Por que devemos temer a Deus?

670 frame

O temor de Deus, dizem as Escrituras em vários lugares, é o princípio da sabedoria. Mas como, afinal de contas, pode Deus ser temido? Se ele é pura bondade e cheio de misericórdia, por que deveríamos temê-lo?

O que fazer quando as consolações não vêm?

Para aquele a quem faltarem as consolações espirituais, o remédio é que nem por isso deixe o exercício da oração acostumada, ainda que lhe pareça desenxabida e de pouco fruto, mas ponha-se na presença de Deus como réu e culpado, examine a sua consciência e olhe se porventura perdeu a graça por sua culpa, suplique ao Senhor com inteira confiança lhe perdoe e legue as riquezas inestimáveis de sua paciência e misericórdia em sofrer e perdoar a quem outra coisa não sabe senão ofendê-lo.

Desta maneira tirará proveito da sua secura, tomando ocasião para mais se humilhar, vendo o muito que peca, e para mais amar a Deus, vendo o muito que Ele lhe perdoa.

E conquanto não ache gosto nestes exercícios, não desista deles, porque não se requer que seja sempre saboroso o que há de ser proveitoso.

Ao menos isto se acha por experiência, a saber, que todas as vezes que o homem persevera na oração com um pouco de atenção e cuidado, fazendo calmamente o pouco que pode, ao cabo sai dali consolado e alegre, vendo que fez de sua parte algo do que estava em si. Muito faz, aos olhos de Deus, quem faz tudo o que pode, ainda quando pouco possa. Não olha Nosso Senhor tanto o cabedal do homem quanto à sua possibilidade e vontade. Muito dá quem deseja dar muito, quem dá tudo o que tem, quem não deixa nada para si. Não é muita coisa o durar na oração, quando muita é a consolação. O muito é, quando a devoção é pouca, ser muita a oração e muito maior a humildade, a paciência e a perseverança no bem orar.

Também é necessário nestes tempos andar com maior solicitude e cuidado do que nos outros, velando sobre a guarda de si mesmo e examinando com muita atenção os seus pensamentos, palavras e obras; porque, como então nos falte a alegria espiritual (que é o principal remo desta navegação) é mister suprir com cuidado e diligência o que falta de graça.

Quando assim te vires, hás de fazer de conta (como diz São Bernardo) que se te dormiram as sentinelas que te guardavam e que se te caíram os muros que te defendiam. E por isto toda a esperança de salvação está nas armas, pois já não te há de defender o muro, senão a espada e a destreza no pelejar. Oh! Quando é a glória da alma que desta maneira batalha, que sem escudo se defende, que sem armas peleja, sem fortaleza é forte e achando-se sozinha na batalha, toma o esforço e ânimo por companhia!

Não há maior glória no mundo do que imitar as virtudes do Salvador. E entre as suas virtudes, conta-se por mui principal o haver Ele padecido o que padeceu, sem admitir em sua alma nenhum gênero de consolo. De maneira que quem assim padecer e pelejar, tanto maior imitador de Cristo será quando mais carecer de todo gênero de consolo. E isto é beber o cálice da obediência, puro, sem mistura de outro licor. Este é o toque principal em que se prova a fineza dos amigos, se são verdadeiros ou não.

