Uma chave de leitura para entender São João da Cruz

São João da Cruz é enormemente desconhecido em sua doutrina e, quando conhecido, preconceituosamente rejeitado. De leitura difícil e ensinamentos tidos como “radicais”, são muitos os que tendem a considerá-lo inapropriado ou ultrapassado para os homens de nossa época. Por isso, nesta pregação, Pe. Paulo Ricardo oferece uma importante chave de leitura a todos os católicos que desejam conhecer este grande Doutor da Igreja.

O Natal não é a festa de aniversário de Jesus

Dom henrique soares lateral

Alguns pensam que celebrar o Natal é comemorar o aniversário de Jesus; alguns chegam até a cantar “parabéns pra você”! Coisa totalmente fora de propósito, contrária ao sentimento da Igreja e fora do sentido da celebração dos cristãos. Então, se não celebramos o aniversário de Jesus, o que fazemos no Natal?

Antes de tudo é necessário entender o que é a Liturgia, a Celebração da Igreja.

Vejamos. O nosso Deus, quando quis nos salvar, agiu na nossa história. Primeiramente agiu na história de toda a humanidade, guiando de modo secreto e sábio todos os seres humanos e sua história. Basta que pensemos nos santos pagãos do Antigo Testamento — santos que não pertenceram ao povo de Israel: Sto. Abel, Sto. Henoc, São Matusalém, São Noé, São Melquisedec, São Jó, São Balaão… Nenhum destes pertencia ao povo de Deus… e no entanto, Deus agia através deles… Depois, Deus agiu de modo forte, aberto, intenso na história do povo de Israel, com as palavras de fogo dos profetas, com a mão estendida e o braço potente nas obras maravilhosas em benefício do seu povo eleito.

Dom Henrique Soares é bispo da Diocese de Palmares, Pernambuco.

Finalmente, Deus agiu de modo pleno e total, fazendo-se pessoalmente presente, em Jesus Cristo, que é o cume, o centro e a finalidade da revelação e da ação de Deus: em Jesus, tudo quanto Deus sonhou para nós se realizou de modo pleno, único, absoluto, completo e definitivo! Então, o nosso Deus não se revela principalmente com ensinamentos, com doutrinas e conselhos, mas com ações concretas e palavras concretas de amor! E tudo isso chegou à plenitude na vida, nos gestos, palavras e ações de Jesus Cristo!

Pois bem: são estas obras salvíficas de Deus, realizadas de modo pleno em Jesus, que nós tornamos presente na nossa vida quando celebramos a Santa Liturgia, sobretudo a Eucaristia! Na força do Espírito Santo de Jesus, através das palavras, dos gestos e dos símbolos litúrgicos, os acontecimentos do passado — todos resumidos em Cristo: na sua Encarnação, no seu Nascimento, Ministério, Morte e Ressurreição e no Dom do seu Espírito — tornam-se presentes na nossa vida.

Vejamos, agora, o caso do Natal. Quando a Igreja celebra as cinco festas do Natal, ela quer celebrar não o aniversarinho do menininho Jesus… O que ela quer fazer e faz é tornar presente para nós, na força do Espírito Santo, a graça da vinda do Cristo! Celebrando a liturgia do Natal, o acontecimento do passado (a Manifestação do Filho de Deus) torna-se presente no hoje da nossa vida! Na liturgia do Natal a Igreja não diz: “Há dois mil anos nasceu Jesus”! Nada disso! O que ela diz é: “Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz!” (Antífona de Entrada da Missa da Noite do Natal).

Então, celebrando as santas festas do Natal, celebramos a Manifestação do Salvador no nosso hoje, na nossa vida, no nosso mundo! A liturgia tem essa característica: na força do Santo Espírito torna presente realmente, de verdade, aquele acontecimento ocorrido no passado. Não é uma repetição do acontecimento, nem uma recordação! É, ao invés, aquilo que a Bíblia chama de memorial, isto é, tornar presente os atos de salvação de Deus!

