para nós, nem para vós. Em vez disso, ide às vendas e comprai-o’. 10 Enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo. As que estavam prontas entraram com ele para a festa do casamento e a porta da sala foi trancada. 11 Finalmente, chegaram também as outras virgens, dizendo: ‘Senhor, Senhor, abre-nos!’ 12 Mas ele respondeu: ‘Eu vos declaro esta verdade: não vos conheço!’ 13 Ficai vigiando, portanto, porque ignorais o dia e a hora.
———————
Os capítulos 24-25 do evangelho de Mateus constituem o quinto e o último discurso do Evangelho. Este quinto discurso é conhecido como o “Discurso escatológico” (discurso apocalíptico). Mt elabora notavelmente o discurso escatológico de Mc (Mc 13) e o amplia com uma série de parábolas e com uma impressionante descrição do julgamento final (Mt 25,31-46), cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como preparar a segunda vinda do Senhor (Parusia). Mt não trata, como em Mc, dos sinais que precederam a destruição do Templo e sim da vinda do Filho do Homem e das atitudes necessárias com que os discípulos devem preparar esta vinda. 
Com o discurso escatológico Mt quer responder à situação em que a sua comunidade vive. Por um lado, a comunidade vê que a segunda vinda do Senhor Jesus se atrasa, enquanto diante dela aparece a história como espaço para o compromisso (Não podemos nos esquecer que este discurso é uma elaboração do discurso de Mc 13. Na comunidade de Mc, a destruição de Jerusalém e do Templo que ocorreu no ano 70 d.C., resultou em surgimento de uma onda de entusiasmo apocalíptico. Os profetas fáceis interpretaram o acontecimento como um sinal de que o fim do mundo estava próximo).
Por outro lado, o evangelista contempla com preocupação os sinais de abandono, preguiça espiritual, relaxamento moral, rotina e esfriamento que começam a aparecer na comunidade. Nesta situação, Mt descobre que aquelas palavras de Jesus contém um profundo ensinamento e servem de exortação para os cristãos. A exortação se fundamenta numa profunda convicção: a vinda do Filho do Homem é certa, porém, não acontecerá em seguida, isto é, o momento da vinda é incerto ou desconhecido. Por isso, chegou o momento de preparar-se para este grande acontecimento vivendo segundo os ensinamentos de Jesus. 
A linguagem destes capítulos pode provocar temor. Mas, na verdade, trata-se de uma linguagem apocalíptica que era relativamente freqüente entre alguns grupos judeus e cristãos. Chama-se de linguagem apocalíptica porque tem como objetivo manifestar uma revelação escondida (apocalypsis). Em muitas ocasiões esta revelação é dirigida a grupos ou comunidades que vivem uma situação de perseguição, com a intenção de animá-los e encorajá-los em suas lutas e tribulações. Por isso, não há motivo nenhum de alguém ver nestes textos uma ameaça e sim, uma mensagem de esperança e de ânimo para não se entregar.
O “discurso apocalíptico” de Mt pode-se dividir em duas partes. A primeira (Mt 24,1-35) segue, com pequenos variantes, o texto de Mc (Mc 13) e trata de identificar os sinais que precedem e acompanham a vinda do Filho do Homem. A segunda, própria de Mt (Mt 24,36-25,46) mostra as atitudes com que os cristãos devem preparar esta vinda.
A parábola das dez virgens complementa a parábola do servo fiel e do infiel que a antecede imediatamente (Mt 24,45-51). Ela, então, está muito relacionada com a parábola precedente. Esta parábola se encontra somente em Mt. Pela sua introdução, a parábola é qualificada como parábola do Reino: “…O Reino de Deus é como…” (v.1). E pela introdução, a parábola não se refere à espera da vinda do Senhor, e sim a chegada do Reino. Mas pelo contexto em que se encontra, ela tem ligação com a vinda final de Cristo(parusia).
Esta parábola, se olharmos do ponto de vista da prudência, pois a parábola trata das cinco virgens prudentes (phronimoi) e outras cinco insensatas (morai), nos faz lembrar também da conclusão do Sermão da Montanha que compara um homem néscio a um homem prudente (Mt 7,24-27). Na literatura sapiencial o prudente é aquele que age de acordo com as exigências de Deus; o insensato, ao contrário, age conforme sua cabeça. E sabedoria sempre leva vantagem sobre a loucura (cf. Ecl 2,12-17). Da conclusão do Sermão da Montanha sabemos que um que é néscio construiu a casa sobre a areia e o outro que é prudente sobre a rocha. A casa do néscio desmoronou, pois sem nenhuma base sólida, enquanto a do outro fica firme diante da tempestade, pois foi construída sobre a rocha. Nesta parábola encontra-se novamente o contraste entre prudente e néscio. Sabemos que a prudência determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar.  Ela separa a ação do impulso. “A prudência é um amor que escolhe com sagacidade”, dizia Santo Agostinho. Prudentes são aqueles que escutam a Palavra de Deus e a praticam. Ao contrário, néscios são aqueles que a escutam, mas não vivem de acordo com a Palavra de Deus. As cinco virgens levam o azeite suficiente, pensando na chegada atrasada do noivo, enquanto que as outras cinco não pensam nisso. Como é importante estar preparado, tanto para as surpresas agradáveis como para as desagradáveis na vida. Como um time de futebol, que deve pensar na vitória, mas deve-se preparar que o time adversário possa jogar melhor. Normalmente, quem pensa nisto tudo, sofre menos.
O azeite é a Palavra de Deus vivida no dia a dia que se resume no amor. Diz Santo Agostinho: “Coisa grande, verdadeiramente muito grande significa o azeite(óleo). Só pode ser amor” (Aliquid magnum significat oleum, valde magnum. Putas non caritas est?). “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus”, concluiu o Sermão da Montanha (Mt 7,21). E aqui nesta parábola lemos que as cinco virgens insensatas gritam: “Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!” (v.11). Mas a porta continua fechada. Quem vive segundo a Palavra de Deus tem a chave na mão para abrir a porta (do céu). As palavras da profissão “Senhor, Senhor” só salvam quem as professa, se viver de acordo com essa profissão. Chamamos e professamos Deus de Senhor porque queremos que ele assenhore nossa vida, e guie nossos atos e decisões, que ele seja o centro de nossa vida, que a vontade dele prevaleça na nossa vida, pois tudo que Deus quer é só salvar. Quem de nós não quer ser salvo? 