É PRECISO CAMINHAR 2017-10-19 16:57:00

21/10/2017
Resultado de imagem para ser testemunha de JesusResultado de imagem para Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o Filho do Homem também dará testemunho dele diante dos anjos de Deus.Resultado de imagem para É em virtude da fé que alguém se torna herdeiro
NOSSA SALVAÇÃO DEPENDE DA FÉ EM CRISTO E DA LEALDADE A ELE
Sábado da XXVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Rm 4,13.16-18
Irmãos, 13 não foi por causa da Lei, mas por causa da justiça que vem da fé, que Deus prometeu o mundo como herança a Abraão ou à sua descendência. 16 É em virtude da fé que alguém se torna herdeiro. Logo, a condição de herdeiro é uma graça, um dom gratuito, e a promessa de Deus continua valendo para toda a descendência de Abraão, tanto para a descendência que se apega à Lei, quanto para a que se apoia somente na fé de Abraão, que é o pai de todos nós.17 Pois está escrito: “Eu fiz de ti pai de muitos povos”. Ele é pai diante de Deus, porque creu em Deus que vivifica os mortos e faz existir o que antes não existia. 18 Contra toda a humana esperança, ele firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: “Assim será a tua posteridade”.
Evangelho: Lc 12, 8-12
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 8 “Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o Filho do Homem também dará testemunho dele diante dos anjos de Deus. 9 Mas aquele que me renegar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus. 10 Todo aquele que disser alguma coisa contra o Filho do Homem será perdoado. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado. 11 Quando vos conduzirem diante das sinagogas, magistrados e autoridades, não fiqueis preocupados como ou com que vos defendereis, ou com o que direis. 12 Pois, nessa hora, o Espírito Santo vos ensinará o que deveis dizer”.
______________
Pela Fé Em Deus Somos Herdeiros Do Mundo Criado Por Deus

Não foi por causa da Lei, mas por causa da justiça que vem da fé, que Deus prometeu o mundo como herança a Abraão ou à sua descendência”. É a frase do versículo 13 do texto da Primeira Leitura tirada da Carta de São Paulo aos Romanos.