Agora vejamos: a Eucaristia é a celebração, o memorial da Páscoa do Senhor. Como é, então, que no Natal a gente celebra a Missa, que é a Páscoa? Como é que já no Natal a Igreja mete a celebração da Páscoa? É que a Eucaristia não é simplesmente a celebração da paixão, morte e ressurreição de Cristo! Essa seria uma idéia muito mesquinha, estreita! Em cada Missa é todo o mistério da nossa salvação que se faz presente, é tudo aquilo que Deus realizou por nós, desde a criação até agora… e tudo isso tem o seu centro em Jesus: na sua Encarnação, na sua vida e na sua pregação, e alcança seu cume na sua morte e ressurreição, na sua ascensão e no dom do Santo Espírito. Então, celebramos as cinco festas do Natal celebrando a Missa, porque aí o mistério, o acontecimento da nossa salvação se torna presente e atuante na nossa vida.

Voltando para casa após a Missa do Natal, podemos dizer: “Hoje eu vi, hoje eu ouvi, hoje eu experimentei, hoje eu testemunhei e hoje eu anuncio: nasceu para nós, nasceu para o mundo um Salvador! Ele veio, ele não nos deixou, ele se fez nosso companheiro de estrada!” Celebrando a Eucaristia do Natal, recebemos a graça do Natal, entramos em comunhão com o Cristo que veio no Natal, porque recebemos no Corpo e Sangue do Senhor o próprio Cristo que nasceu para nós, e, agora, Cristo ressuscitado, pleno do Santo Espírito! É incrível, mas a graça do Natal chega a nós mais do que chegou para Maria e José e os pastores e os magos. Porque eles viram um menininho no presépio, enquanto nós o recebemos dentro de nós, seu Corpo no nosso corpo, seu Sangue no nosso sangue, sua Alma na nossa alma, seu Espírito no nosso espírito… e não mais um menininho frágil, com esta nossa vidinha humana, mas o próprio Filho agora glorificado, com uma natureza humana imortal e gloriosa, que nos transformará para a vida eterna.

Então, que neste Natal ninguém cante parabéns para o Menino Jesus, nem fique com inveja dos pastores e dos magos… Também para nós hoje nasceu um Salvador: o Cristo ressuscitado, glorioso, que recebemos no seu Corpo e Sangue e cujo mistério celebramos nos gestos, palavras e símbolos da liturgia!

O Sermão Eclesiástico

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Nesta nova aula do nosso curso sobre os Evangelhos Sinóticos, você irá aprender quais os dois caminhos que Jesus nos abre para, como membros da Igreja, chegarmos ao Reino dos Céus.

Trata-se de um comentário do Pe. Paulo Ricardo ao quarto sermão do Evangelho segundo São Mateus, tradicionalmente chamado de Sermão Eclesiástico. Assista, conheça algumas das dificuldades interpretativas relacionadas a este texto sagrado e, acima de tudo, penetre o significado espiritual que têm as palavras de Nosso Senhor!

Grandes ensinamentos do humilde São João da Cruz

Dia 14 de dezembro a Igreja celebra sua memória litúrgica  Seu nome era João de Yepes, espanhol. Foi um dos santos mais desconcertantes e ao mesmo tempo mais transparente da mística moderna. Era vinte e sete anos mais jovem do que sua amiga Santa Teresa de Ávila, que o chamava de seu “pequeno Sêneca”, por…