Esta parábola é contada por Mt para fazer a advertência à própria comunidade e também para as comunidades cristãs em qualquer lugar e tempo. Todas as dez virgens são escolhidas para esperar e aguardar a mesma coisa: a vinda do noivo. Mas algumas perdem a esperança e a persistência muito cedo. A comunidade mateana, embora acredite na mensagem, começa a perder a fé por causa da demora do dia do Senhor. Como conseqüência, vem o declínio e a apatia no cumprimento das exigências evangélicas. Por isso, esta parábola tem como motivo opor-se a esse declínio ou à apatia da comunidade. Ele enfatiza que nunca se sabe, nem se pode ter certeza sobre o fim da história. O que a comunidade precisa fazer é manter a esperança e estar pronta em todos os momentos para a chegada do Senhor. Por isso, no fim da parábola, Mt pede que a comunidade esteja sempre vigilante(v.13), pois o Senhor pode chegar no momento menos esperado (à meia noite. v. 6). Para Mt, estar vigilante e preparado significa escutar e colocar em prática as palavras de Jesus que podem resumir-se no mandamento do amor. A verificação da autêntica vigilância e da esperança cristãs consiste no cumprimento do mandamento do amor.  Vigiar significa dar-se conta da realidade, estar atento ao essencial. Evita-se assim uma fuga da responsabilidade do presente.
A mensagem de Mt é, por isso, esta: o atraso da volta de Jesus não pode levar ao adormecimento e ao descuido, nem pode levar os cristãos a ficarem relaxados nos seus compromissos. Ao contrário, a certeza da vinda do Senhor e incerteza do momento da chegada devem motivá-los a assumir seus compromissos com as palavras de Jesus ativamente. A comunidade cristã deve se preparar para o futuro salvífico através do cumprimento fiel das exigências de Deus reveladas por Cristo.
As cinco virgens prudentes estão de prontidão e prestam atenção às coisas essenciais. Enquanto as cinco insensatas pensam em tudo, menos naquilo que, de fato, tem importância. Acontece também em nossos dias, talvez em todos os tempos, a mesma coisa. Há pessoas que perdem o rumo por causa das coisas efêmeras: dinheiro, poder, prazeres etc. e não se dão conta de estarem perdendo um tempo valioso, não se lembram dos valores autênticos como caridade, justiça, paz, verdade, reconciliação etc. pelos quais vale a pena comprometer-se. O homem tão pendente das coisas passageiras que lhe falta interesse pelas de Deus. “Diz o insensato em seu coração: Não há Deus” (Sl 13,1). O homem tão ocupado com as mil coisas que não deixam mais do que efêmeras satisfações que se esgotam logo que se produzem, e que não tem tempo para Deus. Um sábio diz que há esquecimento por falta de memória, mas há esquecimento por falta de amor. Esquecemos de Deus não por falta de memória, mas por falta de amor para com ele. Não é fácil imaginar que uma pessoa que ama se esqueça daquilo que agrada ao ser amado. Quantos se interessam hoje em dia por averiguar quais razões que Deus terá tido para os chamar à vida, em vez de qualquer outra das inúmeras criaturas que poderiam ter nascido em seu lugar?  Na íntima consciência, a cada instante, está iminente a eternidade do Deus santo, que será nosso Salvador, ou…nosso Juiz. O perigo é que, sem luz, por falta de azeite, na hora da verdade podemos nos encontrar, tal como as cinco virgens insensatas, na rua e diante de uma recusa aterradora: “Em verdade Eu vos digo: Não vos conheço!” (v.12). Todos nós somos convidados, como as dez virgens, a participar da celebração do casamento de Jesus com a humanidade. Contudo, devemos estar conscientes de que a porta estará aberta para uns e fechada para outros. Não é que Deus não queira, mas a opção pessoal é que determina a entrada ou não na sala do banquete eterna com Jesus, o noivo celeste.
O que nos chama a nossa atenção é o aparente egoísmo e aparente falta de solidariedade das cinco virgens prudentes que não dividiram seu azeite para as insensatas. E a aparente falta de amor do noivo que não abriu a porta para as cinco insensatas também chama a nossa atenção. A parábola quer destacar uma responsabilidade pessoal que não é substituível por ninguém diante de Deus no fim dos tempos. Ninguém pode prestar contas em nome de ninguém diante de Deus nesse momento. Cada um é único diante do Deus único. As qualidades interiores, as qualidades do espírito que temos ou não as temos, não podem ser emprestadas ou repartidas diante da seriedade do momento. É insubstituível o compromisso pessoal da vigilância.
O juízo particular é tema que desperta não só responsabilidade, mas também esperança e otimismo. Deus não empurra ninguém para o céu ou para o inferno. É a própria pessoa quem decide sobre isso durante sua vida. Não é um sentença divina que vai declarar a pessoa culpada ou inocente, mas sim é a atitude, é o modo de vida da pessoa que vão condicionando sua opção por Deus. O juízo particular é processo histórico que a própria pessoa vai tecendo.
Este pensamento nos leva a perguntar sobre o destino do companheiro ou da companheira que está ao nosso lado. Quem ele/ela é? Será que ele/ela tem azeite suficiente até a chegada do noivo celeste? Será que a porta estará aberta para ele/ela? A mesma pergunta é dirigida para cada um de nós. Temos um desejo comum: que a porta esteja aberta para nós na hora da verdade. Mas para isso, que tenhamos a chave desta porta na nossa mão.
Resumindo….
O noivo da parábola é Cristo que chega numa hora desconhecida. Ele vem em qualquer momento para nos buscar e levar (Cf. Jo 14,3).
As virgens representam os homens e as mulheres que compõem a humanidade. Alguns vivem na permanente vigilância através de sua dedicação para as obras boas pelo bem da humanidade. Outros se deixam levar pelo prazer do mundo; eles vivem com as lâmpadas sem azeite, o que dificulta a vida quando a noite chegar.
O período entre a espera e a chegada do esposo é a vida dada por Deus para cada um dos homens e mulheres. A responsabilidade recai sobre cada um. Neste período vivemos para o bem ou para o mal. Mas o mal não tem futuro. O bem tem futuro. O tempo somente eterniza o que é bom, certo, justo, digno, amoroso, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).
Uma coisa importante que a parábola das dez virgens quer nos recordar é esta: não podemos nos preocupar com o secundário, com o que tem menos importância e até, por vezes nenhuma. Ao contrário, jamais podemos, nem devemos nos esquecer do essencial, isto é, daquilo que se refere ao Senhor e ao amor pelo próximo. O resto vale a pena ser abandonado. Examinemos na presença do Senhor o que é realmente o principal ou o essencial na nossa vida nestes momentos. Se o Senhor viesse hoje ao nosso encontro, Ele nos acharia vigilantes, esperando-O com as mãos cheias de boas obras?
A fé é olhar para a frente. A fé é a conversão para o Senhor que vem, e que está vindo. Porque a fé é o êxodo da antiga escravidão e partida para a terra prometida.  O medo do desconhecido nos leva a refugiar-se no hábito e na rotina, desconfiar da mudança, rejeitar até o novo pelo simples fato de ser assim. “Melhor mau conhecido do que é bom saber”. No entanto, o evangelho é novidade, anúncio e proclamação do nunca visto. É por isso que a mesma coisa daqueles que escutam o evangelho é abrir e ser confiantemente surpreso e não julgar tudo e condená-lo pelos preconceitos e costumes em que se sente seguro. Para os cristãos, afinal, e depois de tudo, aquele que vem não é algo, e sim o Senhor. Ele nos convidou para casamentos eternos.
P. Vitus Gustama,SVD