Com este versículo 13 recomeça o desenvolvimento da prova de São Paulo sobre o tema da justificação pela fé. Para São Paulo não foi na base do cumprimento da lei que se fez a promessa a Abraão, ou à sua descendência de que ele seria o herdeiro do mundo, e sim na base da justiça da fé. Porque, segundo São Paulo, a Lei de Moisés somente chegou depois de Abraão.
A declaração de São Paulo está notavelmente contraste com a suposição dos rabinos (rabis) segundo a qual todas as promessas foram feitas a Abraão na base do seu cumprimento da lei. Logo o judeu não aceitaria o argumento de São Paulo, pois para o judeu Abraão recebeu a promessa justamente por causa do seu mérito, e daquela promessa é que participariam os judeus, exatamente por serem a descendência de Abraão. Logo, cada um seria merecedor da salvação pelo cumprimento da lei e teria o direito de exigir de Deus a salvação para quem cumpriu as leis. Trata-se de uma religião de meritocracia.
Quando São Paulo, novamente com o exemplo de Abraão, contrapõe “fé e obras”, não está querendo dizer que não temos que atuar e praticar o bem. Jesus disse que “Nem todo aquele que me diz ´Senhor, Senhor´ entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). E a vontade de Deus Pai consiste na vivência do amor fraterno (cf. Jo 13,34-35; 15,12).
A lei é boa e necessária para uma boa convivência. Mas não é a lei que salva. “Tudo é uma graça”, dom de Deus, para Abraão e para nós todos. É bom imitar este grande homem chamado Abraão que se abriu e se entregou totalmente a Deus e a Sua vontade que nos deu um exemplo admirável de fé, contra toda esperança e contra toda aparência. As promessas de Deus pareciam impossíveis de conseguir, e no entanto, Abraão creu. Foram possíveis por causa da fé firme em Deus.
São Paulo quer enfatizar que a Igreja universal, ou seja o novo povo de Deus, é composta de judeus e pagãos, e a promessa feita a Abraão se realizou em Jesus Cristo. É preciso ter a fé em Jesus Cristo, em quem se cumpriram todas as promesas de Deus. Por isso, no versículo 16 São Paulo escreveu: “É em virtude da fé que alguém se torna herdeiro. Logo, a condição de herdeiro é uma graça, um dom gratuito, e a promessa de Deus continua valendo para toda a descendência de Abraão, tanto para a descendência que se apega à Lei, quanto para a que se apoia somente na fé de Abraão, que é o pai de todos nós”.
A vida nova em Deus se alcança pela fé n´Ele, como escreveu o Papa Francisco na Carta Enciclica Lumen Fidei: “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo” (n.4). O encontro com o Deus vivo resulta na graça de ter olhos novos para enxergar o sentido da vida e nos abre a visão de nosso futuro em Deus. Para o Papa Francisco, na mesma encíclica, “A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome” (n.8). Somos herdeiros do universo criado por Deus pelo fato de darmos a resposta para a Palavra de Deus que nos apela e interpela.
Tanto em nossa vida espiritual como em nosso trabalho apostolico, não teríamos que nos apoiar em nossos próprios talentos e recursos e sim na graça e na força salvadora de Deus. Somos o que somos pela graça de Deus, como escreveu o próprio São Paulo (Cf. 1Cor 15,10). Temos um duplo motivo para acreditarmos em Deus: a promessa feita a Abraão e a Aliança Nova que concedeu à humanidade na Páscoa de Seu Filho. O que diz o Salmo Responsorial de hoje, podemos reperti-lo com maior alegria: “Deus se lembrou de seu santo juramento, que fizera a Abraão, seu servidor. Fez sair com grande júbilo o seu povo, e seus eleitos, entre gritos de alegria” (Sl 104). Se crermos em Deus e não nos basearmos em cálculos comerciais humanos, também seremos pais de numerosa descendência na fé. E o impossível será possível.
Ser Testemunha De Cristo e De Seus Ensinamentos Para Ser Reconhecido Na Vida Eterna
Continuamos acompanhando Jesus na Sua última viagem para Jerusalém, pois ele será morto nessa cidade. Ao Mesmo tempo continuamos a ouvir Suas últimas e mais importantes lições para nossa vida de cristãos (Lc 9,51-19,28). Hoje Jesus nos dá a lição sobre a importância do testemunho dos seus ensinamentos, pois tudo isso tem conseqüências para a vida eterna (salvação).
Nos versículos anteriores do texto do evangelho de hoje (Lc 12,1-7) Jesus animava o discípulo, cada cristão, a ser valente (sem medo) na hora de dar testemunho, isto é, ser discípulo fiel até o fim, porque Deus cuidaria dos seus filhos até nos mínimos detalhes (até os cabelos estão todos contados por Deus).
Hoje Jesus nos dá outro motivo para sermos intrépidos (corajosos) na vida cristã de cada dia: o próprio Jesus dará testemunho a nosso favor diante da presença de Deus (Pai), no dia do juízo (final). Isto quer nos dizer que nossa autêntica existência e nossa sorte definitiva, sorte escatológica, depende da opção que fazemos por Jesus neste mundo: “Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o Filho do Homem também dará testemunho dele diante dos anjos de Deus”. O julgamento de Deus será realizado a partir da lealdade ou deslealdade a Cristo na nossa vida diária neste mundo. Em outra parte do evangelho Jesus expressa o mesmo pensamento de outra forma: “Quem não está comigo, está contra mim” (Lc 11,23). Quem se colocar a favor de Jesus nesta vida, pode ter certeza de que Jesus estará ao seu lado para defendê-lo no juízo (final).