É PRECISO CAMINHAR 2017-12-13 20:35:00

16/12/2017
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É PRECISO PURIFICAR MINHA RELAÇÃO COM DEUS E COM O PRÓXIMO NA ESPERA DA VINDA DO REINO DE DEUS
Sábado da II Semana do Advento
Primeira Leitura: Eclo 48,1-4.9-11
Naqueles dias, 1 o profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha. 2 Fez vir a fome sobre eles e, no seu zelo, reduziu-os a pouca gente. 3 Pela palavra do Senhor fechou o céu e de lá fez cair fogo por três vezes. 4 Ó Elias, como te tornaste glorioso por teus prodígios! Quem poderia gloriar-se de ser semelhante a ti? 9 Tu foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro de cavalos também de fogo, 10 tu, nas ameaças para os tempos futuros, foste designado para acalmar a ira do Senhor antes do furor, para reconduzir o coração do pai ao filho, e restabelecer as tribos de Jacó. 11 Felizes os que te viram, e os que adormeceram na tua amizade!
Evangelho: Mt 17,10-13
Ao descerem do monte, 10 os discípulosperguntaram a Jesus: “Porque os mestresda Lei dizem queElias deve virprimeiro?” 11 Jesus respondeu: “Elias vem e colocará tudoemordem. 12 Ora, euvos digo: Elias jáveio, maselesnãoo reconheceram. Ao contrário, fizeram comeletudo o quequiseram. Assimtambémo Filho do Homemserá maltratado poreles”. 13 Entãoos discípulos compreenderam que Jesus lhesfalava de João Batista.
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Palavras Proféticas São Palavras Que Purificam Para Poder Encontrar-se Com o Salvador
O profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha”.
O texto da Primeira Leitura foi escolhido para corresponder com a leitura do Evangelho. No tempo de Jesus, o retorno de Elias era esperado. Os escribas se apoiaram num texto de Malaquias (3, 23), tomado em um sentido material: “Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dia de Javé, grande e terrível”. Eles estavam convencidos de que Deus enviaria Elias antes de seu Messias.
A resposta de Jesus é calara: Elias já veio. É João Batista. Mas não o reconheceram como não reconheceram em Jesus o Messias. É uma excelente ocasião de aprender dos lábios de Jesus que não se devem interpretar todas as passagens da Sagrada Escritura de um modo demasiado simples, liberal ou infantil. Temos aqui um excelente exemplo de interpretação dos sinais dos tempos que o próprio Jesus nos dá. Existe uma maneira superficial de olhar a história e os acontecimentos.
Muito mais frequentemente do que pensamos, através de muitas pessoas e de muitos acontecimentos, há muitas vindas de Deus para restaurar o mundo, em geral e para restaurar nossa vida em particular. Aceitar, reconhecer esses “profetas” não é fácil. E há tantos falsos profetas nos nossos dias! No entanto, eles podem ser reconhecidos por seus frutos. O teste decisivo sempre será, e até o fim, o amor de Deus e dos outros na concretude da vida. Trata-se de um amor universal.
O profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha”.
O fogo é uma imagem constante na Bíblia para simbolizar Deus. No Sinai, Deus se manifestou no fogo da tormenta. É natural que o portador da vontade divina tenha um rosto de fogo. O fogo será o instrumento da última purificação dos últimos tempos. Essa imagem sugestiva provem seguramente do fato de que, nos sacrifícios primitivos, o fogo era o elemento que unia o homem a Deus. O fogo “comia” logo a vítima para consumar a comunhão com Deus.
João Batista Nos Chama a Criarmos a Harmonia com Deus e Com o Próximo
Depois da transfiguração (Mt 17,1-8), Jesus desce do monte, mascontinua conversando comseusdiscípulos. Um dos assuntosdessa conversa é sobreo profeta Elias bemconhecidoentreo Povo eleito e bemadmirado pelasualutacontraa corrupçãosocial, principalmente, pelasualutaparadefender o monoteísmocontraqualquertipode idolatria e o panteísmo. O povo eleito considera Elias comoumprofetacujapalavra é semelhanteao fogo. Porémnãoparaqueimarouaniquilar e simparapurificar o Povo de Deus, pois a palavraqueele anuncia é a Palavra de Deus. E a força da Palavrade Deusnuncaé devastadora, poiselatem uma função de purificare de transformarqualquerpecadoremfilho de Deusnovamente. A Palavrade Deus ilumina qualquermenteescuraparavoltar a enxergar a beleza da vida: “Tua palavra(Senhor) é lâmpadapara os meuspés, e luzpara o meucaminho” (Sl 118,105).