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-08 17:47:00

11/11/2017
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USAR OS BENS SEM SER POSSUIDOS POR ELES
Sábado Da XXXI Semana Comum
Primeira Leitura: Rm 16,3-9.16.22-27
Irmãos, 3 saudai Prisca e Áquila, colaboradores meus em Cristo Jesus, 4 os quais expuseram a sua própria vida para salvar a minha. Por isso, eu lhes sou agradecido; não somente eu, mas também todas as Igrejas do mundo pagão. 5 Saudai igualmente a Igrejaque se reúne na casa deles. Saudai meu muito estimado Epêneto, que faz parte dos primeiros frutos da Ásia para Cristo. 6 Saudai Maria, que trabalhou muito em proveito vosso. 7 Saudai Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, apóstolos notáveis e que se tornaram discípulos de Cristo antes de mim. 8 Saudai Ampliato, a quem estimo muito no Senhor. 9 Saudai Urbano, nosso colaborador em Cristo, e a meu caríssimo Estaquis. 16 Saudai-vos uns aos outros com o beijo santo. Todas as Igrejas de Cristo vos saúdam. 22 Saúdo-vos eu, Tércio, que escrevo esta epístola no Senhor. 23 Saúda-vos Caio, meu hóspede e de toda a Igreja. 24 Saúda-vos Erasto, tesoureiro da cidade, e o irmão Quarto. 25 Glória seja dada àquele que tem o poder de vos confirmar na fidelidade ao meu evangelho e à pregação de Jesus Cristo, de acordo com a revelação do mistério mantido em sigilo desde sempre. 26 Agora este mistério foi manifestado e, mediante as Escrituras proféticas, conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé. 27 A ele, o único Deus, o Sábio, por meio de Jesus Cristo, a glória, pelos séculos dos séculos. Amém!
Evangelho: Lc 16,9-15
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9“Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas. 10Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes. 11Por isso, se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem? 12E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso? 13Ninguém pode servir a dois senhores: porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. 14Os fariseus, que eram amigos do dinheiro, ouviam tudo isso e riam de Jesus. 15Então Jesus lhes disse: “Vós gostais de parecer justos diante dos homens, mas Deus conhece vossos corações. Com efeito, o que é importante para os homens, é detestável para Deus”.
———————————————–
      
Possuamos as coisas terrenas sem deixar-nos possuir por elas. Que não nos deslumbre sua multiplicação nem nos afunde sua carência. Façamos que com elas nos sirvam sem fazer-nos seus servidores (Santo Agostinho: Epist. 15,2).
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Agredecer e Lembrar-se Dos Nomes Dos Que Ajudam Na Evangelização
Depois de quarto semanas hoje terminamos a leitura da Carta aos Romanos. Ficamos admirados pela delicadeza de São Paulo que sauda às pessoas muito concretas: ele cita nome por nome das pessoas que colaboram na sua missão evangelizadora. Na sua maioria, essas pessoas são laicas. Para todos e para cada uma delas São Paulo tem uma palavra de louvor e de aprecio. São Paulo quer também constar o nome do escrevente de sua Carta: Tercio. Por fim, ele sauda também a Igreja de Roma como toda. A carta termina com um louvor a Deus, através de Jesus Cristo.
Tudo isto quer nos transmitir, além de sua delicadeza para com as pessoas, que São Paulo trabalhava em equipe. Nada funcionaria sem a equipe. Na Igreja de Cristo ninguém pode ser um lutador solitário, pois cada um nasceu com seu próprio carisma para a edificação da comunidade, da Igreja. É preciso contar com as qualidades dos outros e unir essas qualidades para o bem comum.
É interessante que apreçam aqui nomes comoAndrónico, Júnias, Ampliato, Urbano, Estaquis, Gayo, Cuarto. Quem são eles que colaboraram com São Paulo? Quantos leigos e leigas “anônimos” que não saem nas revistas da Igreja, mas que dão sua contribuição na catequese, nas Pastorais sociais caritativas e dos enfermos, na pastoral da saúde, na pastoral familiar, na economia da Igreja, na pastoral das crianças, e outras tantas pastorais e muitos movimentos. Muito pouco agredecimento é dado para essas pessoas. Mas todas elas estão na lista ou no livro de Deus. Para elas também Jesus Cristo dirige sua palavra: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20b).
São Paulo sauda a todos. Será que sabemos saudar os outros e agredecer a todos que nos ajudam? Sabemos os nomes das pessoas que nos ajudam e colaboram para a construção da vida da comunidade? Ou nossa comunidade é uma comunidade anônima?
Usar Os Bens Materiais Sem Ser Usados e Dominados Por Eles

Continuamos a escutar as ultimas lições do Senhor no seu caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). E estamos na segunda parte de Lc 16 onde podemos encontrar o convite de Jesus a usarmos o dinheiro ou os bens materiais corretamente. É o tema central de todo capítulo 16 deste Evangelho.  