Mas renegar Jesus neste mundo significa a perda definitiva (não será reconhecido por Jesus diante de Deus Pai): “Mas aquele que me renegar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus”.  O homem se destrói ao renegar Jesus e seus ensinamentos. Querendo salvar sua vida ao renegar Jesus o homem acaba por perdê-la (cf. Lc 9,24-26). O gesto de renegar Jesus é, na verdade, uma expressão da falta de fé. E renegar Jesus na terra significa recusá-lo de ser defensor do cristão no juízo (final).
A partir da afirmação de Jesus no evangelho de hoje percebemos claramente que ninguém crê impunemente. Ao mesmo tempo, o texto quer nos relembrar que nossa conduta diária deve corresponder à nossa fé. Consequentemente, a fé é para a vida e não algo meramente privado.
Jesus sabe que em determinadas situações a fé do cristão é posta em xeque. Nessas situações a vida do cristão é que está em jogo. Mas tendo uma fé forte e coragem suficiente e tendo diante dos olhos o reconhecimento de Jesus no juízo, o cristão será capaz de testemunhar sua fé, sem medo, publicamente. No juízo constante, implacável do mundo contra Jesus, quem tiver o valor de optar por Jesus, terá a seu favor o testemunho de Jesus no juízo de Deus contra o mundo (cf. Lc 9,26; Mc 8,38; Jo 16,6-11).
O texto do evangelho quer também nos relembrar que quando vivermos fielmente os ensinamentos de Cristo, nós seremos perseguidos: “Todos os que quiserem viver piedosamente, em Jesus Cristo, serão perseguidos” (2Tm 3,12). O próprio Jesus nos avisa em outro evangelho sobre a mesma sorte ao dizer: “Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (Jo 15,18-19). Para o cristão a perseguição não é um acidente de percurso e sim, sinal de fidelidade aos ensinamentos de Cristo.
Mas Jesus nos consola e fortalece com a presença de outro protagonista que Jesus apresenta para o cristão no momento em que sua fé é posta em xeque é o Espírito de Deus: “Quando vos conduzirem diante das sinagogas, magistrados e autoridades, não fiqueis preocupados como ou com que vos defendereis, ou com o que direis. Pois, nessa hora, o Espírito Santo vos ensinará o que deveis dizer”. Assim se completa a aproximação do Deus Trino na vida do cristão. O Pai que não se esquece de nós, Jesus que nos defenderá no juízo (final) e o Espírito Santo que nos inspirará quando estivermos diante dos magistrados e autoridades para dar razão de nossa fé. O Espírito Santo é quem dará ao cristão forças para proclamar, com destemor, sua fé. Somente no Espírito Santo se pode confessar que Jesus é o Senhor.
Quem renega esta fé, peca contra o Espírito, e por isso, já não tem salvação porque a fé acompanhada com as obras salva o homem: ”Todo aquele que disser alguma coisa contra o Filho do Homem será perdoado. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado”.
“Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado”.  Blasfemar contra o Espírito Santo não é uma ação acidental, ocasional ou uma simples ofensa ao Espírito. Trata-se de uma opção existencial e fundamental contra toda a revelação de Deus em Jesus Cristo que consiste na atividade salvífica de Deus para o homem.  O Espírito divino continua manifestando e revelando a vontade de Deus através de múltiplas maneiras e diversos acontecimentos na vida do homem. Esta frase nos adverte sobre a possibilidade de apostasia de alguns cristãos. E esta expressão quer nos transmitir muito mais como uma advertência pastoral do que uma afirmação teológica. O comportamento de Deus para o homem não é de um juiz e sim de um Pai que perdoa, desde que o homem volte novamente aos braços do Pai, pois Deus nãos se cansa de perdoar (cf. Lc 15,11-32).
Nos momentos em que sentimos medo por algo porque a vida é dura, será bom que recordemos estas palavras de Jesus, afirmando o amor concreto que Deus Trino nos tem para nos ajudar. Jesus acalmou tempestade, curou enfermidades e ressuscitou os mortos. Era o sinal desse amor de Deus que já está atuando em nosso mundo. Conseqüentemente, esse poder também nos alcança. Portanto, não temos motivos para nos deixar levar pelo medo ou pela angústia. “Quando vos conduzirem diante das sinagogas, magistrados e autoridades, não fiqueis preocupados como ou com que vos defendereis, ou com o que direis. Pois, nessa hora, o Espírito Santo vos ensinará o que deveis dizer” (Lc 12,11-12). Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, não podendo fazer mais do que isto” (Lc 12,4). “Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o Filho do Homem também dará testemunho dele diante dos anjos de Deus” (Lc 12,8).