Entre os rabinos e os escribashá discussõessobreo regresso do profetaElias antes do juízo. A discussão se baseia na profeciado profeta Malaquias: “Eis quevos enviarei Elias, o profeta, antesque chegue o Diade Iahweh, grande e terrível. Ele fará voltaro coração dos paispara os filhose o coração dos filhospara os pais, paraqueeunão venha ferir a terracomanátema” (Ml 3,23-24). Pararecusara messianidade de Jesus, os escribasdiziam que Elias nãotinha vindo ainda. Dentro desta afirmação percebemos a objeção da fé cristã emsuasprimeiras discussões na Igrejaprimitiva.
Jesus aceita a teseda volta do profetaElias, porémnegaqualquervisãode fantasiabemdifundida entre o povosobre essa volta. Emvezdisso, Jesus convida seusdiscípulos a discernirem o planode Deusqueestá se manifestando diante de seusolhos. “Elias vem e colocará tudoemordem… Elias jáveio, maselesnãoo reconheceram”, afirma Jesus. Na primeiraafirmação Jesus usa o verbo “vir” no presente no sentido de queé verdadequeElias precederá ao Messias. Na apocalíptica judaica, Elias devia virpara “pôr tudoemordem” em Israel paraque a vinda do Messias tivesse lugaremmeioda alegria de umpovo purificado. A figurade Elias se encaixa perfeitamente na missão de João Batistacomo o Precursordo Messias.
Para levaros discípulos à urgênciade conversão, Jesus identifica, então, expressamenteo profeta Elias comJoão Batista, o ultimo grandeprofetado AntigoTestamento. Os discípulos compreendem, naquele momento, essa identificação: “Então os discípuloscompreenderam que Jesus lhes falava de João Batista”(Mt 17,13). Porém, maistardeelesvãocairnovamente na incompreensãoe incredulidade (cf. Mt 15,20).
João Batistaé uma das figurasmaismarcantes e predominam durante o Advento, na preparação a vindado Deusencarnado. Emanalogiacom a missãodo profeta Elias, João Batistaquerenfatizardoispontosimportantes. Em primeirolugar, minharelaçãocomDeus. EuprecisovoltarparaDeusquemeamapormimmesmoincondicionalmente, poisDeusemsimesmojá é perfeito. Sou euquepreciso aproximar-me de Deusparaqueeu seja umreflexo do amor de Deuspara o próximo. MeuencontrocomDeus é sempreumencontro de doisamores: o amoreterno de Deuspormim e meuamorporDeus(voltei a amar o Amoreternoparaqueeu seja eterno). MeuamorparaDeus é muitomaisparamimmesmo do queparaDeusque é o próprioAmor (cf. 1Jo 4,8.16). Amando eumetornarei amoroso e amável.
Mas nãobastaterboa relaçãocomDeus. Porisso, João Batistame convida paraque sane minhasrelaçõescomos outroshomens, commeupróximo. Trata-se da minharelaçãocomos outros, poispróximo é a passagemobrigatória ao encontrode Deus. Dianteda divisão e do ódioeuprecisomeregenerarno amor e na unidade. Diante da exclusãoeuprecisoreafirmar a comunhão, a participação, a fraternidade e a solidariedade. Diante da irresponsabilidadeculpável, euprecisoviver e proclamar a verdade da responsabilidade ao viver de acordo com os valores. Diante da violência e da discórdia eu preciso me reconciliar e me renovar na paz comigo mesmo, com Deus e com o próximo. Diante da escravidão do pecado eu preciso apostar firmemente na liberdade de filhos de Deus.
Por isso, um dos grandes ministérios que nos é recomendado em qualquer comunidade cristã, especialmente no tempo forte liturgicamente é o ministério de reconciliação. Esta é uma das mais importantes tarefas e um dos melhores testemunhos que podemos ou possamos dar para o nosso mundo (comunidade, grupo, pastoral, movimento etc.) tão dividido pelo egoísmo, pelo ódio, pela injustiça, pela violência e pela guerra. A própria experiência humana, do ponto de vista antropológico, reclama reconciliação. Por isso, a reconciliação não deixa de ser também uma necessidade antropológica. Reconhecemos que não é fácil perdoar como ser perdoado, pois a reconciliação exige uma mudança no ofensor e no ofendido simultaneamente. O ofensor não fica perdoado porque o ofendido esquece a ofensa recebida e sim porque ambos se reencontram no amor.
Neste sentido, eu preciso deixar-me interpelar por João Batista cuja voz queima as impurezas em mim. João Batista é, como o profeta Elias, fogo irresistível, profeta cuja palavra ilumina meu caminho e o da minha comunidade. Além disso, eu preciso estar consciente de que como Elias e João Batista foram perseguidos pelos poderosos e não compreendidos pelos seus contemporâneos, eu posso ter a mesma sorte. Mas ao mesmo tempo, apesar de tantas oposições e obstáculos, a Palavra de Deus sairá vitoriosa. Por isso, viver sem confiar na Palavra de Deus deve ser impossível.  A Palavra de Deus será plena em nós quando estivermos plenamente na Palavra de Deus” (Santo Agostinho. Serm. 1, 133).
P. Vitus Gustama,svd