O dinheiro é uma faca de dois gumes, conforme se usa para o bem ou para o mal, isto é, para Deus e para os outros, ou apenas para si próprio, excluindo os outros. Para viver como filhos da luz (cf. Lc 16,1-8), como filhos de Deus, temos de ser irmãos dos outros, algo impossível para o que idolatra o dinheiro. Uma vez um economista escreveu: “Capitalismo é um sistema que funciona, porque se baseia no egoísmo humano”. E sabemos que o egoísmo é o contrário do plano de Deus, pois a alma do projeto de Jesus Cristo é a partilha. Com efeito, o Reino de Deus se alicerça no amor que produz a justiça e transborda em fraternidade e partilha para que todos tenham liberdade e vida (cf. Jo 10,10). O reino do dinheiro, ao usá-lo erradamente, repousa no egoísmo que produz a injustiça e transborda em não-fraternidade e não-partilha, que dá origem ao poder que oprime e que dá origem à riqueza que explora. O dinheiro dá muito “poder” para quem o tem. E normalmente o dinheiro é usado para oprimir os mais fracos e pode ser usado para qualquer tipo de crime.  
A advertência de Jesus sobre o perigo do dinheiro não é exclusivamente para os ricos. É para todos, pois todos têm o impulso natural que leva cada um a desejar alguma coisa ou dinheiro. O dinheiro é um deus que tem altar em quase todos os corações, tanto num adulto realista como num jovem idealista, tanto no rico como no pobre, tanto no leigo como no religioso/sacerdote. Até as crianças são educadas para ganhar dinheiro ao escolher bem uma profissão futura. Além disso, muitas vezes as brigas numa comunidade, seja familiar, seja civil, seja eclesial, surgem ou partem desse deus que se chama dinheiro. Por isso, Martinho Lutero observou astutamente: “Três conversões são necessárias: a conversão do coração, a da mente e a da bolsa”.
A segunda parte deste texto começa dizendo: “E eu vos digo: Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas” (v.9). Usar “o dinheiro da iniqüidade” para fazer amigos é metáfora de “dar esmolas”, isto é, dar aos necessitados. “vocês serão recebidos nas moradas eternas” é a promessa de Deus. A palavradexontai” (grego) é empregada aqui na forma passiva e refere-se ao ato de Deus (veja também Lc 6,32-36; 14,7-14). Por isso, podemos ler da seguinte maneira: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos (=esmola) para serdes recebidos por Deus nas moradas eternas” (cf. Mt 25,34-40). “Os famintos, os maltrapilhos, os mendigos, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes… são teus “batedores” no Reino dos céus”, dizia Santo Agostinho (Serm. 11,6).
Esta segunda parte termina com esta frase: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v.13b; cf. também Mt 6,24). Aqui não há meio-termo: ou servir ao Senhor Deus ou servir ao senhor dinheiro. Um é incompatível com o outro, porque cada um tem as suas próprias regras. E não se diga que o Evangelho é ingênuo, porque ele não está criticando uma cédula de dinheiro, mas o capital, o acúmulo de dinheiro. “Servir a Deus” é uma dependência que nos faz livres para servir aos mais necessitados, enquanto que “servir ao dinheiro” é uma escravidão que esmaga à pessoa e perverte nossas relações com Deus e com os demais, como descreve a parábola do rico e Lázaro (Lc 16,19-31). O dinheiro pode se transformar num ídolo e por seu caráter totalizante impede o serviço autêntico a Deus e ao próximo.
Reflitamos:
1.   Se você deprecia o dinheiro dos outros, pergunte-se se não o adoraria caso ele fosse seu. Não admiro o seu desprendimento pelo dinheiro que lhe falta por você não saber ganhá-lo com seu esforço; mas sim o admira se você é generoso com o dinheiro que ganha com seu trabalho. E se você tem dinheiro acumulado, pergunte-se como o ganhou e como o usa. Se você continua acumulando mais dinheiro do que precisa para viver, sabe para que você o faz? Os bens um dia nos escapam. Por isso, podemos ter os bens materiais, mas eles não podem nos possuir.
2.   “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado”. (Papa Francisco: Evangelii Gaudium n.2). “Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: ‘Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo’” (Idem n.7).
P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-07 16:35:00

09/11/2017
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SOMOS TEMPLO DE DEUS
FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO LATRÃO
09 de Novembro
Primeira Leitura: 1Cor 3,9c-11.16-17 (ou Ez 47,1-2.8-9.12)
Irmãos, 9c vós sois construção de Deus. 10 Segundo a graça que Deus me deu, eu coloquei — como experiente mestre de obra — o alicerce, sobre o qual outros se põem a construir. Mas cada qual veja bem como está construindo. 11 De fato, ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que está aí, já colocado: Jesus Cristo. 16 Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós? 17 Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá, pois o santuário de Deus é santo e vós sois esse santuário.
Evangelho: Jo 2,13-25
13 Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14 No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. 15 Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16 E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” 17 Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”. 18 Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?” 19 Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei”. 20 Os Judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?” 21 Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. 22 Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.
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Novembro é um mês projetado para a eternidade, porque a liturgia agrupa uma serie de festas que tem um profundo sentido escatológico.
A Igreja celebra a solenidade de Todos os santos no dia primeiro do mês para nos relembrar que somos chamados diariamente à santidade.
Logo no dia 2 d Novembro a Igreja comemora o Dia de finados e quer nos recordar o sentido pascal da morte que é trânsito dos que descansam em Cristo e esperam o “lugar” da luz e da paz.
Também no mês de Novembro a Igreja celebra as dedicações das basílicas do Salvador/Latrão (9 de novembro) e as de São Pedeo e são Paulo (18 de Novembro). Tudo isso nos faz pensarmos através da igreja material, tabernáculo de Deus entre os homens, na Igreja do céu “adornada como uma noiva que sai para receber a esposo”. Esta recordação quer avivar em nós a vinda do Senhor no fim dos tempos.
Uma Pequena História Da Festa
Latrão era um palácio, propriedade romana da família dos Laterani. Nos inícios do século IV pertencia a Fausta, esposa do imperador Constantino, que fez a doação desse patrimônio à Igreja. Constantino mandou construir no lugar do palácio (por volta de 324) uma suntuosa basílica em honra a Cristo Redentor que se tornou a catedral de Roma e a primeira basílica patriarcal. No início do século X, sob a gestão do papa Sérgio III (904-911), ela foi consagrada adicionalmente a São João Batista e a São João Evangelista, e desde então é conhecida pelo nome de basílica “São João de Latrão”. Segundo a inscrição, o Papa Clemente XII (1730-1740), conhecido como um papa promotor das artes e das ciências, mandou afixar que essa basílica é a “mãe e cabeça de todas as igrejas da Urbe e do Orbe” (“Mater et Magistra omnium Ecclesiarum”, e “cardo totius urbis et orbis”).  
Nessa basílica foram realizados os cinco concílios ecumênicos: Concílio de Latrão I, o nono concílio (1123); Concílio de Latrão II, o décimo concílio (1139); Concílio de Latrão III, o décimo primeiro concílio (1179); Concílio de Latrão IV, o décimo segundo concílio (1215); e o Concílio de Latrão V, o décimo oitavo concílio (1512-1517).  
A basílica lateranense ocupa lugar único e preponderante entre as basílicas romanas. Nessa basílica os papam haviam residido durante quase mil anos (do tempo de Constantino até o exílio de Avinhão). Depois da morte do papa Bento XI (1303-1304), o conclave se realizou em Perúgia. O Colégio Cardinalício dividira-se em duas facções: a francesa e a italiana. O conclave teve 11 meses de duração. Finalmente foi eleito o candidato dos franceses, Clemente V (1305-1314). Com essa eleição iniciava-se o exílio dos papas em Avinhão, a partir de 1309, que duraria 70 anos. A partir de 1309 o papa passou a residir em Avinhão, França. Somente a partir do Papa Gregório XI (1370-1378: papa francês) começou o retorno para Roma. Gregório XI deixou Avinhão, acompanhado de 13 cardeais, em 13 de setembro de 1376, ingressando solenemente em Roma
  • A partir de Clemente V começou a dominação francesa. Foram eleitos os papas franceses sucessivamente: João XXII (1316-1334), sucessor de Clemente V; Bento XII (1334-1342); Clemente VI (1342-1352); Inocêncio VI (1352-1362); Urbano V (1362-1370). Este papa decidiu o regresso a Roma, porque também Santa Brígida da Suécia, inclusive Santa Catarina de Siena, solicitara que o fizesse. Mas por causa da pressão dos cardeais franceses esse regresso não teve sucesso, embora esse papa chegasse a entrar em Roma, mas voltou novamente para Avinhão; Gregório XI ((1370-1378). Com Gregório XI morreu o último papa francês a ocupar a cátedra de Pedro.
               