P. Vitus Gustama,svd 

Formulário para Missa em honra a São Pedro de Alcântara

Ohgne yygga?rel=0

Tornamos disponível a seguir o formulário para a celebração da Santa Missa em honra de São Pedro de Alcântara, cuja memória a Igreja celebra amanhã, dia 19 de outubro. Para baixar o documento em formato .pdf, basta clicar aqui.

Juan de Garabito y Vilela de Sanabria nasceu em 1499. Depois de estudos feitos em Salamanca, entrou para a Ordem dos Frades Menores e, ordenado sacerdote, desempenhou diversos cargos na Ordem. Em 1544 obteve licença para consagrar-se a uma observância mais estrita da Regra. Começou então a acolher seguidores, aos quais iniciou numa vida de mais austera pobreza, jejum e penitência, e de oração mais prolongada. Impulsionado pelo zelo das almas, dedicou-se com grande fruto à pregação. E com seus conselhos ajudou Santa Teresa de Ávila em sua atividade reformadora entre as Carmelitas. Deixou também obras escritas, em que narra a própria experiência ascética, baseada sobretudo na devoção para com a Paixão de Cristo. Morreu no dia 18 de outubro de 1562.

Para conhecer melhor a vida deste santo, que é também padroeiro de nossa nação, não deixe de assistir às duas últimas homilias que Padre Paulo Ricardo gravou sobre ele, em 2016 e em 2017:

São Pedro de Alcântara,
rogai por nós!