    A festa da consagração da Basílica do Latrão que celebramos hoje deve nos levar a revivermos e a pensarmos na unidade de toda a Igreja como Cristo sempre quer: “Que eles sejam um”, assim ele rezou antes de sua morte (cf. Jo 17). A palavra “igreja” em si significa “assembléia”, “comunidade”. Se a comunidade não existe, os corações se fecham e morrem. Mas a unidade não significa a uniformidade, pois negaria o dom de cada um e empobreceria a convivência. Por isso, Santo Agostinho dizia: No essencial unidade, na dúvida liberdade, mas em tudo a caridade”. Certamente a autenticidade da comunhão e da comunidade se manifesta no esforço constante de amar seus irmãos e irmãs, com enorme fidelidade, sem julgar nem condenar.
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    O texto do evangelho de hoje é lido em função da festa mencionada.  Esse texto se encontra na primeira parte do quarto Evangelho que costuma ser chamada de “Livro dos Sinais” (Jo 2,1-12,50). Chama-se assim porque referem-se aos sete sinais realizados por Jesus (Jo 2,1-11;4,46b-54;5,1-9;6,1-15;6,16-21;9,1-41;11,1-44). Estes sinais são reunidos por evangelista do quarto Evangelho na seção que vai de Jo 2 até Jo 12.
              
    No quarto Evangelho, como já sabemos, não se fala de milagre (dynamis), fala-se de sinal (semeion). No quarto evangelho usa-se o termo “sinal”. Chama-se de “sinal” porque o espectador/ leitor é obrigado a mergulhar no mistério do sinal para captar seu significado. Os sinais são ações simbólicas que impulsionam o espectador/ leitor a buscar, muito além do episódio concreto, uma realidade mais profunda até a qual aponta o relato narrado. O sinal leva por si ao conhecimento de realidade superior.
              
    O relato da “purificação do Templo” (X. Léon-Dufour não aceita o uso desta expressão no quarto Evangelho, pois segundo ele, a expressão “purificação do Templo” se usa nos sinóticos e não no quarto Evangelho) ou “substituição do Templo” (Johan Konings usa o termo “suplantar” em vez de “substituir”) se encontra também nos evangelhos sinóticos (cf. Mc 11,15-19; Mt 21,10-17;Lc 19,45-48). Mas o quarto evangelho tem suas próprias acentuações. Os sinóticos colocam este episódio na última semana da atividade de Jesus. O quarto Evangelho o coloca logo no início da vida pública de Jesus. Para o quarto evangelho este episódio é um gesto programático (compare Lc 4,16-30) que, como tal, deve figurar ao princípio da atividade de Jesus.
     
    O episódio é introduzido mediante a afirmação sobre a proximidade da festa judaica da páscoa. Esta forma de mencionar a festa principal dos judeus indica distância e separação entre o objetivo da festa e a prática atual dos judeus, na época. A páscoa era uma festa de libertação. Ela evocava o passo da escravidão à libertação (cf. Ex 12,17;13,10). Em tempos de opressão, o pensamento da libertação se acentuava mais. Ao desviar-se do próprio objetivo da festa (não é mais uma festa de libertação), surgia inevitavelmente a idéia de uma nova libertação. E este era o caso em tempos de Jesus. Além disto, o templo, que é o símbolo e a síntese do sistema religioso, a partir de agora será “substituído” ou suplantado pela presença de Jesus. Não é por acaso que este episódio se coloca logo depois do primeiro sinal (Jo 2,1-11) que simboliza as núpcias de Deus com sua comunidade no tempo final. E desde início de sua atividade Jesus é o “lugar santíssimo” de Deus.
     
    O que tem por trás do gesto de Jesus?
              
    Em primeiro lugar, a Páscoa que era uma festa familiar e festa de libertação se transforma numa festa da maior exploração. Os peregrinos que vêm de longe não podem trazer consigo os animais para ser sacrificados. Eles compram os animais no próprio Templo. E os donos dos animais são os latifundiários pertencentes à elite religiosa. A Páscoa para eles é o momento de lucro, pois eles aumentam o preço dos animais exageradamente. E os peregrinos não têm outra opção a não ser comprar esses animais apesar do preço alto. A Páscoa não é mais um momento de celebrar e de reviver a libertação, mas se torna uma festa de exploração. As elites religiosas exploram o povo por meio do culto. O “deus” do Templo, para estas elites religiosas, é o dinheiro. A religião se transforma num instrumento que acoberta a injustiça e exploração. Por isso já não é mais “a casa de meu Pai”, e sim um mercado. Como se vive a religião hoje em dia?
            
    Em segundo lugar, quem pode comprar os animais maiores (como boi, ovelhas) são os ricos. Surge aqui outra mentalidade. O sacrifício se torna como que uma moeda pela qual compra-se de Deus a salvação. A salvação não mais depende de dois lados simultaneamente (de Deus que oferece e do homem que corresponde), mas somente do homem que a compra. Isto quer dizer que quem não for capaz de comprar a salvação, ficará fora dela. E os pobres e miseráveis?
            
    O que nos chama atenção, no quarto Evangelho, é o fato de Jesus se dirigir somente aos vendedores de pombas. Para eles é que Jesus diz: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v.16). Porque a pomba era o animal sacrificado nos holocaustos (cf. Lv 1,14-17) e nos sacrifícios (Lv 12,8;15,14.29) oferecidos especialmente pelos pobres, por meio dos sacerdotes, para reconciliar-se com Deus e para purificar-se (Lv 5,7;14,22.30-31; cf. Lc 2,44). Os vendedores de pombas são os que, por dinheiro, oferecem aos pobres a reconciliação com Deus, e representam os sacerdotes do Templo que fazem comércio com a graça de Deus. Em outras palavras, a hierarquia sacerdotal explora especificamente os pobres, oferecendo-lhes por dinheiro para ganhar favores ou benefícios de Deus. Eles apresentam Deus como um comerciante, pois convertem a casa de Deus num mercado.
                          
    Jesus expulsa os vendedores do Templo. Ele quer limpar o templo de todo tipo de exploração e de injustiça. A limpeza do templo é um gesto de profundo simbolismo. O homem deve limpar sempre a morada de Deus que é ele mesmo de todo tipo de “sujeira” através de uma conversão contínua todos os dias de sua vida. O culto verdadeiro consiste na mais profunda união do homem ao divino, na mais pura e incondicional entrega à vontade de Deus. O culto do cristão é um culto de Espírito (Jo 4,23). O templo não santifica o nosso culto, e sim nosso amor fraterno santifica nosso culto e a comunidade. Deus habita no próprio ser humano, e não em edifícios (2Cor 6,16). Cada cristão é ele próprio templo de Deus enquanto membro do Corpo de Cristo (1Cor 3,16; 6,19). E as pedras vivas deste edifício espiritual são os que pertencem ao novo povo de Deus. Devemos amar os nossos semelhantes porque são nossos irmãos; e devemos reverenciá-los, pois são filhos de Deus e devemos respeitá-los, pois são templo de Deus. Assim quem desrespeita o ser humano está desrespeitando o próprio Deus e toda a pessoa humana, chamada a ser templo de Deus (1Cor 3,16-17; 6,19).
            
    O evangelho deste dia, por isso, nos traz de volta a consciência de sermos templo de Deus e de respeitar novamente, como Deus sempre quer, aos outros como habitação de Deus. Além disto, este evangelho nos leva ao arrependimento de tudo que cometemos em relação à dignidade humana desrespeitada, que se expressou através de violência moral- verbal e física, difamação etc. E este arrependimento deve se tornar em conversão sem fim, pois o homem velho dentro de nós sempre tenta nos levar ao passado pecador.
     
    P. Vitus Gustama,svd

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-07 15:53:00

08/11/2017
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SEGUIMENTO:
RENUNCIAR POR AMOR
Quarta-Feira da XXXI Semana Comum
Primeira Leitura: Rm 13,8-10
Irmãos, 8 não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo – pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. 9 De fato, os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “Não matarás”, “Não roubarás”, “Não cobiçarás”, e qualquer outro mandamento se resumem neste: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”. 10 O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei.
Evangelho: Lc 14, 25-33
Naquele tempo, 25 grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: 26“Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo. 28Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, 29 ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 30 ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ 31 Ou ainda: Qual rei que, ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? 32 Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. 33 Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!”
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Amar Como Deus Nos Ama
Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo – pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei”.
Ontem, na Primeira Leitura São Paulo comparava a vida de uma comunidade cristã a um corpo em que todos tinham que colaborar para o funcionamento da comunidade.
Nos versículos anteriores de Rm 13, São Paulo nos acaba de falar de nossos deveres de justiça para com os poderes públicos, da obediência e da obrigação de pagar os impostos. Agora nos diz que não devamos nada a ninguém… Mas ao escrever estas palavras, cai em conta de que há uma dívida que sempre teremos em aberto. Por isso, São Paulo diz: “… a não ser o amor mútuo”. O amor, uma vez pago, sempre ficaremos em dívida, pois amar não somente uma vez para sempre.
Para São Paulo a chave geral para que a comunidade funcione bem é o amor fraterno. Onde houver o amor, não tem necessidade da existência da lei, “pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei”. O próprio Jesus coloca o amor como o principal mandamento, pois quem ama a Deus e ao próximo cumpre tudo o que tem que cumprir.
Qual é a medida do amor fraterno? Há três expressões embora sejam difíceis. A primeira expressão dessa medida é “amar o próximo como a nós mesmos” (como a ti mesmo). A segunda expressão desta medida: “Amar o próximo como Deus ama a todos”. E a terceira expressão é a medida de Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Jesus amou até o fim, até a morte de cruz. E da cruz Jesus ama seus inimigos, perdoando-os: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. As três medidas são difíceis porque supõe radicalidade, maturidade espiritual, gratuidade no amor, sair de si mesmo e buscar o bem dos demais. A maturidade cristã consiste em amar por amor, sem segundas intenções.
Creio que o mundo não pede milagres dos cristaos. O que o mundo pede é o amor fraterno, a delicadeza, a ternura, a compreensão fraterna, ajuda mútua, a solidariedade, a compaixão, o perdao mútuo e assim por diante que são fundamentais para uma boa convivência e sem os quais a convivência se torna difícil.
Ao terminar cada dia, o exame de consciência feito por cada cristão deve ser sobre o amor fraterno. Um dia sem o amor fraterno, sem a prática do bem e da bondade é um dia jogado fora da vida de um cristão ou de todas as pessoas de boa vontade.
Seguir a Jesus Firmemente Apesar De Tudo
Continuamos a acompanhar Jesus no seu Caminho para Jerusalém onde Ele será crucificado, morto e glorificado (Lc 9,51-19,28). Durante este caminho Jesus deu aos seus discípulos Suas últimas lições. As lições apresentadas no texto do evangelho de hoje são sobre as condições para seguir a Jesus. O que nos torna verdadeiro discípulo de Jesus?
É preciso sabermos que as condições do seguimento apresentadas por Jesus têm caráter universal, pois são dirigidas às multidões que o acompanham em seu caminho para Jerusalém. Todas elas são centradas no caráter global que tem o seguimento de Jesus.
E Jesus nos adverte que o seguimento em questão não é fácil. Podemos explicar isso através do texto do evangelho de ontem em que muitos não aceitaram o convite para participar do banquete do Reino, pois é exigente e não se trata somente de sentar-se à Sua mesa (cf. Lc 14,15-24). É necessário cumprir as exigência básicas.
Hoje Jesus nos diz que para ser seus discípulos temos que colocar a importância do Reino acima dos sentimentos familiares, pois a nossa salvação está em jogo.
Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Assim Jesus começou suas lições sobre o seguimento.
Somos advertidos sobre onde colocamos nosso maior amor. O amor sem condições e sem fronteiras não é um suave sentimento muito tranqüilo e fácil. É uma revolução. Jesus pede uma renúncia total para que nossa entrega a Ele seja total. Sabemos que Jesus quer que amemos aos nossos (cf. Jo 13,34-35; 15,12). O amor filial, o amor conjugal, o amor fraterno são “sagrados”. Todavia, o amor de Deus, que nos sustenta, anima e salva, deve ser maior.