É PRECISO CAMINHAR 2017-10-18 19:10:00

20/10/2017
Resultado de imagem para “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”.Imagem relacionada
SER VERDADEIRO DISCÍPULO E TESTEMUNHA DE JESUS SEM MEDO
Sexta-Feira Da XXVIII Semana Comum
Primeira Leitura: Rm 4,1-8
Irmãos, 1 que vantagem diremos ter obtido Abraão, nosso pai segundo a carne? 2 Pois se Abraão se tornou justo em virtude das obras, está aí seu motivo de glória… mas não perante Deus! 3 Com efeito, que diz a Escritura? “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”. 4 Ora, para quem faz um trabalho, o salário não é creditado como um presente gratuito, mas como uma dívida. 5 Porém, para a pessoa que, em vez de fazer um trabalho, crê naquele que torna justo o ímpio, a sua fé lhe é creditada como atestado de justiça. 6 É assim que Davi declara feliz o homem a quem Deus credita a justiça independentemente das obras: 7 “Felizes aqueles cujas transgressões foram remidas e cujos pecados foram perdoados; 8 feliz o homem do qual Deus não leva em conta o pecado”.
Evangelho: Lc 12,1-7
Naquele tempo, 1 milhares de pessoas se reuniram, a ponto de uns pisarem os outros. Jesus começou a falar, primeiro a seus discípulos: “Tomai cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. 2 Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido. 3 Portanto, tudo o que tiverdes dito na escuridão, será ouvido à luz do dia; e o que tiverdes pronunciado ao pé do ouvido, no quarto, será proclamado sobre os telhados. 4 Pois bem, meus amigos, eu vos digo: não tenhais medo daqueles que matam o corpo, não podendo fazer mais do que isto. 5 Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de tirar a vida, tem o poder de lançar-vos no inferno. Sim, eu vos digo, a este temei. 6 Não se vendem cinco pardais por uma pequena quantia? No entanto, nenhum deles é esquecido por Deus. 7 Até mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.
——————————————–
Com a Fé Incondicional Em Deus, Como Abraão, o Homem É Justificado Por Deus
Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça…”. É a citação do livro de Gênesis (Gn 15,6) que São Paulo usa para defender sua tese no texto anterior, em Rm 3,28 onde podemos ler: “Com efeito, julgamos que o homem é justificado pela fé, sem a prática da Lei judaica”.
Um exemplo do qual São Paulo gosta muito e que repete em suas cartas é o exemplo de Abraão. Desta vez, São Paulo mostra como foi a fé de Abraão, e não as “obras da Lei”. Quando Deus escolheu Abraão e lhe deu a missão de ser cabeça de seu povo e ao mesmo tempo bênção para todas as nações da terra, Abraão era pagão. Não podia apresentar para Deus “as obras” que realizava, pertencendo a um povo idólatra. Mas aceita o plano que Deus lhe propõe. Este é o que faz Abraão agradável a Deus: sua fé: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”.
Graças à sua fé em Abraão é eliminada a vanglória: “Irmãos, que vantagem diremos ter obtido Abraão, nosso pai segundo a carne? Pois se Abraão se tornou justo em virtude das obras, está aí seu motivo de glória… mas não perante Deus!”. Em outras palavras, Abraão é justificado por Deus pela sua fé incondicional n´Ele. A fé incondicional em Deus leva Abraão a fazer aquilo que é impossível do ponto de vista humano: sacrificar o próprio filho único por ordem de Deus, embora não tenha sido realizado por Abraão pela ordem do mesmo Deus (cf. Gn 12,1-19).
A passagem de Gn 15,6 que fala da fé de Abraão serve para São Paulo como a prova principal em favor do argumento sobre a justificação: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”. Aqui não se fala do mérito de Abraão, mas da doação da justiça por Deus em virtude da fé de Abraão. É claro que aqui há dom da fé da parte de Deus e a resposta para este dom da parte do homem. Deus pede a Abraão para acreditar n´Ele apesar de não ver as evidências, e Abrão deposita sua fé na Palavra de Deus apesar da obscuridade humana, como aconteceu também com Maria, a Mãe do Senhor (Cf. Lc 1,38). Com este argumento São Paulo exclui toda e qualquer jactância baseada em mérito pessoal. A fé incondicnal em Deus orienta minha vida para fazer as obras boas na vida. O bem praticado é a consequência da minha fé no Bem Maior que é o próprio Deus. Não pratico o bem para comprar “bilhete” para entrar no céu. O bem que eu pratico é o fruto da minha fé no Deus da Bondade. Ao praticar o bem eu me torno um prolongamento da bondade de Deus; em me torno reflexo do Bem Maior ao praticar a bondade. Geralmente quem é amado, ama. Quem é bem educado se torna uma pessoa educada. Quem é agraciado ou beneficiado, geralmente, se torna uma pessoa grata e passa a ser uma parceira do bem.
Para um judeu este pensamento de São Paulo é algo novo. Qualquer judeu tem em Abraão o grande modelo de sua piedade e de sua fé por merecimento (meritocracia). Jesus também criticará este modo de pensar dos fariseus (Cf. Lc 18, 9-14: parábola do fariseu e do publicano).