Trata-se, desta primeira condição, de uma opção radical pela pessoa de Jesus e pela nova escala de valores que Ele propõe. Os valores do Reino devem estar acima de tudo. Quem não fizer opção pela Vida, por excelência, que o próprio Jesus personifica (cf. Jo 11,25; 14,6), terá que contentar-se com uma vida raquítica, isto é uma vida limitada sem desenvolvimento e não conseguirá jamais superar os problemas que estabelecem as relações humanas.
A segunda condição é conseqüência da anterior: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. A exemplo de Jesus, cada discípulo deve estar preparado para afrontar a recusa da sociedade que vive os valores contrários aos do Reino. O discípulos tem aceitar a sensação de fracasso ou experimentar o aparente fracasso. O “aparente fracasso” porque a última palavra sobre o homem será a de Deus e não a do homem. O discípulo deve estar preparado para sentir a sensação sem segurança.
Ao seguir a Jesus ficamos frente a frente com a cruz: a cruz da contrariedade, a cruz da injustiça, a cruz da desonestidade, a cruz da perda de um inocente, a cruz da corrupção e assim por diante. E Jesus continua nos chamando a caminhar atrás dele vivendo uma vida honesta, justa, fraterna no amor. A cruz nos convida a nos deixarmos contagiar pelo amor. Quem carrega a cruz com amor, une-se a Cristo. Quem a carrega sem amor, encontra-se com condenação.
Carreguemos nossa cruz de cada dia, sendo fieis à missão que o Senhor nos confiou de anunciar Seu Evangelho. Sejamos um Evangelho encarnado do amor de Deus para os demais. Passemos a vida, como Cristo, fazendo o bem a todos (cf. At 10,38). Somente edificaremos a Igreja sobre a Pedra angular que é Cristo, se renunciarmos a nossos egoísmos, a nossas injustiças, a nossas paixões ordenadas, a nossas inclinações desenfreadas aos bens materiais ou ao poder. Cristo nos quer livres de toda carga de maldade, de toda injustiça e de todo sinal de morte.
Podemos dizer que a moral cristã é uma moral simples que tem seu grande ponto de referência no amor ao próximo: “Não fique devendo a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. O amor é o cumprimento perfeito da Lei”, diz São Paulo aos romanos (Rm 13,8.10). Todos os preceitos da ética cristã ficam profundamente condicionados pelo preceito do amor ao próximo. Por isso, uma falta contra qualquer dos preceitos se descobre como uma falta contra a lei do amor. Todas as injustiças são conseqüências da falta de amor. Para os justos, os bons, os honestos, os que têm amor no coração não necessitariam de nenhuma lei.
Amar, não tem término. Há que avançar sempre no amor para alcançar o Deus de amor (1Jo 4,8.16). Amor é um grande desafio de cada dia, pois ele é essencial para os seres humanos e sua convivência diária a fim de chegar à sua plenitude. Por ser essencial, tudo deve partir dele e nele tudo deve terminar. Quando cumprirmos as leis civis, diremos que estamos dentro da lei. Mas o amor é uma “chamada” dirigida a todos para que o ser humano seja mais humano a fim de ser mais divino.
A partir do amor podemos entender o seguimento renunciante de Jesus, que nos recorda a passagem do evangelho lida neste dia. Jesus, para levar até o fim Sua missão salvadora da humanidade, renunciou a tudo, inclusive, a sua vida. Por isso, foi constituído Senhor e Salvador de todos. E nos diz que também nós devemos saber carregar a cruz de cada dia para fazer o bem como Ele e com Ele.
A fé em Cristo abarca toda nossa vida. Por isso, para ser um verdadeiro cristão é preciso aprender a renunciar a muita coisa na vida. Renunciar não é um ato negativo e sim uma opção por aquilo que é superior na escala de valores. Cada renúncia supõe o amor. Se cada renúncia não se complementar por, com e no amor, a renúncia poderá se converter em anti-entrega. Somente o amor é que transforma qualquer renúncia em doação gratificante.
A adesão a Jesus leva cada pessoa ou cada cristão a um comportamento novo diante de todas as coisas e diante de todas as pessoas, inclusive diante das pessoas que tem uma ligação afetiva.
Para ser seus discípulos, Jesus não nos pede que cumpramos as regras, ou que sejamos bons. Tudo isso é necessário. Jesus nos pede que sejamos absolutamente disponíveis. Ser discípulo de Jesus não é somente ser bom, pois todos têm que sê-lo independentemente de ser ou de não ser cristão. Ser discípulo de Jesus é ser diferente, por ser disponível e pronto para renunciar a tudo pelo valor superior. Ser cristão é sério e difícil. Por isso, muitos caminham com Jesus, mas poucos chegam a ser discípulos.
Nesta Eucaristia ou celebração, o Senhor nos manifesta quanto nos ama, dando sua vida por nós todos, e fazendo-nos participes da Vida que Ele recebeu do Deus Pai. Em seu amor por nós, Jesus carregou sobre si nossos pecados para nos redimir. Por isso, ele se converteu para nós no Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Entremos em comunhão de vida com Ele e estejamos dispostos a ir atrás de suas pecadas, carregando nossa cruz de cada dia. Carreguemos nossa cruz de cada dia, sendo fieis à missão que o Senhor nos confiou de anunciar seu Evangelho de salvação. Sejamos um evangelho encarnado do amor de Deus para os demais. Vivamos fazendo o bem para todos.
Que Deus nos conceda a graça de viver com lealdade nossa fé em Jesus Cristo para que, sendo luz em meio das trevas do mundo, colaboremos para que todos encontrem o caminho que leva a Cristo que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6), Luz das nações e salvação para todos os homens.
P.Vitus Gustama, SVD