Será que ainda acreditamos num pensamento de meritocracia, como por exemplo: “Quanto mais você der algo para Deus (na Igreja), mais bênçãos você receberá”? Será que traduzimos nossa fé e nossas orações no bem que praticamos? Ninguém pode crer impunemente! Será que nosso comportamento, nosso tratamento para o outro reflete nossa fé no Deus de amor? Será que a paz que pedimos a Deus nos transforma em construtores da paz na convivência?
Viver Sem Hipocrisia Faz Parte Da Vida Cristã
Com o capítulo 12 do seu evangelho (Lc 12,1-48) o evangelista Lucas volta a falar sobre as instruções de Jesus para seus discípulos, conhecidas como Lições do Caminho (Lc 9,51-13,21), pois são dadas no Caminho para Jerusalém onde Jesus será crucificado e ressuscitado. Com essas lições Jesus vai preparando os discípulos para a vida e missão pós-pascal (cf. Lc 24,45-49; At 1,8). E para a comunidade de Lucas essas instruções servem como um ideal de vida de discipulado.
Neste capitulo 12 Lucas coloca algumas atitudes que devem caracterizar a comunidade dos discípulos, tais como: confiança em Deus em qualquer momento, pois em Deus está o alicerce verdadeiro para sua existência; coragem diante de qualquer ameaça da perseguição ou da repressão violenta e transformar tudo isso em momento de testemunho; liberdade do medo; pobreza, isto é, não se deixar dominar pelos bens materiais, pois sua verdadeira segurança está em Deus; e vigilância responsável, pois os discípulos são homens abertos para o futuro, isto é, viver sem jamais perder perspectivas em qualquer momento e idade. A esperança nos chama a caminhar sem perder o horizonte que só terminará em Deus.
“Tomai cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”,alerta Jesus aos discípulos.
A hipocrisia é o pecado típico do fariseu (cf. Lc 11,42-44). Hipócrita é permanecer nas trevas, ocultar-se na escuridão. Hipócrita é ser ator de uma peça sem nada a ver com sua própria personalidade ou vida. Hipócrita é resistir ao testemunho; é fazer ouvidos surdos à voz de Jesus Cristo. Hipócrita é aquele que, simulando virtudes, nobres sentimentos e boas qualidades, engana os outros no intuito de conquistar a estima deles. Seu objetivo é obter louvores por uma virtude que não possui. Ele atraiçoa a verdade. Ele é incapaz de confessar sua perversidade interior e corrigi-la, pois ele sempre se refugia na simulação de possuir virtude. Ele não se preocupa em ser bom, mas em ser admirado por alguma virtude que na realidade não possui. Se não tivermos bastante discernimento e capacidade em fazer uma leitura com tranqüilidade de suas atitudes e palavras, facilmente cairemos na tentação de acreditar nele. É preciso confiar desconfiando. É preciso questionar o questionável, perguntar o perguntável para não se precipitar em nada a fim de não pagar caro, mais tarde, por uma atitude não pensada. Desconfie qualquer facilidade prometida.
O discípulo de Jesus, cada cristão, deve proceder sem duplicidade nem mentira. Se alguém contar uma mentira, ele será forçado a contar outras mentiras para apoiar a primeira. A conduta do discípulo deve ser sempre franca, mas sem grosseria, pois a franqueza ou sinceridade mal-empregada se transforma em grosseria; a verdade dita sem caridade pode ter resultado contrário. O cristão deve ser transparente como quem trabalha à luz do dia. Toda sua palavra, toda sua ação deve ser sempre um testemunho público e não para enganar. O discípulo de Jesus, cada cristão é o amigo de Jesus. De Jesus ele recebe confidências e coisas profundas sobre Deus: “Chamei-vos de amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). Comigo Jesus não tem segredos. Comigo Jesus só fala da verdade, a verdade que liberta (cf. Jo 8,32). Como amigo de Jesus compartilharei também com ele até mesmo sua sorte: perseguição, morte, e ressurreição (cf. Jo 15,18-21; 16, 1-4; 1Jo 3,13).
Se Jesus me revelou tudo sobre o Pai, então eu preciso ser um amigo fiel de Jesus sem medo. O único temor que eu devo ter é o temor de Deus, pois só Deus pode ter a ultima palavra sobre a minha vida e meu destino final: “Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido”. A história pessoal, íntima, e a história comunitária estão nas mãos de Deus. Eu preciso segurar na mão de Deus e seguir adiante, pois eu estou caminhando para o futuro de Deus que já comecei no presente ainda que os caminhos de Deus, muitas vezes, sejam incompreensíveis para a sabedoria humana: “Pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus — oráculo do Senhor. Pois tanto quanto o céu acima da terra, assim estão os meus caminhos acima dos vossos e meus pensamentos distantes dos vossos” (Is 55,8-9).
P. Vitus Gustama,svd
“Se és um amigo de Cristo, muitos poderão se aquecer neste fogo e compartilhar desta Luz” (Mauriac).