É PRECISO CAMINHAR 2017-11-03 20:37:00

06/11/2017
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SER GENEROSO PROLONGA O AMOR GENEROSO DE DEUS
Segunda-Feira da XXXI Semana Comum
Primeira Leitura: Rm 11,29-36
Irmãos, 29 os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. 30 Outrora, vós fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia, em consequência da desobediência deles. 31 Assim são eles agora os desobedientes, para que, em consequência da misericórdia usada convosco, alcancem finalmente misericórdia. 32 Com efeito, Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos. 33 Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! 34 De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? 35 Ou quem se antecipou em dar-lhe alguma coisa, de maneira a ter direito a uma retribuição? 36 Na verdade, tudo é dele, por ele, e para ele. A ele, a glória para sempre. Amém!
Evangelho: Lc 14,12-14
Naquele tempo, 12 dizia Jesus ao chefe dos fariseus que o tinha convidado: “Quando deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos nem teus irmãos nem teus parentes nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. 13 Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. 14 Então serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”.
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Sejamos Misericordiosos e Generosos Com Deus
Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. Outrora, vós fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia, em consequência da desobediência deles. Assim são eles agora os desobedientes, para que, em consequência da misericórdia usada convosco, alcancem finalmente misericórdia”, escreveu São Paulo aos Romanos.
A Primeira Leitura de hoje começa com a mesma frase do que terminou a Primeira Leitura do sábado passado: “Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”. São Paulo continua com o problema da salvação de seu povo, Israel.
Para São Paulo, tanto os pagãos como os judeus caíram em desobediência. Ambos necessitam da misericórdia de Deus. Todos são pecadores e todos são perdoados por Deus. Este é o ponto de partida da salvaão: a misericórdia de Deus: “Outrora, vós fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia, em consequência da desobediência deles. Assim são eles agora os desobedientes, para que, em consequência da misericórdia usada convosco, alcancem finalmente misericórdia”.O amor misericordioso é um amor que ama até quem não merece ser amado. Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado”, dizia o Papa João Paulo II na sua Carta Enciclica: Dives In Misericórdia.
Deus não pactua com o pecado, mas está ao lado do pecador e manifesta Sua misericórdia infinita para com o pecador arrependido. O amor de Deus pelo homem é um amor essencialmente misericordioso, o amor “uterino”, o amor entranhável, pois é dado a alguém que se tornou indigno, pela soberba, pela desobediência, pela ingratidão, pelos pecados, pela maldade, pela rebelião e assim por diante. Jesus Cristo, Deus-Conosco é o amor misericordioso encarnado. E este amor misericordioso deve se encarnar em cada cristão.
O texto da Primeira Leitura de hoje, por isso, é um hino de admiração de São Paulo para a generosidade e a sabedoria de Deus. É um Deus misericordioso tanto para os judeus como para os pagãos.
A misericórdia e a generosidade de Deus para nós todos devem nos tornar pessoas misericordiosas e genrosas para os outros. Porque quem acredita no Deus misericordioso e generoso deve ser seu reflexo neste mundo da misericórdia e da generosidade.
O Generoso Revela Sua Riqueza Interior e Prolonga a Generosidade de Deus
Continuamos a escutar atentamente as ultimas e mais importantes ensinamentos de Jesus na sua ultima viagem para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Trata-se das lições do caminho. Caminhando, aprendendo com o Senhor.
Na passagem do evangelho deste dia Jesus nos convida a sermos generosos e a não pensarmos nas vantagens daquilo que fazemos ou fizermos para os outros, especialmente para os necessitados. Ajudar os necessitados que não tem como retribuir é um serviço prestado a Deus. “A caridade cristã é tridimensional. Pratica-se na terra pelas boas obras e busca ajudar a quem necessita: eis sua profundidade. Sofre as adversidades pacientemente e persevera na verdade: eis sua extensão. Tudo faz com vistas a obter a vida eterna: esta é sua magnitude” (Santo Agostinho: Epist. 140,25).
O texto do evangelho de hoje é a continuação da passagem anterior que fala do convite dirigido a Jesus por um fariseu para uma refeição (cf. Lc 14,1-11). Os fariseus, como as pessoas em qualquer época e cultura, escolhiam cuidadosamente os seus convidados para a mesa (almoço ou jantar). Eles não convidavam pessoas de nível menos elevado. Os fariseus também convidavam aqueles que podiam retribuir da mesma forma. Com isso, tudo se tornava um intercâmbio de interesse e um jogo de favores. Dou para que tu me dês (Do ut des).
Ao saber desse jogo de interesse Jesus dá uma lição sobre a gratuidade e o amor desinteressado: “Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,13-14). A festa de que Jesus fala é a partilha do que há de bom na vida, pois a partilha é a alma do projeto de Jesus Cristo. Jesus nos convida a uma atitude de gratuidade ou generosidade, uma atitude que é o exato contrário do cálculo interesseiro de quem vive se perguntando: “Quanto é que eu levo nisso? Que vantagem isso me dá? Será que tem retorno em fazer isso?”.
Ao falar da festa Jesus está apontando para além da festa humana. Ele aponta para o Reino como um banquete eterno onde os convidados estão unidos pelos laços de familiaridade, de fraternidade e de comunhão diante do Pai comum que é Deus. As relações entre os que querem participar da alegria eterna por tratar-se de um banquete não serão marcadas pelos jogos de interesse e de intercâmbio de favores, mas pela gratuidade e pelo amor desinteressado. Por viverem orientados pela gratuidade e pelo amor desinteressado, os participantes do Reino estão bem distantes de qualquer atitude de superioridade, de arrogância, de ambição para estarem numa atitude de humildade, de simplicidade, de serviço por amor desinteressado.
A generosidade é um sinal de gratidão pelos benefícios recebidos de Deus e, ao mesmo tempo, manifesta a liberdade interior. O generoso não só dá as coisas para os necessitados, mas dá-se a si próprio por amor de Deus e do próximo, graças à sua liberdade interior. Por isso, a generosidade que se concretiza na partilha e na solidariedade não empobrece, mas é geradora de vida e de vida em abundância.
Geralmente uma pessoa humilde é generosa, repartindo o que tem para os que nada têm, pois ela é capaz de receber, não só de Deus, mas também dos outros.  Porém, repartirá não para chamar a atenção para si, e sim, porque agradecida, gosta de tornar seus irmãos partícipes dos dons que recebeu. A pessoa humilde é que estabelece relações que trazem a felicidade, que acabam com o egoísmo, com a competição, com a ostentação, e fazem reinar no mundo as atitudes de intercâmbio generoso dos dons de Deus. O generoso é livre na medida em que não procura o seu próprio proveito, mas o daqueles a quem favorece. E a alegria que brota da generosidade de um doador nobre é um dos mais preciosos e permanentes dons.
A generosidade é um sinal de gratidão e de liberdade interior. Tudo o que somos, tudo o que podemos e temos é precioso e libertador, se o reconhecermos e apreciarmos como um dom do amor de Deus. Se percebermos e apreciarmos realmente que o esplendor daquilo que temos e daquilo que possuímos vem de Deus, o Doador de todos os bens, então não nos agarraremos às nossas riquezas e capacidades, nem as utilizaremos para nos exibirmos, mas procuraremos ser cada vez mais generosos e livres, quer dando, quer recebendo. Jamais podemos ajudar um necessitado para nos sentir bons e íntegros, porque ofenderemos e humilharemos nosso irmão necessitado. A ajuda vale não pelo valor daquilo que é dado e sim pelo amor com que o damos.
Para o generoso, todos os seus bens, todas as suas capacidades e dons se transformam num tesouro que se acumula no céu e que, entretanto, vai aliviando e tornando felizes os outros. E o próprio Jesus anuncia que tudo que aqui gratuitamente fazemos, nos será recompensado na vida eterna: “Tu serás recompensado na ressurreição dos justos” (Lc 14,14). Para ser feliz aqui nesta terra e na vida eterna é necessário que cada um de nós faça algo de bom pelos outros, gratuitamente, sem esperar uma troca. E para ser infeliz, basta ser egoísta ou ser avaro. O avaro é o protótipo dos sem-coração. O avaro é a pessoa mais pobre que existe.
Ser generoso significa dar-se a si próprio por amor de Deus e do próximo, graças à intima liberdade que possuímos. É ser prolongamento do amor generoso de Deus por nós todos. Esta virtude é libertadora para ambas as partes: para o generoso e para quem é favorecido. O generoso é livre na medida em que não procura o seu próprio proveito, mas o daquele a quem favorece. Acreditamos que todos nós já fizemos alguma coisa por alguém por pura generosidade e sabemos a alegria que isso traz ao nosso coração. Quem de nós, ao prestar gratuitamente um favor ou uma ajuda, já não ouviu a frase: “Deus lhe pague; Deus lhe abençoe?”. A alegria que brota da generosidade de um doador nobre é um dos mais preciosos e permanentes dons.
Qualquer cristão não deve se deixar mover pelo egoísmo, mas pelo amor fraterno. Somente assim se assegurará a única recompensa do Pai que tem valor definitivo. Com essa conduta o cristão se faz no mundo, para os homens, sinal do amor do Bom Deus, que beneficia aos justos e ímpios (cf. Lc 6,36). Somente o Pai do céu é recompensa cabal para o serviço desinteressado do cristão.
P. Vitus Gustama,svd